18.4.13

Sol


A Escrita



No Palácio Mocenigo onde viveu sozinho
Lord Byron usava as grandes salas
Para ver a solidão espelho por espelho
E a beleza das portas quando ninguém passava

Escutava os rumores marinhos do silêncio
E o eco perdido de passos num corredor longínquo
Amava o liso brilhar do chão polido
E os tectos altos onde se enrolam as sombras
E embora se sentasse numa só cadeira

Gostava de olhar vazias as cadeiras
Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital
Mas a escrita exige solidões e desertos
E coisas que se vêem como quem vê outra coisa

Podemos imaginá-lo sentado à sua mesa
Imaginar o alto pescoço espesso
A camisa aberta e branca
O branco do papel as aranhas da escrita
E a luz da vela – como em certos quadros –
Tornando tudo atento

Sophia de Mello Breyner Andresen

Biografia



Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen

La Vie

Pablo Picasso, 1903

14.4.13

HOLANDA



Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo:
eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E
a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um
inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação
holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda
agora é isto: vacas, e — no centro — o inferno, a revolucionária inocência de
um poeta sentado.
— Por quem me tomam? — pode ele perguntar. — O que eu quero é o
amor.
E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados
imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do
por uma tormentosa inocência.
Já não escreve poemas nem pergunta às pessoas o seu nome. Ele próprio,
visto estar destinado à inteira perdição, vai perdendo o nome pelo país adiante.
Agora vigia a paz devoradora dos animais, as coisas, a imobilidade. Vou partir
— imagina. As cidades ardem, os campos enlouquecem. Um poeta tem de
partir, repartir, repartir-se. Um poeta deve ser uno. O inferno não o deixa. Às
vezes lamenta-se: Sinto-me como se tivesse percorrido o deserto; não sei nada.
À noite falava baixo, conhecendo que não possuía a protecção das coisas e a sua
vida estava a ser corroída por uma vocação menos que humilde: degradante.
Não servia para nada; essa era a sua mais implacável vocação. Ficava sentado a
ver os homens holandeses cuidarem dos animais e da terra e a vigiarem o céu. Os
homens holandeses invocavam os poderes que se debruçavam, um pouco como
holandeses, sobre o exercício humano.
Na Holanda o Demónio é negativo. O poeta sabia da irremissível solidão do 
Demónio, e pedia por ele: Piedade para o Demónio, piedade para a 
solidão demoníaca.
Na Holanda é assim. O Demónio está no meio das vacas: não escreve poemas,
não pode exercer os dons. Pensa, perde o nome. Quem esperaria dele que
trabalhasse a terra ou protegesse as alimárias?
Pela noite fora o poeta mantinha-se o mais deitado possível, com o talento
voltado para o ar, ouvindo os pequenos ruídos do mundo. E pensava: Como se
atreve a terra a tamanha placidez? Ou estarei eu marcado por alguma culpa
insondável? De onde descendo, que não sou amado dos holandeses nem me
acalmo e participo nas tarefas?
Mas uma noite recebeu a visitação. O seu espírito iluminou-se: Tu és um
homem. Sim, sou um homem — disse — mas não sou holandês. Aliás, não se
compreendia bem o que fosse aquilo de ser um homem.
— Para onde pensam que vou ou de onde venho? — perguntaria. — Eu
aspiro ao amor.
Percebe-se isto? Holanda, Holanda, país conquistado às águas! (Não é assim
que se diz?). Holanda erguida devagar ao concreto. Entretanto o poeta 
abisma-se no espírito demoníaco e invoca uma protecção obscura — a piedade — 
para o Demónio.
Pensa furiosamente na tradição, e toda a sua memória está corrompida por
uma ardente e desordenada tristeza. O sangue é negro desde a raiz. Porque
ninguém sabe onde a corrupção completa a inocência.
O quarto fica sobre uma loja onde se vendem leites, natas, queijos, cremes.
Tudo isso é gordo e branco. Ele desce as escadas, pára em frente da leitaria.
Que é isto? — pergunta. Refere-se a Deus, devorador de natas. — Há uma
confusão qualquer — supõe. — Sou um inocente. Afastem Deus daqui. Além
disso, estou amaldiçoado.
O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer:
Que fertilidade! — e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se
como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das
cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio
da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa
sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo subtil que
participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato.
— Não penso na minha alma — diria ele — nem na carne. Não me ponho
a perguntar se ganharei a salvação. Eu preciso de amor. Preciso aprender.
Mas parece que na comunidade já tudo se aprendera, estava tudo ensinado e
sabido desde sempre. E os homens pensavam unicamente em preservar-se do
sofrimento; desejavam que a linguagem ficasse intacta, sem mácula.
Ele olhava o sol verde entre as patas das vacas e supunha poder envenenar-se
legando o cadáver à confusão holandesa. E como se alimentaria essa confusão,
como seria divertido o pequeno quadro holandês! — Senhor, que lhe aconteceu?
Salva-lhe a alma se puderes. Ele era um estrangeiro: envenenou-se. Nada mais
sabemos. Que mal te fez a Holanda para a castigares assim?
Muito lentamente, o seu amor desenvolveu-se. Era um amor que se aprendia
a si próprio, cheio de medo e dúvida.
O nosso amor pode atingir tudo? — perguntava. Ou perguntava então: —
Até onde vão os direitos de um... homem? Ou de um poeta?
Na Holanda não se fazem fogueiras ao ar livre: nada se percebe do fogo.
A Holanda é um país cada vez maior. O mar rouba-lhe meio metro, e logo os
holandeses roubam dois metros de terra ao seio fervente das águas.
— Não compreendo a justiça cósmica.
E murmura para si: Nada conhecem das coisas do fogo. Os dons mais
profundos do homem estiolam dentro deles. Deverei amá-los?
— Amar o quê, quem? — pergunta a visita. — Referes-te aos homens
holandeses ou aos dons que esqueceram?
E ele não sabe realmente aquilo a que desejava referir-se, o que lhe inspirava
o desespero. Sentado na Holanda, pensa: — Piedade.
Para ele? Para os homens holandeses?
Em que jogos se enreda uma inocência!

