9.7.12
Água
"A ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água."
Teixeira de Pascoaes (1877-1952), in Aforismos
8.7.12
5.7.12
Pergunta-me
Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Mia Couto
3.7.12
NOCTURNO
Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...
Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.
Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.
Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...
David Mourão-Ferreira
2.7.12
A Nau de Ícaro
“O nosso grande problema, enquanto portugueses, neste fim de século, é integrar a realidade, a banal realidade europeia, com os seus imperativos de organização, de competitividade, de invenção. Sem perder um certo arcaísmo, um certo perfume de vida que se lembra ainda do seu passado rural, vida banhada da doce luz da Finisterra.”
”Nenhuma barca europeia está mais carregada de passado do que a nossa. Talvez por ter sido a primeira a largar do cais europeu e a última a regressar.”
“O nosso mundo, na aurora de um novo milénio, segundo o calendário crístico, parece-se com um dos grandes aeroportos onde a humanidade se cruza sem se ver.”
“Não pode dizer-se de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exacto. É ela que o inventa. A língua portuguesa é menos a língua que os Portugueses falam do que a voz que fala os Portugueses.”
“Uma língua não é de ninguém, mas nós não somos ninguém sem uma língua que fazemos nossa. É neste sentido, e unicamente neste sentido – longe das identificações narcisistas dos nacionalismos culturais -, que uma língua é, como pensava Pessoa, a nossa verdadeira pátria. A esse título, habitá-la, defendê-la, da única maneira criadora tolerável, o que a torna cúmplice dos nossos desejos e dos nossos sonhos de imortalidade humana, nem é mesmo um dever, mas a natural respiração de uma cultura que tem nela a sua matéria e a sua forma. Ou melhor, a alma da sua alma.”
"O povo brasileiro é um povo cheio de humor. Não é culpa dele se é um povo demasiado grande para a memória que tem, como nós somos um povo pequeno de mais para a memória imensa que ao longo dos séculos refluiu para o nosso coração e nos sufoca."
Eduardo Lourenço in A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia
29.6.12
A Fraqueza Fundamental do Homem
A fraqueza fundamental do homem não é nada que ele não possa vencer, desde que não possa aproveitar com a vitória. A juventude vence tudo, a impostura, a astúcia mais dissimulada, mas não há ninguém que possa deter no voo a vitória, torná-la viva, porque então a juventude deixou de existir. A velhice não ousa tocar na vitória e a nova juventude atormentada pelo novo ataque que se desencadeia imediatamente, deseja a sua própria vitória. É assim que o Diabo sem cessar vencido, nunca é aniquilado.
Franz Kafka in Meditações
20.6.12
Sim, a eternidade
Sim, a eternidade é o nosso signo. Não
começámos a existir nem o fim da existência o entendemos como fim. Por isso não
sentimos que não existimos antes de começarmos a existir mas apenas que tudo
isso que aconteceu antes de termos existido foi apenas qualquer coisa a que por
acaso não assistimos como a muito do que acontece no nosso tempo. E à morte
invencivelmente a ultrapassamos para nos pormos a existir depois dela. O prazer
que nos dá a história do passado, sobretudo os documentos que no-lo dão
flagrantemente, vem de nos sentirmos prolongados até lá, de nos sentirmos de
facto presentes nesse modo de ser contemporâneos. Mas sobretudo há em nós uma
memória-limite, uma memória absoluta que não tem nada de referenciável e se
prolonga ao sem fim. Do mesmo modo há o futuro que é pura projecção de nós,
apelo irreprimível a um amanhã sem termo ou sem amanhã. Por isso a morte nos
angustia e sobretudo nos intriga por nos provar à evidência o que profundamente
não conseguimos compreender. Mas sobretudo a eternidade é o que se nos impõe no
instante em que vivemos. O tempo não passa por nós e daí vem a impossibilidade
de nos sentirmos envelhecer. Sabemo-lo na realidade, mas é um saber de fora.
