Só quando se passa alguns meses sem ler os jornais e depois se
lêem todos em conjunto é que nos damos conta do tempo que perdemos com essa
papelada. O mundo andou sempre dividido em partidos - hoje mais que nunca - e o
jornalista, sempre que se prolonga uma situação indefinida, trata de seduzir
este ou aquele partido, alimenta dia após dia a sua inclinação ou a sua repulsa
por cada uma das facções, até que chega finalmente o momento em que os factos se
decidem. E o acontecimento passa então a ser admirado como se fosse coisa
divina.
Johann Wolfgang von Goethe in Máximas e Reflexões
19.5.12
14.5.12
13.5.12
Pensar o Amor
A verdade é amor — escrevi um dia. Porque toda a relação com o
mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde
esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho
estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao
filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso
da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse
equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser
artista. Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável
ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em
sensibilidade, antes de o sermos em. razão ou mesmo em inteligência. Porque só
se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está
«feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio
consente. E só o consente, se o amar. Porque mesmo a verdade dos outros — a
política, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la
talvez no ódio, que é a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade.
Vergílio Ferreira in Pensar
Vergílio Ferreira in Pensar
8.5.12
Falha
"No grande artista há uma falha a preencher e no pequeno uma
falha a compensar. O primeiro nunca o consegue."
Vergílio Ferreira (1916-1996)
Vergílio Ferreira (1916-1996)
Arte
"Só a arte permite a realização de tudo o que na realidade a
vida recusa ao homem."
Johann Goethe (1749-1832)
Johann Goethe (1749-1832)
Moon over Paris
Image Credit & Copyright: VegaStar Carpentier
O auto-esquecimento
A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosóficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio.
Karl Jaspers (1883 -1969) in Iniciação Filosófica
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosóficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio.
Karl Jaspers (1883 -1969) in Iniciação Filosófica
3.5.12
Os Pássaros de Londres
Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny in Poemas de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny in Poemas de Londres
2.5.12
Há Dentro de Nós um Poço
Há dentro de nós um poço. No fundo dele é que estamos, porque está o que é mais nós, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos. E a vida exterior, o assalto do que nos rodeia, o que visa é esse íntimo de nós para o ocupar, o preencher, o esvaziar do que nos pertence e nos faz ser homens. Jamais como hoje esse assalto foi tão violento, jamais como hoje fomos invadidos do que não é nós. É lá nesse fundo que se gera a espiritualidade, a gravidade do sermos, o encantamento da arte. E a nossa luta é terrível, para nos defendermos no último recesso da nossa intimidade. Porque tudo nos expulsa de lá. Quando essa intimidade for preenchida pelo exterior, quando a materialidade se nos for depositando dentro, o homem definitivamente terá em nós morrido.
Vergílio Ferreira in Conta-Corrente IV, 1986
25.4.12
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
22.4.12
Ó Meus Irmãos Contrários
Ó meus irmãos contrários que guardais nas vossas pupilas
A noite infusa e o seu horror
Onde vos deixei eu
Com vossas pesadas mãos no azeite preguiçoso
Dos vossos actos antigos
Com tão pouca esperança que'a morte tem razão
Ó meus irmãos perdidos
Eu vou para a vida tenho aparência de homem
Para provar que o mundo é feito à minha medida
E não estou só
Mil imagens de mim multiplicam a luz
Mil olhares semelhantes igualam a carne
É a ave é a criança é a rocha é a planície
Que se misturam a nós
O ouro desata a rir ao ver-se fora do abismo
A água o fogo despem-se por uma única estação
Já não há eclipse na fronte do universo.