Herberto Helder in Os Passos em Volta, 1997

12.4.13

Sentir


"Isto às vezes é tremendo porque a gente quer exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras..."


António Lobo Antunes, in Público, 2004

11.4.13

Os Dias Bons

METROPOLITANOS


Aqui estamos, atravessando
sem saber o nosso destino,
à espera que o próprio caminho
o torne evidente (mas não),
somos todos assim metrpolitanos (urbanos),
saímos na estação errada,
lemos cabeçalhos, vemos o envelhecimento
nos rostos que connosco através
de túneis dantescos (cliché),
e pensamos (ou dizemos agora que pensámos)
que há um plano que nos ultrapassa (rodoviário),
um plano (subterrâneo)
de linhas que se cruzam com as linhas
da mão, interceptadas em cores
e com o guarda-roupa do nosso
tempo (capitalismo tardio),
atravessamos (atrasados), sob o sol
que imaginamos em cima (platónico),
interrompidos pelo parêntesis irónico
da consciência que talvez queira fazer
a diferença mas não faz nada (nada).

Pedro Mexia in de Eliot e Outras Observações, Gótica, 2003

9.4.13

Inteligência, Dá-me o Nome Exacto das Coisas

Inteligência, dá-me 
o nome exacto das coisas! 
... Minha palavra seja 
a própria coisa, 
criada por minha alma novamente. 

Que por mim cheguem todos 
os que não as conhecem, às coisas; 
que por mim cheguem todos, 
os que já as esquecem, às coisas; 
que por mim cheguem todos 
os próprios que as amam, às coisas... 
Inteligência, dá-me 
o nome exacto, e teu, 
e seu, e meu, das coisas. 

Juan Ramón Jiménez in Eternidades
Tradução de José Bento

3.4.13

APRENDIMENTOS



O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha
as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de
ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou
por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra
mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

Manoel de Barros Memórias Inventadas,  2003 (A infância)

The Beatles - A Day In The Life

2.4.13

Inspiração


A minha inspiração são os homens e as mulheres que surgiram em todo o globo e escolheram o mundo como o teatro das suas operações, e que lutam contra as condições socioeconómicas que não promovem o avanço da Humanidade, onde quer que este ocorra. Homens e mulheres que lutam contra a supressão da voz humana, que combatem a doença, a iliteracia, a ignorância, a pobreza e a fome. Alguns são conhecidos, outros não. Essas são as pessoas que me inspiraram. 

