
18.10.10
17.10.10
É possível?
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É possível (...) que não se tenha visto, conhecido e dito nada de real e importante? É possível que se tenha tido milénios para olhar, reflectir e anotar e que se tenha deixado passar os milénios como uma pausa escolar, durante a qual se come fatias de pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, apesar das investigações e dos progressos, apesar da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado na superfície da vida? É possível que até se tenha coberto essa superfície - que, apesar de tudo, seria qualquer coisa - com um pano incrivelmente aborrecido, de tal modo que se assemelhe aos móveis da sala durante as férias de Verão?
Sim, é possível.
É possível que toda a História Universal tenha sido mal-entendida? É possível que o passado seja falso, precisamente porque sempre se falou das suas multidões, como se dissertasse sobre uma aglomeração de pessoas, em vez de falar de uma única, em torno da qual elas estavam, porque se tratava de um desconhecido que morreu?
Sim, é possível.
(...)
É possível (...) que não se tenha visto, conhecido e dito nada de real e importante? É possível que se tenha tido milénios para olhar, reflectir e anotar e que se tenha deixado passar os milénios como uma pausa escolar, durante a qual se come fatias de pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, apesar das investigações e dos progressos, apesar da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado na superfície da vida? É possível que até se tenha coberto essa superfície - que, apesar de tudo, seria qualquer coisa - com um pano incrivelmente aborrecido, de tal modo que se assemelhe aos móveis da sala durante as férias de Verão?
Sim, é possível.
É possível que toda a História Universal tenha sido mal-entendida? É possível que o passado seja falso, precisamente porque sempre se falou das suas multidões, como se dissertasse sobre uma aglomeração de pessoas, em vez de falar de uma única, em torno da qual elas estavam, porque se tratava de um desconhecido que morreu?
Sim, é possível.
(...)
É possível que todas estas pessoas conheçam em pormenor um passado que nunca houve? É possível que todas as realidades nada sejam para elas; que a sua vida decorra, desligada de tudo, como um relógio numa sala vazia?
Sim, é possível
É possível que nada se saiba das raparigas que, no entanto, vivem? É possível que se diga «as mulheres», «as crianças», «os rapazes» e não se faça a mínima ideia (apesar de toda a cultura não se faça a mínima ideia) de que há muito que estas palavras não têm plural, mas apenas inúmeros singulares?
Sim, é possível.
(...)
Sim, é possível
É possível que nada se saiba das raparigas que, no entanto, vivem? É possível que se diga «as mulheres», «as crianças», «os rapazes» e não se faça a mínima ideia (apesar de toda a cultura não se faça a mínima ideia) de que há muito que estas palavras não têm plural, mas apenas inúmeros singulares?
Sim, é possível.
(...)
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Rainer Maria Rilke in Cadernos de Malte Lauridis Brigge (1910)
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14.10.10
Os dias muito bons
Um momento feliz para todos nós e que nos ajuda a compreender muitas coisas sobre "seres humanos". Ontem todos fomos irmãos do Chile. O Chile deu também ao mundo uma lição. Conseguiu transformar uma fatalidade ocorrida num precário país num momento de projecção nacional pelo mundo inteiro. Coragem, profissionalismo, resistência, alegria. Parabéns!
13.10.10
6.10.10
Mil Maneiras de Amar
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Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra não produz todas as coisas: tal convém à vinha, tal à oliveira; aqui despontarão cereais em abundância. Há nos corações tantos caracteres diferentes, quantos rostos há no mundo. O homem prudente acomodar-se-á a estes inumeráveis caracteres; novo Proteu, tão depressa se diluirá em ondas fluidas para logo ser um leão, uma árvore, um javali de eriçadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arpão, ali com o anzol, acolá com as redes puxadas pela corda estendida. E o mesmo método não convirá a todas as idades: uma corça velha descobrirá a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma noviça, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiará que a vais tornar infeliz. Assim é que a mulher que às vezes teme entregar-se a um homem honesto, caiu vergonhosamente nos braços de alguém que a não merece.
.Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra não produz todas as coisas: tal convém à vinha, tal à oliveira; aqui despontarão cereais em abundância. Há nos corações tantos caracteres diferentes, quantos rostos há no mundo. O homem prudente acomodar-se-á a estes inumeráveis caracteres; novo Proteu, tão depressa se diluirá em ondas fluidas para logo ser um leão, uma árvore, um javali de eriçadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arpão, ali com o anzol, acolá com as redes puxadas pela corda estendida. E o mesmo método não convirá a todas as idades: uma corça velha descobrirá a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma noviça, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiará que a vais tornar infeliz. Assim é que a mulher que às vezes teme entregar-se a um homem honesto, caiu vergonhosamente nos braços de alguém que a não merece.
Ovídio in A Arte de Amar
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1.10.10
30.9.10
A nossa vitória de cada dia
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Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
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Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.
Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
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Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.
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Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
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Clarice Lispector in Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
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Clarice Lispector in Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
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29.9.10
Os Dias Bons
Observavam a Missão Apolo 11 no Aeroporto International JFKInterior view of the International Arrival Building at John F. Kennedy International Airport (formerly known as Idlewild Airport) shows a crowd of passengers as they stand under a massive mobile (entitiled '.125' and designed by artist Alexander Calder) and watch a large screen television that broadcasts the Apollo 11 moon landing mission, New York, New York, July 20, 1969.
(Photo by CBS Photo Archive/Getty Images)
27.9.10
Em Portugal
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Em Portugal fala-se da crise, do "problema" grave, dos medicamentos sem comparticipação, do Orçamento de Estado, do FMI, da crise de identidade, da poupança, de uma coragem, do peso do Estado, do desemprego, da persistência, da novela política, do descrédito, da inutilidade, da mentira ... e ainda não começamos a pensar a sério.
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Em Portugal fala-se da crise, do "problema" grave, dos medicamentos sem comparticipação, do Orçamento de Estado, do FMI, da crise de identidade, da poupança, de uma coragem, do peso do Estado, do desemprego, da persistência, da novela política, do descrédito, da inutilidade, da mentira ... e ainda não começamos a pensar a sério.
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Os Solitários
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No solitário, a reclusão, ainda que absoluta e até ao fim da vida, tem muitas vezes por princípio um amor desregrado da multidão e tanto mais forte do que qualquer outro sentimento, que ele, não podendo obter, quando sai, a admiração da porteira, dos transeuntes, do cocheiro ali estacionado, prefere jamais ser visto e renunciar por isso a toda e qualquer actividade que o obrigue a sair para a rua.
Marcel Proust (1871-1922) in À Sombra das Raparigas em Flor
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25.9.10
24.9.10
23.9.10
PAPEL DE FUMAR
MANOEL DE BARROS, Poeta do Pantanal
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Borboleta, pardal, assobio, vento. E também rã, tarde, luar, peixe são palavras-essências do “poeta das pequenas coisas”. Manoel de Barros é um alquimista. A partir do quase nada, inventa a grandeza do infinito. Tudo é importante para a poesia deste escritor, principalmente as coisas sem importância: “As coisas jogadas fora/têm grande importância/- como um homem jogado fora”. A ave, o lixo, “as pedras que cheiram”, “um homem que possui um pente” serve para a sua poesia.
Quando se lê Manoel de Barros, tem-se a sensação de se crescer ao contrário. Cresce-se para uma criança que descobre a natureza em transfiguração: “O delírio do verbo estava no começo, lá onde a/criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos". Esta linguagem, completamente nova, obriga a esquecer tudo o que se aprendeu, a ver de novo: “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”. O mundo torna-se tão claro, como pode ser clara a manhã, a água, o nascimento. Escuta-se o som primordial, entende-se a treva como se entende a árvore ou rio. Tudo faz parte da mesma natureza, tudo está equilibrado, no mesmo caos com sentido. Há quem diga que natureza nunca mais foi a mesma depois de passar pelos seus poemas. O Pantanal, como o mundo inteiro, estão lá , numa paz breve e eterna.
