3.3.11

É preciso acreditar

É preciso acreditar nalguma coisa. E então, no que é que nós acreditamos? Com tanta informação, tanta diversidade, no que é que acreditamos? Para além do dia de hoje que ensaiamos concreto, para além do dia de amanhã que programamos, para além do que supomos ter e ser, no que é que acreditamos? No que vemos? No que sentimos? Mas é preciso acreditar em mais alguma coisa? A imaginação e a criatividade pressupõem essa condição, acreditar num mistério, no imponderável? Sim, porque em nenhum momento isso deixa de estar presente na nossa vida.
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2.3.11

Jane Russel ( 1921-2011)

27.2.11

O Êxito Parece a Mais Doce das Coisas

O êxito parece a mais doce das coisas
A quem nunca venceu na vida.
Ter a compreensão de um néctar
Exige a mais dolorosa necessidade.

De entre o purpúreo Exército
Que hoje empunhou a Bandeira
Nenhum outro poderá dar uma tão clara
Definição da Vitória

Como o vencido - agonizante -
Em cujo ouvido interdito
A distante ária triunfal
Ressoa nítida e pungente!
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Emily Dickinson in Poemas e Cartas
Tradução de Nuno Júdice
São Torpes, Sines, 2011

A Mulher Mais Bonita do Mundo


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estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
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José Luís Peixoto in A Casa, a Escuridão

25.2.11

24.2.11

Revolução

Chega-nos as faces do mundo que parece em mudança. Tentamos compreender, mas fazê-mo-lo à luz da nossa experiência.
Virá a revolução de uma árvore da mesma natureza? Sim. Mas e os seus frutos? A cada espécie de árvore os seus frutos.
Como se constrói um novo país? É isso que transparece no eco das vozes. Mais ainda, quer uma nova realidade.
Terão a realidade possível, a mudança possível, a que forem capazes de erguer.

23.2.11

Pintura de Nogah Engler (n.197o Tel Aviv)



20.2.11

Libertação

No Médio Oriente as cadeiras do poder estão a cair ou a tremer. Quem suspeitaria que tal pudesse acontecer? Como uma onda incontrolável que se propaga, uma vontade de mudança levantada sobretudo por jovens estudantes, vai atravessando as fronteiras através de um eco invisível das redes de comunicação.
Por um lado, as cadeiras do poder são sempre mais frágeis do que supomos, por outro, os meios de comunicação ajudam a atear a propagação de uma ideia que nem sempre corresponde à vontade real de um país. Toda a gente queria estar na praça Tahrir no momento da "libertação", sabendo que o mundo inteiro estava com os olhos postos naquele lugar. De repente, aquelas pessoas descobriam um novo sentimento de pertença a uma causa, sentiam que estavam a existir aos olhos do mundo e existir aos olhos do mundo é empolgante.

As cadeiras do poder do Médio Oriente estavam decrépitas, estagnadas no tempo. Todavia, a mim, parecia-me que iriam continuar "nesse mundo à parte" indeterminadamente, sutententadas, quem sabe, por o que chamam "o inimigo". Talvez por isso, tudo o que se está a passar me pareça estranho, compreensível, mas estranho. Não há muito tempo chegava-nos do Médio Oriente imagens que nos diziam o contrário. É verdade, somos tão manipulados pela imagem, porque somos isso mesmo, imagem. O que existe num outro lugar distante é a imagem.

Estou em comunhão com estas vozes que se levantam. É com grande alegria que vejo e leio notícias destes novos tempos no berço da civilização ocidental. Mas e o que virá depois? Quem são estas pessoas que querem a libertação, que ideias têm para os seus países, que sonhos sonharam? Que dimensão terão? Será um pulsar, uma vontade de um país inteiro? E quem estará agora a preparar o seu alcance ao poder?

18.2.11

A Imortalidade

Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar.
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Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.
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(...) Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os outros homens. Como Cornelio Agrippa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demónio e sou o mundo, o que é uma forma cansativa de dizer que não sou.
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(...) A morte (ou a sua alusão) torna os homens delicados e patéticos. Estes comovem-se pela sua condição de fantasmas. Cada acto que executam pode ser o último. Não há um rosto que não esteja por se desfigurar como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do perdido. Entre os Imortias, pelo contrário, cada acto (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o claro presságio de outros que, no futuro, o repetirão até à vertigem. Não há coisa que não esteja perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é primorosamente gratuito. O elegíaco, o grave, o cerimonial, não contam para os Imortais. Homero e eu separamo-nos nas portas de Tânger. Creio que não nos despedimos.
..
Jorge Luís Borges in O Imortal
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17.2.11

