9.9.10

Será Verdade?

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O homem não é mais do que a sua imagem. Os filósofos bem podem explicar-nos que a opinião do mundo pouco conta e que só importa aquilo que somos. Mas os filósofos não percebem nada. Enquanto vivermos entre os seres humanos, seremos aquilo que os seres humanos considerarem que somos. Passamos por velhacos ou manhosos quando não paramos de perguntar a nós próprios como nos vêem os outros, quando nos esforçamos por ser o mais simpáticos possível. Mas entre o meu eu e o do outro, existirá algum contacto directo, sem a mediação dos olhos? Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.
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Milan Kundera in A Imortalidade
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6.9.10

Os Dias Bons

"Clark Gable enjoying a break with Jeanette MacDonald
during the filming of San Francisco on the MGM lot." (1936)

Fotografia de Alfred Eisenstaed
Copyright: © Alfred Eisenstaedt

Inspiração do Homem que Pensa

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Não há nada de mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor respondeu um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: «pensando ininterruptamente nelas». E de facto bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São, em grande parte, o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio, uma perseverança assim! Mas, vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco, apenas com a diferença de que não fazemos tantas tentativas ao acaso, mas sabemos já, por experiência, mais ou menos como fazer as coisas. E se uma cabeça inteligente, como é óbvio, revela muito mais habilidade e experiência nas voltas que dá do que uma cabeça estúpida, o momento em que consegue passar não é para ela menos surpreendente; de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo facto de as ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor. A essa sensação desconcertante chamamos nós hoje em dia intuição, depois de, antes, outros lhe terem chamado inspiração, e julgamos ver nisso algo de suprapessoal; mas trata-se antes de qualquer coisa de impessoal, concretamente da afinidade e da coerência das próprias coisas que se encontram na nossa cabeça.
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Robert Musil in O Homem sem Qualidades I
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3.9.10

Os dias bons

Tom Jobim e Vinicius de Morais, 1962

Wave ... para cantar



Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho...

O resto é mar
É tudo que não sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho à brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho...

Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade...

Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver...

Vou te contar...
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Tom Jobim, 1967

2.9.10

Os dias bons


Times Square Kiss, fotografia de Alfred Eisenstaedt,
lembra-nos o fim da Segunda Guerra Mundial, 1945

Capitulação do Japão

Em 2 de setembro de 1945, o Japão assinou a declaração de capitulação da Segunda Guerra Mundial. Pouco antes, a Força Aérea dos Estados Unidos havia arrasado as cidades de Hiroshima e Nagasaki com bombas nucleares.

"...o inimigo começou a empregar uma nova e aterrorizante bomba, capaz de matar muitas pessoas inocentes e cujo poder de destruição é incalculável. Se continuássemos a lutar, isto significaria não apenas o fim da nação japonesa, como também levaria ao extermínio completo da civilização humana..."

Estas foram as palavras do imperador Hirohito, pronunciadas alguns dias após o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. No dia 2 de setembro de 1945, o império japonês capitulou. "Nós ganhamos o jogo", comentou Harry S. Truman, então presidente norte-americano, o lançamento das bombas, logo após a assinatura da rendição japonesa, efetuada no navio de guerra USS Missouri.
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artigo retirado da DW-World DE - Calendário Histórico
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Paz

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Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.
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Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.
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Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.
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Natália Correia in Poemas (1955)

29.8.10

CEM POEMAS DE EMILY


Poems by Emily Dickinson, 1890

Toda a obra de Emily Dickinson (Amherst, Massachussetts 10 -12-1830 / 15-05-1886) foi editada postumamente, tendo sido de imediato reconhecida e aclamada pelos críticos literários e outros escritores

Poems by Emily Dickinson foi a primeira obra a ser editada (com uma organização de Mabel Loomis Todd & T. W. Higginson) em Boston pela Robert Brothers no ano de 1890, quatro anos após a sua morte.

