4.11.10

Alberto Giacometti

Alberto Giacometti (1901-1966)



Encontro

Beth Koch Photographs of the University of California, Irvine.
Special Collections and Archives, The UC Irvine Libraries, Irvine, California.

Quero ouvir o vento que vem da tua pele

Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele,
e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.
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Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser
este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na
palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos
para provar o sabor que tem carne incandescente das estrelas.
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Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti possa buscar
o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me
com os teus antigos braços de criança
para desamarrar em mim a eternidade, a soma formidável
de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram.
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Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.
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Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,
para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros
pequeninos. Só essa água fará reconhecer
o mais profundo, o mais imenso amor do universo,
e eu quero que dele fiquem a saber
até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.
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Joaquim Pessoa
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( trazido desta janela )
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3.11.10

Os Dias Bons


Um Segredo de um Casamento Feliz

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"Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.
Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.
Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.
O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.
O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.
Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.
O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.
Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.
Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.
O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.
Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.
Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.
Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.
Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.
Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!
Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.
É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados.
Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.
Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.
Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.
Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados.
Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados. E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.
Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.
Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.
Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.
Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.
Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más. As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.
As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.
Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.
Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.
Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro.
Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.
No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.
Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.
A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.
Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.
Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar. "
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Miguel Esteves Cardoso in Jornal Público
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28.10.10

Frases que já não se dizem


primeira edição de Brave New World de Aldous Huxley (1932)
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26.10.10

Muda a Vida ou Muda o Poema

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Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço. A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar. E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal. Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema.
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Gonçalo M. Tavares in A Perna Esquerda de Paris
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25.10.10

Os Dias Bons

Checkers, 1946 / Fotografia de Ed Clark
Copyright: © Ed Clark


20.10.10

Aos agentes de poder e opinião envolvidos na reflexão da crise económica portuguesa

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Às vezes é preciso dizer, outras é preciso fazer, em silêncio, fazer.
Não se repitam, já ninguém vos ouve, já ninguém é capaz de reter nada, nenhum número, nenhuma medida, nada. Façam o que têm que fazer, façam com rigor e sentido de responsabilidade. Se o fizessem, se dessem o exemplo, talvez vos seguissemos e um dia, já crescidos, mais fortes e capazes de andar em frente, vocês já não parecessem ser tão importantes.
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Os Dias Bons


19.10.10

Quem É Que Tu Amas?

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- Quem é que tu amas? - continuou Murphy. - Eu, tal como sou. Podes desejar o que não existe, não podes amá-lo. - Nada mal, para um Murphy. - Se assim é, por que diabo te esforças tanto para me modificar? Para poderes deixar de me amar - aqui, a voz subiu e atingiu uma nota bastante honrosa - para deixares de estar condenada a amar-me, para seres dispensada de me amar.
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Samuel Beckett (1906-1989) in Murphy, 1938

17.10.10

É possível?

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É possível (...) que não se tenha visto, conhecido e dito nada de real e importante? É possível que se tenha tido milénios para olhar, reflectir e anotar e que se tenha deixado passar os milénios como uma pausa escolar, durante a qual se come fatias de pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, apesar das investigações e dos progressos, apesar da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado na superfície da vida? É possível que até se tenha coberto essa superfície - que, apesar de tudo, seria qualquer coisa - com um pano incrivelmente aborrecido, de tal modo que se assemelhe aos móveis da sala durante as férias de Verão?
Sim, é possível.
É possível que toda a História Universal tenha sido mal-entendida? É possível que o passado seja falso, precisamente porque sempre se falou das suas multidões, como se dissertasse sobre uma aglomeração de pessoas, em vez de falar de uma única, em torno da qual elas estavam, porque se tratava de um desconhecido que morreu?
Sim, é possível.
(...)
É possível que todas estas pessoas conheçam em pormenor um passado que nunca houve? É possível que todas as realidades nada sejam para elas; que a sua vida decorra, desligada de tudo, como um relógio numa sala vazia?
Sim, é possível
É possível que nada se saiba das raparigas que, no entanto, vivem? É possível que se diga «as mulheres», «as crianças», «os rapazes» e não se faça a mínima ideia (apesar de toda a cultura não se faça a mínima ideia) de que há muito que estas palavras não têm plural, mas apenas inúmeros singulares?
Sim, é possível.
(...)
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Rainer Maria Rilke in Cadernos de Malte Lauridis Brigge (1910)
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14.10.10

Os dias muito bons

Um momento feliz para todos nós e que nos ajuda a compreender muitas coisas sobre "seres humanos". Ontem todos fomos irmãos do Chile.
O Chile deu também ao mundo uma lição. Conseguiu transformar uma fatalidade ocorrida num precário país num momento de projecção nacional pelo mundo inteiro. Coragem, profissionalismo, resistência, alegria. Parabéns!

