2.3.12
Tarde no Mar
A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...
E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
Florbela Espanca in Charneca em Flor
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...
E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
Florbela Espanca in Charneca em Flor
1.3.12
O Amor é o Homem Inacabado
Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
O amor é o homem inacabado.
Paul Eluard in Algumas das Palavras
(Tradução de António Ramos Rosa)
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
O amor é o homem inacabado.
Paul Eluard in Algumas das Palavras
(Tradução de António Ramos Rosa)
19.2.12
Existimos em Função do Futuro
Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro.
O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?
Jean-Paul Sartre in Situações I
8.2.12
O Efeito do Afastamento no Tempo
O afastamento no tempo engana o sentido do espírito como o afastamento no espaço provoca o erro dos sentidos. O contemporâneo não vê a necessidade do que vem a ser, mas, quando há séculos entre o vir a ser e o observador, então ele vê a necessidade, como aquele que vê à distância o quadrado como algo redondo.
Soren Kierkegaard in Migalhas Filosóficas
Porque é que os Homens não Compreendem as Mulheres
Tu estás convencida há vários anos de que eu não te compreendo. Esta é sempre a teoria das mulheres, que não são compreendidas, que não são queridas, que não são adoradas, as queixas montanhas grandes, queixas enormes, sempre a justificar uma infelicidade que lhes vem lá do fundo da criação do mundo, do útero, da terra, as mulheres reflectem o útero feminino da terra, um útero cheio de aflições, em conclusão, queixam-se de tudo então entre os quarenta e os cinquenta, esse útero funciona nas alturas, é um útero cósmico que já não é parte de uma mulher, pertence à mulher do mundo. Há muita verdade no que dizes, o homem desinteressa-se facilmente, depois do acto do amor, depois logo sacode as penas, arrebita, passa à frente, domina outro mundo, a mulher fica fechada, acanhada nesse encontro muito íntimo, nesse seu mais fundo dos fundos, na identidade uterina com a ideia da criação, da reprodução da génese, salta, salta, forma-se na mulher a visão do caos a que só ela pelo amor pode dar uma nova regra, pelo domínio da paixão, pela companhia, para isso tem de ser compreendida, ela julga que é compreendida, tem de justificar a sua infelicidade pela compreensão do amor, de um outro amor, a mulher busca no outro amor o amor definitivo, amor que nunca aparece, é o poder fantásmico de convicção, que rompe todas as barreiras, a mulher atira-se, não sabe onde nem como, é capaz dos maiores actos de heroísmo clandestino, aparece, vai, surge, abre-se, mostra o que é o amor, a sua entrega total.
Ruben A.in 'Silêncio para 4'
7.2.12
A Pergunta Limita a Resposta
Quando se faz uma pergunta dissemos já que nos interessamos por uma determinada questão, limitamos já o campo da resposta. Que eu te pergunte, disseste-me tu, «está frio?», e nada se poderá dizer senão referente ao frio. Não se poderá responder por exemplo que a arte é bela ou que a Terra é redonda. É por isso que é suspeito para um ateu que se pergunte se Deus existe; como seria ofensivo perguntar-se a alguém se a mulher o atraiçoa... Mesmo que a resposta dissesse «não», a pergunta, só por si, já de algum modo tinha dito «sim».
Vergílio Ferreira in Estrela Polar
Palavras
"Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade."
Florbela Espanca
26.1.12
Estrangeiros
"Só através do corpo nos poderemos erguer à divindade de que sermos capazes, até deixarmos de ser, na frágil e precária luz da terra, o mais estrangeiro dos seus habitantes."
Eugénio de Andrade in Rosto Precário
O Milagre da Vida
Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para viveres a tua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para viveres a tua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein
16.1.12
15.1.12
E viveremos ...
- E viveremos, oraremos e contaremos velhas histórias.
- Não são homens de palavras...
- E riremos das borboletas douradas
e ouviremos os pobres diabos com as novas da corte.
E também falaremos com eles. Quem perde e quem ganha, quem entra e quem sai.
Investigaremos o mistério das coisas... como se fossemos espiões de Deus.
E na prisão sobreviveremos a hordas de chefes, que virão e irão, conforme a sorte deles o ditar.
in King Lear de Jean-Luc Godard, 1987
- Não são homens de palavras...
- E riremos das borboletas douradas
e ouviremos os pobres diabos com as novas da corte.
E também falaremos com eles. Quem perde e quem ganha, quem entra e quem sai.
Investigaremos o mistério das coisas... como se fossemos espiões de Deus.
