17.5.09

saudade e esperança


Vi recentemente o fime "A Troca" de Clint Eastwood: magnífico, como sempre são os filmes de Clint. E esta música também é da sua autoria.

15.5.09

Amália Hoje


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Poema "Gaivota" de Alexandre O' Neil

14.5.09

Navegar


Saber transmitir a verdade


"É bem possível dizer a verdade e não ser verdadeiro ou não ter uma relação verdadeira. E isto acontece mais do que se pensa. Quando não atendo à condição do outro, à sua sensibilidade, linguagem, idade, etc., posso dizer tudo certo e o outro ficar mais longe e mais desconfiado, e a relação não ser humana e verdadeira. A verdade humana é ser construtivo na relação. Da verdade lógica também os computadores são capazes..."

(Padre) Vasco Pinto de Magalhães in Não Há Soluções, Há Caminhos
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12.5.09

Queremos simplesmente encontrar

Somos almas tão simples. Há, talvez, uma semelhança tão grande no que todos queremos da vida. E, no entanto, a complexidade da interpretação, o cruzamento da memória, a forma como vivemos as emoções e os sentimentos deixam-nos à deriva, à procura de um caminho onde tudo isso faça sentido. Queremos encontrar a grandeza da simplicidade onde a nossa árvore cresça harmoniosamente. Queremos simplesmente encontrar. Queremos esta coisa antiga, esta coisa de espécie: dar um sentido às nossas acções, amar e ser amados. Mas aqui estamos, enredados num sistema que nos pode afastar cada vez mais da simplicidade e estimula a incerteza, o medo de ousar, de acreditar, de ter um pensamento próprio.
Há um desajuste entre a simplicidade da nossa alma e a forma como por vezes a vida se nos apresenta. É por isso que valorizamos tanto as relações humanas. É no encontro das sensibilidades, na franqueza das palavras, na partilha de saberes, no amor e na amizade que reside aquilo que de mais fundamental existe ao ser humano. São essas as ilhas de luz na nossa memória. É essencialmente isso que nos ilumina o caminho.
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10.5.09

I Go To Sleep


Sia - I Go To Sleep (música copiada de um conhecido Blogue...)
ah, e é de referenciar que se trata de uma música dos anos 60 interpretada por Cher, The Pretenders...

Reinventar

Por mais que nos preparemos, por mais que evitemos repetir nos meus erros, por mais consciência que tenhamos, voltamos sempre às nossas "marcas", parecidas com os "marcadores genéticos". Queremos mudar o padrão, mas parece que o padrão só pode alguma vez ser alterado se do exterior chegar o desconhecido, uma nova forma, um novo nome. Talvez esse desconhecido nos obrigue a ser criativos, a buscar novas formas de interpretar e passo a passo consigamo-nos reinventar e avançar dentro do nosso mundo.

Céu

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Como não tenho máquina fotográfica, tenho que vos descrever o magnífico céu deste final de tarde:
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Fim de tarde de nuvens, como flocos de neve em labaredas alinhados em estrada para Oeste. Ou talvez como asas incendiadas pelo sol-pôr, voando sobre a costa.
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Conseguem imaginar?

7.5.09

White As Diamonds

(...)
some hearts are ghosts settling down in dark waters
just as silt grows heavy and drowns with the stones

I've known mornings
white as diamonds
silent from a night so cold
such a stillness
calm as the owl glides
our lives are buried in snow
(...)

Alela Diane canta White As Diamonds

altruísmo # egoísmo


Estamos sempre à procura do meio termo, um equilíbrio no poço das nossas imperfeições. É sempre essa a tentativa, de modo a harmonizar um pouco a desordem própria à condição humana. Mas a noção de harmonia estabelece-se sempre, assim como qualquer energia, numa lógica de troca. Fica assim presente a ideia de que mais do que nos centrarmos num só ponto, é bem mais importante concentrarmo-nos no todo e por conseguinte relativizar a importância dos pontos. Na nossa extrema importância para os que gostam de nós, o que somos no contexto do universo? O tudo e o quase nada ? Sendo o "tudo" tão importante como o "quase nada".
Há nestes pensamentos uma noção tão simples, mas tão essencial: a importância do altruísmo e do desprendimento. Duas noções que se contrapõem a um estar que tem dado ao homem muita infelicidade: o egoísmo, que levado ao extremo incapacita o homem de amar e respeitar os outros.