Nasceu em 1916, no Beco da Marinha, na beira do Rio Cuiabá. Mais tarde, fixou-se em Corumbá, Mato Grosso. Foi sempre um homem discreto. Viajou, estudou o mundo e refugiou-se de novo no Pantanal, em Campo Grande. Manoel de Barros é advogado, fazendeiro e, claro, poeta. Poemas concebidos sem Pecado, o primeiro livro que publicou (1937), foi concebido artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele. Em 1960, a Academia Brasileira das Letras atribuiu o Prémio Orlando Dantas à sua obra Compêndio para Uso dos Pássaros e, em 1998, recebeu o Prémio Nacional do Ministério da Cultura. É comparado a Guimarães Rosa pela grandeza do seu trabalho e, sobretudo, pelo seu gosto de inventar palavras, de “enlouquecer os verbos” e de alterar o sentido das coisas: “O ocaso me ampliou para formiga”; “ Escuto a cor dos peixes”; “Sou muito comum como pedras”.
Cronologicamente pertence à geração de 45, embora o tenha recusado sempre. Defende que tal como ele não se sente pertença de nenhuma geração, também outros poetas que admira não o são: “Em que geração podemos classificar Rimbaud?”. Refere sempre este poeta francês nas suas raras entrevistas. Sabe-se que o conhecimento da sua poesia, foi determinante para o seu trabalho: despertou-o para a procura de uma linguagem própria. Curiosamente, também menciona os escritos de Padre António Vieira, que o estimularam para a ressonância das frases, como se cada frase fosse uma unidade rítmica.
Só muito recentemente podemos encontrar a poesia de Manoel de Barros nas nossas livrarias. São sobretudo edições da Editora brasileira Record. As Edições Quasi, Editora de Vila Nova de Famalicão, em Outubro do ano passado, pôs fim a esta ausência editorial, publicando O Encantador de Palavras, uma pequena antologia de 30 poemas do autor. Este livro conta com um excelente prefácio do jovem poeta Valter Hugo Mãe, que a certa altura nos diz: “Não há nada na sua obra que se afaste da perfeição (...) Manoel é poeta com jeito para deus, sabe criar um mundo onde possamos viver”. Deixem-se tocar pela poesia que “apalpa as intimidades do mundo”.
Quando se lê Manoel de Barros, tem-se a sensação de se crescer ao contrário. Cresce-se para uma criança que descobre a natureza em transfiguração: “O delírio do verbo estava no começo, lá onde a/criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos". Esta linguagem, completamente nova, obriga a esquecer tudo o que se aprendeu, a ver de novo: “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”. O mundo torna-se tão claro, como pode ser clara a manhã, a água, o nascimento. Escuta-se o som primordial, entende-se a treva como se entende a árvore ou rio. Tudo faz parte da mesma natureza, tudo está equilibrado, no mesmo caos com sentido. Há quem diga que natureza nunca mais foi a mesma depois de passar pelos seus poemas. O Pantanal, como o mundo inteiro, estão lá , numa paz breve e eterna.
Nasceu em 1916, no Beco da Marinha, na beira do Rio Cuiabá. Mais tarde, fixou-se em Corumbá, Mato Grosso. Foi sempre um homem discreto. Viajou, estudou o mundo e refugiou-se de novo no Pantanal, em Campo Grande. Manoel de Barros é advogado, fazendeiro e, claro, poeta. Poemas concebidos sem Pecado, o primeiro livro que publicou (1937), foi concebido artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele. Em 1960, a Academia Brasileira das Letras atribuiu o Prémio Orlando Dantas à sua obra Compêndio para Uso dos Pássaros e, em 1998, recebeu o Prémio Nacional do Ministério da Cultura. É comparado a Guimarães Rosa pela grandeza do seu trabalho e, sobretudo, pelo seu gosto de inventar palavras, de “enlouquecer os verbos” e de alterar o sentido das coisas: “O ocaso me ampliou para formiga”; “ Escuto a cor dos peixes”; “Sou muito comum como pedras”.
