15.4.09

O essencial e o secundário

Grace Kelly, © Edward Quinn Archive
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Porque será que oferecemos tanto tempo ao que sabemos ser secundário? Alimentamos a nossa vida do que é secundário e do que poderia ser o essencial.
O essencial fica quase intocado, apenas progredindo ou alterando a forma, mas muito devagar. O essencial torna-se quase numa espécie de mito que nos dá a porção exacta do prazer, do sonho, da angústia e da tristeza que nos habitam e nos equilibram. Ainda que vivamos uma certa insatisfação, parece que não podemos arriscar muito nesse plano, porque alterar-se-ia o chão por onde nos habituámos a caminhar. Então, é o secundário que nos leva, que nos põe na acção mecânica, diária, que nos dispersa. E é ele que vai definindo o que parecemos ser e finalmente no que nos tornaremos.
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12.4.09

Qualquer coisa de paz

Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.
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Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.
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Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área
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de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.
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Fernando Echevarría, in Figuras
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Treehouse

Pintura de Sigmar Polke
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11.4.09

Ser a excepção


imagem do filme Jules et Jim de François Truffaut (1962)
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É possível que pensemos que tudo na nossa vida condiga com a regra. Acreditar nisso facilita as coisas, pois não se esperam grandes inovações ou arrebatamentos para viver. Basta agir de acordo com a "regra" e a vida segue o seu devir sem muitos sobressaltos. Mas e se a certa altura descobrirmos que não somos "a regra", mas antes "a excepção"? E que não há volta a dar, "a excepção" está ali, acordada, à nossa espera. Ao contrário de a regra, a excepção é difícil de contentar, exige muito de nós, exige criatividade, dedicação, atitude, "espírito". Às vezes, pensamos que não estamos à altura de a viver, que não somos capazes, então deixamo-la transformar num grande palácio em ruínas. Outras, decidimos avançar e descobrirmos que vivê-la é irmos ao nosso encontro com o desprendimento vivo da descoberta. E, mais tarde, é possível que se chegue à conclusão que a excepção habita todas as vidas, mas que a maioria das pessoas prefira não se aperceber disso...
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9.4.09

Passear ...

nas margens do Sado, na península de Tróia
antes que o cavalo entre definitivamente nas muralhas
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8.4.09


© John Springer Collection/CORBIS
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da esquerda para a direita: Betty Garrett, Frank Sinatra, Ann Miller,
Jules Munshin, Vera-Ellen, e Gene Kelly, New York, 1949

Foto publicitária para o Musical On the Town

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New York, New York ... it's a wonderful town


Frank Sinatra, Gene kelly and Jules Munchin
On the Town, 1949, Musical com composições de Leonard Bernstein e letras de Adolph Green e Betty Comden

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Imagem do filme Roman Holiday ( 1953 ) de William Wyler
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Podemos andar pelas ruas sem destino, molhar as mãos nas fontes, olhar as vistas. Podemos conversar, mas não demasiado, para que as horas sejam ondulantes e sempre poucas. Podemo-nos olhar e dizer em silêncio o quanto gostamos de nos ver. E depois de tanto dia percorrido, de tanto sol bebido, talvez um jogo de cartas sobre a cadeira de praia ...
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7.4.09

Ver o Outro

imagem do filme The Painted Veil de John Curran
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A forma como vemos os outros altera-se: umas vezes progride, outras revela-se. Existe sempre um véu entre o nosso olhar e os outros. Tem tantos nomes, esse véu. Por vezes, entre as pessoas que já conhecíamos e nós próprios descem os véus. Elas ficam ali, à nossa frente, mais reais do que nunca. Parece que as estamos a olhar pela primeira vez ou há uma dimensão naquela pessoa que estamos a reparar pela primeira vez. É talvez nesse momento de extrema proximidade em que o outro, simultaneamente, se torna mais misterioso.
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5.4.09

Podemos acreditar?