6.5.09

Os Portugueses

Não resisto a mencionar também aqui o texto de Alberto Pimenta sobre os Portugueses. Este é um extracto. Se quiserem ler o texto completo cliquem Aqui .
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"OS PORTUGUESES não formam uma sociedade porque não são sócios uns dos outros. Tomemos os exemplos mais corriqueiros. Na cidade velha, vai-se pela rua e pode-se apanhar com sacos de migas de pão ralado, atirados aos pombos, na cabeça. E a rua está cheia de cagadelas de cão, coisa que não se vê em mais cidade nenhuma, porque cada um entende que o espaço público se pode sujar à vontade. Lisboa é habitada por uma horda que usa fato e gravata e anda de automóvel, mas que não chegou sequer ao patamar mínimo de civilização urbana. Começa-se sempre de cima para baixo. A Lisboa 94, com a sua falta de ideia, fez várias coisas em cima sem haver nada em baixo, confundiu arte com cultura. A cultura começa nas ruas onde se pode andar, no ambiente cuidado, nos jardins tratados, que não existem.

Há um total desprezo do próximo, uma falta de noção dos direitos e deveres urbanos civilizacionais. Soube agora de um caso que se passa num prédio normal do centro da cidade. Há alguém que guarda a moto do filho de família no patamar entre o terceiro e o quarto andares e, quando Ihe vão dizer que não o pode fazer, essa gente que é licenciada fecha a porta, dizendo: «A moto é minha, eu faço o que eu quero!» Tal e qual como o sapateiro que bate no filho e diz: «O filho é meu, eu faço o que quero!». É a sociedade do «salve-se quem puder». A maior parte das discussões que se geram em bichas, em lugares públicos onde se reclama um direito, resulta da falta de noção muito exacta que qualquer alemão, francês ou italiano tem dos seus direitos e deveres. Aqui é tudo uma «questão particular». Passa a não ser uma sociedade organizada mas um clã. É simpático, de repente, encontrarmos uma grande humanidade e intimidade onde menos esperávamos. Sabe bem mas o preço é caro, implica um dia-a-dia desgastante, onde tudo funciona improvisada e desastradamente. Nem se pode andar pelas ruas porque os carros ocupam os passeios. São insignificâncias que vão criando e alimentando quotidianamente um mal-estar, um cansaço, uma perda de energia. Quando ando pela Baixa duas ou três horas, começo a sentir um esgotamento de tipo espiritual, ao contrário do que acontece em qualquer cidade europeia em que fico mais alerta, enérgico e cheio de ideias. Aqui, começo a arrastar os pés e a andar em passo de procissão, que é como fazem os portugueses, um pouco vergados, dai a metáfora de trazer um peso nas costas. Há, de facto, um peso qualquer que está lá dentro, nas costas do espírito. Este país é como uma eterna pequena constipação." (...)
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publicado no Diário de Notícias em Janeiro de 1995

Ser Turista

Ser turista é fugir da responsabilidade. Os erros e os defeitos não se colam em nós como em casa. Somos capazes de vaguear por continentes e línguas, suspendendo a actividade do pensamento lógico. O turismo é a marcha da imbecilidade. Contam que sejamos imbecis. Todo o mecanismo do país hospedeiro está adaptado aos viajantes que se comportam de um modo imbecil. Andamos às voltas, aturdidos, olhando de esguelha para mapas desdobrados. Não sabemos falar com as pessoas, ir a lado nenhum, quanto vale o dinheiro, que horas são, o que comer ou como o comer. Ser-se imbecil é o padrão, o nível e a norma. Podemos continuar a viver nestas condições durante semanas e meses, sem censuras nem consequências terríveis. Tal como a outros milhares, são-nos concedidas imunidades e amplas liberdades. Somos um exército de loucos, usando roupas de poliester de cores vivas, montando camelos, tirando fotografias uns aos outros, fatigados, desintéricos, sedentos. Não temos mais nada em que pensar senão no próximo acontecimento informe.
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Don DeLillo, in Os Nomes

