21.12.10

Retrato de Mónica

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.
.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Contos Exemplares
.

20.12.10


Balança


.
No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.
.
Eugénio de Andrade

19.12.10


foto de Michael Magill / 14th street / NY /© Michael Magill

Sem acção, de nada vale a inteligência

.
Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o tacto: o único que pode alterar as coisas.
.
Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem inteligente, mas imóvel.
.
Gonçalo M. Tavares in Um Homem: Klaus Klump
.

16.12.10

Praga


Paraíso

.
"Fomos criados para vivermos no Paraíso, o Paraíso destinava-se a servir-nos.
O nosso destino foi alterado; que isto também tenha acontecido com
o destino do Paraíso, é algo que não se diz."
.
Franz Kafka in Aforísmos

11.12.10

Os Dias Bons

Paul Newman e sua mulher Joanne Woodward em Paris

Se tanto me dói que as coisas passem


Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

Sophia de Mello Breyner Andresen


9.12.10

Remembarance

de Kimio Tsuchiya ,"Remembarance", 2000
Salvaged wood, Stream

A Canção do Delirante Aengus

Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.

Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.

Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.

W. B. Yeats, 1899

Os Dias Bons

Rita Hayworth

8.12.10

Vivemos em suspenso

.
Vivemos em suspenso. Para além instabilidade vinda da especulação, das oscilações dos mercados, do descrédito nas instituições, há um movimento que nos sussura uma ideia de "fim dos tempos". Uma pedra cai sobre a água e afunda-se ...ouve-se o propagar do som. Estamos no auge do transitório e o medo desdobra-se em mil faces. Habituámo-nos a pensar que teríamos sempre uma mão que nos seguraria quando o corpo entrásse em queda. Mas e se a mão já não estiver lá? E se no novo tempo aquilo que conquistámos já não nos servir para nada? As pessoas estão agora a pensar no que realmente têm e que não pode ser "levado". São obrigadas a ver-se a confrontarem-se consigo mesmas. Talvez por isso se verifique uma maior apetência para a participação solidária. Mas são tempos perigosos. Perante a insatisfação geral facilmente se acede um rastilho e são propagadas as mais obscuras ideias. É tempo de reler a história e tentar ler os sinais vindos de todos os lados. É tempo de subir à montanha para poder ver mais longe. É tempo de resistir.
.

2.12.10

Remember

Joseph Mallord William Turner (1775-1851), ‘Self Portrait’ de 1799
Tate Gallery, London / © The Art Archive / Tate Gallery, London / Eileen Tweedy
,

1.12.10

Antes de um lugar há o seu nome


Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável.

Lembro-me

do quadriculado verde das colinas,
do sol entretido pelos telhados ao longe,
dos rebanhos empurrados nos carreiros,
de um cão pequeno que se atreveu à estrada.

Íamos ou vínhamos?

- Maria do Rosário Pedreira -

Não é Preciso

.

Não é preciso que a realidade exista
para acreditarmos nela. Na verdade,
se não existir tudo é mais luminoso.
Mundo, evidência submissa e soberana.
.

Pedro Mexia in Duplo Império,1999
.
Pintura de Wei Dong
Two Girls, 2006

30.11.10

Quem fixou os números?

As pessoas fixam-se nos números da crise, na forma como inverter os terríveis números que nos atiram para o abismo, as percentagens que nos poêm em perigo. As reformas a fazer são, sobretudo, para atingir números satisfatórios, para que nos possamos manter dentro dos parâmetros aceitáveis. E não há tempo a perder! No mundo de hoje já não há esse luxo "do tempo característico de cada país". Corram que os números ditam o nosso destino. Somos isso: somas, substrações, multiplicações. Ah, sim, e também divisões!

27.11.10

Com Fúria e Raiva


Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
.

Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas

Zayed National Museum

actualmente em construção na Saadiyaat Island em Abu Dhabi nos Emiratos Árabes Unidos.
São sempre impressionante as grandes construções, especialmente em zonas sem vegetação.

Museum of Islamic Art, Doah

esta uma imagem do interior do museu inaugurado em 2008, projectado pelo arquitecto I.M. Pei transporta-nos para um sonho das mil e uma noites. O dinheiro, o deserto e a antiga noite estrelada do Médio Oriente deve provocar esse efeito. Uma tentativa do Qatar para dar uma imagem moderna do Mundo Árabe ao resto do mundo.

