23.3.11

Elizabeth Taylor


Elizabeth Taylor - 1932/2011

22.3.11

Paula Rego, aguarela sobre papel, 1992

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga in Diário X

Os Dias Bons


Kyoto gardens , Japan




A Tempestade do Destino

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.

(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.

Haruki Murakami in Kafka à Beira-Mar

21.3.11

Os Dias Bons




Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera


Ruy Belo in Aquele Grande Rio Eufrates

16.3.11

O mundo parece subitamente desabitado




Chrysler Building (NY) / Dubai Skyline / Grand Canale (Venice)
são fotografias de Josef Hoflehner onde o mundo parece subitamente desabitado

As Palavras Interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

.
Eugénio de Andrade in Poesia e Prosa

14.3.11

Remember

Anne Frank (Frankfurt, 12 de Junho de 1929—Bergen-Belsen, Março de 1945)

Vivem-se tempos de mudança

.
Vivem-se tempos de mudança. Tudo parece colapsar. Sabemos que todas as acções têm uma consequência, até a passividade comporta em si uma acção e terá um resultado.
Mergulhado na rapidez das redes de comunicação, o mundo acelera a mudança, mas apenas a mudança visível. O fundo do cenário, mantém-se, porque não se exploram sistemas e formas inovadoras. Talvez não haja saída para além dos sistemas que já conhecemos; Não é nem nunca foi possível romper sem assegurar a continuidade. As manifestações que assistimos recentemente fora da Europa, nomeadamente nos países árabes, são bem sucedidas as que ocorrem nos países onde a continuidade do poder colapsou e, complementarmente, já existe alguma maturidade social, continuada, capaz de dizer "Basta!". Na Europa, parece que vivemos o contrário, as manifestações parecem querer uma mudança, mas mais do que isso também pedem a continuidade: a continuidade do crescimento económico, a continuidade da segurança social, a continuidade da qualidade social com vista ao bem estar de todos. Vivemos todos os dias, cada vez mais ligados uns aos outros e vamos todos querer viver melhor. Todos queremos ou iremos querer, legitimamente, o acesso à saúde, ao trabalho, à qualidade de vida. Mas será possível alcançar essa aspiração nos sistemas económicos e sociais existentes e no mundo em que vivemos?
.
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8.3.11

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.



Maria do Rosário Pedreira in A Casa e o Cheiro dos Livros , 1996

Segredo

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

.
Maria Teresa Horta in Minha Senhora de Mim (1972)

3.3.11

É preciso acreditar

É preciso acreditar nalguma coisa. E então, no que é que nós acreditamos? Com tanta informação, tanta diversidade, no que é que acreditamos? Para além do dia de hoje que ensaiamos concreto, para além do dia de amanhã que programamos, para além do que supomos ter e ser, no que é que acreditamos? No que vemos? No que sentimos? Mas é preciso acreditar em mais alguma coisa? A imaginação e a criatividade pressupõem essa condição, acreditar num mistério, no imponderável? Sim, porque em nenhum momento isso deixa de estar presente na nossa vida.
.

2.3.11

Jane Russel ( 1921-2011)

27.2.11

O Êxito Parece a Mais Doce das Coisas

O êxito parece a mais doce das coisas
A quem nunca venceu na vida.
Ter a compreensão de um néctar
Exige a mais dolorosa necessidade.

De entre o purpúreo Exército
Que hoje empunhou a Bandeira
Nenhum outro poderá dar uma tão clara
Definição da Vitória

Como o vencido - agonizante -
Em cujo ouvido interdito
A distante ária triunfal
Ressoa nítida e pungente!
.
Emily Dickinson in Poemas e Cartas
Tradução de Nuno Júdice
São Torpes, Sines, 2011

A Mulher Mais Bonita do Mundo


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estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
.
José Luís Peixoto in A Casa, a Escuridão

25.2.11

24.2.11

Revolução

Chega-nos as faces do mundo que parece em mudança. Tentamos compreender, mas fazê-mo-lo à luz da nossa experiência.
Virá a revolução de uma árvore da mesma natureza? Sim. Mas e os seus frutos? A cada espécie de árvore os seus frutos.
Como se constrói um novo país? É isso que transparece no eco das vozes. Mais ainda, quer uma nova realidade.
Terão a realidade possível, a mudança possível, a que forem capazes de erguer.

23.2.11

Pintura de Nogah Engler (n.197o Tel Aviv)



20.2.11

Libertação

No Médio Oriente as cadeiras do poder estão a cair ou a tremer. Quem suspeitaria que tal pudesse acontecer? Como uma onda incontrolável que se propaga, uma vontade de mudança levantada sobretudo por jovens estudantes, vai atravessando as fronteiras através de um eco invisível das redes de comunicação.
Por um lado, as cadeiras do poder são sempre mais frágeis do que supomos, por outro, os meios de comunicação ajudam a atear a propagação de uma ideia que nem sempre corresponde à vontade real de um país. Toda a gente queria estar na praça Tahrir no momento da "libertação", sabendo que o mundo inteiro estava com os olhos postos naquele lugar. De repente, aquelas pessoas descobriam um novo sentimento de pertença a uma causa, sentiam que estavam a existir aos olhos do mundo e existir aos olhos do mundo é empolgante.

As cadeiras do poder do Médio Oriente estavam decrépitas, estagnadas no tempo. Todavia, a mim, parecia-me que iriam continuar "nesse mundo à parte" indeterminadamente, sutententadas, quem sabe, por o que chamam "o inimigo". Talvez por isso, tudo o que se está a passar me pareça estranho, compreensível, mas estranho. Não há muito tempo chegava-nos do Médio Oriente imagens que nos diziam o contrário. É verdade, somos tão manipulados pela imagem, porque somos isso mesmo, imagem. O que existe num outro lugar distante é a imagem.