Paul Eluard (1895-1952) in Algumas das Palavras
Tradução de António Ramos Rosa
12.4.12
Uma Nação só Vive porque Pensa
Uma nação só vive porque pensa. Cogitat ergo est. A força e a riqueza não bastam para provar que uma nação vive duma vida que mereça ser glorificada na História - como rijos músculos num corpo e ouro farto numa bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino de África, com guerreiros incontáveis nas suas aringas e incontáveis diamantes nas suas colinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilização, os civilizados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rês bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egipto ou Tunis formassem resplandescentes centros de ciências, de literaturas e de artes, e, através de uma serena legião de homens geniais, incessantemente educassem o mundo - nenhuma nação mesmo nesta idade do ferro e de força, ousaria ocupar como um campo maninho e sem dono esses solos augustos donde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das ideias e das formas.
Só na verdade o pensamento e a sua criação suprema, a ciência, a literatura, as artes, dão grandeza aos Povos, atraem para eles universal reverência e carinho, e, formando dentro deles o tesouro de verdades e de belezas que o Mundo precisa, os tornam perante o Mundo sacrossantos. Que diferença há, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e produtivas cidades - onde os palácios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque forma pois Paris um foco crepitante de Civilização que irresistivelmente fascina a Humanidade - e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidável celeiro onde se procura a farinha e o grão? Porque Paris, além dos palácios, das instituições e das riquezas de que Chicago também justamente se gloria, possui a mais um grupo especial de homens -Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguières, Gounot, Massenet - que pela incessante produção do seu cérebro convertem a banal cidade que habitam num centro de soberano ensino. Se as Origens do Cristianismo, o Fausto, as telas de Bonnat, os mármores de Falguières, nos viessem de além dos mares, da nova e monumental Chicago - para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o Sol, os espíritos e os corações da Terra.
Se uma nação, portanto, só tem a superioridade porque tem pensamento, todo aquele que venha revelar na nossa pátria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe aumentar a única grandeza que a tornará respeitada, a única beleza que a tornará amada; - e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrário ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castelo.
Eça de Queirós (1845-1900), in A Correspondência de Fradique Mendes
6.4.12
Sua Beleza
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas
1.4.12
Keith Jarrett - The Köln Concert: Part I
Comecei tantos Domingos assim, com esta música.
O horizonte abria-se lentamente alto e largo. Uma luz cintilava sobre a natureza e havia possibilidades...
27.3.12
Não há Descoberta sem Violência
Devemos a quase totalidade das nossas
descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. Mesmo
Deus, na medida em que nos intriga, não é no mais íntimo de nós que o
discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em
que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro tão
ruinoso para Ele como para nós. Ferido pela maldição que se liga aos actos, o
violento só força a sua natureza, só se ultrapassa a si próprio, para a ela
regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as
ter feito nascer. Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema
esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção.
Destrói-se quem, respondendo à sua vocação e cumprindo-a, se agita no interior
da história; apenas se salva aquele que sacrifica dons e talentos para,
desprendido da sua qualidade de homem, poder repousar no ser. Se aspiro a uma
carreira metafísica, não posso por preço algum conservar a minha identidade:
terei de liquidar o menor resíduo que dela possa guardar; se, pelo contrário,
escolho a aventura de um papel histórico, a tarefa que me cabe é a de exasperar
as minhas faculdades até explodir eu próprio com elas. Parece-se sempre pelo eu
que se assume: ter um nome é reivindicar um modo preciso de ruína.
Emil Cioran in Pensar Contra Si Próprio
Emil Cioran in Pensar Contra Si Próprio
26.3.12
25.3.12
Portugal, Tão Diferente de seu Ser Primeiro
Os reinos e os impérios poderosos,
Que em grandeza no mundo mais cresceram,
Ou por valor de esforço floresceram,
Ou por varões nas letras espantosos.
Teve Grécia Temístocles; famosos,
Os Cipiões a Roma engrandeceram;
Doze Pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosos.
Ao nosso Portugal, que agora vemos
Tão diferente de seu ser primeiro,
Os vossos deram honra e liberdade.
E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
Do Braganção estado, há mil extremos
Iguais ao sangue e mores que a idade.
Luís Vaz de Camões in "Sonetos"
Que em grandeza no mundo mais cresceram,
Ou por valor de esforço floresceram,
Ou por varões nas letras espantosos.
