25.4.10

Os Dias Bons

25 de Abril de 1974 , na foto destaca-se o Capitão Salgueiro Maia, o herói do dia

21.4.10

A Tirania do Medo

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O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objectivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero.
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Bertrand Russell (1872-1970) in A Última Oportunidade do Homem
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Ava


20.4.10

A Hora da Estrela

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(...)
Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho. Quando eu era pequeno pensava que de um momento para outro eu cairia para fora do mundo. Por que as nuvens não caem, já que tudo cai? É que a gravidade é menor que a força do ar que as levanta.Inteligente, não é? Sim, mas caem um dia em chuva.
(...)
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Clarice Lispector, 1977
(excerto retirado daqui )
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Clarice


Os dias bons

Praia da Arrifana, Aljezur

18.4.10

Os Dias Bons

São Torpes, Sines, Dezembro de 2009

16.4.10

Qualidades de Sentimento

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«Um charco», pensou, «dá-nos muitas vezes, e de forma mais intensa, a impressão de profundidade do que o oceano, pela simples razão de que a vivência dos charcos é muito mais frequente do que a dos oceanos: era, segundo ele, o que acontecia com o sentimento, e pela mesma razão os sentimentos mais banais passavam por ser os mais profundos. De facto, a preferência que se dá ao sentir, mais do que ao sentimento, que é a marca de todas as pessoas sensíveis às emoções, conduz, tal como o desejo de fazer sentir e de ser levado a sentir, comum a todas as instituições postas ao serviço do sentimento, a uma diminuição do nível e da essência do sentimento face à sua manifestação instantânea como estado de ordem pessoal, e finalmente àquela superficialidade, inibição e total insignificância para as quais não faltam exemplos.
«É natural que um ponto de vista como este», pensou Ulrich, completando a sua observação, «choque todos aqueles que se sentem bem nos seus sentimentos, como o galo nas suas penas, e que ainda por cima estejam convencidos de que a eternidade recomeça com cada "personalidade"!» Tinha a nítida percepção de estar perante um erro monstruoso, à dimensão de toda a humanidade, mas não conseguiu exprimir isso de maneira inteiramente satisfatória, uma vez que as implicações eram múltiplas e complexas.

Robert Musil (1880-1942) in O Homem sem Qualidades
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14.4.10

Os dias Bons

Navio Escola Sagres, Dia da Marinha em Sines, Maio de 2006



Acho tão Natural que não se Pense

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Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro

11.4.10

Avec le temps...

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le coeur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
Chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
L'autre qu'on devinait au détour d'un regard
Entre les mots, entre les lignes et sous le fard
D'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
Avec le temps tout s'évanouit

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Même les plus chouettes souvenirs, ça, t'as une de ces gueules
A la gallerie j'farfouille dans les rayons d'la mort
Le samedi soir quand la tendresse s'en va toute seule

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
L'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
Pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
Devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
Avec le temps, va, tout va bien

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie les passions et l'on oublie les voix
Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
Ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
Et l'on se sent floué par les années perdues, alors vraiment
Avec le temps on n'aime plus


Léo Ferré

8.4.10

Os Dias Bons

Ava Gardner, 1942



7.4.10

Quando o Homem Quer

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Sim, o homem é o seu próprio fim. E é o seu único fim. Se quer ser qualquer coisa, tem de ser nesta vida. Agora sei, aliás, que embora conquistadores falem algumas vezes de vencer e de exceder, o que eles querem sempre dizer é «excederem-se». Suponho que sabem o que isto quer dizer. Em certos momentos, todos os homens se sentem iguais a um deus. É assim, pelo menos, que se diz. Mas isto vem do facto de eles terem sentido, num instante, a espantosa grandeza do espírito humano. Os conquistadores são somente aqueles homens que sentem a sua força, o bastante para terem a certeza de viver constantemente nessas alturas e na plena consciência dessa grandeza. É uma questão de aritmética, de mais ou de menos. Os conquistadores são os que podem mais. Mas não podem mais do que o próprio homem quando ele o quer. É por isso que eles nunca deixam o crisol humano, mergulhando no mais ardente da alma das revoluções.
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Albert Camus (1913-1960) in O Mito de Sísifo
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6.4.10