Estou em comunhão com estas vozes que se levantam. É com grande alegria que vejo e leio notícias destes novos tempos no berço da civilização ocidental. Mas e o que virá depois? Quem são estas pessoas que querem a libertação, que ideias têm para os seus países, que sonhos sonharam? Que dimensão terão? Será um pulsar, uma vontade de um país inteiro? E quem estará agora a preparar o seu alcance ao poder?

18.2.11

A Imortalidade

Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar.
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Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.
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(...) Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os outros homens. Como Cornelio Agrippa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demónio e sou o mundo, o que é uma forma cansativa de dizer que não sou.
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(...) A morte (ou a sua alusão) torna os homens delicados e patéticos. Estes comovem-se pela sua condição de fantasmas. Cada acto que executam pode ser o último. Não há um rosto que não esteja por se desfigurar como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do perdido. Entre os Imortias, pelo contrário, cada acto (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o claro presságio de outros que, no futuro, o repetirão até à vertigem. Não há coisa que não esteja perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é primorosamente gratuito. O elegíaco, o grave, o cerimonial, não contam para os Imortais. Homero e eu separamo-nos nas portas de Tânger. Creio que não nos despedimos.
..
Jorge Luís Borges in O Imortal
.

17.2.11

Os Dias Bons

... quando o tempo futuro é uma possibilidade luminosa

16.2.11

As cidades estão tortas

37.
E as cidades estão tortas - diz alguém que não Blooom-
porque os homens todos os orgãos se resumem
a uma função: a de competir.
As máquinas executam a parte física
de uma ordem anterior: dominar o dia
como se faz à árvore a que se impõe
a direcção de crescimento dos ramos.
Mas o dia não é matéria controlável.
.
38.
O dia não é cercável como um exército,
por maior que este seja,
porque o dia é sempre maior do que um exército
por maior que este seja.
(O tempo sempre foi um espaço,
só que de inacreditáveis dimensões.
Tão grande que nenhum humano pode
dele ser proprietário.
Haverá a fechadura para os instantes, só que nunca
terás a chave)
.
Gonçalo M. Tavares in Uma Viagem à Índia, 2010

10.2.11

Este Não-Futuro que a Gente Vive

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Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.
.
.
Al Berto numa entrevista à revista Ler (1989)

9.2.11

Portugal

Um país numa imagem ...
.

1.2.11

EGIPTO

Quando as pessoas querem podem mudar o decurso da História.
Esperemos que a mudança vá ao encontro da livre expressão de ideias, do bom funcionamento das instituições de Justiça, do desenvolvimento de uma sociedade civil tolerante. Esperemos que os egípcios estejam preparados para habitar uma sociedade assim e que a saibam construir à sua medida, guiados pelos melhores exemplos. Esperemos que o movimento deste povo possa trazer uma reflexão a todo Médio Oriente e não só!
.

Como é bela a tua aurora



.
Como é bela a tua aurora no horizonte do céu,
Ó Aton vivo, iniciador da vida!
Quando te ergues no Oriente,
Enches o universo de tua beleza.

És belo, grande, brilhante, alto acima da terra,
Teus raios envolvem a terra e tudo o que criaste.

És Rá e os tens todos cativos;

Uniste todos pelo teu amor
Embora estejas longe, teus raios estão sobre a terra;

Embora sejas alto, os rastos de teus passos são o dia.

Quando repousas no horizonte ocidental do céu,
.
A terra está na obscuridade como a morte;
As pessoas dormem em seus quartos,
Envolvem a cabeça,
Suas narinas param de funcionar,
Ninguém vê seu vizinho,
Tudo o que lhes está sob a cabeça pode ser roubado.
.
E não sentem.
Estão os leões saem de seu covil,
As serpentes picam...
O universo está em silencio,
Aquele que o fez repousa no horizonte. (...)

.
poema do Faraó Akhenaton (o nono rei da XVIII Dinastia)
in THE DEVELOPMENT OF RELIGION AND THOUGHT IN ANCIENT EGGYPT. de J.H. Breasted

Os Dias Bons


Debbie Harry

31.1.11

Uma emoção que nos ultrapassa

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Vivemos sob um véu de irrealidade que nos ajuda a prosseguir o caminho através daquilo a que chamamos realidade. Há, porém, momentos em que nos sentimos a viver intensamente, ficamos completamente vulneráveis. Isso tem tanto de magnífico como de assustador para o entendimento. Acontece quando um dardo de fogo, gelo ou brisa atravessa o véu e ficamos expostos perante uma inteligibilidade ou uma emoção que nos ultrapassa. Nesses momentos sentimos que estamos realmente vivos. Mas parece que esse estado não nos é suportável por muito tempo. Dali a pouco tempo, mesmo que ainda tomados por esse estado de intensidade, começamos a distrair-nos, a construir o abstracto, a fragmentar os pensamentos.
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27.1.11

Os Dias Bons

Rita Hayworth

26.1.11

PORTRAIT OF AN UNKNOWN PRINCESS

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For her to have such a slender neck
For her wrists to bend like flower stems
For her eyes to be so clear and direct
Her back so straight
Her head so high
With such a natural glow on her forehead
It took successive generations of slaves
With stooping bodies and patient rough hands
Serving successive generations of princes
Still a bit coarse still a bit crude
Cruel greedy and conniving

It took an enormous squandering of life
For her to be
That lonely exiled aimless perfection
..
.
Sophia de Mello Breyner Andresen
© Translation: 2004, Richard Zenith

RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA

.
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
.

© 1991, Sophia de Mello Breyner
Obra Poética III , Caminho, Lisboa