16.3.09

Sem que ninguém saiba, nem o espelho

Estive a visionar o programa Câmara Clara , hoje dedicado à Argentina. Fiquei com saudades de revisitar Jorge Luis Borges , o escritor que ensina a fazer as pazes com o tempo, o escritor que dá um sentido aos últimos 10.000 mil anos da humanidade. E o canta com um saber tão antigo como a mais antiga pergunta sem resposta. Há na sua escrita o tempo dos tempos, a decifração dos ecos, das juras e, por conseguinte, o infinito, que agrega na sua infinita possibilidade a vida, o rosto de todos os homens.
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ELEGIA
Sem que ninguém saiba, nem o espelho,
ele chorou umas lágrimas humanas.
Não pode suspeitar que comemoram
todas as coisas que mercem lágrimas:
a beleza de Helena, que não viu,
o sempre irreparável rio dos anos,
a mão de Jesus Cristo no madeiro
de Roma, as velhas cinzas de Cartago,
o rouxinol dos húngaros e persas,
a ansiedade que aguarda, a breve sorte,
de marfim e de música, Virgílio,
que cantou os trabalhos das espadas,
as configurações de tantas nuvens
de cada novo e singular ocaso
e a amanhã que depois será a tarde.
Do outro lado de uma porta um homem
feito de solidão, de amor, de tempo,
acaba de chorar em Buenos Aires
todas as coisas.
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Jorge Luis Borges in A Cifra, 1981
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15.3.09

Anoitece e é Domingo

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Nos dias em temos a sensação que do passado se esgotaram todas as perguntas, todos os rostos; Nos dias em que desse tempo não vem a saudade, mas não mais do que momentos que se fecharam neles próprios, o que dizer a este presente construído no esforço de pequenas etapas?
O que responder, nestes dias, a esta voz que canta sozinha? E que teima em cantar mesmo que do futuro nada espere.
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a idade fixada no tempo ou "from here to eternity"

Deborah Kerr
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Idade

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Uma pessoa tem que se perguntar com quantos anos se sente.
Estamos condenados a viver com a idade com que nos sentimos. É justo que assim seja. E isso é mais importante do que querer parecer sempre jovem. O parecer há-de ser sempre o parecer. Um espírito que respeita a sua idade e um corpo que se aceita como é, são, à partida, garantes para um brilho mais intenso, uma elegância natural e verdadeira.
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14.3.09

complexidade

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depois de muito escrever e apagar, deste fim de tarde, ficou esta frase:
- Mas queremos nós resolver a complexidade das coisas? Acho que a maioria das pessoas não tende a resolver as questões na sua vida, mas a alimentar a sua complexidade, o que lhes dá uma sensação de infinitude.
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13.3.09

Nina Simone - I Put A Spell On You

A voz que estava a faltar neste blogue

Sedução

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A sedução é o movimento mais puro do poder. É uma ousadia que se expõe, que se arrisca; a ousadia da entrega com o propósito claro de se receber. Mesmo que se jogue o mistério, a partilha de uma intimidade secreta, o domínio, tem ela sempre o impulso para o exterior, para o risco. Todas as formas da natureza têm essa dimensão, mostra-lhes a sua essência; A sedução é um exercício para a consciência de ser da espécie, ao mesmo tempo que ausenta o sedutor da sua insignificância enquanto um só. É sempre uma energia de comunicação.


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12.3.09

Belle de toujours


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Há cidades cor de pérola onde as mulheres


Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.
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Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

Mulheres que eu amo com um des-
espero.
fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

Herberto Helder
Lugar in Poesia Toda

10.3.09

Aqui estamos


Aqui estamos nós tentando o nosso melhor para dar um sentido a cada passo. Debatendo-nos para encaixar todas as peças de um passado que fluta sobre as ondas. Aqui estamos nós com vontade de fazer renascer as sensações que nos deram um misto de ilusão e de crença. E vamos pelas manhãs travando lutas com um outro que espera dentro de nós a sua vez. E vamos pelas tardes recolhendo pedaços de vida, tentando respirar mais fundo, tentando desenhar uma nova vida. E esperamos, qualquer coisa de inconcreto, a boa nova, dias perfeitos, a felicidade.