E na prisão sobreviveremos a hordas de chefes, que virão e irão, conforme a sorte deles o ditar.
in King Lear de Jean-Luc Godard, 1987
11.1.12
A Ilusão da Distância e do Futuro
Dá-se com os longes o que
se dá com o futuro. Todo um mundo vago se abre à nossa alma, a nossa
sensibilidade perde-se nele como o nosso olhar, e nós aspiramos, ah, a entregar
todo o nosso ser, para que a volúpia de um sentimento grande, único, majestoso o
encha completamente . - E, ai de nós, quando para lá corremos e o ali se
torna aqui, tudo continua como dantes, e nós ficamos com a nossa pobreza
e as nossas limitações, e a nossa alma suspira pelo conforto que lhe escapou.
Johann Wolfgang von Goethe in Werther
Johann Wolfgang von Goethe in Werther
5.1.12
Receita de ano novo
Para você
ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não
precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para
ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
14.12.11
Mundo
Tenho
um amor nas Honduras
e tenho outro no Nepal
que o terceiro negro seja
se for chinês não faz mal
me falta ainda da Austrália
quem sabe do Polo Norte
me não virá mais algum
se houver foca que dê sorte
até o centro da terra
dará por quem me apaixone
por quem nunca me atormente
com falas ao telefone
mas de verdade o que eu amo
é o do nada do mundo
que até duvido que exista
tanto se acolhe ao profundo.
Agostinho da Silva 1906-1996), in Poemas
e tenho outro no Nepal
que o terceiro negro seja
se for chinês não faz mal
me falta ainda da Austrália
quem sabe do Polo Norte
me não virá mais algum
se houver foca que dê sorte
até o centro da terra
dará por quem me apaixone
por quem nunca me atormente
com falas ao telefone
mas de verdade o que eu amo
é o do nada do mundo
que até duvido que exista
tanto se acolhe ao profundo.
Agostinho da Silva 1906-1996), in Poemas
Terra - 7
Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava um outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.
Fernando Namora (1919-1989), in Terra
13.12.11
Inverno profundo
esse lugar onde o Inverno fica branco, escuro azul, cobre - castanho - dourado,
esse lugar onde quase não há barulho, cada movimento é pensado, devido ao frio,
aos dias breves, às noites longas, cada lugar é recolhimento, pensamento,
vida substancial que procura a razão suficiente, simples, um sentimento, uma justeza;
cada movimento, cada ser vai daqui para ali com a delicadeza da precisão, sem excessos,
para a simples aproximação à luz, ao raio de sol, para o aquecimento necessário,
à volta de um silêncio que espera e que sabe o que espera
12.12.11
O futuro
"O problema do nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser."
Paul Valéry, 1871-1945
Paul Valéry, 1871-1945
Existimos em Função do Futuro
Tentai apreender a vossa consciência e
sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo
dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de
passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para
fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que
se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta
folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos
os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais
imediatas, mais densas, no futuro.
Jean-Paul Sartre in
"Situações I"
O homem não é de modo nenhum a soma do
que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos
banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente?
O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um
Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira
tarefa do historiador procurar o futuro?
8.12.11
Recordação
E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.
Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.
E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.
Rainer Maria Rilke in O Livro das Imagens
Tradução de Maria João Costa Pereira
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.
Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.
E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.
Rainer Maria Rilke in O Livro das Imagens
Tradução de Maria João Costa Pereira
Melhor Parte da Nossa Memória está Fora de Nós
As recordações em amor não constituem uma excepção às leis gerais da memória, também ela regida pelas leis do hábito. Como esta enfraquece tudo, o que mais nos faz lembrar uma pessoa é justamente aquilo que havíamos esquecido por ser insignificante e a que assim devolvemos toda a sua força.
A melhor parte da nossa memória está deste modo fora de nós. Está num ar de chuva, num cheiro a quarto fechado ou no de um primeiro fogaréu, seja onde for que de nós mesmos encontemos aquilo que a nossa inteligência pusera de parte, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando se esgotam todas as outras, sabe ainda fazer-nos chorar.
Marcel Proust in A Fugitiva
4.12.11
A Disputa das Ideias
Temos cada vez mais tipos de ordem e cada vez menos ordem. (...) Depois de todos os esforços do passado, entrámos num período de retrocesso. Vê bem como as coisas se passam hoje: quando um homem importante lança uma nova ideia no mundo, ela é imediatamente apanhada por um mecanismo de divisão, constituído por simpatia e repulsa. Primeiro vêm os admiradores e arrancam grandes bocados, os que lhes convêm, a essa ideia, e despedaçam o mestre como as raposas a presa; a seguir, os adversários destroem as partes fracas, e em pouco tempo o que resta de um grande feito mais não é do que uma reserva de aforismos de que amigos e inimigos se servem a seu bel-prazer. O resultado é uma ambiguidade generalizada. Não há Sim a que se não junte um Não. Podes fazer o que quiseres, que encontras sempre vinte das mais belas ideias a favor e, se quiseres, vinte que são contra. Quase somos levados a acreditar que é como no amor e no ódio, ou na fome, em que os gostos têm de ser diferentes, para que cada um fique com o seu bocado.
