16.3.11

O mundo parece subitamente desabitado




Chrysler Building (NY) / Dubai Skyline / Grand Canale (Venice)
são fotografias de Josef Hoflehner onde o mundo parece subitamente desabitado

As Palavras Interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

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Eugénio de Andrade in Poesia e Prosa

14.3.11

Remember

Anne Frank (Frankfurt, 12 de Junho de 1929—Bergen-Belsen, Março de 1945)

Vivem-se tempos de mudança

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Vivem-se tempos de mudança. Tudo parece colapsar. Sabemos que todas as acções têm uma consequência, até a passividade comporta em si uma acção e terá um resultado.
Mergulhado na rapidez das redes de comunicação, o mundo acelera a mudança, mas apenas a mudança visível. O fundo do cenário, mantém-se, porque não se exploram sistemas e formas inovadoras. Talvez não haja saída para além dos sistemas que já conhecemos; Não é nem nunca foi possível romper sem assegurar a continuidade. As manifestações que assistimos recentemente fora da Europa, nomeadamente nos países árabes, são bem sucedidas as que ocorrem nos países onde a continuidade do poder colapsou e, complementarmente, já existe alguma maturidade social, continuada, capaz de dizer "Basta!". Na Europa, parece que vivemos o contrário, as manifestações parecem querer uma mudança, mas mais do que isso também pedem a continuidade: a continuidade do crescimento económico, a continuidade da segurança social, a continuidade da qualidade social com vista ao bem estar de todos. Vivemos todos os dias, cada vez mais ligados uns aos outros e vamos todos querer viver melhor. Todos queremos ou iremos querer, legitimamente, o acesso à saúde, ao trabalho, à qualidade de vida. Mas será possível alcançar essa aspiração nos sistemas económicos e sociais existentes e no mundo em que vivemos?
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8.3.11

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.



Maria do Rosário Pedreira in A Casa e o Cheiro dos Livros , 1996

Segredo

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

.
Maria Teresa Horta in Minha Senhora de Mim (1972)

3.3.11

É preciso acreditar

É preciso acreditar nalguma coisa. E então, no que é que nós acreditamos? Com tanta informação, tanta diversidade, no que é que acreditamos? Para além do dia de hoje que ensaiamos concreto, para além do dia de amanhã que programamos, para além do que supomos ter e ser, no que é que acreditamos? No que vemos? No que sentimos? Mas é preciso acreditar em mais alguma coisa? A imaginação e a criatividade pressupõem essa condição, acreditar num mistério, no imponderável? Sim, porque em nenhum momento isso deixa de estar presente na nossa vida.
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2.3.11

Jane Russel ( 1921-2011)

27.2.11

O Êxito Parece a Mais Doce das Coisas

O êxito parece a mais doce das coisas
A quem nunca venceu na vida.
Ter a compreensão de um néctar
Exige a mais dolorosa necessidade.

De entre o purpúreo Exército
Que hoje empunhou a Bandeira
Nenhum outro poderá dar uma tão clara
Definição da Vitória

Como o vencido - agonizante -
Em cujo ouvido interdito
A distante ária triunfal
Ressoa nítida e pungente!
.
Emily Dickinson in Poemas e Cartas
Tradução de Nuno Júdice
São Torpes, Sines, 2011

A Mulher Mais Bonita do Mundo


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estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
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José Luís Peixoto in A Casa, a Escuridão

25.2.11

24.2.11

Revolução

Chega-nos as faces do mundo que parece em mudança. Tentamos compreender, mas fazê-mo-lo à luz da nossa experiência.
Virá a revolução de uma árvore da mesma natureza? Sim. Mas e os seus frutos? A cada espécie de árvore os seus frutos.
Como se constrói um novo país? É isso que transparece no eco das vozes. Mais ainda, quer uma nova realidade.
Terão a realidade possível, a mudança possível, a que forem capazes de erguer.

23.2.11

Pintura de Nogah Engler (n.197o Tel Aviv)



20.2.11

Libertação

No Médio Oriente as cadeiras do poder estão a cair ou a tremer. Quem suspeitaria que tal pudesse acontecer? Como uma onda incontrolável que se propaga, uma vontade de mudança levantada sobretudo por jovens estudantes, vai atravessando as fronteiras através de um eco invisível das redes de comunicação.
Por um lado, as cadeiras do poder são sempre mais frágeis do que supomos, por outro, os meios de comunicação ajudam a atear a propagação de uma ideia que nem sempre corresponde à vontade real de um país. Toda a gente queria estar na praça Tahrir no momento da "libertação", sabendo que o mundo inteiro estava com os olhos postos naquele lugar. De repente, aquelas pessoas descobriam um novo sentimento de pertença a uma causa, sentiam que estavam a existir aos olhos do mundo e existir aos olhos do mundo é empolgante.

As cadeiras do poder do Médio Oriente estavam decrépitas, estagnadas no tempo. Todavia, a mim, parecia-me que iriam continuar "nesse mundo à parte" indeterminadamente, sutententadas, quem sabe, por o que chamam "o inimigo". Talvez por isso, tudo o que se está a passar me pareça estranho, compreensível, mas estranho. Não há muito tempo chegava-nos do Médio Oriente imagens que nos diziam o contrário. É verdade, somos tão manipulados pela imagem, porque somos isso mesmo, imagem. O que existe num outro lugar distante é a imagem.

