12.4.12
Uma Nação só Vive porque Pensa
Uma nação só vive porque pensa. Cogitat ergo est. A força e a riqueza não bastam para provar que uma nação vive duma vida que mereça ser glorificada na História - como rijos músculos num corpo e ouro farto numa bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino de África, com guerreiros incontáveis nas suas aringas e incontáveis diamantes nas suas colinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilização, os civilizados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rês bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egipto ou Tunis formassem resplandescentes centros de ciências, de literaturas e de artes, e, através de uma serena legião de homens geniais, incessantemente educassem o mundo - nenhuma nação mesmo nesta idade do ferro e de força, ousaria ocupar como um campo maninho e sem dono esses solos augustos donde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das ideias e das formas.
Só na verdade o pensamento e a sua criação suprema, a ciência, a literatura, as artes, dão grandeza aos Povos, atraem para eles universal reverência e carinho, e, formando dentro deles o tesouro de verdades e de belezas que o Mundo precisa, os tornam perante o Mundo sacrossantos. Que diferença há, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e produtivas cidades - onde os palácios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque forma pois Paris um foco crepitante de Civilização que irresistivelmente fascina a Humanidade - e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidável celeiro onde se procura a farinha e o grão? Porque Paris, além dos palácios, das instituições e das riquezas de que Chicago também justamente se gloria, possui a mais um grupo especial de homens -Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguières, Gounot, Massenet - que pela incessante produção do seu cérebro convertem a banal cidade que habitam num centro de soberano ensino. Se as Origens do Cristianismo, o Fausto, as telas de Bonnat, os mármores de Falguières, nos viessem de além dos mares, da nova e monumental Chicago - para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o Sol, os espíritos e os corações da Terra.
Se uma nação, portanto, só tem a superioridade porque tem pensamento, todo aquele que venha revelar na nossa pátria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe aumentar a única grandeza que a tornará respeitada, a única beleza que a tornará amada; - e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrário ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castelo.
Eça de Queirós (1845-1900), in A Correspondência de Fradique Mendes
6.4.12
Sua Beleza
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas
1.4.12
Keith Jarrett - The Köln Concert: Part I
Comecei tantos Domingos assim, com esta música.
O horizonte abria-se lentamente alto e largo. Uma luz cintilava sobre a natureza e havia possibilidades...
27.3.12
Não há Descoberta sem Violência
Devemos a quase totalidade das nossas
descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. Mesmo
Deus, na medida em que nos intriga, não é no mais íntimo de nós que o
discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em
que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro tão
ruinoso para Ele como para nós. Ferido pela maldição que se liga aos actos, o
violento só força a sua natureza, só se ultrapassa a si próprio, para a ela
regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as
ter feito nascer. Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema
esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção.
Destrói-se quem, respondendo à sua vocação e cumprindo-a, se agita no interior
da história; apenas se salva aquele que sacrifica dons e talentos para,
desprendido da sua qualidade de homem, poder repousar no ser. Se aspiro a uma
carreira metafísica, não posso por preço algum conservar a minha identidade:
terei de liquidar o menor resíduo que dela possa guardar; se, pelo contrário,
escolho a aventura de um papel histórico, a tarefa que me cabe é a de exasperar
as minhas faculdades até explodir eu próprio com elas. Parece-se sempre pelo eu
que se assume: ter um nome é reivindicar um modo preciso de ruína.
Emil Cioran in Pensar Contra Si Próprio
Emil Cioran in Pensar Contra Si Próprio
26.3.12
25.3.12
Portugal, Tão Diferente de seu Ser Primeiro
Os reinos e os impérios poderosos,
Que em grandeza no mundo mais cresceram,
Ou por valor de esforço floresceram,
Ou por varões nas letras espantosos.
Teve Grécia Temístocles; famosos,
Os Cipiões a Roma engrandeceram;
Doze Pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosos.
Ao nosso Portugal, que agora vemos
Tão diferente de seu ser primeiro,
Os vossos deram honra e liberdade.
E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
Do Braganção estado, há mil extremos
Iguais ao sangue e mores que a idade.