Diz toda a Verdade


Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente -
O êxito está no Circuito
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer
A esplêndida surpresa da Verdade
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Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças
Com uma amável explicação
A Verdade deve ofuscar gradualmente
Ou cada homem ficará cego -
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Emily Dickinson (1830-1886) in Poemas e Cartas
Tradução de Nuno Júdice

27.8.10

Os Dias Bons


A Vida Vazia da Cidade

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Instalámo-nos, portanto, na cidade. Aí toda a vida é suportável para as pessoas infelizes. Um homem pode viver cem anos na cidade, sem dar por que morreu e apodreceu há muito. Falta tempo para o exame de consciência. As ocupações, os negócios, os contactos sociais, a saúde, as doenças e a educação das crianças preenchem-nos o tempo. Tão depressa se tem de receber visitas e retribuí-las, como se tem de ir a um espectáculo, a uma exposição ou a uma conferência. De facto, na cidade aparece a todo o momento uma celebridade, duas ou três ao mesmo tempo que não se pode deixar de perder. Tão depressa se tem de seguir um regime, tratar disto ou daquilo, como se tem de falar com os professores, os explicadores, as governantas. A vida torna-se assim completamente vazia.
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Leon Tolstoi in Sonata a Kreutzer
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26.8.10

Leão

Liev Tolstói, também conhecido como Léon Tolstói
ou Leão Tolstoi ou Leo Tolstoy, Lev Nikoláievich Tolstói
(Yasnaya Poluana 9/9/1828 — Astapovo 20/11/1910 )

Os Excluídos

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Quem comete um erro é excluído; é fechado dentro de uma caixa. Quem está fora vê apenas a caixa. Mas quem está fechado, excluído, consegue ver cá para fora. Vê tudo, vê-nos a todos. Em cada compartimento há dezenas de caixas. Milhares de caixas por todo o lado. A maior parte delas vazia. Outras têm lá dentro pessoas excluídas. Ninguém sabe quais as caixas que têm pessoas. As caixas são tantas que ninguém lhes dá importância. Pode estar lá uma pessoa, até a que amas, mas nem olhas. Já não produzem efeito. Passas por elas centenas de vezes.
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Gonçalo M. Tavares in Jerusálem

25.8.10

Laço Branco

Audrey Hepburn


Nas Montanhas

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A influência exercida sobre a nossa alma, pelos diferentes lugares, é uma coisa digna de observação. Se a melancolia nos conquista infalivelmente quando estamos à beira das águas, uma outra lei da nossa natureza impressionante faz com que, nas montanhas, os nossos sentimentos se purifiquem: ali a paixão ganha em profundidade o que parece perder em vivacidade.

Honoré de Balzac in A Mulher de Trinta Anos
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Lembrar

Eduardo Prado Coelho (29-03-1944 /25-08-2007)

23.8.10

Os dias bons

Alain Delon and Romy Schneider, anos 60

Todos Pensam de Forma Diferente

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Cada indivíduo vê o mundo - e o que este tem de acabado, de regular, de complexo e de perfeito - como se se tratasse apenas de um elemento da Natureza a partir do qual tivesse que constituir um outro mundo, particular, adaptado às suas necessidades. Os homens mais capazes tomam-no sem hesitações e procuram na medida do possível comportar-se de acordo com ele. Há outros que não se conseguem decidir e que ficam parados a olhar para ele. E há ainda os que chegam ao ponto de duvidar da existência do mundo. Se alguém se sentisse tocado por esta verdade fundamental, nunca mais entraria em disputas e passaria a considerar, quer as representações que os outros possam fazer das coisas, quer a sua, como meros fenómenos. Porque de facto verificamos quase todos os dias que aquilo que um indivíduo consegue pensar com toda a facilidade pode ser impossível de pensar para um outro. E não apenas em relação a questões que tivessem uma qualquer influência no bem estar ou no sofrimento das pessoas, mas também a propósito de assuntos que nos são totalmente indiferentes.
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Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

18.8.10

Demoiselle

Françoise Dorléac (21 March 1942 – 26 June 1967)
(irmã de Catherine Deneuve)

O tempo

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O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel.
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Platão ( Atenas 428/427 - 348/347 a.C.)

1.8.10

Os Dias Bons


Tina Turner fotografada por Murray Garrett durante uma sessão de gravação
Los Angeles, California, 1961

Copyright: © Murray Garrett / Photographers Gallery

Não me sinto mudar

Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.


Pablo Neruda in Cadernos de Temuco
Tradução de Albano Martins

23.7.10

Os Dias Bons


Gosto imenso do trabalho deste fotágrafo: Marc Dumas

Porto da Barra
Copyright: © Marc Dumas
ver mais: Aqui

22.7.10

Ardemos de amor

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Ardemos de amor por nós mesmos, todos nós, ateamos o fogo que nos consome - o nosso amor é o sofrimento para o qual a única cura é o nosso amor..."


in Está Tudo Iluminado de Jonathan Safran Foer

Os Dias Bons




O Teu Olhar nos Meus Olhos



Sempre onde tu estás
Naquilo que faço
Viras-te agarras os braços

Toco-te onde te viras
O teu olhar nos meus olhos

Viro-me para tocar nos teus braços
Agarras o meu tocar em ti

Toco-te para te ter de ti
A única forma do teu olhar
Viro o teu rosto para mim

Sempre onde tu estás
Toco-te para te amar olho para os teus olhos.