Estou em comunhão com estas vozes que se levantam. É com grande alegria que vejo e leio notícias destes novos tempos no berço da civilização ocidental. Mas e o que virá depois? Quem são estas pessoas que querem a libertação, que ideias têm para os seus países, que sonhos sonharam? Que dimensão terão? Será um pulsar, uma vontade de um país inteiro? E quem estará agora a preparar o seu alcance ao poder?

18.2.11

A Imortalidade

Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar.
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Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.
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(...) Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os outros homens. Como Cornelio Agrippa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demónio e sou o mundo, o que é uma forma cansativa de dizer que não sou.
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(...) A morte (ou a sua alusão) torna os homens delicados e patéticos. Estes comovem-se pela sua condição de fantasmas. Cada acto que executam pode ser o último. Não há um rosto que não esteja por se desfigurar como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do perdido. Entre os Imortias, pelo contrário, cada acto (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o claro presságio de outros que, no futuro, o repetirão até à vertigem. Não há coisa que não esteja perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é primorosamente gratuito. O elegíaco, o grave, o cerimonial, não contam para os Imortais. Homero e eu separamo-nos nas portas de Tânger. Creio que não nos despedimos.
..
Jorge Luís Borges in O Imortal
.

17.2.11

Os Dias Bons

... quando o tempo futuro é uma possibilidade luminosa

16.2.11

As cidades estão tortas

37.
E as cidades estão tortas - diz alguém que não Blooom-
porque os homens todos os orgãos se resumem
a uma função: a de competir.
As máquinas executam a parte física
de uma ordem anterior: dominar o dia
como se faz à árvore a que se impõe
a direcção de crescimento dos ramos.
Mas o dia não é matéria controlável.
.
38.
O dia não é cercável como um exército,
por maior que este seja,
porque o dia é sempre maior do que um exército
por maior que este seja.
(O tempo sempre foi um espaço,
só que de inacreditáveis dimensões.
Tão grande que nenhum humano pode
dele ser proprietário.
Haverá a fechadura para os instantes, só que nunca
terás a chave)
.
Gonçalo M. Tavares in Uma Viagem à Índia, 2010

10.2.11

Este Não-Futuro que a Gente Vive

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Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.
.
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Al Berto numa entrevista à revista Ler (1989)

9.2.11

Portugal

Um país numa imagem ...
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1.2.11

EGIPTO

Quando as pessoas querem podem mudar o decurso da História.
Esperemos que a mudança vá ao encontro da livre expressão de ideias, do bom funcionamento das instituições de Justiça, do desenvolvimento de uma sociedade civil tolerante. Esperemos que os egípcios estejam preparados para habitar uma sociedade assim e que a saibam construir à sua medida, guiados pelos melhores exemplos. Esperemos que o movimento deste povo possa trazer uma reflexão a todo Médio Oriente e não só!
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Como é bela a tua aurora



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Como é bela a tua aurora no horizonte do céu,
Ó Aton vivo, iniciador da vida!
Quando te ergues no Oriente,
Enches o universo de tua beleza.

És belo, grande, brilhante, alto acima da terra,
Teus raios envolvem a terra e tudo o que criaste.

És Rá e os tens todos cativos;

Uniste todos pelo teu amor
Embora estejas longe, teus raios estão sobre a terra;

Embora sejas alto, os rastos de teus passos são o dia.

Quando repousas no horizonte ocidental do céu,
.
A terra está na obscuridade como a morte;
As pessoas dormem em seus quartos,
Envolvem a cabeça,
Suas narinas param de funcionar,
Ninguém vê seu vizinho,
Tudo o que lhes está sob a cabeça pode ser roubado.
.
E não sentem.
Estão os leões saem de seu covil,
As serpentes picam...
O universo está em silencio,
Aquele que o fez repousa no horizonte. (...)

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poema do Faraó Akhenaton (o nono rei da XVIII Dinastia)
in THE DEVELOPMENT OF RELIGION AND THOUGHT IN ANCIENT EGGYPT. de J.H. Breasted

Os Dias Bons


Debbie Harry

31.1.11

Uma emoção que nos ultrapassa

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Vivemos sob um véu de irrealidade que nos ajuda a prosseguir o caminho através daquilo a que chamamos realidade. Há, porém, momentos em que nos sentimos a viver intensamente, ficamos completamente vulneráveis. Isso tem tanto de magnífico como de assustador para o entendimento. Acontece quando um dardo de fogo, gelo ou brisa atravessa o véu e ficamos expostos perante uma inteligibilidade ou uma emoção que nos ultrapassa. Nesses momentos sentimos que estamos realmente vivos. Mas parece que esse estado não nos é suportável por muito tempo. Dali a pouco tempo, mesmo que ainda tomados por esse estado de intensidade, começamos a distrair-nos, a construir o abstracto, a fragmentar os pensamentos.
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27.1.11

Os Dias Bons

Rita Hayworth

26.1.11

PORTRAIT OF AN UNKNOWN PRINCESS

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For her to have such a slender neck
For her wrists to bend like flower stems
For her eyes to be so clear and direct
Her back so straight
Her head so high
With such a natural glow on her forehead
It took successive generations of slaves
With stooping bodies and patient rough hands
Serving successive generations of princes
Still a bit coarse still a bit crude
Cruel greedy and conniving

It took an enormous squandering of life
For her to be
That lonely exiled aimless perfection
..
.
Sophia de Mello Breyner Andresen
© Translation: 2004, Richard Zenith

RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA

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Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
.