Teve Grécia Temístocles; famosos,
Os Cipiões a Roma engrandeceram;
Doze Pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosos.
Ao nosso Portugal, que agora vemos
Tão diferente de seu ser primeiro,
Os vossos deram honra e liberdade.
E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
Do Braganção estado, há mil extremos
Iguais ao sangue e mores que a idade.
Luís Vaz de Camões in "Sonetos"
22.3.12
Lugar II
Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.
E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.
Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.
Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.
E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.
Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior
da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.
Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.
Herberto Helder
Lugar (poema II)
Poesia Toda, assírio & alvim, 1981
19.3.12
Ser Português é Difícil
Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso
redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer,
temos medo, ou vergonha, ou «culpa de sermos portugueses». Não queremos ser
primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta
amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor
país do mundo. Se lhes perguntarmos “Qual é actualmente o melhor e o maior país
do mundo?”, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os
Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem
só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: «Podia ter sido
Portugal...» E isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo,
medo de serem portugueses mas «também não vão ao ponto de quererem ser outra
coisa».
Revela-se aqui o que nós temos de mais insuportável e de
comovente: só nos custa sermos portugueses por não sermos os melhores do mundo.
E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo não é aquele de
quem diz “Portugal é o melhor país do mundo” (esse é simplesmente parvo ou
parvamente simples), mas, sim, de quem acredita, inocentemente, que Portugal
«podia ser» (ou ter sido) o melhor país do mundo e (eis a parte fundamental, que
separa os insectos dos cicofantas) «tem pena que não seja», uma pena daquelas
que ardem para toda a vida nos peitos profundos das pessoas boas.
(...)
Ser
português é «difícil». O resto do mundo não compreende que os Portugueses são
especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos
sérios. O resto do mundo acredita sinceramente que o mundo seria exactamente o
mesmo sem os Portugueses. Para a grande maioria da população da Terra, a própria
«existência» de Portugal é uma surpresa. E não se julgue automaticamente que se
trata de uma grande surpresa ou, sequer, de uma surpresa «boa». É mais uma
surpresa do género “Ah, sim?”. Como quem aprende que o «baseball» teve origem
nos «rounders ingleses». Ah, sim? Que giro! Agora sai da frente do televisor que
eu quero ver se este Babe Ruth era tão bom como diziam. Para o resto do mundo,
os feitos dos Portugueses não pertencem à história fundamental do Universo.
Pertencem, quando muito, à secção dos passatempos, do “Não me digas!” e do
“Acredite se quiser”. Ser português é um ser delicado. Ser português não é «ser
humano». É ser que tem muito para fazer só para ser «vivo».
Os políticos
dizem que é preciso andar para a frente, modernizar, desenvolver, «mudar»
Portugal, presumivelmente para melhor, porque este (nisto estão todos de acordo)
não presta. Os poetas sonham com países que nunca existiram ou existirão, ou que
já existiram e jamais existirão outra vez. Ninguém está contente com o que é, ou
com onde está, ou com o que tem. Os Portugueses, o povo, a nação, os ditos, os
implicados, envolvidos e lixados, esses nem ideia têm ou fazem — para eles a
própria noção de Portugal foi um raio de ideia para começar. Mas o que é preciso
não é nem tão drástico nem tão espectacular. O que é preciso é «continuar»
Portugal.
Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha
urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É
simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se
nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e
espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se
a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou
finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o
que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de
ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi
feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua!
Miguel Esteves Cardoso, in Os Meus Problemas, 1988
Portugal Está a Atravessar a Pior Crise
Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: - mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura.
Eça de Queirós in 'Correspondência (1891)'
17.3.12
14.3.12
Os portugueses no Inverno deste tempo
A Primavera mantem-se luminosa, a natureza de Inverno adapta-se.