Luís Vaz de Camões in "Sonetos"
Que em grandeza no mundo mais cresceram,
Ou por valor de esforço floresceram,
Ou por varões nas letras espantosos.
Teve Grécia Temístocles; famosos,
Os Cipiões a Roma engrandeceram;
Doze Pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosos.
Ao nosso Portugal, que agora vemos
Tão diferente de seu ser primeiro,
Os vossos deram honra e liberdade.
E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
Do Braganção estado, há mil extremos
Iguais ao sangue e mores que a idade.
Luís Vaz de Camões in "Sonetos"
22.3.12
Lugar II
Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.
E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.
Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.
Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.
E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.
Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior
da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.
Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.
Herberto Helder
Lugar (poema II)
Poesia Toda, assírio & alvim, 1981
19.3.12
Ser Português é Difícil
Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso
redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer,
temos medo, ou vergonha, ou «culpa de sermos portugueses». Não queremos ser
primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta
amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor
país do mundo. Se lhes perguntarmos “Qual é actualmente o melhor e o maior país
do mundo?”, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os
Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem
só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: «Podia ter sido
Portugal...» E isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo,
medo de serem portugueses mas «também não vão ao ponto de quererem ser outra
coisa».
Revela-se aqui o que nós temos de mais insuportável e de
comovente: só nos custa sermos portugueses por não sermos os melhores do mundo.
E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo não é aquele de
quem diz “Portugal é o melhor país do mundo” (esse é simplesmente parvo ou
parvamente simples), mas, sim, de quem acredita, inocentemente, que Portugal
«podia ser» (ou ter sido) o melhor país do mundo e (eis a parte fundamental, que
separa os insectos dos cicofantas) «tem pena que não seja», uma pena daquelas
que ardem para toda a vida nos peitos profundos das pessoas boas.
(...)
Ser
português é «difícil». O resto do mundo não compreende que os Portugueses são
especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos
sérios. O resto do mundo acredita sinceramente que o mundo seria exactamente o
mesmo sem os Portugueses. Para a grande maioria da população da Terra, a própria
«existência» de Portugal é uma surpresa. E não se julgue automaticamente que se
trata de uma grande surpresa ou, sequer, de uma surpresa «boa». É mais uma
surpresa do género “Ah, sim?”. Como quem aprende que o «baseball» teve origem
nos «rounders ingleses». Ah, sim? Que giro! Agora sai da frente do televisor que
eu quero ver se este Babe Ruth era tão bom como diziam. Para o resto do mundo,
os feitos dos Portugueses não pertencem à história fundamental do Universo.
Pertencem, quando muito, à secção dos passatempos, do “Não me digas!” e do
“Acredite se quiser”. Ser português é um ser delicado. Ser português não é «ser
humano». É ser que tem muito para fazer só para ser «vivo».
Os políticos
dizem que é preciso andar para a frente, modernizar, desenvolver, «mudar»
Portugal, presumivelmente para melhor, porque este (nisto estão todos de acordo)
não presta. Os poetas sonham com países que nunca existiram ou existirão, ou que
já existiram e jamais existirão outra vez. Ninguém está contente com o que é, ou
com onde está, ou com o que tem. Os Portugueses, o povo, a nação, os ditos, os
implicados, envolvidos e lixados, esses nem ideia têm ou fazem — para eles a
própria noção de Portugal foi um raio de ideia para começar. Mas o que é preciso
não é nem tão drástico nem tão espectacular. O que é preciso é «continuar»
Portugal.
Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha
urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É
simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se
nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e
espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se
a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou
finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o
que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de
ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi
feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua!
Miguel Esteves Cardoso, in Os Meus Problemas, 1988
Portugal Está a Atravessar a Pior Crise
Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: - mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura.
Eça de Queirós in 'Correspondência (1891)'
17.3.12
14.3.12
Os portugueses no Inverno deste tempo
A Primavera mantem-se luminosa, a natureza de Inverno adapta-se.