© 1991, Sophia de Mello Breyner
Obra Poética III , Caminho, Lisboa

25.1.11

SOPHIA

Não são as Circunstâncias que Decidem a Nossa Vida

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A nossa vida, como repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as históricamente conhecidas. Mas assim como o seu formato é maior, transbordou todos os caminhos, princípios, normas e ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar o seu próprio destino.
.
Mas agora é preciso completar o diagnóstico. A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que da nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege o seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. O nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra a nossa vida.
Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajectória está absolutamente pré-determinada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo – o mundo é sempre este, este de agora – consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, força-nos... a eleger. Surpreendente condição a da nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem mum só instante se deixa descansar a nossa actividade de decisão. Inclusivé quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir.
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É, pois, falso dizer que na vida «decidem as circunstâncias». Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.
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Ortega y Gasset (Madrid, 1883-1955) in A Rebelião das Massas
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Os Dias Bons


22.1.11

A Lealdade é um Amor que Esquece o Mundo

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Só se é realmente leal quando se está sujeito a alguém ou a algo. Aí, onde mesmo um sonho pode ser senhor. Na sujeição de quem serve uma causa, na sujeição de quem se submete a um chefe, na sujeição à pessoa amada, na sujeição do sentimento e na sujeição do dever, no sacrifício da liberdade, da razão e do interesse. No desperdício e no desprezo do que está à vista e do que está à mão, é nesta desagradável situação que se acha ou não acha a lealdade. É por ser selvagem e servil, mas só a um senhor, que a lealdade tem valor. É muito difícil ser-se leal, mas só porque é muito difícil seguirmos o coração. A lealdade é um amor que esquece o mundo.

Ao escolher um amigo, e ao ser-se amigo dele, rejeitam-se as outras pessoas. Quando estamos apaixonados, é através dessa pessoa que amamos a humanidade. O amor ocupa-nos muito. E para os outros, não fica quase nada.
Não se consegue ser leal ao ponto de calar o coração. Mas sofremos com as nossas deslealdades. Sabemos perfeitamente o que estamos a fazer, quem sacrificámos, e porquê. É por causa da consciência da nossa imperfeição que o ideal da verdadeira lealdade não pode ser abandonado ou alterado. O facto de ser incumprível não obriga a que se arranje uma versão softcore, mais cómoda e realista. É preciso aguentar. A lealdade é uma coisa tão cega e simples de determinar quanto é difícil de determinar quanto é difícil de seguir.
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Miguel Esteves Cardoso in As Minhas Aventuras na República Portuguesa

20.1.11

Sol de Inverno

fotografia de Alfred Eisenstaedt : "Sailors and Waves at the Corpus Christi Naval Base" , USA, 1943
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Eleições Presidenciais 2011

O discurso político esvazia-se. Não há ideias, ninguém as têm, compram-se boas ideias.
É penoso ver os candidatos a repisarem temas que já não são temas e sobretudo perceber que não há um projecto, uma estratégia; tão penoso que nos ocorre dizer que os políticos não servem para nada. São rídiculas as arruadas, o falso folclore, o que se diz nas arruadas. Parece campanha para crianças e adultos infantilizados. É um fazer de conta a que o povo adere e torna-se personagem. E a malta ri-se a acena com bandeirinhas.
Apesar de tudo, a política é ainda a forma mais eficaz de prosseguir os conceitos de "mudança", de "orientação", de "democracia". Só que o político tem que ser hoje outra coisa, o velho modelo está gasto, já não se enquadra. Pelo menos começar por uma tentativa de verdade, de discursar para os adultos. Ao contrário do que se pensa, as pessoas estão tão perdidas face à política que procuram precisamente isso.

11.1.11

É este o rio



É este o rio e estes são os bosques
Corpo de que a alma é a brisa dos jardins.
Rio,
Espada se a brisa dorme à superfície.
Cota de malha, se os ventos sobre ela se perturbam.

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Olha as flores levantadas como estrelas no céu do jardim
Generosamente regadas pela chuva.
Caíram lentamente uma após uma. E alguém dirá:
Um génio mau que procurava surpreender um segredo
aproximou-se para escutar
e desfolharam-se sobre ele para o lapidar.
Olha também o regato sobre o qual a brisa, hábil artesão,
afeiçoou ornamentos de bolhas.



Muhammad ibn ‘Abbad al-Mu’tamid
(Beja 1040- Aghmat 1095)