6.10.10

Os Dias Bons


Mil Maneiras de Amar

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Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra não produz todas as coisas: tal convém à vinha, tal à oliveira; aqui despontarão cereais em abundância. Há nos corações tantos caracteres diferentes, quantos rostos há no mundo. O homem prudente acomodar-se-á a estes inumeráveis caracteres; novo Proteu, tão depressa se diluirá em ondas fluidas para logo ser um leão, uma árvore, um javali de eriçadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arpão, ali com o anzol, acolá com as redes puxadas pela corda estendida. E o mesmo método não convirá a todas as idades: uma corça velha descobrirá a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma noviça, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiará que a vais tornar infeliz. Assim é que a mulher que às vezes teme entregar-se a um homem honesto, caiu vergonhosamente nos braços de alguém que a não merece.
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Ovídio in A Arte de Amar
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1.10.10

Ivan Aivazovsky (1817-1900)

Os dias bons

Ingrid Bergman



30.9.10

A nossa vitória de cada dia

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Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
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Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.
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Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
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Clarice Lispector in Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
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29.9.10

Os Dias Bons

Observavam a Missão Apolo 11 no Aeroporto International JFK

Interior view of the International Arrival Building at John F. Kennedy International Airport (formerly known as Idlewild Airport) shows a crowd of passengers as they stand under a massive mobile (entitiled '.125' and designed by artist Alexander Calder) and watch a large screen television that broadcasts the Apollo 11 moon landing mission, New York, New York, July 20, 1969.
(Photo by CBS Photo Archive/Getty Images)

27.9.10

Poeta

Herberto Helder
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Em Portugal

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Em Portugal fala-se da crise, do "problema" grave, dos medicamentos sem comparticipação, do Orçamento de Estado, do FMI, da crise de identidade, da poupança, de uma coragem, do peso do Estado, do desemprego, da persistência, da novela política, do descrédito, da inutilidade, da mentira ... e ainda não começamos a pensar a sério.

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Os Solitários

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No solitário, a reclusão, ainda que absoluta e até ao fim da vida, tem muitas vezes por princípio um amor desregrado da multidão e tanto mais forte do que qualquer outro sentimento, que ele, não podendo obter, quando sai, a admiração da porteira, dos transeuntes, do cocheiro ali estacionado, prefere jamais ser visto e renunciar por isso a toda e qualquer actividade que o obrigue a sair para a rua.
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Marcel Proust (1871-1922) in À Sombra das Raparigas em Flor

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24.9.10

Os Dias Bons

Elizabeth Taylor durante as filmagens de Reflections in a Golden Eye, 1967
Fotografia de @Loomis Dean

23.9.10

Ave do Pantanal

O tuiuiú é uma ave pernalta, um dos símbolos mais vivos do Pantanal

PAPEL DE FUMAR

MANOEL DE BARROS, Poeta do Pantanal
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Borboleta, pardal, assobio, vento. E também rã, tarde, luar, peixe são palavras-essências do “poeta das pequenas coisas”. Manoel de Barros é um alquimista. A partir do quase nada, inventa a grandeza do infinito. Tudo é importante para a poesia deste escritor, principalmente as coisas sem importância: “As coisas jogadas fora/têm grande importância/- como um homem jogado fora”. A ave, o lixo, “as pedras que cheiram”, “um homem que possui um pente” serve para a sua poesia.
Quando se lê Manoel de Barros, tem-se a sensação de se crescer ao contrário. Cresce-se para uma criança que descobre a natureza em transfiguração: “O delírio do verbo estava no começo, lá onde a/criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos". Esta linguagem, completamente nova, obriga a esquecer tudo o que se aprendeu, a ver de novo: “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”. O mundo torna-se tão claro, como pode ser clara a manhã, a água, o nascimento. Escuta-se o som primordial, entende-se a treva como se entende a árvore ou rio. Tudo faz parte da mesma natureza, tudo está equilibrado, no mesmo caos com sentido. Há quem diga que natureza nunca mais foi a mesma depois de passar pelos seus poemas. O Pantanal, como o mundo inteiro, estão lá , numa paz breve e eterna.
Nasceu em 1916, no Beco da Marinha, na beira do Rio Cuiabá. Mais tarde, fixou-se em Corumbá, Mato Grosso. Foi sempre um homem discreto. Viajou, estudou o mundo e refugiou-se de novo no Pantanal, em Campo Grande. Manoel de Barros é advogado, fazendeiro e, claro, poeta. Poemas concebidos sem Pecado, o primeiro livro que publicou (1937), foi concebido artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele. Em 1960, a Academia Brasileira das Letras atribuiu o Prémio Orlando Dantas à sua obra Compêndio para Uso dos Pássaros e, em 1998, recebeu o Prémio Nacional do Ministério da Cultura. É comparado a Guimarães Rosa pela grandeza do seu trabalho e, sobretudo, pelo seu gosto de inventar palavras, de “enlouquecer os verbos” e de alterar o sentido das coisas: “O ocaso me ampliou para formiga”; “ Escuto a cor dos peixes”; “Sou muito comum como pedras”.
Cronologicamente pertence à geração de 45, embora o tenha recusado sempre. Defende que tal como ele não se sente pertença de nenhuma geração, também outros poetas que admira não o são: “Em que geração podemos classificar Rimbaud?”. Refere sempre este poeta francês nas suas raras entrevistas. Sabe-se que o conhecimento da sua poesia, foi determinante para o seu trabalho: despertou-o para a procura de uma linguagem própria. Curiosamente, também menciona os escritos de Padre António Vieira, que o estimularam para a ressonância das frases, como se cada frase fosse uma unidade rítmica.
Só muito recentemente podemos encontrar a poesia de Manoel de Barros nas nossas livrarias. São sobretudo edições da Editora brasileira Record. As Edições Quasi, Editora de Vila Nova de Famalicão, em Outubro do ano passado, pôs fim a esta ausência editorial, publicando O Encantador de Palavras, uma pequena antologia de 30 poemas do autor. Este livro conta com um excelente prefácio do jovem poeta Valter Hugo Mãe, que a certa altura nos diz: “Não há nada na sua obra que se afaste da perfeição (...) Manoel é poeta com jeito para deus, sabe criar um mundo onde possamos viver”. Deixem-se tocar pela poesia que “apalpa as intimidades do mundo”.

