Para os lábios
que o homem faz
que
atraem beijos
ao redor do mundo
ficou na nossa memória
em qualquer
parte a qualquer hora
um pedaço
de pão
Promessa
que se
cumpre
que alimenta
o mundo
Olhos
a exigir
uma floresta
Mário Cesariny in Pena Capital
13.9.12
11.9.12
O Futuro Sai da Fenda e da Ferida
a geometria abre a linha para deixar passar a
Imaginação.
O FUTURO sai da FENDA e da FERIDA.
Do que antes foi, hoje sai Sangue.
Inundar o VAZIO: o FUTURO inunda o VAZIO.
Porque todo o vazio tem por INIMIGO a Imaginação.
Porque todo o vazio tem o Inimigo.
Gonçalo M. Tavares in Investigações. Novalis
O FUTURO sai da FENDA e da FERIDA.
Do que antes foi, hoje sai Sangue.
Inundar o VAZIO: o FUTURO inunda o VAZIO.
Porque todo o vazio tem por INIMIGO a Imaginação.
Porque todo o vazio tem o Inimigo.
Gonçalo M. Tavares in Investigações. Novalis
5.9.12
O isolamento é indiferença
Se nos examinarmos num determinado momento - no instante presente, separado do passado e do futuro - descobrimo-nos inocentes. Não podemos ser nesse instante mais do que aquilo que somos: todo o desenvolvimento implica uma duração. Está na essência do mundo, nesse instante, que sejamos assim.
Simone Weil in A Gravidade e a Graça
29.8.12
O Mundo
"O mundo é conduzido por loucos e ambiciosos, que só têm em mira o êxito e o
lucro, estão-se nas tintas para as preocupações dos poetas, que são, como toda a
gente sabe, seres da utopia, essa utopia sem a qual não há progresso."
Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade
Ser poeta
"Ser poeta também é isso, essa inabilidade para o mundo do lucro e da usura."
Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade
28.8.12
Liberdade Absoluta e Necessidade Absoluta são Idênticas
Quem meditou sobre a liberdade e a necessidade descobriu por si que estes princípios têm se ser unificados no Absoluto - a liberdade porque o Absoluto age por potência autónoma incondicionada, a necessidade porque, justamente por isso, ele só age em conformidade com as leis do seu ser, com a necessidade interior da sua essência. Nele não há mais nenhuma vontade, que poderia afastar-se de uma lei, mas também nenhuma lei mais, que ele não desse a si mesmo apenas por suas acções, nenhuma lei que, independentemente de suas acções, tivesse realidade. Liberdade absoluta e necessidade absoluta são idênticas.
Friedrich Schelling, in 'Sobre o Dogmatismo e o Criticismo'
Friedrich Schelling, in 'Sobre o Dogmatismo e o Criticismo'
24.8.12
23.8.12
Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo
Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo
António Ramos Rosa
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo
António Ramos Rosa
20.8.12
Pensar Portugal
Pensar Portugal é pensá-lo no que ele é e não iludirmo-nos sobre o que ele é. Ora o que ele é é a inconsciência, um infantilismo orgânico, o repentismo, o desequilíbrio emotivo que vai da abjecção e lágrima fácil aos actos grandiosos e heróicos, a credulidade, o embasbacamento, a difícil assumpção da própria liberdade e a paralela e cómoda entrega do próprio destino às mãos dos outros, o mesquinho espírito de intriga, o entendimento e valorização de tudo numa dimensão curta, a zanga fácil e a reconciliação fácil como se tudo fossem rixas de família, a tendência para fazermos sempre da nossa vida um teatro, o berro, o espalhafato, a desinibição tumultuosa, o despudor com que exibimos facilmente o que devia ficar de portas adentro, a grosseria de um novo-rico sem riqueza, o egoísmo feroz e indiscreto balanceado com o altruísmo, se houver gente a ver ou a saber, a inautenticidade visível se queremos subir além de nós, a superficialidade vistosa, a improvisação de expediente, o arrivismo, a trafulhice e o gozo e a vaidade de intrujar com a nossa «esperteza saloia», o fatalismo, a crendice milagreira, a parolice. Decerto, temos também as nossas virtudes. Mas, na sua maioria, elas têm a sua raiz nestas misérias. Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas «pensá-lo» — ou seja, pôr-lhe um penso...