Os Dias Bons

Peter Fonda em Easy Rider , 1969

3.4.10

Os Dias Bons

Rock 'n' Roll Sur les Quais de Paris, 1950's , Paul Almasy
Correio dos Leitores / Sujestão de Paula Daqui

Um dia branco



Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Antologia
Círculo de Poesia Moraes Editores, 1975




31.3.10

Arcade Fire - Intervention


Arcade Fire - "Intervention" do álbum Neon Bible de 2007

Imagens do Filme "The Battleship Potemkin" de Sergei Eisenstein (1898 –1948) de 1925

Intervention

The king's taken back the throne
The useless seed is sown
When they say they're cutting off the phone
I tell 'em you're not home

No place to hide
You were fighting as a soldier on their side
You're still a soldier in your mind
Though nothing's on the line

You say it's money that we need
As if we're only mouths to feed
I know no matter what you say
There are some debts you'll never pay

Working for the Church while your family dies
You take what they give you and you keep it inside
Ever spark of friendship and love will die without a home
Hear the solider groan, "We'll go at it alone"

I can taste the fear
Lift me up and take me out of here
Don't wanna fight, don't wanna die
Just wanna hear you cry

Who's gonna throw the very first stone?
Oh! Who's gonna reset the bone?
Walking with your head in a sling
Wanna hear the solider sing:
"Been working for the Church while my family dies
Your little baby sister's gonna lose her mind
Every spark of friendship and love will die without a home"
Hear the soldier groan "We'll go at it alone.

I can taste your fear
It's gonna lift you up and take you out of here
And the bone shall never heal
I care not if you kneel

We can't find you now
But they're gonna get the money back somehow
And when you finally disappear
We'll just say you were never here

Working for the church while your life falls apart
Singing halleluiah with the fear in your heart
Every spark of friendship and love will die without a home
Hear the solider groan, "We'll go at it alone"
Hear the solider groan, "We'll go at it alone"

Arcade Fire – Neon Bible - 2007

Rosa


29.3.10

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
.
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
.
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".
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Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
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Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Lembrar

Sophia de Mello Breyner Adresen (1919-2004)

25.3.10

Moonlight

Joseph M.W. Turner (1775–1851)
Keelmen Heaving in Coals by Moonlight
Collection of the National Gallery, Washington D.C.

21.3.10

Bach - Violin concerto No.2, Allegro


Johann Sebastian Bach
(Eisenach, 21-03-1685 / Leipzig, 28-07-1750)

19.3.10

Amor


Amor louco de paixão efémera, que fica para sempre numa presença de chuva branda sobre os campos. Amor breve, de passagem. Amor que transforma, que nos faz querer ser melhores. Amor maduro, de silêncio e amizade atravessado por uma linha de tristeza. Amor fechado e perene que habita casas de madeira antiga e linhos trabalhados. Amor de mãos que se tocam levemente, de risos emaranhados de música e frescura. Amor triste, vivido na espera, no fim da espera de uma noite esvaziada. Amor que golpeia, que derruba e nos espezinha em flor, no culminar da grandeza. Amor que se quer dar, porque é tanto, ao outro que é pobre de amor e o nega. Amor em movimento que equilibra e vence com um gesto certeiro de mão e dança. Amor de alma que vagueia na altitude e prescinde do corpo e das palavras. Amor que fica guardado no mais íntimo lugar e aroma de um lenço, uma pequena folha de papel, um livro. Amor que regressa velho da lonjura do tempo e se faz novo no ondular de uma música...
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(reposição)

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18.3.10

Margarete

de Anselm Kiefer, 1981

17.3.10

Quinze Pontos na Alma (Under My Skin) - Teaser


Um filme de Vicente Alves do Ó. Com Rita Loureiro, Marcello Urgeghe, João Reis, Carmen Santos, Dalila Carmo, Ivo Canelas, Ana Moreira, Filipe Vargas e Maya Booth. Uma produção da Filmes de Fundo.