Cronologicamente pertence à geração de 45, embora o tenha recusado sempre. Defende que tal como ele não se sente pertença de nenhuma geração, também outros poetas que admira não o são: “Em que geração podemos classificar Rimbaud?”. Refere sempre este poeta francês nas suas raras entrevistas. Sabe-se que o conhecimento da sua poesia, foi determinante para o seu trabalho: despertou-o para a procura de uma linguagem própria. Curiosamente, também menciona os escritos de Padre António Vieira, que o estimularam para a ressonância das frases, como se cada frase fosse uma unidade rítmica.
Só muito recentemente podemos encontrar a poesia de Manoel de Barros nas nossas livrarias. São sobretudo edições da Editora brasileira Record. As Edições Quasi, Editora de Vila Nova de Famalicão, em Outubro do ano passado, pôs fim a esta ausência editorial, publicando O Encantador de Palavras, uma pequena antologia de 30 poemas do autor. Este livro conta com um excelente prefácio do jovem poeta Valter Hugo Mãe, que a certa altura nos diz: “Não há nada na sua obra que se afaste da perfeição (...) Manoel é poeta com jeito para deus, sabe criar um mundo onde possamos viver”. Deixem-se tocar pela poesia que “apalpa as intimidades do mundo”.
(crónica publicada no Jornal O Sudoeste )
19.9.10
O Amor
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Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
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A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
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A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
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Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável
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A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma
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Assim é o amor: mortal e navegável.
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Eugénio de Andrade in Obscuro Domínio
Eugénio de Andrade in Obscuro Domínio
16.9.10
de novo O Amor
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O Amor parece ligar-se às leis da Natureza, da evolução. O Amor será sempre o Amor, talvez a essência da nossa sobrevivência, sem a qual não nos cumpriríamos enquanto Humanidade. O Amor será sempre algo à parte, tão à parte que não nos pede explicações, justificações. Ao lado dele todas as grandes coisas esmorecem. Nem a razão o enfrenta, mas na sua experiência e prática, salva-a.
O Amor parece ligar-se às leis da Natureza, da evolução. O Amor será sempre o Amor, talvez a essência da nossa sobrevivência, sem a qual não nos cumpriríamos enquanto Humanidade. O Amor será sempre algo à parte, tão à parte que não nos pede explicações, justificações. Ao lado dele todas as grandes coisas esmorecem. Nem a razão o enfrenta, mas na sua experiência e prática, salva-a.
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13.9.10
Que tempo é o nosso?
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Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.
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E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.
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Eugénio de Andrade in Os Afluentes do Silêncio
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10.9.10
blues da morte de amor
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já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
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Vasco Graça Moura in Antologia dos Sessenta Anos
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já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
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a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
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há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
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Vasco Graça Moura in Antologia dos Sessenta Anos
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9.9.10
Será Verdade?
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O homem não é mais do que a sua imagem. Os filósofos bem podem explicar-nos que a opinião do mundo pouco conta e que só importa aquilo que somos. Mas os filósofos não percebem nada. Enquanto vivermos entre os seres humanos, seremos aquilo que os seres humanos considerarem que somos. Passamos por velhacos ou manhosos quando não paramos de perguntar a nós próprios como nos vêem os outros, quando nos esforçamos por ser o mais simpáticos possível. Mas entre o meu eu e o do outro, existirá algum contacto directo, sem a mediação dos olhos? Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.
.O homem não é mais do que a sua imagem. Os filósofos bem podem explicar-nos que a opinião do mundo pouco conta e que só importa aquilo que somos. Mas os filósofos não percebem nada. Enquanto vivermos entre os seres humanos, seremos aquilo que os seres humanos considerarem que somos. Passamos por velhacos ou manhosos quando não paramos de perguntar a nós próprios como nos vêem os outros, quando nos esforçamos por ser o mais simpáticos possível. Mas entre o meu eu e o do outro, existirá algum contacto directo, sem a mediação dos olhos? Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.