Os Dias Bons

... quando o tempo futuro é uma possibilidade luminosa

16.2.11

As cidades estão tortas

37.
E as cidades estão tortas - diz alguém que não Blooom-
porque os homens todos os orgãos se resumem
a uma função: a de competir.
As máquinas executam a parte física
de uma ordem anterior: dominar o dia
como se faz à árvore a que se impõe
a direcção de crescimento dos ramos.
Mas o dia não é matéria controlável.
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38.
O dia não é cercável como um exército,
por maior que este seja,
porque o dia é sempre maior do que um exército
por maior que este seja.
(O tempo sempre foi um espaço,
só que de inacreditáveis dimensões.
Tão grande que nenhum humano pode
dele ser proprietário.
Haverá a fechadura para os instantes, só que nunca
terás a chave)
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Gonçalo M. Tavares in Uma Viagem à Índia, 2010

10.2.11

Este Não-Futuro que a Gente Vive

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Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.
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Al Berto numa entrevista à revista Ler (1989)

9.2.11

Portugal

Um país numa imagem ...
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1.2.11

EGIPTO

Quando as pessoas querem podem mudar o decurso da História.
Esperemos que a mudança vá ao encontro da livre expressão de ideias, do bom funcionamento das instituições de Justiça, do desenvolvimento de uma sociedade civil tolerante. Esperemos que os egípcios estejam preparados para habitar uma sociedade assim e que a saibam construir à sua medida, guiados pelos melhores exemplos. Esperemos que o movimento deste povo possa trazer uma reflexão a todo Médio Oriente e não só!
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Como é bela a tua aurora



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Como é bela a tua aurora no horizonte do céu,
Ó Aton vivo, iniciador da vida!
Quando te ergues no Oriente,
Enches o universo de tua beleza.

És belo, grande, brilhante, alto acima da terra,
Teus raios envolvem a terra e tudo o que criaste.

És Rá e os tens todos cativos;

Uniste todos pelo teu amor
Embora estejas longe, teus raios estão sobre a terra;

Embora sejas alto, os rastos de teus passos são o dia.

Quando repousas no horizonte ocidental do céu,
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A terra está na obscuridade como a morte;
As pessoas dormem em seus quartos,
Envolvem a cabeça,
Suas narinas param de funcionar,
Ninguém vê seu vizinho,
Tudo o que lhes está sob a cabeça pode ser roubado.
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E não sentem.
Estão os leões saem de seu covil,
As serpentes picam...
O universo está em silencio,
Aquele que o fez repousa no horizonte. (...)

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poema do Faraó Akhenaton (o nono rei da XVIII Dinastia)
in THE DEVELOPMENT OF RELIGION AND THOUGHT IN ANCIENT EGGYPT. de J.H. Breasted

Os Dias Bons


Debbie Harry

31.1.11

Uma emoção que nos ultrapassa

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Vivemos sob um véu de irrealidade que nos ajuda a prosseguir o caminho através daquilo a que chamamos realidade. Há, porém, momentos em que nos sentimos a viver intensamente, ficamos completamente vulneráveis. Isso tem tanto de magnífico como de assustador para o entendimento. Acontece quando um dardo de fogo, gelo ou brisa atravessa o véu e ficamos expostos perante uma inteligibilidade ou uma emoção que nos ultrapassa. Nesses momentos sentimos que estamos realmente vivos. Mas parece que esse estado não nos é suportável por muito tempo. Dali a pouco tempo, mesmo que ainda tomados por esse estado de intensidade, começamos a distrair-nos, a construir o abstracto, a fragmentar os pensamentos.
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27.1.11

Os Dias Bons

Rita Hayworth

26.1.11

PORTRAIT OF AN UNKNOWN PRINCESS

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For her to have such a slender neck
For her wrists to bend like flower stems
For her eyes to be so clear and direct
Her back so straight
Her head so high
With such a natural glow on her forehead
It took successive generations of slaves
With stooping bodies and patient rough hands
Serving successive generations of princes
Still a bit coarse still a bit crude
Cruel greedy and conniving

It took an enormous squandering of life
For her to be
That lonely exiled aimless perfection
..
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Sophia de Mello Breyner Andresen
© Translation: 2004, Richard Zenith

RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA

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Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
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© 1991, Sophia de Mello Breyner
Obra Poética III , Caminho, Lisboa

25.1.11

SOPHIA

Não são as Circunstâncias que Decidem a Nossa Vida

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A nossa vida, como repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as históricamente conhecidas. Mas assim como o seu formato é maior, transbordou todos os caminhos, princípios, normas e ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar o seu próprio destino.
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Mas agora é preciso completar o diagnóstico. A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que da nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege o seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. O nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra a nossa vida.
Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajectória está absolutamente pré-determinada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo – o mundo é sempre este, este de agora – consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, força-nos... a eleger. Surpreendente condição a da nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem mum só instante se deixa descansar a nossa actividade de decisão. Inclusivé quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir.
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É, pois, falso dizer que na vida «decidem as circunstâncias». Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.
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Ortega y Gasset (Madrid, 1883-1955) in A Rebelião das Massas
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Os Dias Bons