É preciso falar de política quando ela cumpre duas das suas funções mais importantes: dar esperança, propor soluções. É nesta linha que se enquadram algumas intenções que Barak Obama apresentou hoje em Praga, a ler neste artigo .
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Torre Eiffel, 120 anos

fotografia de António Oliveira e Silva, Março de 2009
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A Torre Eiffel faz parte de um conjunto monumentos que mais do que pertencerem a um país, fazem parte da memória colectiva da Humanidade, independentemente do louvável projecto de classificação da UNESCO. Como objecto simbólico, banalizou-se, mas talvez fosse necessário esse percurso para a sentimos como uma reserva do tempo e da história de todos. A obra, da autoria de Gustave Eiffel, foi inaugurada a 31 de Março de 1889. Na celebração dos 120 após a sua edificação, a Torre está a ser pintada (com tinta ecológica, sem adição de chumbo na sua composição) e a plataforma panorâmica do último andar a ser redesenhada. O seu rendilhado de ferro confere-lhe leveza e tem na sua base algo de ponte, não fosse o seu autor um notável engenheiro de pontes.. eiffel

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4.4.09

To Think of Time

na fotografia, Marilyn Monroe
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To think of time—of all that retrospection!
To think of to-day, and the ages continued henceforward.
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Have you guess’d you yourself would not continue?
Have you dreaded these earth-beetles?
Have you fear’d the future would be nothing to you?
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Is to-day nothing? Is the beginningless past nothing?
If the future is nothing, they are just as surely nothing.
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To think that the sun rose in the east- that men and women were flexible,
real, alive - that everything was alive,
To think that you and I did not see, feel, think, nor bear our part,
To think that we are now here, and bear our part.
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Walt Whitman in Leaves of Grass

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3.4.09

Despertar a ausência

Imagem do filme Roman Holiday ( 1953 ) de William Wyler
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.É preciso que não se saiba o momento em que pássaro traça no céu acrobacias; é preciso sorrir-lhe e sorrirmo-nos. É preciso que estejamos lá, nesse momento, com a atenção disponível para voo repentino da ave; é preciso a percepção da simplicidade. É preciso fazer hoje um pouco do que não se fez ontem. É preciso criar flores transparentes na luz artificial. É preciso o silêncio partilhado sob essa luz ou sob o céu infinito. É preciso despertar a ausência.

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2.4.09

Roma, cidade eterna

Fotografia de Annie Leibovitz / Lavazza Calendar, 2009

Como eterno pode ser o breve, a construção de um desejo, o silêncio

Como eterno pode ser o mundo das coisas que amámos sem saber

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31.3.09

Los Chalchaleros - Chacarera De Un Triste

Para que quiero vivir
Con el corazón desecho
Para que quiero la vida
Después de lo que me has hecho.
Yo te dí mi corazón
El tuyo vos me entregaste
Con engaños hacia el mío
Prenda lo despedazaste.
Hay porque fuiste tan cruel
Si tu franqueza esperaba
Porque jugaste conmigo
Si te idolatraba
Yo del mundo olvidé
Desengaños y amarguras
Pero lo que vos me hiciste
Prenda en mi alma perdura.
No hay remedio ya lo sé
Para que voy a buscarlo
Tan desecho tengo el alma
Que inutil será ...
Seguí guitarra seguí
Seguí como yo llorando
Compañera hasta la muerte
Seguí mi alma consolando.
Cantando me pasarée
Muy triste esta chacarera
Pueda ser de que me alegre
En el instante en que muera.

Terras do fim do mundo

O fim do mundo é onde a terra acaba e com ela a possibilidade de uma sobrevivência humana continuada. É aonde, um dia, todos gostaríamos de ir. O "fim do mundo" guarda a chave do que nos ultrapassa. Ali chegados, um outro lugar mais longínquo nasce no olhar, na imaginação. Porque não concebemos um fim nem um princípio. Somos filhos do que já existe. Fica-se entre a grandeza e o aprisionamento da Terra, ideia tão clara e tão própria ao pensamento humano.
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Vem comigo a um dos lugares do fim do mundo ... Ushuaia ...
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30.3.09

Homens (4)

Dono de uma impressionante filmografia , Clint Eastwood
é das figuras mais respeitadas do cinema contemporâneo
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Há os homens que conhecemos e os que com que sonhamos, ele faz parte dos últimos.
Bem, não sei se acredito muito nisto, porque acabamos sempre a sonhar com os que conhecemos... Mas que o estilo do Clint já é raro, lá isso é ...
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29.3.09

Não tenho certezas

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Não tenho certezas, mas dúvidas. Não tenho respostas, mas perguntas.
Não tenho pena, mas saudade. Não espero por nada, mas posso dar tudo.
Acredito somente no amor.