Milan Kundera in A Imortalidade
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6.9.10
Os Dias Bons
during the filming of San Francisco on the MGM lot." (1936)
Fotografia de Alfred Eisenstaed
Copyright: © Alfred Eisenstaedt
Inspiração do Homem que Pensa
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Não há nada de mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor respondeu um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: «pensando ininterruptamente nelas». E de facto bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São, em grande parte, o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio, uma perseverança assim! Mas, vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco, apenas com a diferença de que não fazemos tantas tentativas ao acaso, mas sabemos já, por experiência, mais ou menos como fazer as coisas. E se uma cabeça inteligente, como é óbvio, revela muito mais habilidade e experiência nas voltas que dá do que uma cabeça estúpida, o momento em que consegue passar não é para ela menos surpreendente; de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo facto de as ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor. A essa sensação desconcertante chamamos nós hoje em dia intuição, depois de, antes, outros lhe terem chamado inspiração, e julgamos ver nisso algo de suprapessoal; mas trata-se antes de qualquer coisa de impessoal, concretamente da afinidade e da coerência das próprias coisas que se encontram na nossa cabeça.
Não há nada de mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor respondeu um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: «pensando ininterruptamente nelas». E de facto bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São, em grande parte, o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio, uma perseverança assim! Mas, vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco, apenas com a diferença de que não fazemos tantas tentativas ao acaso, mas sabemos já, por experiência, mais ou menos como fazer as coisas. E se uma cabeça inteligente, como é óbvio, revela muito mais habilidade e experiência nas voltas que dá do que uma cabeça estúpida, o momento em que consegue passar não é para ela menos surpreendente; de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo facto de as ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor. A essa sensação desconcertante chamamos nós hoje em dia intuição, depois de, antes, outros lhe terem chamado inspiração, e julgamos ver nisso algo de suprapessoal; mas trata-se antes de qualquer coisa de impessoal, concretamente da afinidade e da coerência das próprias coisas que se encontram na nossa cabeça.
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Robert Musil in O Homem sem Qualidades I
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3.9.10
Wave ... para cantar
Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho...
O resto é mar
É tudo que não sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho à brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho...
Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade...
Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver...
Vou te contar...
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Tom Jobim, 1967
2.9.10
Os dias bons
Capitulação do Japão
Em 2 de setembro de 1945, o Japão assinou a declaração de capitulação da Segunda Guerra Mundial. Pouco antes, a Força Aérea dos Estados Unidos havia arrasado as cidades de Hiroshima e Nagasaki com bombas nucleares.
"...o inimigo começou a empregar uma nova e aterrorizante bomba, capaz de matar muitas pessoas inocentes e cujo poder de destruição é incalculável. Se continuássemos a lutar, isto significaria não apenas o fim da nação japonesa, como também levaria ao extermínio completo da civilização humana..."
Estas foram as palavras do imperador Hirohito, pronunciadas alguns dias após o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. No dia 2 de setembro de 1945, o império japonês capitulou. "Nós ganhamos o jogo", comentou Harry S. Truman, então presidente norte-americano, o lançamento das bombas, logo após a assinatura da rendição japonesa, efetuada no navio de guerra USS Missouri.
"...o inimigo começou a empregar uma nova e aterrorizante bomba, capaz de matar muitas pessoas inocentes e cujo poder de destruição é incalculável. Se continuássemos a lutar, isto significaria não apenas o fim da nação japonesa, como também levaria ao extermínio completo da civilização humana..."
Estas foram as palavras do imperador Hirohito, pronunciadas alguns dias após o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. No dia 2 de setembro de 1945, o império japonês capitulou. "Nós ganhamos o jogo", comentou Harry S. Truman, então presidente norte-americano, o lançamento das bombas, logo após a assinatura da rendição japonesa, efetuada no navio de guerra USS Missouri.
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artigo retirado da DW-World DE - Calendário Histórico
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Paz
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Irreprimível natureza
Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.
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Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.
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Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.