5.5.09

Nós perante a paisagem

Pintura de Paul Cézanne (1839-1906), Paysage a Auvers, 1873
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As paisagens dão ao nosso espírito uma ideia de infinitude, uma certeza exterior que nos suporta. Dizer de um homem é dizer as paisagens que o habitam, os lugares onde cresceu, os sítios que avistou. Dizer de um homem é conhecer como as paisagens se foram alterando no seu caminho. É saber se os lugares foram cuidados ou abandonados, é saber da acção dos outros homens nesses lugares.
Na paisagem natural não há lugares abandonados, há lugares recôndidos. Só na paisagem que alguma vez esteve sob acção humana existem locais abondonados. É a nossa acção que cria essa noção de abandono. A partir do momento em que agimos sobre um lugar temos uma certa responsabilidade sobre ele, temos que o cuidar, criar, encaminhar... como aliás com quase tudo na vida ...
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3.5.09

o perfume dela, por exemplo ...

imagem do filme Aurora de Friedrich Murnau, 1927
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Eis um efeito que me será contestado, e que só apresento aos homens que, digamos, são bastante infelizes para terem amado com paixão durante longos anos, dum amor contrariado por obstáculos invencíveis: A vista de tudo o que é extremamente belo, tanto na natureza como nas artes, traz-nos a recordação do que amamos, com a rapidez de um relâmpago. É que, pelo processo do ramo de árvore guarnecido de diamantes da mina de Salzburgo, tudo o que no mundo é belo e sublime faz parte da beleza do que amamos, e esta visão imprevista da felicidade enche-nos os olhos de lágrimas num instante. É assim que o amor do belo e o amor se dão vida um ao outro. Uma das infelicidades da vida é que a ventura de ver a quem amamos e de lhe falar não deixa recordações distintas. Aparentemente, a alma está demasiado perturbada pelas suas emoções para poder prestar atenção ao que as causa ou as acompanha. Transforma-se na própria sensação. É talvez porque estes prazeres não se podem renovar sempre que queremos, por simples força de vontade, que se renovam com tanta força, desde que um objecto qualquer nos venha tirar da meditação consagrada à mulher que amamos, e lembrar-no-la mais vivamente por meio de uma nova sugestão (o perfume dela, por exemplo).
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Stendhal (1783-1842) in Do Amor

30.4.09

The Good Life


Oh, the good life, full of fun seems to be the ideal
Hum, the good life lets you hide all the sadness you feel
You won't really fall in love for you can't take the chance
So please be honest with yourself, don't try to fake romance

It's the good life to be free and explore the unknown
Like the heartaches when you learn you must face them alone
Please remember I still want you, and in case you wonder why
Well, just wake up, kiss the good life goodbye

The Good Life por Tony Bennett

O Beijo

Breakfast at Tiffany's (1961)
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... é que fora do cinema, no mundo real, a nossa vida continua depois do tão esperado beijo ...

Jantar com amigos

cena do filme Breakfast at Tiffany's (1961)


É bom receber os amigos para jantar, vê-los ali, sentados à nossa mesa. Brilha a casa, a sala, quando os amigos a habitam. Quando saiem e se despedem, a sua presença fica ainda por aqui e a casa fica menos vazia.
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28.4.09

Makin' Whoopee ...