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8.3.09

Ao meio-dia na nossa vida


"No fundo, poucos existem que ainda saibam, no meio da sua vida, a forma como puderam chegar a ser aquilo que hoje são, às suas distracções, à sua concepção do mundo, à sua mulher, ao seu carácter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas pressentem que pouco ou nada podem alterar isso. É até legítimo afirmar-se que eles foram enganados, pois nunca conseguimos descobrir uma razão suficiente para que as coisas se tenham tomado aquilo que são; teria sido perfeitamente possível encaminharem-se de outra forma; os acontecimentos só raras vezes foram a emanação dos homens, eles dependeram quase sempre de todas as espécies de circunstâncias, da disposição, da vida e da morte de outros homens, e apenas lhes caíram em cima em determinado instante. Durante a juventude, a vida deparava-se-lhes ainda como uma manhã inesgotável, repleta de possibilidades e de vazio, mas eis que ao meio-dia já algo surge diante de mós, algo que tem o direito de ser, a partir daí, a nossa vida, e causa também muita surpresa que no dia em que um homem está de súbito ali sentado, com quem nos correspondemos durante vinte anos sem o compreendermos nos surja tão diferente daquilo que imaginamos. Mas ainda o mais estranho é que a maioria dos homens não se aperceba disso; adoptam o homem que se aproximou deles, cuja vida se aclimatou nele, os acontecimentos da sua vida afiguram-se-lhes a partir daí expressão das suas qualidades, o seu destino é o seu mérito ou a sua pouca sorte. Sucedeu-lhes o mesmo que às moscas com a fita mata-moscas: algo se colou a eles, apanhando aqui um pêlo, entravando-lhes além os movimentos, qualquer coisa os manietou, até que ficaram sepultados sob uma espessa cobertura que só muito remotamente corresponde à sua forma primitiva. A partir daí só muito obscuramente é que pensam nessa juventude em que neles existia uma força de resistência: essa outra força que sacode e sopra, que nunca está quieta e desperta uma avalancha de tentativas de fuga sem qualquer espécie de objectivos; o espírito trocista da juventude, o seu repúdio da ordem estabelecida, a sua disponibilidade perante qualquer espécie de heroísmo, tanto para o sacrifício como para o crime, a sua ardente gravidade e a sua inconstância, tudo isso não passa de tentativas de fuga. "

Robert Musil, in O Homem sem Qualidades (I)

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Wild Is The Wind


Love me love me love me
Say you do
Let me fly away
With you
For my love is like
The wind
And wild is the wind

Give me more
Than one caress
Satisfy this
Hungriness
Let the wind
Blow through your heart
For wild is the wind

You...
Touch me...
I hear the sound
Of mandolins
You...
Kiss me...
With your kiss
My life begins
Youre spring to me
All things
To me

Dont you know youre
Life itself
Like a leaf clings
To a tree
Oh my darling,
Cling to me
For were creatures
Of the wind
And wild is the wind
So wild is the wind

por David Bowie

6.3.09

Um óptima notícia: Pintor Anselm Kiefer quer criar “floresta cultural” na Comporta



Anselm Kiefer é o artista plástico que mais aprecio. A sua obra é monumental, de uma originalidade marcante. Actualmente, é considerado o maior artista plástico da Alemenha. Esperemos que este projecto se concretize:

"O Plano de Intervenção em Espaço Rural da Floresta Cultural da Comporta deu entrada para apreciação na Câmara Municipal de Alcácer do Sal. O projecto, apresentado informalmente, tem como promotor o pintor e escultor alemão Anselm Kiefer, que pretende transferir para a freguesia da Comporta, junto à localidade de Brejos, toda a sua produção artística, criando um complexo cultural apenas com um ou dois paralelos em todo o mundo.
O plano preconiza a implantação da “Floresta Cultural” numa área denominada de Vale Perdido, cedida para o efeito pela Herdade da Comporta. São cerca de 600 hectares entre os quais apenas 1,5 hectares serão intervencionados.
As construções são predominantemente “amovíveis ou ligeiras” e contemplam habitação e ateliers privativos para o artista, na denominada “Área de Monte”; ateliers para a realização das obras de arte – maioritariamente de dimensão monumental -, bem como alojamento para os trabalhadores previstos, no “Chão dos Ateliers”; a reconversão para a cultura de uma antiga pedreira/saibreira existente na propriedade, áreas de implantação temporária e colocação das obras de Anselm Kiefer, e áreas de enquadramento.
Dado toda a zona ser abrangida pela Rede Natura, para além de outras redes de protecção, houve um cuidado especial com as questões ambientais. Deste modo, não está prevista a criação de novas vias internas, sendo utilizadas as já existentes, a requalificar. Foi feito um levantamento profundo de todas as espécies e habitats a preservar, que não serão tocadas, ao passo que se elaborou um plano de renaturalização, a 40 anos, para as áreas actualmente degradadas, nomeadamente pela acção do nemátodo, que destruiu grande parte da cobertura de pinheiro bravo.
Em conclusão, como foi explicado, Anselm Kiefer escolheu a área da Comporta devido à sua localização extraordinária e ao elemento de natureza presente, já que a obra do artista é vincada uma reinvenção da natureza e dos seus elementos. Aliás, o projecto inclui a produção de arte que passará a integrar o espaço natural da herdade, numa verdadeira “floresta cultural”.
Esse espólio poderá tornar possível, no futuro, a criação de um núcleo museológico próprio, dedicado à arte contemporânea, que fará parte dos mais importantes circuitos internacionais, contrariando a posição periférica do nosso país no que toca aos sistema de produção e comercialização de arte. Em França, local onde actualmente concentra a sua produção artística, Anselm Kiefer vai ceder o espaço à Fundação Guggenheim.
Anselm Kiefer é considerado o maior artista plástico alemão vivo e está representado em praticamente todos os grandes museus mundiais, casos do MOMA, em Nova Iorque, do Guggenheim, em Bilbao e do Centre Pompidou, em Paris. Ainda recentemente foi convidado a integrar a colecção permanente do Louvre, também em Paris.
Pedro Paredes, presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal reiterou o “grande empenho do actual executivo nas questões da educação e da cultura”, por “este ser o único investimento que efectivamente se reproduz”. Pelo exposto garantiu à equipa que apresentou o plano “brevidade” na sua apreciação, classificando este como “um projecto prioritário”.