Vergílio Ferreira in Conta-Corrente 2
19.8.12
30.7.12
Férias de si mesmo
“Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro.
Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. “
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
25.7.12
A Realidade da Vida e a Realidade do Mundo
A nossa crença na realidade da vida e na
realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa. A segunda provém
basicamente da permanência e da durabilidade do mundo, bem superiores às da vida
mortal. Se o homem soubesse que o mundo acabaria quando ele morresse, ou logo
depois, esse mundo perderia toda a sua realidade, como a perdeu para os antigos
cristãos, na medida em que estes estavam convencidos de que as suas expectativas
escatológicas seriam imediatamente realizadas. A confiança na realidade da vida,
pelo contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é
experimentada, do impacte com que ela se faz sentir.
Esta intensidade é tão grande e a sua força é tão elementar que, onde
quer que prevaleça, na alegria ou na dor, oblitera qualquer outra realidade
mundana. Já se observou muitas vezes que aquilo que a vida dos ricos perde em
vitalidade, em intimidade com as «boas coisas» da natureza, ganha em
refinamento, em sensibilidade às coisas belas do mundo. O facto é que a
capacidade humana de vida no mundo implica sempre uma capacidade de transcender
e alienar-se dos processos da própria vida, enquanto a vitalidade e o vigor só
podem ser conservados na medida em que os homens se disponham a arcar com o
ónus, as fadigas e as penas da vida.
Hannah Arendt in A Condição Humana
18.7.12
17.7.12
Lembrança do Mundo Antigo
Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), in Sentimento do Mundo
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), in Sentimento do Mundo
15.7.12
Do que Nada se Sabe
A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?
Jorge Luis Borges in A Rosa Profunda
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?
Jorge Luis Borges in A Rosa Profunda
Sou
Sou o que
sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.
Jorge Luis Borges in A Rosa Profunda
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.
Jorge Luis Borges in A Rosa Profunda
13.7.12
É possível?
É possível (...) que não se tenha visto, conhecido e dito nada de real e
importante? É possível que se tenha tido milénios para olhar, reflectir e
anotar e que se tenha deixado passar os milénios como uma pausa escolar,
durante a qual se come fatias de pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, apesar das investigações
e dos progressos, apesar da cultura, da religião e da filosofia, se tenha
ficado na superfície da vida? É possível que até se tenha coberto essa
superfície - que, apesar de tudo, seria qualquer coisa - com um pano
incrivelmente aborrecido, de tal modo que se assemelhe aos móveis da sala
durante as férias de Verão?
Sim, é possível.
É possível que toda a História Universal
tenha sido mal-entendida? É possível que o passado seja falso, precisamente
porque sempre se falou das suas multidões, como se dissertasse sobre uma
aglomeração de pessoas, em vez de falar de uma única, em torno da qual elas estavam,
porque se tratava de um desconhecido que morreu?
Sim, é possível. É possível que se tenha
julgado ser preciso recuperar o que aconteceu antes de se ter nascido? É
possível que se tivesse de lembrar a cada um que ele, de facto é proveniente de
todos os antecessores, tendo ele disso conhecimento e não devendo dar ouvidos a
outros que soubessem outras coisas?
Sim, é possível.
É possível que todas estas pessoas
conheçam em pormenor um passado que nunca houve? É possível que todas as
realidades nada sejam para elas; que a sua vida decorra, desligada de tudo,
como um relógio numa sala vazia?
Sim, é possível
É possível que haja gente que diga
«Deus» e julgue que se trate de algo comum a todos? - E veja-se apenas dois
rapazinhos de escola: um compra um canivete, e o seu vizinho compra outro tal
qual no mesmo dia. E uma semana depois mostram um ao outro os dois canivetes, e
acontece que eles só muito de longe se parecem - tão diferentemente evoluíram
em mãos diferentes. (Ora, diz a mãe de um deles a esse respeito: vocês têm
sempre por força de desgastar logo tudo!). Ah, pois: é possível acreditar que
se possa ter um Deus sem se recorrer a Ele?