Michelle Pfeiffer, The Fabulous Baker Boys, 1989

É no dar que a solidão se esbate

New York, Union Square, 1910 in Old Picture of the Day
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Tudo fazemos para nos aproximarmos, para nos organizarmos. Enfim, as diligências necessárias para a sobrevivência e continuidade da acção da espécie humana. Aprendemos a valorizar o único e a criar na diversidade. Precisamos de entrar no labirinto das formas e das ideias, como quem se afasta da multidão para pensá-la. Sem esse movimento, estagnamos, perdemo-nos.
Mas o sentido da unicidade alberga em si, por consequência, o da solidão. Sabemos que o único caminho possível é o da aproximação. Porém, a solidão própria de cada homem, se por um lado quer acercá-lo dos outros porque sem eles não há sentido, quer ao mesmo tempo afasta-se porque se sente desolada na sua unicidade. É por isso que talvez seja na experiência de "dar" que conseguimos que essa solidão se esbata. Talvez seja esse o sentido maior.
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27.4.09

O bem de sermos diferentes

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A pluraridade humana, condição básica da acção e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da acção para se fazerem entender. Com simples sinais e sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e idênticas.
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Hannah Arendt, in A Condição Humana, 1958

26.4.09

Da Noite

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Venho da noite concreta que se desvanece branca em tanta realidade. Venho da noite abstracta que cresce silenciosamente, nocturnamente como as rosas. Venho da noite decifrada pelo coração e por estrelas a crescer. Venho da noite privada que espera atrás da janela fechada. Venho de noites que pressentem o vazio e que o recebem como a uma visita. Venho de uma ou outra noite singular, rompendo pelo dia como um grande botão de sol. Venho das noites que chamaram um só nome e no nome desistiram devagar. Venho da noite que canta e se ilude.


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25.4.09

25 de Abril ... "A Poesia está na Rua" era esta a esperança

. Cartaz de Vieira da Silva, 1975

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
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Sophia de Mello Breyner Andresen

23.4.09

Da Liberdade


Nunca acreditei que a liberdade do homem consiste em fazer o que quer, mas sim em nunca fazer o que não quer, e foi essa liberdade que sempre reclamei, que muitas vezes conservei, e me tornou mais escandaloso aos olhos dos meus contemporâneos. Porque eles, activos, inquietos, ambiciosos, detestando a liberdade nos outros e não a querendo para si próprios, desde que por vezes façam a sua vontade, ou melhor, desde que dominem a de outrem, obrigam-se durante toda a sua vida a fazer o que lhes repugna, e não descuram todo e qualquer servilismo que lhes permita dominar.

Jean-Jacques Rousseau, in Os Devaneios do Caminhante Solitário, 1776
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Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor

Pintura de Jean-Honoré Fragonard (1732-1806), A Leitora, 1776

22.4.09

Não penses para amanhã

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"Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro. "

Vergílio Ferreira , in Escrever
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20.4.09

Felizmente o nosso espírito é livre

Fotografia de Lynda Logan, Paris, 2001
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Felizmente o nosso espírito é livre, imprevisível, talvez como a própria Natureza. Mesmo durante um trabalho absorvente, mesmo rodeados de um exterior inóspito, passa pelo nosso pensamento, como nuvem, um rosto que gostamos, uma lembrança, uma paisagem longínqua. Algo de volátil, suave e ao mesmo tempo denso e precioso. Algo que não controlamos, mas que mantém viva e única uma essência antiga. Assim como a nuvem revela o estado do tempo, esse pequeno voo relembra quem somos, o que nos prende, o que ficou.
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Avançar quando amanhece


Wolfgang Amadeus Mozart (27.01.1756 - 05.12.1791), Piano Concerto No. 23

19.4.09

Cheguei de visita ao poeta

Rio Neva, São Petersburgo

Cheguei de visita ao poeta.
Meio dia em ponto. Domingo.
Silêncio na ampla sala
Além das janelas frio

E o sol cor de framboesa
Sobre farrapos gris de fumo ...
E o dono olha calado
Para mim limpidamente!
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São tais os olhos que tem
Que ninguém os deve esquecer,
Para mim é melhor, à cautela,
De modo algum os fitar.