Também as pessoas deste país se adaptam ao Inverno de um tempo inquietante: parados, resignados, expectantes. Ainda não sabemos qual o caminho para sair deste Inverno e recuperar a esperança. Viemos de uma lenta aridez que definou a audácia, o engenho confiante. Herdámos uma precaridade profunda, transversal, construída no silêncio, no medo. Quisemos ser outra coisa, mudar o destino com ornamentos fáceis, quisemos viver os padrões dos outros, pertencer a uma "modernidade". Quisemos voltar a pertencer ao mundo, regressar aos mapas, mas não caminhámos com os nossos próprios pés. E agora não sabemos como agir neste novo tempo e não ser esperar que passe ... "um dia há-de passar" pensa-se. Mas é preciso fazer mais, é preciso ser criativo. Mesmo num colete de forças, é preciso empreender, fazer, mesmo sabendo que quase todos os lugares estão minados, é preciso fazer ou ajudar quem o queira. A cada dia pensamos no que temos, no que nos resta dos despojos de uma nova forma de guerra. Nunca nos sentimos tão longe de uma guerra mas sabemos que temos que estar lá, a resistir.
Nas ruínas do caminho a Primavera mantem-se luminosa, fabulosa ausente deste tempo.
11.3.12
5.3.12
O Primeiro Homem
Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.
Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
O Rei da Ítaca
A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão
Ulisses rei da Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Nome das Coisas (1977)
2.3.12
Tarde no Mar
A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...
E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
Florbela Espanca in Charneca em Flor
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...
E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
Florbela Espanca in Charneca em Flor
1.3.12
O Amor é o Homem Inacabado
Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
O amor é o homem inacabado.
Paul Eluard in Algumas das Palavras
(Tradução de António Ramos Rosa)
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
O amor é o homem inacabado.
Paul Eluard in Algumas das Palavras
(Tradução de António Ramos Rosa)
19.2.12
Existimos em Função do Futuro
Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro.
O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?
Jean-Paul Sartre in Situações I
8.2.12
O Efeito do Afastamento no Tempo
O afastamento no tempo engana o sentido do espírito como o afastamento no espaço provoca o erro dos sentidos. O contemporâneo não vê a necessidade do que vem a ser, mas, quando há séculos entre o vir a ser e o observador, então ele vê a necessidade, como aquele que vê à distância o quadrado como algo redondo.
Soren Kierkegaard in Migalhas Filosóficas
Porque é que os Homens não Compreendem as Mulheres
Tu estás convencida há vários anos de que eu não te compreendo. Esta é sempre a teoria das mulheres, que não são compreendidas, que não são queridas, que não são adoradas, as queixas montanhas grandes, queixas enormes, sempre a justificar uma infelicidade que lhes vem lá do fundo da criação do mundo, do útero, da terra, as mulheres reflectem o útero feminino da terra, um útero cheio de aflições, em conclusão, queixam-se de tudo então entre os quarenta e os cinquenta, esse útero funciona nas alturas, é um útero cósmico que já não é parte de uma mulher, pertence à mulher do mundo. Há muita verdade no que dizes, o homem desinteressa-se facilmente, depois do acto do amor, depois logo sacode as penas, arrebita, passa à frente, domina outro mundo, a mulher fica fechada, acanhada nesse encontro muito íntimo, nesse seu mais fundo dos fundos, na identidade uterina com a ideia da criação, da reprodução da génese, salta, salta, forma-se na mulher a visão do caos a que só ela pelo amor pode dar uma nova regra, pelo domínio da paixão, pela companhia, para isso tem de ser compreendida, ela julga que é compreendida, tem de justificar a sua infelicidade pela compreensão do amor, de um outro amor, a mulher busca no outro amor o amor definitivo, amor que nunca aparece, é o poder fantásmico de convicção, que rompe todas as barreiras, a mulher atira-se, não sabe onde nem como, é capaz dos maiores actos de heroísmo clandestino, aparece, vai, surge, abre-se, mostra o que é o amor, a sua entrega total.
Ruben A.in 'Silêncio para 4'
7.2.12
A Pergunta Limita a Resposta
Quando se faz uma pergunta dissemos já que nos interessamos por uma determinada questão, limitamos já o campo da resposta. Que eu te pergunte, disseste-me tu, «está frio?», e nada se poderá dizer senão referente ao frio. Não se poderá responder por exemplo que a arte é bela ou que a Terra é redonda. É por isso que é suspeito para um ateu que se pergunte se Deus existe; como seria ofensivo perguntar-se a alguém se a mulher o atraiçoa... Mesmo que a resposta dissesse «não», a pergunta, só por si, já de algum modo tinha dito «sim».
