22.7.10

O Teu Olhar nos Meus Olhos



Sempre onde tu estás
Naquilo que faço
Viras-te agarras os braços

Toco-te onde te viras
O teu olhar nos meus olhos

Viro-me para tocar nos teus braços
Agarras o meu tocar em ti

Toco-te para te ter de ti
A única forma do teu olhar
Viro o teu rosto para mim

Sempre onde tu estás
Toco-te para te amar olho para os teus olhos.

Harold Pinter in Várias Vozes

16.7.10

Os Dias Bons

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The Beatles, Miami Beach, 1964
Foto de John Loengard
Copyright: © John Loengard
in LIFE magazine: February 28, 1964
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A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

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A única alegria neste mundo é a de começar. É belo viver, porque viver é começar, sempre, a cada instante. Quando esta sensação desaparece - prisão, doença, hábito, estupidez - deseja-se morrer. É por isso que quando uma situação dolorosa se reproduz de modo idêntico - parece idêntica - nada apaga o horror que tal coisa nos provoca. O princípio acima enunciado não é, portanto, próprio de um viveur. Porque há mais hábito na experiência a todo o custo do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e inteligência. Estou convencido de que há mais hábito nas aventuras de do que num bom casamento. Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura. A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo.
.../...
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Cesare Pavese in O Ofício de Viver
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15.7.10

Os Dias Bons


Porto da Barra 09
/ foto de Marc Dumas
Copyright: © Marc Dumas


No Verão

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tiram-se centenas de fotografias em frente à estátua de Vasco da Gama, esse navegador português do tempo mítico que olha o Atlântico do seu olhar de pedra, como nós.
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13.7.10

Os Dias Bons


James Dean / Foto by Roy Schatt /1954
Medium: Silver Gelatin Archival Fiber Print
Copyright: © Roy Schatt


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Agiremos de acordo com esses princípios?

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Muitos de nós somos verdadeiros heróis na forma como lidamos e enfrentamos cada dia.
Se todos os heróis têm causas, quais serão as nossas? Ainda as teremos?
De mim não sei dizer. Que causas serão as minhas? Em concreto, não sei. Talvez já só restem os sonhos: Gostaria que o mundo fosse melhor para todos, mais justo, mais solidário. Que todos pudessem ter acesso ao conhecimento e à liberdade da imaginação e da escolha. Que todos pudessem ter condições para observar a beleza e para sentir e viver o amor.
Todos sonhamos este tipo de coisas, mas será que é esse o caminho que tentamos seguir diariamente? Agiremos de acordo com esses princípios? Não andaremos todos alienados a sobrevalorizar áreas da nossa vida?
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12.7.10

Os Dias Bons

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"Marlon Brando with Cat" at his home in Los Angeles, California, 1954
Copyright:© Murray Garrett

Os Filisteus (in a Lei Seca )

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Indivíduos de uma direita dogmaticamente «liberal», aliados a uma esquerda analfabeta, deram agora em atacar os artistas independentes. Armam-se em tontos, perguntando por que razão chamamos «independentes» a artistas «subsidiados», como se não percebessem que a «independência» é uma situação profissional, enquanto o «subsídio» é um modo de financiamento. Todos os artistas não vinculados a uma instituição são «independentes». Não existe nenhuma contradição entre isso e o facto de algumas artes precisarem de apoio financeiro, uma vez que não são sustentáveis apenas com a bilheteira. Dir-me-ão que devem ser pagos por mecenas, patronos, fundações? Óptimo, excelente, magnífico, eu também acho isso, assim a Lei do Mecenato funcione bem e os capitalistas mostrem um módico de apetência cultural. Mas claro que o discurso sobre os «independentes subsidiados», mascarado de indignação fiscal, é apenas o arremesso filisteu do costume. O velho ódio à cultura. O que a direita dogmática e a esquerda analfabeta querem é que tudo o que não dê lucro acabe de vez. Fazem-se de cosmopolitas, mas são uns taberneiros.
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Pedro Mexia in a A Lei Seca - 7/12/2010

Um índio - Caetano Veloso

Um Índio

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante

Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico

Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio


letra de uma canção de Caetano Veloso

9.7.10

Os Dias Bons

John Garfield & Lana Turner
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in LIFE MAGAZINE " Swimsuit-clad actors John Garfield and Lana Turner
romantically wading hand-in-hand in the frothing surf at Laguna Beach
in a scene scene fr. the movie "The Postman Always Rings Twice"
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Povoamento

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No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova Primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da Primavera
.
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. Ruy Belo in Aquele Grande Rio Eufrates

8.7.10

Dama com Arminho

Leonardo da Vinci ( Vinci, 1452- Amboise, 1519)
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(Retrato de Cecília Gallerani de 1485 foi encomendado por Ludovico Sforza)

De quantas graças tinha, a Natureza

De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.

Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.

Luís de Camões (1524-1580)

7.7.10

Beleza

Até quando poderemos somente apreciar a bela natureza sem que isso nos cause a impressão de sermos superficiais, indiferentes aos problemas humanos e oriundos de um velho mundo que, para o seu prazer, quis ver o que lá não estava?
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Praia

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Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios
.
As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços
.
A praia é longa e lisa sob o vento
Saturada de espaços e maresia
.
E para trás de mim fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.
..
Sophia de Mellho Breyner Andresen
.

6.7.10

Os Dias Bons


As Amoras


O meu país sabe as amoras bravas
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
..
Sophia de Mello Breyner Andresen

5.7.10

Manoel de Barros, um grande poeta

Manoel de Barros, poeta brasileiro, nasceu no Beco da Marinha,
nas margens do Rio Cuiabá em Dezembro de 1916.
É advogado mas também fazendeiro e sobretudo poeta.
A sua primeira obra data de 1937: Poemas concebidos sem pecado.

in O Guardador de Águas


I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.


II

Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.



III

Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio líquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é Março.

.../...


Manoel de Barros

2.7.10

Vinil




O que será ( À flor da pele)

.
O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho
.
O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido
.
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
.
Chico Buarque, 1976

29.6.10

Os Dias Bons

Pedro Almodovar nas filmagens de Matador ,1985





28.6.10

Cesaria Evora - Cabo Verde

Para atravessar contigo o deserto do mundo



Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen in Livro Sexto (1962)

25.6.10

Os Dias Bons

Pelé e Eusébio



A Arte de ser Feliz

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Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crinças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como reflectidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
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Cecília Meireles (Rio de Janeiro 07-11-1901 / 09-11-1964)

24.6.10

Remember

Paul Celan
(Cernăuţi, 23 November 1920 / Paris, 20 April 1970)


Fala Também Tu

..
Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.
.
Fala —
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.
.
Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta quanta exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.
.
Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! —
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.
.
Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?
.
Sobe. Tacteia no ar.
Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se a cintilar: na ondulação
das palavras errantes.
.
Paul Celan
in De Limiar em Limiar
.
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

22.6.10

A Racionalidade Irracional

.
Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.
Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra? Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer. Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias.
.
José Saramago in Diálogos com José Saramago

18.6.10

José Saramago

José Saramago ( 16-11-1922 / 18-06-2010 )

Os amantes sem dinheiro

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Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
. Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
.

Eugénio de Andrade (1923-2005)
.

17.6.10

Os Dias Bons


.

Intimidade


Se dois homens ou duas mulheres têm de partilhar por algum tempo o mesmo espaço (em viagem, numa carruagem-cama ou numa pensão superlotada), não é raro nascerem nessas situações amizades muito singulares. Cada um tem a sua maneira especial de lavar os dentes, de se curvar para descalçar os sapatos ou de encolher as pernas para dormir. A roupa interior, e o resto do vestuário, embora semelhantes, revelam, no pormenor, inúmeras pequenas diferenças a um olhar atento. A princípio - provavelmente devido ao individualismo excessivo do modo de vida actual - existe qualquer coisa como uma resistência semelhante a uma leve repugnância e que rejeita uma aproximação maior, uma ofensa contra a própria personalidade, até ao momento em que essa resistência é superada para dar lugar a uma comunidade que revela uma estranha origem, como uma cicatriz. Muitas pessoas mostram-se, depois de uma tal transformação, mais alegres do que normalmente são; a maior parte mais inofensivas; uma boa parte delas mais faladoras; e quase todas mais amáveis. A sua personalidade mudou, quase se poderia dizer que foi trocada, subcutaneamente, por outra, menos marcada: no lugar do eu surge o primeiro indício de um nós, claramente sentido como um mal-estar e uma diminuição, mas, no fundo, irresistível.
.

Robert Musil (1880-1942) in O Homem sem Qualidades


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14.6.10

13.6.10

Beijo

pormenor de Le Baiser, Auguste Rodin, 1882
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Era o beijo a sair da pedra, a voar
na delicada neve que se desfaz a florir
Era o beijo a prender o fugitivo segundo
que esmorece na espuma da próxima onda
.
MJB

26.5.10

Never Land Days


Inquietude

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Há ainda mais inquietude no ar. Parece que se está no começo de uma nova era, no levantar de uma onda, numa grande mudança. Mas talvez seja apenas a inquietude de que tudo nos escapa, que estamos realmente suspensos, à deriva no espaço, sós ...

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21.5.10

"Vintage photographic postcard, circa 1907, uncirculated, divided back,
published by Berthaud Frères (B.F.), Paris, France"

20.5.10

O Comboio

Mário Eloy (1900-1951)