Repetimo-lo a nós próprios para enfim o aprendermos, mas é uma matéria difícil
que jamais conseguimos dominar. Por isso estranhamos que os nossos filhos
cresçam e se ergam perante nós como adultos que não deviam ser. Por isso
estranhamos os jovens pela sua estranheza de que quiséssemos porventura ser
jovens como eles. Instintivamente sentimos que é um abuso eles tomarem o lugar
que nos pertencia e nos desalojem do lugar que era nosso. Por isso sofremos, não
bem por perdermos o que nos pertencia, mas pela dificuldade de isso entendermos.
Há uma oposição frontal entre o nosso íntimo sentir e a realidade que isso nos
desmente. Somos eternos, mas vivemos no tempo. Somos imutáveis, mas tudo à nossa
volta se muda e nos impõe a mudança. Somos divinos, mas de terrena condição. É
essa condição que sabemos, mas não conseguimos aprender. Nesta oposição se gera
toda a grandeza do homem e a tragédia que o marcou. Os que se fixam num dos
termos são deuses iludidos ou animais que não chegaram a homens. Porque o
verdadeiro homem é Deus por vocação e animal por necessidade.
Vergílio Ferreira in Conta-Corrente 3
13.6.12
6.6.12
Carta ao Futuro
Sim: gritar, protestar é bom. Destruir a evidência de um erro é
sentir a utilidade das mãos que destroem, é exaltar as forças do espírito na
maravilha indizível da descoberta - desde criança o sabemos; por isso os
brinquedos que nos davam só eram bem nossos, só nós éramos bem nós em face
deles, depois de lhes tentarmos o segredo pela destruição... As pessoas
sensatas, essas que sabiam não haver senão morte para lá da beleza aparente,
aconselhavam-nos a sua sensatez. Mas nós tínhamos as nossas mãos desocupadas e a
angústia da interrogação. Destruir, negar. As mãos que desmantelam a ordem
envelhecida são ainda a nossa própria vida, transmitem-nos a certeza de que há
um mundo e nós no meio dele, identificam a inteira verdade do nosso corpo que
age e é eficaz; e o rumor dos nossos gritos afoga as vozes obscuras e
importunas, a nossa voz derradeira, ilude-nos a resposta à interrogação que nos
espera, inventa-nos no NÃO essa ilusão de plenitude que nós buscamos no SIM.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Consciência Débil da Nossa Autenticidade
A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo
disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas
no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao
decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se
realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas
como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim
reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas
não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente,
para se não querer ser o que se é - o que é ser-se ainda, embora de outra
maneira.
Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser
- a consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do
modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que
primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da
consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que
podemos sondar. Sempre a realidade de nós é a realidade original que na origens
se gera. Sempre a autenticidade de nós está a uma distância infinita das razões
que a justificam.
Vergílio Ferreira in Invocação ao Meu Corpo
31.5.12
Uma Certa Quantidade
Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
Mário Cesariny in Pena Capital
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
Mário Cesariny in Pena Capital
Excluídos
Quem comete um erro é
excluído; é fechado dentro de uma caixa. Quem está fora vê apenas a caixa. Mas
quem está fechado, excluído, consegue ver cá para fora. Vê tudo, vê-nos a todos.
Em cada compartimento há dezenas de caixas. Milhares de caixas por todo o
lado. A maior parte delas vazia. Outras têm lá dentro pessoas excluídas. Ninguém
sabe quais as caixas que têm pessoas.
As caixas são tantas que ninguém lhes
dá importância. Pode estar lá uma pessoa, até a que amas, mas nem olhas. Já não
produzem efeito. Passas por elas centenas de vezes.
Gonçalo M. Tavares, in Jerusálem
22.5.12
Proximidade
"Aquilo que se aproxima, não é a comunhão das opiniões, mas a consanguinidade
dos espíritos."