Robert Musil in O Homem sem Qualidades
3.12.11
O mundo
"O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa
daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal
acontecer."
Albert Einstein
Albert Einstein
Todos os Fins São Neutralizados
Todos os fins são neutralizados, e os
juízos de valor viram-se uns contra os outros:
Dizemos bom aquele que só escuta o seu coração, mas também aquele que só escuta o seu dever;
Dizemos que é bom o indulgente, o pacífico, mas também dizemos que é bom o valente, o inflexível, o rígido;
Dizemos bom aquele que não pratica a violência contra si próprio, mas também dizemos bom o herói, que triunfa de si mesmo;
Dizemos bom o amigo da verdade absoluta, mas também dizemos bom o homem piedoso, que tudo transfigura;
Dizemos bom aquele que é altaneiro, mas também dizemos bom o homem piedoso;
Dizemos bom o homem distinto, o aristocrata, mas também dizemos bom aquele que não é, nem desdenhoso, nem arrogante;
Dizemos bom o homem cordato, que evita conflitos, mas também dizemos bom o que deseja a luta e a vitória;
Dizemos bom aquele que quer ser sempre o primeiro, mas também dizemos bom aquele que não deseja sobrepor-se a ninguém.
Friedrich Nietzsche in A Vontade de Poder
Dizemos bom aquele que só escuta o seu coração, mas também aquele que só escuta o seu dever;
Dizemos que é bom o indulgente, o pacífico, mas também dizemos que é bom o valente, o inflexível, o rígido;
Dizemos bom aquele que não pratica a violência contra si próprio, mas também dizemos bom o herói, que triunfa de si mesmo;
Dizemos bom o amigo da verdade absoluta, mas também dizemos bom o homem piedoso, que tudo transfigura;
Dizemos bom aquele que é altaneiro, mas também dizemos bom o homem piedoso;
Dizemos bom o homem distinto, o aristocrata, mas também dizemos bom aquele que não é, nem desdenhoso, nem arrogante;
Dizemos bom o homem cordato, que evita conflitos, mas também dizemos bom o que deseja a luta e a vitória;
Dizemos bom aquele que quer ser sempre o primeiro, mas também dizemos bom aquele que não deseja sobrepor-se a ninguém.
Friedrich Nietzsche in A Vontade de Poder
28.11.11
O Rápido Passar do Tempo é Sinal de Inactividade
O ócio torna lentas as horas e velozes os
anos. A actividade torna rápida as horas e lentos os anos. A infância é a
actividade máxima, porque ocupada em descobrir o mundo na sua diversidade.
Os anos tornam-se longos na recordação se, ao repensá-los, encontramos
numerosos factos a desenvolver pela fantasia. Por isso, a infância parece
longuíssima. Provavelmente, cada época da vida é multiplicada pelas sucessivas
reflexões das que se lhe seguem: a mais curta é a velhice, porque nunca será
repensada.
Cada coisa que nos aconteceu é uma riqueza inesgotável: todo o
regresso a ela a aumenta e acresce, dota de relações e aprofunda. A infãncia não
é apenas a infância vivida, mas a ideia que fazemos dela na juventude, na
maturidade, etc. Por isso, parece a época mais importante, visto ser a mais
enriquecida por considerações sucessivas.
Os anos são uma unidade da
recordação; as horas e os dias, uma unidade da experiência.
20.11.11
Espectáculo social
A sociedade que repousa sobre a indústria moderna não é fortuitamente ou superficialmente espectacular, ela é fundamentalmente espectaculista. No espectáculo da imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenvolvimento é tudo. O espectáculo não quer chegar a outra coisa senão a si mesmo.
Na forma do indispensável adorno dos objectos hoje produzidos, na forma da exposição geral da racionalidade do sistema, e na forma de sector económico avançado que modela directamente uma multidão crescente de imagens-objectos, o espectáculo é a principal produção da sociedade actual.
Guy Debord in A Sociedade do Espectáculo, 1967
Toda a Sociedade é uma Espécie de Sonho Colectivo
A sociedade só vive de ilusões. Toda a sociedade é uma espécie de sonho colectivo. Essas ilusões tornam-se ilusões perigosas quando começam a parar de iludir. O despertar desse tipo de sonho é um pesadelo.
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