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Só o que sentimos é nosso, nada mais

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Quanto mais os anos passam, mais frágeis ficamos. E quanto mais nos expomos à vida, aos outros, menos resistências guardamos. Talvez por sabermos que à medida que a vida avança decrescem as oportunidades de viver algo de maior do que a simples existência diária.
Começa a haver o sentido da perda que por vezes fala mais alto do que o risco do provento imediato. Mas a resignação à existência numa vida diária de tarefas tem algo de profundamente triste, mas também uma certa nobreza própria aos que se não encaram como crença, aos que se amam a si mesmos apenas o suficiente. Os que sabem disto, vão então procurar o essencial na simplicidade, nos pequenos detalhes e aprendem que a matéria não é nada, "que o essencial é invisível para os olhos". Porque só o que sentimos é nosso, nada mais.


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27.3.09

duas frases para uma noite

imagem do filme An Affair to Remember, 1957
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"No homem, o desejo gera o amor. Na mulher, o amor gera o desejo."
Jonathan Swift (1667-1745)
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"Para fazer uma obra de arte não basta ter talento, não basta ter força,
é preciso também viver um grande amor."
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
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Yesterdays


quando as palavras são desnecessárias

25.3.09

Alentejo - Correio dos Leitores

Fotografia de Paula Charrua, Fevereiro de 2009



24.3.09

Momento de divã

Eu sei que de pouco adiantam as explicações psicológicas como forma de ultrapassar os desaires amorosos. Mais ainda, o que pensávamos ser uma "maldição de amor" ou um tendência própria, tem afinal um nome de doença e é, portanto, vulgar no ser humano. Ora aqui está uma doença que me assenta que nem uma luva e que é descrita por Alain Botton após um desenlace infeliz:
" Mas que maldição caira sobre mim? Nada mais do que uma incapacidade de estabelecer relações felizes, provavelmente a pior desgraça que recai sobre a sociedade moderna. Expulso da luxuriante floresta do amor, sentia-me impelido a vaguear pela Terra até ao dia da minha morte, incapaz de me livrar da minha compulsão para afugentar aqueles que amava. Tentei encontrar um nome para esse mal e achei-o na descrição psicanalítica de compulsão repetitiva, definida como:
... processo incontrolável com origem no inconsciente. Em resultado das suas acções, o sujeito coloca-se em situações confrangedoras, repetindo assim uma antiga experiência, embora não recorde esse protótipo; pelo contrário, tem a forte impressão de que a situação foi inteiramente determinada pelas circunstâncias do momento.
(...) ou seja é o inconsciente, o preverso director de casting do meu drama interior, que a considerou adequada para o papel de alguém que sai de cena depois de infligir a dose de sofrimento requerida".
Mas agora digam-me lá como se faz um casting que mude esta repetição?


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dia de voo

Cary Grant e Gene Hackman, Agosto de 1973
© Tony Korody/Sygma/Corbis
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23.3.09

Um sorriso, um abraço

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Temos uma vocação inata para comunicar, se não o fizessemos viveríamos num mundo incompleto. Estabelecendo a comunicação existimos. Mas no mundo da comunicação virtual o que é que realmente comunicamos? Mostramos o que sentimos ou evidenciamos sobretudo factos? Talvez quase toda a comunicação de hoje seja isso mesmo, um desfilar de factos onde a verdadeira comunicação não existe. Muitos de nós esforçam-se para estar no caminho dessa rede de comunicação, para estar a par da notícia, de uma novidade que parece poder alterar o nosso dia. Ali, vivemos constantemente da suspensão do presente para o futuro próximo. O espaço é diminuto, feito de memória branca. Tudo o que pode existir, se pode apagar quase em simultâneo.
Em matéria de comunicação, não há nada que substitua os olhos nos olhos, uma conversa, um sorriso, um abraço.
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22.3.09

Homens (3)

Johnny Depp, Setembro de 2001
© Robert Eric /Corbis
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Ele tem qualquer coisa, não há nada de banal
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The Promise you Made


Cock Robin, The Promise you Made - Alabama Hall 1986

Here and Now, 29 de Maio no Pavilhão Atlântico

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Mas porque é que agora tinham que se juntar para este Espectáculo que uma pessoa tem logo vontade de ir, mesmo que não goste muito da ideia de espectáculos exclusivamente para revivalismos? Hum... não sei, mas e os Cheap Trick, George Michael, Foreigner, A-Ha, Frankie Goes to Hollywood ... ?
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21.3.09

Amar

Retrato de Paul Newman e Joanne WoodwardPaul Newman e a sua mulher, Joanne Woodward numa cena do filme: WUSA realizado por Stuart Rosenberg
© Bettmann/CORBIS
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Mesmo que o amor nos liberte, porque nos faz ir mais além, nunca sabemos se o amor que sentimos pelo outro será a nossa entrega maior ou o modo mais intenso de nos vivermos, através da sublimação que têm os seres quando amam.