Marcel Proust
Marcel Proust
A Glorificação das Aparências
Não sei o que acontecerá quando formos todos
funcionários aureolados pela organização de aparências que acentua a satisfação
dos privilégios. A aparência vai tomando conta até da vida privada das pessoas.
Não importa ter uma existência nula, desde que se tenha uma aparência de
apropriação dos bens de consumo mais altamente valorizados. Há de facto um novo
proletariado preparado para passar por emancipação e conquistas do século. As
bestas de carga carregam agora com a verdade corrente que é o humanismo em foco
— a caricatura do humano e do seu significado.
Agustina Bessa-Luís in Dicionário Imperfeito
19.5.12
A Futilidade da Imprensa
Só quando se passa alguns meses sem ler os jornais e depois se
lêem todos em conjunto é que nos damos conta do tempo que perdemos com essa
papelada. O mundo andou sempre dividido em partidos - hoje mais que nunca - e o
jornalista, sempre que se prolonga uma situação indefinida, trata de seduzir
este ou aquele partido, alimenta dia após dia a sua inclinação ou a sua repulsa
por cada uma das facções, até que chega finalmente o momento em que os factos se
decidem. E o acontecimento passa então a ser admirado como se fosse coisa
divina.
Johann Wolfgang von Goethe in Máximas e Reflexões
Johann Wolfgang von Goethe in Máximas e Reflexões
14.5.12
13.5.12
Pensar o Amor
A verdade é amor — escrevi um dia. Porque toda a relação com o
mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde
esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho
estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao
filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso
da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse
equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser
artista. Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável
ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em
sensibilidade, antes de o sermos em. razão ou mesmo em inteligência. Porque só
se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está
«feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio
consente. E só o consente, se o amar. Porque mesmo a verdade dos outros — a
política, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la
talvez no ódio, que é a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade.
Vergílio Ferreira in Pensar
Vergílio Ferreira in Pensar
8.5.12
Falha
"No grande artista há uma falha a preencher e no pequeno uma
falha a compensar. O primeiro nunca o consegue."
Vergílio Ferreira (1916-1996)
Vergílio Ferreira (1916-1996)
Arte
"Só a arte permite a realização de tudo o que na realidade a
vida recusa ao homem."
Johann Goethe (1749-1832)
Johann Goethe (1749-1832)
Moon over Paris
Image Credit & Copyright: VegaStar Carpentier
O auto-esquecimento
A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosóficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio.
Karl Jaspers (1883 -1969) in Iniciação Filosófica
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosóficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio.
Karl Jaspers (1883 -1969) in Iniciação Filosófica
3.5.12
Os Pássaros de Londres
Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny in Poemas de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny in Poemas de Londres
2.5.12
Há Dentro de Nós um Poço
Há dentro de nós um poço. No fundo dele é que estamos, porque está o que é mais nós, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos. E a vida exterior, o assalto do que nos rodeia, o que visa é esse íntimo de nós para o ocupar, o preencher, o esvaziar do que nos pertence e nos faz ser homens. Jamais como hoje esse assalto foi tão violento, jamais como hoje fomos invadidos do que não é nós. É lá nesse fundo que se gera a espiritualidade, a gravidade do sermos, o encantamento da arte. E a nossa luta é terrível, para nos defendermos no último recesso da nossa intimidade. Porque tudo nos expulsa de lá. Quando essa intimidade for preenchida pelo exterior, quando a materialidade se nos for depositando dentro, o homem definitivamente terá em nós morrido.
Vergílio Ferreira in Conta-Corrente IV, 1986
25.4.12
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
22.4.12
Ó Meus Irmãos Contrários
Ó meus irmãos contrários que guardais nas vossas pupilas
A noite infusa e o seu horror
Onde vos deixei eu
Com vossas pesadas mãos no azeite preguiçoso
Dos vossos actos antigos
Com tão pouca esperança que'a morte tem razão
Ó meus irmãos perdidos
Eu vou para a vida tenho aparência de homem
Para provar que o mundo é feito à minha medida
E não estou só
Mil imagens de mim multiplicam a luz
Mil olhares semelhantes igualam a carne
É a ave é a criança é a rocha é a planície
Que se misturam a nós
O ouro desata a rir ao ver-se fora do abismo
A água o fogo despem-se por uma única estação
Já não há eclipse na fronte do universo.