Mas será lembrado o diálogo
O dia fumoso, o domingo
Na casa alta e cinzenta
Às portas do mar do Neva.
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Anna Akhmatova, Janeiro de 1914
dedicado ao poeta Aleksandr Blok

18.4.09

Dancing


Tu és a casa, é isso que tu és, a casa, Silvia...

Mas até a isso se sobrevive ...

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Há estas coisas terríveis na vida: a condenação, a morte dos que amamos e quando temos que matar o amor que sentimos. Mas até a isto, por vezes, se sobrevive.

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17.4.09

Nunca é tarde demais

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O que é que define em nós "o ser tarde demais"? Que melancolia é essa que vem ainda como promessa de asa e desalenta no último momento? Que nome tem a brisa que chega com uma doçura, um movimento de quase dança e se recusa como a dura suavidade de um punhal? Que gravidade é essa que impede a mão que se esforça de alcançar o voo? E esmorece a mão, o olhar e o mundo que os envolve esmorece como a sombra do que ficou por dizer. Que som tem esse passo que se desencontra do devir e entra perdido na apatia das rochas? Eu quero dizer que nunca é tarde demais, mas como dizer?
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(para a personagem Rose (Sihame Haddad) do filme Caramel de Nadine Labaki )
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15.4.09

Winds of Change

Robert Nickelsberg/Getty Images for The New York Times
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KABUL, Afghanistan — The young women stepped off the bus and moved toward the protest march just beginning on the other side of the street when they were spotted by a mob of men.
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“Get out of here, you whores!” the men shouted. “Get out!”
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The women scattered as the men moved in.
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“We want our rights!” one of the women shouted, turning to face them. “We want equality!”
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The women ran to the bus and dove inside as it rumbled away, with the men smashing the taillights and banging on the sides.
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“Whores!”
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But the march continued anyway. About 300 Afghan women, facing an angry throng three times larger than their own, walked the streets of the capital on Wednesday to demand that Parliament repeal a new law that introduces a range of Taliban-like restrictions on women, and permits, among other things, marital rape. (...)
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Para ler todo o artigo e visionar o video: Aqui
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Fonte: The New York Times
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O essencial e o secundário

Grace Kelly, © Edward Quinn Archive
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Porque será que oferecemos tanto tempo ao que sabemos ser secundário? Alimentamos a nossa vida do que é secundário e do que poderia ser o essencial.
O essencial fica quase intocado, apenas progredindo ou alterando a forma, mas muito devagar. O essencial torna-se quase numa espécie de mito que nos dá a porção exacta do prazer, do sonho, da angústia e da tristeza que nos habitam e nos equilibram. Ainda que vivamos uma certa insatisfação, parece que não podemos arriscar muito nesse plano, porque alterar-se-ia o chão por onde nos habituámos a caminhar. Então, é o secundário que nos leva, que nos põe na acção mecânica, diária, que nos dispersa. E é ele que vai definindo o que parecemos ser e finalmente no que nos tornaremos.
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12.4.09

Qualquer coisa de paz

Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.
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Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.
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Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área
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de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.
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Fernando Echevarría, in Figuras
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Treehouse

Pintura de Sigmar Polke
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11.4.09

Ser a excepção


imagem do filme Jules et Jim de François Truffaut (1962)
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É possível que pensemos que tudo na nossa vida condiga com a regra. Acreditar nisso facilita as coisas, pois não se esperam grandes inovações ou arrebatamentos para viver. Basta agir de acordo com a "regra" e a vida segue o seu devir sem muitos sobressaltos. Mas e se a certa altura descobrirmos que não somos "a regra", mas antes "a excepção"? E que não há volta a dar, "a excepção" está ali, acordada, à nossa espera. Ao contrário de a regra, a excepção é difícil de contentar, exige muito de nós, exige criatividade, dedicação, atitude, "espírito". Às vezes, pensamos que não estamos à altura de a viver, que não somos capazes, então deixamo-la transformar num grande palácio em ruínas. Outras, decidimos avançar e descobrirmos que vivê-la é irmos ao nosso encontro com o desprendimento vivo da descoberta. E, mais tarde, é possível que se chegue à conclusão que a excepção habita todas as vidas, mas que a maioria das pessoas prefira não se aperceber disso...
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9.4.09