(crónica publicada no Jornal O Sudoeste )

19.9.10

les beaux jours...


les beaux jours


O Amor


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Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
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A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
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A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
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Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável
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A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma
..
Assim é o amor: mortal e navegável.
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Eugénio de Andrade in Obscuro Domínio



16.9.10

Remember

William Shakespeare (26.04.1564/23.04.1616)

de novo O Amor

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O Amor parece ligar-se às leis da Natureza, da evolução. O Amor será sempre o Amor, talvez a essência da nossa sobrevivência, sem a qual não nos cumpriríamos enquanto Humanidade. O Amor será sempre algo à parte, tão à parte que não nos pede explicações, justificações. Ao lado dele todas as grandes coisas esmorecem. Nem a razão o enfrenta, mas na sua experiência e prática, salva-a.
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13.9.10

Os Dias Bons

Audrey & Finney

Que tempo é o nosso?

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Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.
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E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.
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Eugénio de Andrade in Os Afluentes do Silêncio
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10.9.10

Os Dias Bons

Maryl Streep and Jeremy Irons
The French Lieutenant's Woman (1981)

blues da morte de amor

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já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
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a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
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há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
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Vasco Graça Moura in Antologia dos Sessenta Anos
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9.9.10

Who Am I Anyway?

título: Who Am I Anyway?
Fotografia de Scott Rhea * Copyright: © Scott Rhea

Será Verdade?

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O homem não é mais do que a sua imagem. Os filósofos bem podem explicar-nos que a opinião do mundo pouco conta e que só importa aquilo que somos. Mas os filósofos não percebem nada. Enquanto vivermos entre os seres humanos, seremos aquilo que os seres humanos considerarem que somos. Passamos por velhacos ou manhosos quando não paramos de perguntar a nós próprios como nos vêem os outros, quando nos esforçamos por ser o mais simpáticos possível. Mas entre o meu eu e o do outro, existirá algum contacto directo, sem a mediação dos olhos? Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.
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Milan Kundera in A Imortalidade
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6.9.10

Os Dias Bons

"Clark Gable enjoying a break with Jeanette MacDonald
during the filming of San Francisco on the MGM lot." (1936)

Fotografia de Alfred Eisenstaed
Copyright: © Alfred Eisenstaedt

Inspiração do Homem que Pensa

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Não há nada de mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor respondeu um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: «pensando ininterruptamente nelas». E de facto bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São, em grande parte, o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio, uma perseverança assim! Mas, vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco, apenas com a diferença de que não fazemos tantas tentativas ao acaso, mas sabemos já, por experiência, mais ou menos como fazer as coisas. E se uma cabeça inteligente, como é óbvio, revela muito mais habilidade e experiência nas voltas que dá do que uma cabeça estúpida, o momento em que consegue passar não é para ela menos surpreendente; de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo facto de as ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor. A essa sensação desconcertante chamamos nós hoje em dia intuição, depois de, antes, outros lhe terem chamado inspiração, e julgamos ver nisso algo de suprapessoal; mas trata-se antes de qualquer coisa de impessoal, concretamente da afinidade e da coerência das próprias coisas que se encontram na nossa cabeça.
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Robert Musil in O Homem sem Qualidades I
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3.9.10

Os dias bons

Tom Jobim e Vinicius de Morais, 1962

Wave ... para cantar



Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho...

O resto é mar
É tudo que não sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho à brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho...

Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade...

Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver...

Vou te contar...
.
Tom Jobim, 1967

2.9.10

Os dias bons


Times Square Kiss, fotografia de Alfred Eisenstaedt,
lembra-nos o fim da Segunda Guerra Mundial, 1945