texto retirado do website da Câmara Municipal de Alcácer do Sal

4.3.09

Regresso

Em memória do João Coutinho que regressou já como luz e brisa à Ilha de Bazaruto em Moçambique, também conhecida por Ilha do Paraíso. Na foto acima avista-se um pôr-do-sol de uma das suas belas praias. Uma das visões do paraíso para os românticos de fé, meninos da praia e de aventuras como o era o João.

3.3.09

Sombra

imagem de Sawa Hiraki

A arte nasce numa escuridão que se move, que se quer ver. Procura o contorno das sombras e faz um movimento para a claridade. O que se vê é então a vida de dentro da vida. É a forma do que não pode ser dito. É a procura constante de um outro. A arte, sendo a pergunta ou a afirmação, é sempre um mistério sem nome, porque esse nascerá depois, na ausência do criador.


2.3.09

Ser grande é pensar no todo

fotografia de Mário Dias, Costa do Norte, Sines, 2009

Hoje em dia fala-se muito sobre "o pensamento integral", o pensar no todo, na Humanidade e não exclusivamente no bem-estar do indivíduo. Mas esta ideia é antiga, esteve presente na filosofia grega, na filosofia de Kant e no pensamento do grande Fernando Pessoa:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito desta frase,

transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;

ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue

o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa

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27.2.09

Nada se repete

Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany's, 1961

Nada se repete, nem a sombra, nem o passo, nem o olhar. Cada dia é feito à nossa imagem, à imagem da diversidade e, no entanto, tudo se parece repetir num ritual de gestos, afazeres, pensamentos. Não percebemos como em cada dia, há sempre algo de diferente, um pormenor na grandeza, um pequeno grão que vai lentamente redesenhando o passado e contruíndo o futuro.
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26.2.09

Homens


"(...) Elogiemos a vossas mãos, capazes de pegar em objectos frágeis, de os saber conservar sem os estragar, capazes de carregar com fardos e limpar um caminho afastando os obstáculos pesados. E que tratam o corpo dos homens e dos animais e cuidadosamente conseguem afastar uma dor do mundo. Coisas ilimitadas vos saiem das mãos, algumas boas, que um dia hão-de interceder por vocês.
Também são dignos de admiração quando se inclinam sobre os motores e máquinas e as fazem e entendem e explicam, até que à força de tanto explicar tudo se torna novamente um mistério. Não disseste que se tratava deste princípio e daquela potência? Não foi bonito e bem dito? Ninguém jamais poderá voltar a falar assim de correntes e potências, de magnetes e mecânicas e dos núcleos de todas as coisas.
(...) Ninguém falou assim dos homens, das suas condições de vida, da sua servidão, dos seus bens, das suas ideias, dos homens sobre a terra anterior e uma outra que ainda há-de vir. Era acertado falar assim e reflectir tanto.
(...) Ah, ninguém sabia jogar tão bem como vocês, seus monstros! Foram vocês que inventaram todos os jogos, jogos de números e jogos de palavras, jogos de sonhos e jogos de amor."