Sim, é possível.
Porém, se tudo isto é possível, se tem
mesmo só uma aparência de possibilidade - então, por tudo o que há no mundo, é
preciso que aconteça alguma coisa. O primeiro indivíduo, o que teve estes
pensamentos inquietantes, deve começar a fazer alguma coisa do que se perdeu;
mesmo que seja um qualquer, certamente o menos indicado: mais nenhum há que o
possa fazer.
12.7.12
11.7.12
Disfarce
A linguagem disfarça o pensamento. E
principalmente de tal forma que, segundo a forma exterior da roupagem, não é
possível concluir sobre a forma do pensamento disfarçado; porque a forma
exterior da roupagem visa a algo bem diferente do que permite reconhecer a forma
do corpo. Os arranjos tácitos para a compreensão da linguagem quotidiana são de
uma enorme complicação.
9.7.12
O Português
"O Português é indeciso e inquieto, como as nuvens em que as suas montanhas se
continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam."
Teixeira de Pascoaes (1877-1952) in Aforismos
Homem
"O homem é um castelo feito no ar. O que ele tem de não existente, é que lhe dá
existência. O engano em que ele vive, é que lhe dá vida. Toda a realidade do seu
corpo se firma na mentira da sua alma."
Teixeira de Pascoaes (1877-1952), in Aforismos
Teixeira de Pascoaes (1877-1952), in Aforismos
Homem
"O homem foge da sua sombra anterior para a sua luz futura."
Teixeira de Pascoaes (1877-1952), in Aforismos
Água
"A ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água."
Teixeira de Pascoaes (1877-1952), in Aforismos
8.7.12
5.7.12
Pergunta-me
Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Mia Couto
3.7.12
NOCTURNO
Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...
Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.
Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.
Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...
David Mourão-Ferreira
2.7.12
A Nau de Ícaro
“O nosso grande problema, enquanto portugueses, neste fim de século, é integrar a realidade, a banal realidade europeia, com os seus imperativos de organização, de competitividade, de invenção. Sem perder um certo arcaísmo, um certo perfume de vida que se lembra ainda do seu passado rural, vida banhada da doce luz da Finisterra.”
”Nenhuma barca europeia está mais carregada de passado do que a nossa. Talvez por ter sido a primeira a largar do cais europeu e a última a regressar.”
“O nosso mundo, na aurora de um novo milénio, segundo o calendário crístico, parece-se com um dos grandes aeroportos onde a humanidade se cruza sem se ver.”
“Não pode dizer-se de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exacto. É ela que o inventa. A língua portuguesa é menos a língua que os Portugueses falam do que a voz que fala os Portugueses.”
“Uma língua não é de ninguém, mas nós não somos ninguém sem uma língua que fazemos nossa. É neste sentido, e unicamente neste sentido – longe das identificações narcisistas dos nacionalismos culturais -, que uma língua é, como pensava Pessoa, a nossa verdadeira pátria. A esse título, habitá-la, defendê-la, da única maneira criadora tolerável, o que a torna cúmplice dos nossos desejos e dos nossos sonhos de imortalidade humana, nem é mesmo um dever, mas a natural respiração de uma cultura que tem nela a sua matéria e a sua forma. Ou melhor, a alma da sua alma.”
"O povo brasileiro é um povo cheio de humor. Não é culpa dele se é um povo demasiado grande para a memória que tem, como nós somos um povo pequeno de mais para a memória imensa que ao longo dos séculos refluiu para o nosso coração e nos sufoca."
