3.4.10

Um dia branco



Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Antologia
Círculo de Poesia Moraes Editores, 1975




31.3.10

Arcade Fire - Intervention


Arcade Fire - "Intervention" do álbum Neon Bible de 2007

Imagens do Filme "The Battleship Potemkin" de Sergei Eisenstein (1898 –1948) de 1925

Intervention

The king's taken back the throne
The useless seed is sown
When they say they're cutting off the phone
I tell 'em you're not home

No place to hide
You were fighting as a soldier on their side
You're still a soldier in your mind
Though nothing's on the line

You say it's money that we need
As if we're only mouths to feed
I know no matter what you say
There are some debts you'll never pay

Working for the Church while your family dies
You take what they give you and you keep it inside
Ever spark of friendship and love will die without a home
Hear the solider groan, "We'll go at it alone"

I can taste the fear
Lift me up and take me out of here
Don't wanna fight, don't wanna die
Just wanna hear you cry

Who's gonna throw the very first stone?
Oh! Who's gonna reset the bone?
Walking with your head in a sling
Wanna hear the solider sing:
"Been working for the Church while my family dies
Your little baby sister's gonna lose her mind
Every spark of friendship and love will die without a home"
Hear the soldier groan "We'll go at it alone.

I can taste your fear
It's gonna lift you up and take you out of here
And the bone shall never heal
I care not if you kneel

We can't find you now
But they're gonna get the money back somehow
And when you finally disappear
We'll just say you were never here

Working for the church while your life falls apart
Singing halleluiah with the fear in your heart
Every spark of friendship and love will die without a home
Hear the solider groan, "We'll go at it alone"
Hear the solider groan, "We'll go at it alone"

Arcade Fire – Neon Bible - 2007

Rosa


29.3.10

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
.
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
.
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".
.
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
.
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Lembrar

Sophia de Mello Breyner Adresen (1919-2004)

25.3.10

Moonlight

Joseph M.W. Turner (1775–1851)
Keelmen Heaving in Coals by Moonlight
Collection of the National Gallery, Washington D.C.

21.3.10

Bach - Violin concerto No.2, Allegro


Johann Sebastian Bach
(Eisenach, 21-03-1685 / Leipzig, 28-07-1750)

19.3.10

Amor


Amor louco de paixão efémera, que fica para sempre numa presença de chuva branda sobre os campos. Amor breve, de passagem. Amor que transforma, que nos faz querer ser melhores. Amor maduro, de silêncio e amizade atravessado por uma linha de tristeza. Amor fechado e perene que habita casas de madeira antiga e linhos trabalhados. Amor de mãos que se tocam levemente, de risos emaranhados de música e frescura. Amor triste, vivido na espera, no fim da espera de uma noite esvaziada. Amor que golpeia, que derruba e nos espezinha em flor, no culminar da grandeza. Amor que se quer dar, porque é tanto, ao outro que é pobre de amor e o nega. Amor em movimento que equilibra e vence com um gesto certeiro de mão e dança. Amor de alma que vagueia na altitude e prescinde do corpo e das palavras. Amor que fica guardado no mais íntimo lugar e aroma de um lenço, uma pequena folha de papel, um livro. Amor que regressa velho da lonjura do tempo e se faz novo no ondular de uma música...
.
(reposição)

.
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18.3.10

Margarete

de Anselm Kiefer, 1981

17.3.10

Quinze Pontos na Alma (Under My Skin) - Teaser


Um filme de Vicente Alves do Ó. Com Rita Loureiro, Marcello Urgeghe, João Reis, Carmen Santos, Dalila Carmo, Ivo Canelas, Ana Moreira, Filipe Vargas e Maya Booth. Uma produção da Filmes de Fundo.

16.3.10

Os Dias Bons

Edward G. Robinson

15.3.10

Sunrise with Sea Monsters

John Mallord W. Turner /1845
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Remember

Hannah Arendt / 1906-1975

As Coisas Efémeras são as Mais Necessárias

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Das coisas tangíveis, as menos duráveis são as necessárias ao próprio processo da vida. O seu consumo mal sobrevive ao acto da sua produção; no dizer de Locke, todas essas «boas coisas» que são «realmente úteis à vida do homem», à «necessidade de subsistir», são «geralmente de curta duração, de tal modo que - se não forem consumidas pelo uso - se deteriorarão e perecerão por si mesmas».
Após breve permanência neste mundo, retomam ao processo natural que as produziu, seja através de absorção no processo vital do animal humano, seja através da decomposição; e, sob a forma que lhes dá o homem, através da qual adquirem um lugar efémero no mundo das coisas feitas pelas mãos do homem, desaparecem mais rapidamente que qualquer outra parcela do mundo.
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Hannah Arendt in A Condição Humana
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12.3.10