Ingeborg Bachmann in Trinta Anos, 1961
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It's a man's man's man's world

This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl

You see, man made the cars to take us over the road
Man made the trains to carry heavy loads
Man made electric light to take us out of the dark
Man made the boat for the water, like Noah made the ark

This is a man's, a man's, a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl

Man thinks about a little baby girls and a baby boys
Man makes then happy 'cause man makes them toys
And after man has made everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man

This is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl

He's lost in the world of man
He's lost in bitterness

'It's a man's man's man's world' por SEAL

24.2.09

Concentrar


Às vezes é preciso viver-se para uma só coisa, um só projecto, um só pensamento. Parece uma ideia redutora, mas quando a pessoa se concentra no único, quando o deixa evoluir em si, percebe que o universo pessoal se expande e o quotidiano se apresenta um pouco diferente, até mais rico. É como se fizessemos o movimento contrário ao da vida contemporânea que cria uma constante dispersão, que nos invade com mil coisas e por conseguinte com o vazio. É um resitir à fragmentação que parece corromper a individualidade. Não é um isolamento, mas uma concentração de força, de energia. É um sentido para gerar um mundo, uma nova forma de olhar, um acrescentar de algo ao todo.


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22.2.09

O Bêbado e a Equilibrista


Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!...

(...)

por Elis Regina

21.2.09

Da conversa de ontem

pintura de Claude Monet, Portrait of Camille Monet, 1873

Todos nós no nosso pequeno-grande mundo fundado a partir de uma matriz, de um nome. Essa matriz é um estar ao qual nos habituámos que nem sempre define o que realmente somos no presente, já que tantas vezes nos sentimos insatisfeitos com esse fato que já não nos serve. Mas persistimos em manter essa forma, não sei se por medo ou se por inacção. E prosseguimos, mascarando a inércia e a falta de coragem com os ecos do nosso drama privado. Alguns detalhes dessa história já não são completamente reais, por tanto os repetirmos parece que ganharam algo de abstrato. Há detalhes que já não sabemos se pertenceram realmente à nossa vida, se a uma força de repetir a mesma interpretação. Mas essa matriz é como um lar, mesmo que nos traga insatisfação, conta-nos a nossa história, dá-nos uma identidade. Será então isso? Resitimos porque temos medo de perder uma identidade? Será a nossa ideia de identidade mais importante do que o respeito por uma nova voz interior que quer ser vida?

Os braços crescem, o pensamento alarga-se, a vida inteira se procura o horizonte, a pergunta; há sempre a presença de um mistério nas nossas acções, do que ainda não se revelou. Porém, nem sempre a nossa vida se expande nessa conformidade. Fica ali, no nosso "lar", a crescer às escuras. Pressente-se injustiça em tudo isto, porque há desarmonia, abandono, a morte do que não caminhou.



19.2.09

Brasília


"Brasília é construída na linha do horizonte. Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. Se eu dissesse que Brasília é bonita veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insonia vêem nisso uma acusação. Mas a minha insonia não é bonita nem feia, minha insonia sou eu, é vivida, é o meu espanto. É o ponto e vírgula. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil: eles ergueram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério."
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Clarice Lispector
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Esplendor

Anita Ekberg nas filmagens de La Dolce Vita, Roma, 1960

Todas as vidas têm um tempo de esplendor, mas é quase sempre o esplendor na vida dos outros. O esplendor vivido não é isso, é apenas o tempo da vida ilimitada, como uma árvore iluminada ou um sol de frente. O esplendor é um fogo subtil que ilumina o universo, é uma cidade eterna mergulhada na água. É a glória do que é simples e a simplicidade do que é sofisticado.
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18.2.09

Mudar

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Há um momento em que queremos mudar tudo o que é possível mudar. Há um momento em que pensamos saber os passos a seguir. Tudo se clarifica. Compreendemos que as escolha decisivas da nossa vida são apenas consequências do medo de agir ou de ficarmos sós. O mesmo será dizer consequência do movimento para nos escondermos ou para aparecermos à luz do mundo. Esse momento vem, de tempos a tempos, como uma voz da nossa natureza mais profunda, de algures, atrás no tempo. Queremos então afastar tudo o que em nós corrói a simplicidade do dia, tudo o que em nós estagnou, tudo o que em nós já não tem vida. Mesmo que aos olhos dos outros nada se tenha alterado, sabemos, naquele momento, que partimos para uma nova etapa. Porque, de repente, ensinamos os nossos olhos a ver de novo.


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17.2.09

...from across the sea ....