16.3.10

Os Dias Bons

Edward G. Robinson

15.3.10

Sunrise with Sea Monsters

John Mallord W. Turner /1845
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Remember

Hannah Arendt / 1906-1975

As Coisas Efémeras são as Mais Necessárias

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Das coisas tangíveis, as menos duráveis são as necessárias ao próprio processo da vida. O seu consumo mal sobrevive ao acto da sua produção; no dizer de Locke, todas essas «boas coisas» que são «realmente úteis à vida do homem», à «necessidade de subsistir», são «geralmente de curta duração, de tal modo que - se não forem consumidas pelo uso - se deteriorarão e perecerão por si mesmas».
Após breve permanência neste mundo, retomam ao processo natural que as produziu, seja através de absorção no processo vital do animal humano, seja através da decomposição; e, sob a forma que lhes dá o homem, através da qual adquirem um lugar efémero no mundo das coisas feitas pelas mãos do homem, desaparecem mais rapidamente que qualquer outra parcela do mundo.
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Hannah Arendt in A Condição Humana
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12.3.10

Os Dias Bons

Clint Eastwood

Só se Cria na Diversidade

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Todos os pensamentos que renunciam à unidade exaltam a diversidade. E a diversidade é o local da arte. O único pensamento que liberta o espírito é aquele que o deixa só, certo dos seus limites e do seu fim próximo. Nenhuma doutrina o solicita. Ele espera o amadurecimento da obra e da vida. Separada dele, a primeira fará ouvir, uma vez mais, a voz levemente ensurdecida de uma alma para todo o sempre liberta da esperança. Ou nada fará ouvir, se o criador, cansado do seu jogo, pretende afastar-se. Tudo isso se equivale.
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Albert Camus in O Mito de Sísifo
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11.3.10

Os Dias Bons


The Beatles / Sylvie Vartan / Paris / 1964

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O advento de heróis e de carrascos

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Trazemos connosco personalidades potenciais que acontecimentos ou acidentes podem potencializar. Assim, a Revolução fez surgir o génio político ou militar nos jovens destinados a uma carreira medíocre numa época normal; a guerra provoca o advento de heróis e de carrascos; a ditadura totalitária transformou seres pálidos em monstros. O exercício incontrolado do poder pode «tornar o sábio louco» (Alain) mas pode tornar sábio o louco, e dar génio ao medíocre, como no caso de Hitler e Estaline. E também as possibilidades de génio ou de demência, de crueldade ou de bondade, de santidade ou de monstruosidade, virtuais em todos os seres, podem desenvolver-se em circunstâncias excepcionais. Inversamente, estas possibilidades nunca chegarão à luz do dia na chamada vida normal: nos nossos dias, César seria funcionário da CEE, Alexandre teria escrito uma vida de Aristóteles para uma colecção de divulgação, Robespierre seria adjunto de Pierre Mauroy na Câmara de Arras, e Bonaparte seria do séquito de Pascua.
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Edgar Morin in Os Meus Demónios
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3.3.10

O Encanto Perdido (reposição)



Na imagem vemos Gene Tierney . A fotografia será dos inícios dos anos 40 ou mesmo do final da década de 30. É fácil advinhar que a sua carreira estava ainda a começar. Há no seu rosto qualquer coisa de autêntico que as cameras e a fama ainda não haviam tomado. Há uma promessa no ar.
Nesse tempo, parece que ainda existiam muitos traços a definir, muitos caminhos a percorrer, muita vida por experimentar. Vivia-se a infância de qualquer coisa que hoje me parece decadente, sem encanto. Talvez não seja somente na pureza do preto e branco que desvendamos tudo isto, mas na vida que se mostra para além deles.
E porque será que nos parece mais distante este tempo do que outro anterior? Talvez porque desse outro tempo mais recôndido escasseiem as imagens para o confrontarmos e neste temos já a imagem do nosso tempo, mas com tudo o que perdemos nestes 60 anos. Se o pensamento é quase sempre uma imagem, seremos capazes de encontrar um novo sentido no invisível?