Os Dias Bons

Clint Eastwood

Só se Cria na Diversidade

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Todos os pensamentos que renunciam à unidade exaltam a diversidade. E a diversidade é o local da arte. O único pensamento que liberta o espírito é aquele que o deixa só, certo dos seus limites e do seu fim próximo. Nenhuma doutrina o solicita. Ele espera o amadurecimento da obra e da vida. Separada dele, a primeira fará ouvir, uma vez mais, a voz levemente ensurdecida de uma alma para todo o sempre liberta da esperança. Ou nada fará ouvir, se o criador, cansado do seu jogo, pretende afastar-se. Tudo isso se equivale.
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Albert Camus in O Mito de Sísifo
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11.3.10

Os Dias Bons


The Beatles / Sylvie Vartan / Paris / 1964

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O advento de heróis e de carrascos

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Trazemos connosco personalidades potenciais que acontecimentos ou acidentes podem potencializar. Assim, a Revolução fez surgir o génio político ou militar nos jovens destinados a uma carreira medíocre numa época normal; a guerra provoca o advento de heróis e de carrascos; a ditadura totalitária transformou seres pálidos em monstros. O exercício incontrolado do poder pode «tornar o sábio louco» (Alain) mas pode tornar sábio o louco, e dar génio ao medíocre, como no caso de Hitler e Estaline. E também as possibilidades de génio ou de demência, de crueldade ou de bondade, de santidade ou de monstruosidade, virtuais em todos os seres, podem desenvolver-se em circunstâncias excepcionais. Inversamente, estas possibilidades nunca chegarão à luz do dia na chamada vida normal: nos nossos dias, César seria funcionário da CEE, Alexandre teria escrito uma vida de Aristóteles para uma colecção de divulgação, Robespierre seria adjunto de Pierre Mauroy na Câmara de Arras, e Bonaparte seria do séquito de Pascua.
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Edgar Morin in Os Meus Demónios
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3.3.10

O Encanto Perdido (reposição)



Na imagem vemos Gene Tierney . A fotografia será dos inícios dos anos 40 ou mesmo do final da década de 30. É fácil advinhar que a sua carreira estava ainda a começar. Há no seu rosto qualquer coisa de autêntico que as cameras e a fama ainda não haviam tomado. Há uma promessa no ar.
Nesse tempo, parece que ainda existiam muitos traços a definir, muitos caminhos a percorrer, muita vida por experimentar. Vivia-se a infância de qualquer coisa que hoje me parece decadente, sem encanto. Talvez não seja somente na pureza do preto e branco que desvendamos tudo isto, mas na vida que se mostra para além deles.
E porque será que nos parece mais distante este tempo do que outro anterior? Talvez porque desse outro tempo mais recôndido escasseiem as imagens para o confrontarmos e neste temos já a imagem do nosso tempo, mas com tudo o que perdemos nestes 60 anos. Se o pensamento é quase sempre uma imagem, seremos capazes de encontrar um novo sentido no invisível?

27.2.10

Os Dias Bons


A razão não basta

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É esse o segredo da vida dotada de força. Apenas com a inteligência não se pode ser um ser moral, nem fazer política. A razão não basta, as coisas decisivas passam-se para além dela. Os homens que fizeram grandes coisas amaram sempre a música, a poesia, a forma, a disciplina, a religião e a nobreza. Iria mesmo ao ponto de afirmar que só as pessoas que assim procedem conhecem a felicidade! São esses os chamados imponderáveis que dão o cunho próprio ao senhor, ao homem; aquilo que ainda vibra na admiração do povo pelos actores é um resto incompreendido disso.
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Robert Musil in O Homem sem Qualidades

19.2.10

Os Dias Bons (correio dos leitores)

Michelle Pheiffer
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imagem recebida por e-mail de Manuel do Ó Pereira

18.2.10

Remember

Adventures of Huckleberry Finn de Mark Twain
Capa de primeira edição editada em 1884 no Canada e Reino Unido
e em Fevereiro de 1885 nos Estados Unidos

17.2.10

Os Dias Bons



Um único acto

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O processo de um único acto pode prolongar-se, literalmente, até ao fim dos tempos, até que a própria humanidade tenha chegado do fim.
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Hannah Arendt in A Condição Humana, 1958
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11.2.10