Também as pessoas deste país se adaptam ao Inverno de um tempo inquietante: parados, resignados, expectantes. Ainda não sabemos qual o caminho para sair deste Inverno e recuperar a esperança. Viemos de uma lenta aridez que definou a audácia, o engenho confiante. Herdámos uma precaridade profunda, transversal, construída no silêncio, no medo. Quisemos ser outra coisa, mudar o destino com ornamentos fáceis, quisemos viver os padrões dos outros, pertencer a uma "modernidade". Quisemos voltar a pertencer ao mundo, regressar aos mapas, mas não caminhámos com os nossos próprios pés. E agora não sabemos como agir neste novo tempo e não ser esperar que passe ... "um dia há-de passar" pensa-se. Mas é preciso fazer mais, é preciso ser criativo. Mesmo num colete de forças, é preciso empreender, fazer, mesmo sabendo que quase todos os lugares estão minados, é preciso fazer ou ajudar quem o queira. A cada dia pensamos no que temos, no que nos resta dos despojos de uma nova forma de guerra. Nunca nos sentimos tão longe de uma guerra mas sabemos que temos que estar lá, a resistir.
Nas ruínas do caminho a Primavera mantem-se luminosa, fabulosa ausente deste tempo.
11.3.12
5.3.12
O Primeiro Homem
Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.
Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
O Rei da Ítaca
A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão
Ulisses rei da Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Nome das Coisas (1977)
2.3.12
Tarde no Mar
A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...
E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
Florbela Espanca in Charneca em Flor
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!
Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...
E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
Florbela Espanca in Charneca em Flor
1.3.12
O Amor é o Homem Inacabado
Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
O amor é o homem inacabado.
Paul Eluard in Algumas das Palavras
(Tradução de António Ramos Rosa)
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
O amor é o homem inacabado.
Paul Eluard in Algumas das Palavras
(Tradução de António Ramos Rosa)
19.2.12
Existimos em Função do Futuro
Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro.
O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?
Jean-Paul Sartre in Situações I
8.2.12
O Efeito do Afastamento no Tempo
O afastamento no tempo engana o sentido do espírito como o afastamento no espaço provoca o erro dos sentidos. O contemporâneo não vê a necessidade do que vem a ser, mas, quando há séculos entre o vir a ser e o observador, então ele vê a necessidade, como aquele que vê à distância o quadrado como algo redondo.
Soren Kierkegaard in Migalhas Filosóficas
Porque é que os Homens não Compreendem as Mulheres
Tu estás convencida há vários anos de que eu não te compreendo. Esta é sempre a teoria das mulheres, que não são compreendidas, que não são queridas, que não são adoradas, as queixas montanhas grandes, queixas enormes, sempre a justificar uma infelicidade que lhes vem lá do fundo da criação do mundo, do útero, da terra, as mulheres reflectem o útero feminino da terra, um útero cheio de aflições, em conclusão, queixam-se de tudo então entre os quarenta e os cinquenta, esse útero funciona nas alturas, é um útero cósmico que já não é parte de uma mulher, pertence à mulher do mundo. Há muita verdade no que dizes, o homem desinteressa-se facilmente, depois do acto do amor, depois logo sacode as penas, arrebita, passa à frente, domina outro mundo, a mulher fica fechada, acanhada nesse encontro muito íntimo, nesse seu mais fundo dos fundos, na identidade uterina com a ideia da criação, da reprodução da génese, salta, salta, forma-se na mulher a visão do caos a que só ela pelo amor pode dar uma nova regra, pelo domínio da paixão, pela companhia, para isso tem de ser compreendida, ela julga que é compreendida, tem de justificar a sua infelicidade pela compreensão do amor, de um outro amor, a mulher busca no outro amor o amor definitivo, amor que nunca aparece, é o poder fantásmico de convicção, que rompe todas as barreiras, a mulher atira-se, não sabe onde nem como, é capaz dos maiores actos de heroísmo clandestino, aparece, vai, surge, abre-se, mostra o que é o amor, a sua entrega total.
Ruben A.in 'Silêncio para 4'
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