Paul Eluard (1895-1952) in Algumas das Palavras
Tradução de António Ramos Rosa
12.4.12
Uma Nação só Vive porque Pensa
Uma nação só vive porque pensa. Cogitat ergo est. A força e a riqueza não bastam para provar que uma nação vive duma vida que mereça ser glorificada na História - como rijos músculos num corpo e ouro farto numa bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino de África, com guerreiros incontáveis nas suas aringas e incontáveis diamantes nas suas colinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilização, os civilizados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rês bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egipto ou Tunis formassem resplandescentes centros de ciências, de literaturas e de artes, e, através de uma serena legião de homens geniais, incessantemente educassem o mundo - nenhuma nação mesmo nesta idade do ferro e de força, ousaria ocupar como um campo maninho e sem dono esses solos augustos donde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das ideias e das formas.
Só na verdade o pensamento e a sua criação suprema, a ciência, a literatura, as artes, dão grandeza aos Povos, atraem para eles universal reverência e carinho, e, formando dentro deles o tesouro de verdades e de belezas que o Mundo precisa, os tornam perante o Mundo sacrossantos. Que diferença há, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e produtivas cidades - onde os palácios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque forma pois Paris um foco crepitante de Civilização que irresistivelmente fascina a Humanidade - e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidável celeiro onde se procura a farinha e o grão? Porque Paris, além dos palácios, das instituições e das riquezas de que Chicago também justamente se gloria, possui a mais um grupo especial de homens -Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguières, Gounot, Massenet - que pela incessante produção do seu cérebro convertem a banal cidade que habitam num centro de soberano ensino. Se as Origens do Cristianismo, o Fausto, as telas de Bonnat, os mármores de Falguières, nos viessem de além dos mares, da nova e monumental Chicago - para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o Sol, os espíritos e os corações da Terra.
Se uma nação, portanto, só tem a superioridade porque tem pensamento, todo aquele que venha revelar na nossa pátria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe aumentar a única grandeza que a tornará respeitada, a única beleza que a tornará amada; - e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrário ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castelo.
Eça de Queirós (1845-1900), in A Correspondência de Fradique Mendes
6.4.12
Sua Beleza
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Sophia de Mello Breyner Andresen in O Nome das Coisas
1.4.12
Keith Jarrett - The Köln Concert: Part I
Comecei tantos Domingos assim, com esta música.
O horizonte abria-se lentamente alto e largo. Uma luz cintilava sobre a natureza e havia possibilidades...
27.3.12
Não há Descoberta sem Violência
Devemos a quase totalidade das nossas
descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. Mesmo
Deus, na medida em que nos intriga, não é no mais íntimo de nós que o
discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em
que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro tão
ruinoso para Ele como para nós. Ferido pela maldição que se liga aos actos, o
violento só força a sua natureza, só se ultrapassa a si próprio, para a ela
regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as
ter feito nascer. Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema
esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção.
Destrói-se quem, respondendo à sua vocação e cumprindo-a, se agita no interior
da história; apenas se salva aquele que sacrifica dons e talentos para,
desprendido da sua qualidade de homem, poder repousar no ser. Se aspiro a uma
carreira metafísica, não posso por preço algum conservar a minha identidade:
terei de liquidar o menor resíduo que dela possa guardar; se, pelo contrário,
escolho a aventura de um papel histórico, a tarefa que me cabe é a de exasperar
as minhas faculdades até explodir eu próprio com elas. Parece-se sempre pelo eu
que se assume: ter um nome é reivindicar um modo preciso de ruína.
Emil Cioran in Pensar Contra Si Próprio
Emil Cioran in Pensar Contra Si Próprio
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