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Natália Correia in Poemas (1955)
30.8.10
29.8.10
Poems by Emily Dickinson, 1890
Toda a obra de Emily Dickinson (Amherst, Massachussetts 10 -12-1830 / 15-05-1886) foi editada postumamente, tendo sido de imediato reconhecida e aclamada pelos críticos literários e outros escritores
Poems by Emily Dickinson foi a primeira obra a ser editada (com uma organização de Mabel Loomis Todd & T. W. Higginson) em Boston pela Robert Brothers no ano de 1890, quatro anos após a sua morte.
Diz toda a Verdade
Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente -
O êxito está no Circuito
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer
A esplêndida surpresa da Verdade
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Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças
Com uma amável explicação
A Verdade deve ofuscar gradualmente
Ou cada homem ficará cego -
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Emily Dickinson (1830-1886) in Poemas e Cartas
Tradução de Nuno Júdice
27.8.10
A Vida Vazia da Cidade
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Instalámo-nos, portanto, na cidade. Aí toda a vida é suportável para as pessoas infelizes. Um homem pode viver cem anos na cidade, sem dar por que morreu e apodreceu há muito. Falta tempo para o exame de consciência. As ocupações, os negócios, os contactos sociais, a saúde, as doenças e a educação das crianças preenchem-nos o tempo. Tão depressa se tem de receber visitas e retribuí-las, como se tem de ir a um espectáculo, a uma exposição ou a uma conferência. De facto, na cidade aparece a todo o momento uma celebridade, duas ou três ao mesmo tempo que não se pode deixar de perder. Tão depressa se tem de seguir um regime, tratar disto ou daquilo, como se tem de falar com os professores, os explicadores, as governantas. A vida torna-se assim completamente vazia.
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Leon Tolstoi in Sonata a Kreutzer
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Instalámo-nos, portanto, na cidade. Aí toda a vida é suportável para as pessoas infelizes. Um homem pode viver cem anos na cidade, sem dar por que morreu e apodreceu há muito. Falta tempo para o exame de consciência. As ocupações, os negócios, os contactos sociais, a saúde, as doenças e a educação das crianças preenchem-nos o tempo. Tão depressa se tem de receber visitas e retribuí-las, como se tem de ir a um espectáculo, a uma exposição ou a uma conferência. De facto, na cidade aparece a todo o momento uma celebridade, duas ou três ao mesmo tempo que não se pode deixar de perder. Tão depressa se tem de seguir um regime, tratar disto ou daquilo, como se tem de falar com os professores, os explicadores, as governantas. A vida torna-se assim completamente vazia.
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Leon Tolstoi in Sonata a Kreutzer
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26.8.10
Leão
ou Leão Tolstoi ou Leo Tolstoy, Lev Nikoláievich Tolstói
(Yasnaya Poluana 9/9/1828 — Astapovo 20/11/1910 )
Os Excluídos
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Quem comete um erro é excluído; é fechado dentro de uma caixa. Quem está fora vê apenas a caixa. Mas quem está fechado, excluído, consegue ver cá para fora. Vê tudo, vê-nos a todos. Em cada compartimento há dezenas de caixas. Milhares de caixas por todo o lado. A maior parte delas vazia. Outras têm lá dentro pessoas excluídas. Ninguém sabe quais as caixas que têm pessoas. As caixas são tantas que ninguém lhes dá importância. Pode estar lá uma pessoa, até a que amas, mas nem olhas. Já não produzem efeito. Passas por elas centenas de vezes.
,Quem comete um erro é excluído; é fechado dentro de uma caixa. Quem está fora vê apenas a caixa. Mas quem está fechado, excluído, consegue ver cá para fora. Vê tudo, vê-nos a todos. Em cada compartimento há dezenas de caixas. Milhares de caixas por todo o lado. A maior parte delas vazia. Outras têm lá dentro pessoas excluídas. Ninguém sabe quais as caixas que têm pessoas. As caixas são tantas que ninguém lhes dá importância. Pode estar lá uma pessoa, até a que amas, mas nem olhas. Já não produzem efeito. Passas por elas centenas de vezes.
Gonçalo M. Tavares in Jerusálem
25.8.10
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