22.1.11

A Lealdade é um Amor que Esquece o Mundo

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Só se é realmente leal quando se está sujeito a alguém ou a algo. Aí, onde mesmo um sonho pode ser senhor. Na sujeição de quem serve uma causa, na sujeição de quem se submete a um chefe, na sujeição à pessoa amada, na sujeição do sentimento e na sujeição do dever, no sacrifício da liberdade, da razão e do interesse. No desperdício e no desprezo do que está à vista e do que está à mão, é nesta desagradável situação que se acha ou não acha a lealdade. É por ser selvagem e servil, mas só a um senhor, que a lealdade tem valor. É muito difícil ser-se leal, mas só porque é muito difícil seguirmos o coração. A lealdade é um amor que esquece o mundo.

Ao escolher um amigo, e ao ser-se amigo dele, rejeitam-se as outras pessoas. Quando estamos apaixonados, é através dessa pessoa que amamos a humanidade. O amor ocupa-nos muito. E para os outros, não fica quase nada.
Não se consegue ser leal ao ponto de calar o coração. Mas sofremos com as nossas deslealdades. Sabemos perfeitamente o que estamos a fazer, quem sacrificámos, e porquê. É por causa da consciência da nossa imperfeição que o ideal da verdadeira lealdade não pode ser abandonado ou alterado. O facto de ser incumprível não obriga a que se arranje uma versão softcore, mais cómoda e realista. É preciso aguentar. A lealdade é uma coisa tão cega e simples de determinar quanto é difícil de determinar quanto é difícil de seguir.
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Miguel Esteves Cardoso in As Minhas Aventuras na República Portuguesa

20.1.11

Sol de Inverno

fotografia de Alfred Eisenstaedt : "Sailors and Waves at the Corpus Christi Naval Base" , USA, 1943
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Eleições Presidenciais 2011

O discurso político esvazia-se. Não há ideias, ninguém as têm, compram-se boas ideias.
É penoso ver os candidatos a repisarem temas que já não são temas e sobretudo perceber que não há um projecto, uma estratégia; tão penoso que nos ocorre dizer que os políticos não servem para nada. São rídiculas as arruadas, o falso folclore, o que se diz nas arruadas. Parece campanha para crianças e adultos infantilizados. É um fazer de conta a que o povo adere e torna-se personagem. E a malta ri-se a acena com bandeirinhas.
Apesar de tudo, a política é ainda a forma mais eficaz de prosseguir os conceitos de "mudança", de "orientação", de "democracia". Só que o político tem que ser hoje outra coisa, o velho modelo está gasto, já não se enquadra. Pelo menos começar por uma tentativa de verdade, de discursar para os adultos. Ao contrário do que se pensa, as pessoas estão tão perdidas face à política que procuram precisamente isso.

11.1.11

É este o rio



É este o rio e estes são os bosques
Corpo de que a alma é a brisa dos jardins.
Rio,
Espada se a brisa dorme à superfície.
Cota de malha, se os ventos sobre ela se perturbam.

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Olha as flores levantadas como estrelas no céu do jardim
Generosamente regadas pela chuva.
Caíram lentamente uma após uma. E alguém dirá:
Um génio mau que procurava surpreender um segredo
aproximou-se para escutar
e desfolharam-se sobre ele para o lapidar.
Olha também o regato sobre o qual a brisa, hábil artesão,
afeiçoou ornamentos de bolhas.



Muhammad ibn ‘Abbad al-Mu’tamid
(Beja 1040- Aghmat 1095)


21.12.10

Retrato de Mónica

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
in Contos Exemplares
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20.12.10


Balança


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No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.
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Eugénio de Andrade

19.12.10


foto de Michael Magill / 14th street / NY /© Michael Magill

Sem acção, de nada vale a inteligência

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Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o tacto: o único que pode alterar as coisas.
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Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem inteligente, mas imóvel.
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Gonçalo M. Tavares in Um Homem: Klaus Klump
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16.12.10

Praga


Paraíso

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"Fomos criados para vivermos no Paraíso, o Paraíso destinava-se a servir-nos.
O nosso destino foi alterado; que isto também tenha acontecido com
o destino do Paraíso, é algo que não se diz."
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Franz Kafka in Aforísmos

11.12.10

Os Dias Bons

Paul Newman e sua mulher Joanne Woodward em Paris