Eduardo Lourenço in A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia
29.6.12
A Fraqueza Fundamental do Homem
A fraqueza fundamental do homem não é nada que ele não possa vencer, desde que não possa aproveitar com a vitória. A juventude vence tudo, a impostura, a astúcia mais dissimulada, mas não há ninguém que possa deter no voo a vitória, torná-la viva, porque então a juventude deixou de existir. A velhice não ousa tocar na vitória e a nova juventude atormentada pelo novo ataque que se desencadeia imediatamente, deseja a sua própria vitória. É assim que o Diabo sem cessar vencido, nunca é aniquilado.
Franz Kafka in Meditações
20.6.12
Sim, a eternidade
Sim, a eternidade é o nosso signo. Não
começámos a existir nem o fim da existência o entendemos como fim. Por isso não
sentimos que não existimos antes de começarmos a existir mas apenas que tudo
isso que aconteceu antes de termos existido foi apenas qualquer coisa a que por
acaso não assistimos como a muito do que acontece no nosso tempo. E à morte
invencivelmente a ultrapassamos para nos pormos a existir depois dela. O prazer
que nos dá a história do passado, sobretudo os documentos que no-lo dão
flagrantemente, vem de nos sentirmos prolongados até lá, de nos sentirmos de
facto presentes nesse modo de ser contemporâneos. Mas sobretudo há em nós uma
memória-limite, uma memória absoluta que não tem nada de referenciável e se
prolonga ao sem fim. Do mesmo modo há o futuro que é pura projecção de nós,
apelo irreprimível a um amanhã sem termo ou sem amanhã. Por isso a morte nos
angustia e sobretudo nos intriga por nos provar à evidência o que profundamente
não conseguimos compreender. Mas sobretudo a eternidade é o que se nos impõe no
instante em que vivemos. O tempo não passa por nós e daí vem a impossibilidade
de nos sentirmos envelhecer. Sabemo-lo na realidade, mas é um saber de fora.
Repetimo-lo a nós próprios para enfim o aprendermos, mas é uma matéria difícil
que jamais conseguimos dominar. Por isso estranhamos que os nossos filhos
cresçam e se ergam perante nós como adultos que não deviam ser. Por isso
estranhamos os jovens pela sua estranheza de que quiséssemos porventura ser
jovens como eles. Instintivamente sentimos que é um abuso eles tomarem o lugar
que nos pertencia e nos desalojem do lugar que era nosso. Por isso sofremos, não
bem por perdermos o que nos pertencia, mas pela dificuldade de isso entendermos.
Há uma oposição frontal entre o nosso íntimo sentir e a realidade que isso nos
desmente. Somos eternos, mas vivemos no tempo. Somos imutáveis, mas tudo à nossa
volta se muda e nos impõe a mudança. Somos divinos, mas de terrena condição. É
essa condição que sabemos, mas não conseguimos aprender. Nesta oposição se gera
toda a grandeza do homem e a tragédia que o marcou. Os que se fixam num dos
termos são deuses iludidos ou animais que não chegaram a homens. Porque o
verdadeiro homem é Deus por vocação e animal por necessidade.
Vergílio Ferreira in Conta-Corrente 3
13.6.12
6.6.12
Carta ao Futuro
Sim: gritar, protestar é bom. Destruir a evidência de um erro é
sentir a utilidade das mãos que destroem, é exaltar as forças do espírito na
maravilha indizível da descoberta - desde criança o sabemos; por isso os
brinquedos que nos davam só eram bem nossos, só nós éramos bem nós em face
deles, depois de lhes tentarmos o segredo pela destruição... As pessoas
sensatas, essas que sabiam não haver senão morte para lá da beleza aparente,
aconselhavam-nos a sua sensatez. Mas nós tínhamos as nossas mãos desocupadas e a
angústia da interrogação. Destruir, negar. As mãos que desmantelam a ordem
envelhecida são ainda a nossa própria vida, transmitem-nos a certeza de que há
um mundo e nós no meio dele, identificam a inteira verdade do nosso corpo que
age e é eficaz; e o rumor dos nossos gritos afoga as vozes obscuras e
importunas, a nossa voz derradeira, ilude-nos a resposta à interrogação que nos
espera, inventa-nos no NÃO essa ilusão de plenitude que nós buscamos no SIM.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
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