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Poema para um dia de poemas

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Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...
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O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
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Fernando Pessoa
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19.3.09

Momentos

Marilyn Monroe numa das varandas Ambassador Hotel, Manhattan, New York, Março de 1955
© Michael Ochs Archives/Corbis
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A solidão é quando perdemos o caminho para chegar até nós mesmos;
é quando tudo é distante, quando nos afastamos definitivamente e já não queremos voltar.
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17.3.09

A Construção da Noite

Starry Night Over the Rhone de Vincent Van Gogh
Arles, Setembro de 1888, Musée d' Orsay
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Há um poema de Jorge Luis Borges, "A História da Noite", que começa por dizer:
"Sempre ao longo das suas gerações/ os homens foram construíndo a noite".
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E assim foi. Viemos da profunda e escura noite, encantada e temida. Viemos da noite antiga de archotes e fanais guiando o cansaço dos homens. Viemos da noite da distância habitada pela proximidade do perigo. Da noite longa que se queria breve e da breve que se queria longa. Da noite dos cânticos com rios de prata que iluminavam passos de homens e animais. E fomos construíndo a noite pela Terra inteira, iluminando-a lentamente com uma esperança de fogo e alquimia. Iluminá-mo-la e afastámo-nos da sua pureza, do seu silêncio, um silêncio de estrelas bulindo no firmamento, um silêncio de riquezas. Fomos construíndo a noite, como todas as coisas, à nossa imagem. Trouxemos para dentro da noite o sonho que se move e cintila. Queremos torná-la inesgostável, queremos vivê-la intensamente, queremo-nos viver na noite, procuramo-nos na noite. "E o tempo carregou-a de eternidade".


16.3.09

Homens (2)

Gene Kelly, 1957 / @ Bettmann / Corbis

Um charme, mesmo com meia branca

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Sem que ninguém saiba, nem o espelho

Estive a visionar o programa Câmara Clara , hoje dedicado à Argentina. Fiquei com saudades de revisitar Jorge Luis Borges , o escritor que ensina a fazer as pazes com o tempo, o escritor que dá um sentido aos últimos 10.000 mil anos da humanidade. E o canta com um saber tão antigo como a mais antiga pergunta sem resposta. Há na sua escrita o tempo dos tempos, a decifração dos ecos, das juras e, por conseguinte, o infinito, que agrega na sua infinita possibilidade a vida, o rosto de todos os homens.
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ELEGIA
Sem que ninguém saiba, nem o espelho,
ele chorou umas lágrimas humanas.
Não pode suspeitar que comemoram
todas as coisas que mercem lágrimas:
a beleza de Helena, que não viu,
o sempre irreparável rio dos anos,
a mão de Jesus Cristo no madeiro
de Roma, as velhas cinzas de Cartago,
o rouxinol dos húngaros e persas,
a ansiedade que aguarda, a breve sorte,
de marfim e de música, Virgílio,
que cantou os trabalhos das espadas,
as configurações de tantas nuvens
de cada novo e singular ocaso
e a amanhã que depois será a tarde.
Do outro lado de uma porta um homem
feito de solidão, de amor, de tempo,
acaba de chorar em Buenos Aires
todas as coisas.
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Jorge Luis Borges in A Cifra, 1981
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15.3.09

Anoitece e é Domingo

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Nos dias em temos a sensação que do passado se esgotaram todas as perguntas, todos os rostos; Nos dias em que desse tempo não vem a saudade, mas não mais do que momentos que se fecharam neles próprios, o que dizer a este presente construído no esforço de pequenas etapas?
O que responder, nestes dias, a esta voz que canta sozinha? E que teima em cantar mesmo que do futuro nada espere.
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a idade fixada no tempo ou "from here to eternity"