Passear ...

nas margens do Sado, na península de Tróia
antes que o cavalo entre definitivamente nas muralhas
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8.4.09


© John Springer Collection/CORBIS
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da esquerda para a direita: Betty Garrett, Frank Sinatra, Ann Miller,
Jules Munshin, Vera-Ellen, e Gene Kelly, New York, 1949

Foto publicitária para o Musical On the Town

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New York, New York ... it's a wonderful town


Frank Sinatra, Gene kelly and Jules Munchin
On the Town, 1949, Musical com composições de Leonard Bernstein e letras de Adolph Green e Betty Comden

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Imagem do filme Roman Holiday ( 1953 ) de William Wyler
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Podemos andar pelas ruas sem destino, molhar as mãos nas fontes, olhar as vistas. Podemos conversar, mas não demasiado, para que as horas sejam ondulantes e sempre poucas. Podemo-nos olhar e dizer em silêncio o quanto gostamos de nos ver. E depois de tanto dia percorrido, de tanto sol bebido, talvez um jogo de cartas sobre a cadeira de praia ...
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7.4.09

Ver o Outro

imagem do filme The Painted Veil de John Curran
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A forma como vemos os outros altera-se: umas vezes progride, outras revela-se. Existe sempre um véu entre o nosso olhar e os outros. Tem tantos nomes, esse véu. Por vezes, entre as pessoas que já conhecíamos e nós próprios descem os véus. Elas ficam ali, à nossa frente, mais reais do que nunca. Parece que as estamos a olhar pela primeira vez ou há uma dimensão naquela pessoa que estamos a reparar pela primeira vez. É talvez nesse momento de extrema proximidade em que o outro, simultaneamente, se torna mais misterioso.
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5.4.09

Podemos acreditar?

É preciso falar de política quando ela cumpre duas das suas funções mais importantes: dar esperança, propor soluções. É nesta linha que se enquadram algumas intenções que Barak Obama apresentou hoje em Praga, a ler neste artigo .
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Torre Eiffel, 120 anos

fotografia de António Oliveira e Silva, Março de 2009
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A Torre Eiffel faz parte de um conjunto monumentos que mais do que pertencerem a um país, fazem parte da memória colectiva da Humanidade, independentemente do louvável projecto de classificação da UNESCO. Como objecto simbólico, banalizou-se, mas talvez fosse necessário esse percurso para a sentimos como uma reserva do tempo e da história de todos. A obra, da autoria de Gustave Eiffel, foi inaugurada a 31 de Março de 1889. Na celebração dos 120 após a sua edificação, a Torre está a ser pintada (com tinta ecológica, sem adição de chumbo na sua composição) e a plataforma panorâmica do último andar a ser redesenhada. O seu rendilhado de ferro confere-lhe leveza e tem na sua base algo de ponte, não fosse o seu autor um notável engenheiro de pontes.. eiffel

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4.4.09

To Think of Time

na fotografia, Marilyn Monroe
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To think of time—of all that retrospection!
To think of to-day, and the ages continued henceforward.
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Have you guess’d you yourself would not continue?
Have you dreaded these earth-beetles?
Have you fear’d the future would be nothing to you?
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Is to-day nothing? Is the beginningless past nothing?
If the future is nothing, they are just as surely nothing.
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To think that the sun rose in the east- that men and women were flexible,
real, alive - that everything was alive,
To think that you and I did not see, feel, think, nor bear our part,
To think that we are now here, and bear our part.
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Walt Whitman in Leaves of Grass

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