26.11.10

Europa

Nunca tantos deveram tanto a tão poucos” – A frase de Winston Churchill foi pronunciada há 70 anos.
Os “tão poucos” eram os 2900 jovens pilotos da Royal Air Force que iriam enfrentar a superioridade numérica da força aérea alemã, a Luftwaffe, nos céus do Reino Unido.
O confronto ficou conhecido como “a batalha de Inglaterra” e foi decisivo. As palavras de Churchill, a 20 de Agosto de 1940, ficaram para a História: “Nunca, no campo dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos.”
Entre Julho e Outubro de 1940, a força aérea britânica impediu que o país fosse ocupado pelos nazis. No 70º aniversário do discurso de Churchill, um “Spitfire” e um “Hurricanes” voltaram a cruzar os céus de Londres.

Copyright © 2010 euronews

My Things

My things - Book-Keeping , 2006
Fotografia de Hong Hao


.

Europa

.

O velho museu esta a ruir.
O que há para salvar e compreender antes que o fogo pegue?
.

22.11.10

Aprender a Rezar na Era da Técnica

Lisboa, 22 nov (Lusa) -- O escritor Gonçalo M. Tavares é o vencedor do Prémio do Melhor Livro Estrangeiro publicado em França em 2010, com o romance "Aprender a Rezar na Era da Técnica", disse hoje à Lusa o seu editor, Zeferino Coelho.

Publicado em Portugal pela Caminho em 2007, o quarto romance da série "O Reino" (depois de "Um Homem: Klaus Klump", "A Máquina de Joseph Walser" e "Jerusalém"), chegou este ano às livrarias francesas com o título "Apprendre à Prier à l'Ère de la Technique", numa tradução de Dominique Nédellec, e foi também finalista de outros dois prestigiados prémios literários franceses: Femina e Médicis.


Homelands


Homelands’ , 2007
pintura de Mary Theresa Keown (N. Ireland 1974)

Trago-te ao Espaço da Janela

.

Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo
não tem grande lugar.
.
João Miguel Fernandes Jorge in Meridional

20.11.10

Untitled

fotografia de Chen Quilin, Untitled I , 2005

O Consumo não é Invenção do Capitalismo

,
Ninguém se encosta a si próprio tão
intensamente como quando sofre ou como
quando entra num mercado de uma
das nossas grandes cidades. 0 comércio
é feito de uma linguagem inesgotável:
sobra de um lado, falta de outro. 0 consumo,
por mais que o repitam, não é invenção do capitalismo:
os deuses formaram homens incompletos,
com estômago, frio e vaidade, como queriam outro resultado?
.
.
Gonçalo M. Tavares in Uma Viagem à Índia
.

19.11.10

retratos de Helena

de Helena Almeida

Tudo é breve

Tudo é breve
e o coração domina-se com o tempo
tudo é breve e pesado, tudo
até aqueles rubís, lembras-te? as raras jóias
vai tudo para o passado
para ser transformado
em pó, peso, saudade

17.11.10

Os Dias Bons

Princess Caroline of Monaco and Stefano Casiraghi (1960 - 1990), December 1983.
The couple were married on December 29th.
(Photo by Keystone/Hulton Archive/Getty Images)


15.11.10

Os Dias Bons

Castelo de Almourol, ontem

5.11.10

I decline

.

"I decline to accept the end of man."
.
William Faulkner (1897-1962) no "Discurso do Nobel" em 1949
.

um Lugar



Place with a Red Thing, 1980 / Vitor Willing (1928-1988)


na Casa das Histórias...

4.11.10

Alberto Giacometti

Alberto Giacometti (1901-1966)



Encontro

Beth Koch Photographs of the University of California, Irvine.
Special Collections and Archives, The UC Irvine Libraries, Irvine, California.

Quero ouvir o vento que vem da tua pele

Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele,
e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.
.
Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser
este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na
palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos
para provar o sabor que tem carne incandescente das estrelas.
.
Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti possa buscar
o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me
com os teus antigos braços de criança
para desamarrar em mim a eternidade, a soma formidável
de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram.
.
Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.
.
Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,
para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros
pequeninos. Só essa água fará reconhecer
o mais profundo, o mais imenso amor do universo,
e eu quero que dele fiquem a saber
até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.
.
Joaquim Pessoa
.
( trazido desta janela )
.