Deborah Kerr
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Idade

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Uma pessoa tem que se perguntar com quantos anos se sente.
Estamos condenados a viver com a idade com que nos sentimos. É justo que assim seja. E isso é mais importante do que querer parecer sempre jovem. O parecer há-de ser sempre o parecer. Um espírito que respeita a sua idade e um corpo que se aceita como é, são, à partida, garantes para um brilho mais intenso, uma elegância natural e verdadeira.
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14.3.09

complexidade

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depois de muito escrever e apagar, deste fim de tarde, ficou esta frase:
- Mas queremos nós resolver a complexidade das coisas? Acho que a maioria das pessoas não tende a resolver as questões na sua vida, mas a alimentar a sua complexidade, o que lhes dá uma sensação de infinitude.
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13.3.09

Nina Simone - I Put A Spell On You

A voz que estava a faltar neste blogue

Sedução

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A sedução é o movimento mais puro do poder. É uma ousadia que se expõe, que se arrisca; a ousadia da entrega com o propósito claro de se receber. Mesmo que se jogue o mistério, a partilha de uma intimidade secreta, o domínio, tem ela sempre o impulso para o exterior, para o risco. Todas as formas da natureza têm essa dimensão, mostra-lhes a sua essência; A sedução é um exercício para a consciência de ser da espécie, ao mesmo tempo que ausenta o sedutor da sua insignificância enquanto um só. É sempre uma energia de comunicação.


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12.3.09

Belle de toujours


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Há cidades cor de pérola onde as mulheres


Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.
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Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

Mulheres que eu amo com um des-
espero.
fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

Herberto Helder
Lugar in Poesia Toda

10.3.09

Aqui estamos


Aqui estamos nós tentando o nosso melhor para dar um sentido a cada passo. Debatendo-nos para encaixar todas as peças de um passado que fluta sobre as ondas. Aqui estamos nós com vontade de fazer renascer as sensações que nos deram um misto de ilusão e de crença. E vamos pelas manhãs travando lutas com um outro que espera dentro de nós a sua vez. E vamos pelas tardes recolhendo pedaços de vida, tentando respirar mais fundo, tentando desenhar uma nova vida. E esperamos, qualquer coisa de inconcreto, a boa nova, dias perfeitos, a felicidade.


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8.3.09

Ao meio-dia na nossa vida


"No fundo, poucos existem que ainda saibam, no meio da sua vida, a forma como puderam chegar a ser aquilo que hoje são, às suas distracções, à sua concepção do mundo, à sua mulher, ao seu carácter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas pressentem que pouco ou nada podem alterar isso. É até legítimo afirmar-se que eles foram enganados, pois nunca conseguimos descobrir uma razão suficiente para que as coisas se tenham tomado aquilo que são; teria sido perfeitamente possível encaminharem-se de outra forma; os acontecimentos só raras vezes foram a emanação dos homens, eles dependeram quase sempre de todas as espécies de circunstâncias, da disposição, da vida e da morte de outros homens, e apenas lhes caíram em cima em determinado instante. Durante a juventude, a vida deparava-se-lhes ainda como uma manhã inesgotável, repleta de possibilidades e de vazio, mas eis que ao meio-dia já algo surge diante de mós, algo que tem o direito de ser, a partir daí, a nossa vida, e causa também muita surpresa que no dia em que um homem está de súbito ali sentado, com quem nos correspondemos durante vinte anos sem o compreendermos nos surja tão diferente daquilo que imaginamos. Mas ainda o mais estranho é que a maioria dos homens não se aperceba disso; adoptam o homem que se aproximou deles, cuja vida se aclimatou nele, os acontecimentos da sua vida afiguram-se-lhes a partir daí expressão das suas qualidades, o seu destino é o seu mérito ou a sua pouca sorte. Sucedeu-lhes o mesmo que às moscas com a fita mata-moscas: algo se colou a eles, apanhando aqui um pêlo, entravando-lhes além os movimentos, qualquer coisa os manietou, até que ficaram sepultados sob uma espessa cobertura que só muito remotamente corresponde à sua forma primitiva. A partir daí só muito obscuramente é que pensam nessa juventude em que neles existia uma força de resistência: essa outra força que sacode e sopra, que nunca está quieta e desperta uma avalancha de tentativas de fuga sem qualquer espécie de objectivos; o espírito trocista da juventude, o seu repúdio da ordem estabelecida, a sua disponibilidade perante qualquer espécie de heroísmo, tanto para o sacrifício como para o crime, a sua ardente gravidade e a sua inconstância, tudo isso não passa de tentativas de fuga. "

Robert Musil, in O Homem sem Qualidades (I)

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