The summer wind, came blowin' in - from across the sea
It lingered there, so warm and fair - to walk with me
All summer long, we sang a song - and strolled on golden sand
Two sweet hearts, and the summer wind

Like painted kites, those days and nights - went flyin' by
The world was new, beneath a blue - umbrella sky
Then softer than, a piper man - one day it called to you
And I lost you, to the summer wind

The autumn wind, and the winter wind - have come and gone
And still the days, those lonely days - go on and on
And guess who sighs his lullabies - through nights that never end
My fickle friend, the summer wind

The Summer Wind por Madeleine Peyroux


16.2.09

A vida, sentido de oportunidade


O que somos para além do tempo que esculpe e envelhece o nosso corpo? É uma das questões reflectidas no filme O Estranho caso de Benjamin Button . Baseado num conto de E F. Scott Fitzgerald publicado em 1921, este filme é realizado por David Fincher e conta com excelentes interpretações de Brad Pitt e Cate Blanchett.
Quantas vezes o espírito não se sente aprisionado pelo corpo? Eu diria quase sempre. Mas por mais que nos aprisione é o corpo o veículo de expressão, de contacto com o mundo, é ele que nos dá, enfim, a noção de estarmos vivos.
Sentimos pela vida toda o corpo como o limite, o único limite, para um espírito que teima em resistir, que envelhece e rejuvenesce tantas vezes ao dia. Há um momento em que o corpo já não corresponde a essa agilidade, porque não é livre na sua condição real. É essa a melancolia, a de viver entre um princípio e um fim, mesmo que esse tempo seja invertido, fragmentado. Somos a infinita possibilidade cercada pela irreversibilidade do tempo. A arte de viver é relembrada neste filme como o sentido de oportunidade de um encontro. Cada um desses encontros são como pontes, milagres no cruzamento de outras vidas com a nossa. Muitas vezes a um espírito atormentado pelos limites do corpo e pela passagem do tempo, escapa-lhe o mais importante: viver. Estes personagens sabiam que esse encontro é breve, que o sentido da oportunidade é curto e que só isso nos é dado.



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15.2.09

O passeio dos poetas

The Mall, Central Park, New York, 1905

The Mall, Central Park, New York, actualidade

Existem lugares que mesmo que nunca os tenhamos visitado, fazem parte de nós, do nosso imaginário. São reservas, energias de uma esperança que parecem guardar o percurso dos homens pelo tempo. Parecem talhados para nos proteger do caos, do vazio, da desordem. São criados para dar um sentido à caminhada. Estão lá, à espera que alguém que os encontre como quem encontra o sol, a brisa, as árvores. The Mall , o passeio dos poetas, como alguém já lhe chamou, é para mim um desses lugares.
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14.2.09

I'll Close My Eyes


I'll Close My Eyes - Cherokee - Joanie Sommers

12.2.09

O encanto perdido


Na imagem vemos Gene Tierney . A fotografia será dos inícios dos anos 40 ou mesmo do final da década de 30. É fácil advinhar que a sua carreira estava ainda a começar. Há no seu rosto qualquer coisa de autêntico que as cameras e a fama ainda não haviam tomado. Há uma promessa no ar.

Nesse tempo, parece que ainda existiam muitos traços a definir, muitos caminhos a percorrer, muita vida por experimentar. Vivia-se a infância de qualquer coisa que hoje me parece decadente, sem encanto. Talvez não seja somente na pureza do preto e branco que desvendamos tudo isto, mas na vida que se mostra para além deles.

E porque será que nos parece mais distante este tempo do que outro anterior? Talvez porque desse outro tempo mais recôndido escasseiem as imagens para o confrontarmos e neste temos já a imagem do nosso tempo, mas com tudo o que perdemos nestes 60 anos. Se o pensamento é quase sempre uma imagem, seremos capazes de encontrar um novo sentido no invisível?

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11.2.09

Tudo

Gene Tierney, anos 40, fotografia de John Rawlings

Tudo me é uma dança em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar...


Sophia de Mello Breyner
Poesia I, 1944


O Tempo de todos os Tempos

Fotografia de Yann Arthus-Bertrand

Vivemos o tempo de todos os tempos. Com a expansão das redes de comunicação, com o acesso a cascatas intermináveis de imagens e de informação somos tocados pela dispersão e obrigados a abrigar todos os tempos dentro do nosso. Temos uma obsessão pelo tempo real, pelo registo dos acontecimentos, pelo novo que mais não é um sintoma do medo de já não nos restar mais nada com que sonhar. Será então isso? Estaremos nós já suspensos na dispersão? Estará a humanidade à deriva dos acontecimentos como se eles tivessem tomado as rédeas ao "destino"? Estará a Humanidade sem energia e sem meios para idealizar um caminho para si mesma?
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Vejo-te chegar e dou-te as boas vindas.
São sempre precisos dois para pensar, nem que seja o que fomos e o que seremos.
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