Harold Pinter in Várias Vozes

16.7.10

Os Dias Bons

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The Beatles, Miami Beach, 1964
Foto de John Loengard
Copyright: © John Loengard
in LIFE magazine: February 28, 1964
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A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

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.../...
A única alegria neste mundo é a de começar. É belo viver, porque viver é começar, sempre, a cada instante. Quando esta sensação desaparece - prisão, doença, hábito, estupidez - deseja-se morrer. É por isso que quando uma situação dolorosa se reproduz de modo idêntico - parece idêntica - nada apaga o horror que tal coisa nos provoca. O princípio acima enunciado não é, portanto, próprio de um viveur. Porque há mais hábito na experiência a todo o custo do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e inteligência. Estou convencido de que há mais hábito nas aventuras de do que num bom casamento. Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura. A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo.
.../...
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Cesare Pavese in O Ofício de Viver
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15.7.10

Os Dias Bons


Porto da Barra 09
/ foto de Marc Dumas
Copyright: © Marc Dumas


No Verão

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tiram-se centenas de fotografias em frente à estátua de Vasco da Gama, esse navegador português do tempo mítico que olha o Atlântico do seu olhar de pedra, como nós.
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13.7.10

Os Dias Bons


James Dean / Foto by Roy Schatt /1954
Medium: Silver Gelatin Archival Fiber Print
Copyright: © Roy Schatt


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Agiremos de acordo com esses princípios?

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Muitos de nós somos verdadeiros heróis na forma como lidamos e enfrentamos cada dia.
Se todos os heróis têm causas, quais serão as nossas? Ainda as teremos?
De mim não sei dizer. Que causas serão as minhas? Em concreto, não sei. Talvez já só restem os sonhos: Gostaria que o mundo fosse melhor para todos, mais justo, mais solidário. Que todos pudessem ter acesso ao conhecimento e à liberdade da imaginação e da escolha. Que todos pudessem ter condições para observar a beleza e para sentir e viver o amor.
Todos sonhamos este tipo de coisas, mas será que é esse o caminho que tentamos seguir diariamente? Agiremos de acordo com esses princípios? Não andaremos todos alienados a sobrevalorizar áreas da nossa vida?
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12.7.10

Os Dias Bons

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"Marlon Brando with Cat" at his home in Los Angeles, California, 1954
Copyright:© Murray Garrett

Os Filisteus (in a Lei Seca )

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Indivíduos de uma direita dogmaticamente «liberal», aliados a uma esquerda analfabeta, deram agora em atacar os artistas independentes. Armam-se em tontos, perguntando por que razão chamamos «independentes» a artistas «subsidiados», como se não percebessem que a «independência» é uma situação profissional, enquanto o «subsídio» é um modo de financiamento. Todos os artistas não vinculados a uma instituição são «independentes». Não existe nenhuma contradição entre isso e o facto de algumas artes precisarem de apoio financeiro, uma vez que não são sustentáveis apenas com a bilheteira. Dir-me-ão que devem ser pagos por mecenas, patronos, fundações? Óptimo, excelente, magnífico, eu também acho isso, assim a Lei do Mecenato funcione bem e os capitalistas mostrem um módico de apetência cultural. Mas claro que o discurso sobre os «independentes subsidiados», mascarado de indignação fiscal, é apenas o arremesso filisteu do costume. O velho ódio à cultura. O que a direita dogmática e a esquerda analfabeta querem é que tudo o que não dê lucro acabe de vez. Fazem-se de cosmopolitas, mas são uns taberneiros.
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Pedro Mexia in a A Lei Seca - 7/12/2010

Um índio - Caetano Veloso

Um Índio

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante

Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico

Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio


letra de uma canção de Caetano Veloso

9.7.10

Os Dias Bons

John Garfield & Lana Turner
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in LIFE MAGAZINE " Swimsuit-clad actors John Garfield and Lana Turner
romantically wading hand-in-hand in the frothing surf at Laguna Beach
in a scene scene fr. the movie "The Postman Always Rings Twice"
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Povoamento

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No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova Primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da Primavera
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. Ruy Belo in Aquele Grande Rio Eufrates

8.7.10

Dama com Arminho

Leonardo da Vinci ( Vinci, 1452- Amboise, 1519)
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(Retrato de Cecília Gallerani de 1485 foi encomendado por Ludovico Sforza)