Remember

Henry David Thoreau ( 12 Julho 1817 - 6 Maio 1862 )

Vida Ilusória

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Ao mesmo tempo que a realidade é uma fábula, simulações e enganos são considerados como as verdades mais sólidas. Se os homens se detivessem a observar apenas as realidades, e não se permitissem ser enganados, a vida, comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou as histórias das Mil e Uma Noites. Se respeitássemos apenas o que é inevitável e tem direito a ser, a música e a poesia ressoariam pelas ruas fora. Quando somos calmos e sábios, percebemos que só as coisas grandes e dignas têm existência permanente e absoluta, que os pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombra da realidade, o que é sempre estimulante e sublime. Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem ser enganados pelas aparências, os homens em toda a parte estabelecem e confinam as suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente ilusórias.
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Henry David Thoreau in Walden ou a Vida nos Bosques

10.2.10

Os Dias Bons (correio dos leitores)

Rita Hayword ou Jessica Rabitt? Smoking was aloud! Those were the days.
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recebido por e-mail de Manuel do Ó Pereira
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O Tempo e o Espírito

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O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinquenta ou cem vezes mais que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo.
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Virginia Woolf (1882-1941) in Orlando

5.2.10

Os Dias Bons

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Splendor in the Grass (1961) um filme de Elia Kazan com Natalie Wood e Warren Beatty

Splendor in the Grass (correio dos leitores)

William Wordsworth (1770-1850)
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What though the radiance
which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendor in the grass,
of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.
*
A luz que brilhava tão intensamente
Foi agora arrancada dos meus olhos,
E embora nada possa devolver os momentos
De esplendor na relva e glória nas flores,
Não sofreremos, melhor,
Encontraremos força no que ficou para trás.
.
recebido por e-mail de Manuel do Ó Pereira
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Lembrar

Eugénio de Andrade
(Póvoa da Atalaia, 19-01-1923 / Porto, 13-06-2005)
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1.2.10

JOÃO DO Ó PACHECO

João gostava do ofício da escrita, dos livros, da madrugada, do mar, da ciência e, consequentemente, do mistério. Gostava das "filosofias" orientais, do budismo, do "Tao", dos exercícios que tornam mais leve a alma, gostava de rir e de eloquências breves. João gostava com convicção dos amigos, da filosofia, do passado, da solidão. João sabia da escrita, das coisas antigas, de uma "paz que se alcançará". É sempre pouco o que dizemos das pessoas que marcaram a nossa vida e nunca esqueceremos. Neste lugar, o mais importante não é o que se diz, mas o que se viveu e o que se sente. .

Estes são "Os Livros da Minha Vida" por João do Ó Pacheco:

A Obra ao Negro de Marguerite Yourcenar
As Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira
As Brumas de Avalon (tetralogia) de Marion Zimmer Bradley
Biologia das Paixões de Jean-Didier Vincent
Cien Años de Soledad de Gabriel Garcia Márquez
Données Immédiates de la Conscience (Essai) de Henri Bergson
Fausto de Johann W. von Goethe
Ficções de Jorge Luis Borges
Kobor Tigan't - chronique des géants de Christia Sylf
Le Matin des Magiciens de Louis Pauwels et Jacques Bergier
Memorial do Convento de Jose Saramago
O Budismo Zen de Alan W.Watts
O Castelo de Franz Kafka
O Pêndulo de Foucault de Umberto Eco
O Templo Doirado de Yukio Mishima
Proposed Roads to Freedom: Socialism, Anarchism and Syndicalism by Bertrand Russell
Psycho Cybernetics by Maxwell Maltz
Tao Te Ching de Lao Tzé
The Adventures of a Reluctant Messiah by Richard Bach
The Journey to the East by Hermann Hesse
The Tibetan Book of Living and Dying by Sogyal Rinpoche
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29.1.10

Os Objectos são Consoladores

.
Talvez os objectos sejam consoladores. Em especial os antigos, feitos de barro, feitos por homens com outra mentalidade. Os objectos são aquilo que não somos, aquilo que nunca chegaremos a ser. Será que as pessoas fazem as coisas para definir os limites da personalidade? Os objectos são os limites de que necessitamos desesperadamente. Mostram-nos onde terminamos. Dissipam temporariamente a nossa tristeza.

Don DeLillo in Os Nomes
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28.1.10

Remember

Emily Dickinson
Amherst, Massachussetts 10 -12-1830 / 15-05-1886