Vergílio Ferreira in Estrela Polar
Palavras
"Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade."
Florbela Espanca
26.1.12
Estrangeiros
"Só através do corpo nos poderemos erguer à divindade de que sermos capazes, até deixarmos de ser, na frágil e precária luz da terra, o mais estrangeiro dos seus habitantes."
Eugénio de Andrade in Rosto Precário
O Milagre da Vida
Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para viveres a tua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para viveres a tua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein
16.1.12
15.1.12
E viveremos ...
- E viveremos, oraremos e contaremos velhas histórias.
- Não são homens de palavras...
- E riremos das borboletas douradas
e ouviremos os pobres diabos com as novas da corte.
E também falaremos com eles. Quem perde e quem ganha, quem entra e quem sai.
Investigaremos o mistério das coisas... como se fossemos espiões de Deus.
E na prisão sobreviveremos a hordas de chefes, que virão e irão, conforme a sorte deles o ditar.
in King Lear de Jean-Luc Godard, 1987
- Não são homens de palavras...
- E riremos das borboletas douradas
e ouviremos os pobres diabos com as novas da corte.
E também falaremos com eles. Quem perde e quem ganha, quem entra e quem sai.
Investigaremos o mistério das coisas... como se fossemos espiões de Deus.
E na prisão sobreviveremos a hordas de chefes, que virão e irão, conforme a sorte deles o ditar.
in King Lear de Jean-Luc Godard, 1987
11.1.12
A Ilusão da Distância e do Futuro
Dá-se com os longes o que
se dá com o futuro. Todo um mundo vago se abre à nossa alma, a nossa
sensibilidade perde-se nele como o nosso olhar, e nós aspiramos, ah, a entregar
todo o nosso ser, para que a volúpia de um sentimento grande, único, majestoso o
encha completamente . - E, ai de nós, quando para lá corremos e o ali se
torna aqui, tudo continua como dantes, e nós ficamos com a nossa pobreza
e as nossas limitações, e a nossa alma suspira pelo conforto que lhe escapou.
Johann Wolfgang von Goethe in Werther
Johann Wolfgang von Goethe in Werther
5.1.12
Receita de ano novo
Para você
ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não
precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para
ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
14.12.11
Mundo
Tenho
um amor nas Honduras
e tenho outro no Nepal
que o terceiro negro seja
se for chinês não faz mal
me falta ainda da Austrália
quem sabe do Polo Norte
me não virá mais algum
se houver foca que dê sorte
até o centro da terra
dará por quem me apaixone
por quem nunca me atormente
com falas ao telefone
mas de verdade o que eu amo
é o do nada do mundo
que até duvido que exista
tanto se acolhe ao profundo.
Agostinho da Silva 1906-1996), in Poemas
e tenho outro no Nepal
que o terceiro negro seja
se for chinês não faz mal
me falta ainda da Austrália
quem sabe do Polo Norte
me não virá mais algum
se houver foca que dê sorte
até o centro da terra
dará por quem me apaixone
por quem nunca me atormente
com falas ao telefone
mas de verdade o que eu amo
é o do nada do mundo
que até duvido que exista
tanto se acolhe ao profundo.
Agostinho da Silva 1906-1996), in Poemas
Terra - 7
Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava um outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.
Fernando Namora (1919-1989), in Terra
13.12.11
Inverno profundo
esse lugar onde o Inverno fica branco, escuro azul, cobre - castanho - dourado,
esse lugar onde quase não há barulho, cada movimento é pensado, devido ao frio,
aos dias breves, às noites longas, cada lugar é recolhimento, pensamento,
vida substancial que procura a razão suficiente, simples, um sentimento, uma justeza;
cada movimento, cada ser vai daqui para ali com a delicadeza da precisão, sem excessos,
para a simples aproximação à luz, ao raio de sol, para o aquecimento necessário,
à volta de um silêncio que espera e que sabe o que espera
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