Nelson Mandela, in 'Conferência na London School of Economics, Londes, 6 Abril 2000'

Uma sociedade inteira

"Uma sociedade inteira vive mergulhada num mundo de facilidades e aparências, afogada em sms, mails, blogues e redes sociais, onde procura criar uma estranha forma de vida e de relacionamento humano, que garante o contacto e o sucesso imediato e dispensa o incómodo que é enfrentar a vida real, sem ser a coberto do anonimato ou do disfarce hipócrita, e sem ter de assumir as consequências dos seus actos nem o vazio de passar por aqui sem ter feito nada de útil para os outros."

Miguel Sousa Tavares, Jornal Expresso, 2009

25.3.13

Tempo Livre

Numa tarde de domingo, em Central Park, ou 
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou 
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo, ou 
num parque qualquer de uma tarde de domingo 
que até pode ser o parque Eduardo VII, 
deitas-te na relva com o corpo enrolado 
como se fosses uma colher metida no guarda- 
napo. A tarde limpa os beiços com esse 
guardanapo de flores, que é o teu vestido 
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio 
do inverno de uma cidade que pode ser 
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer, 
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio, 
com os pássaros distraídos com o sol 
que está naquela tarde por engano. E tu, 
com os dedos presos na relva húmida, vês 
o teu vestido voar, como um guardanapo, 
por entre as nuvens brancas de uma tarde 
de inverno. 

Nuno Júdice in Meditação sobre Ruínas

Boats

Jardin du Luxembourg, Paris, May, 1990

gordon_brent_ingram1966@yahoo.ca 

Do Tempo ao Coração

E volto a murmurar    Do cântico de amor 
gerado na Suméria      às novas europutas 
Do muito que me dás ao muito que não dou 
mas que sempre conservo entre as coisas mais puras 

De uma genebra a mais num bar de Amsterdão 
a não perder o pé numa praia da Grécia 
De tantas       tantas mãos          que nos passam pelas mãos 
a tão poucas que são as que nunca se esquecem 

De ter visto o começo e o fim da Via Ápia 
De ter atravessado o muro de Berlim 
De outros muros que não aparecem no mapa 
De outros muros que só aparecem aqui 

ao barro deste céu que te modela os ombros 
ao sopro deste céu que te solta o cabelo 
ao riso deste céu que vem ao nosso encontro 
quando sabe que nós não precisamos dele 

Da pertinaz presença          E da longevidade 
do corvo         do chacal            do louco          do eunuco 
ao rouxinol que morre em plena madrugada 
à rosa que adormece em caules de um minuto 

Do que foi noutro tempo a saúde no campo 
à lepra que nos rói a paisagem bucólica 
Do tempo          ao coração minado pelo cancro 
Dos rins             ao infinito incubado na cólera 

Do tempo ao coração            mas com pausa na pele 
como «Roma by night» entre dois aviões 
como passar o Verão numa vogal aberta 
como dizer que não         que já não somos dois 

Dos rins ao infinito       A este       que não outro 
Ao que rola dos rins    Ao que vai rebentar-te 
na câmara blindada e nocturna do útero 
E nos transfere o fim para um pouco mais tarde 

Da curva de entretanto       à entrada do poço 
De soletrar em mim       a ler       nas tuas mãos 
como é rápido       e lento      e recto       e sinuoso 
o percurso que vai do tempo ao coração. 

David Mourão-Ferreira
in Obra Poética

20.3.13

Escritor

Jack London (1876 - 1916)

Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas

Estão todas as verdades 
à espera em todas as coisas: 
não apressam o próprio nascimento 
nem a ele se opõem, 
não carecem do fórceps do obstetra, 
e para mim a menos significante 
é grande como todas. 
(Que pode haver de maior ou menor 
que um toque?) 

Sermões e lógicas jamais convencem 
o peso da noite cala bem mais 
fundo em minha alma. 

(Só o que se prova 
a qualquer homem ou mulher, 
é que é; 
só o que ninguém pode negar, 
é que é.) 

Um minuto e uma gota de mim 
tranquilizam o meu cérebro: 
eu acredito que torrões de barro 
podem vir a ser lâmpadas e amantes, 
que um manual de manuais é a carne 
de um homem ou mulher, 
e que num ápice ou numa flor 
está o sentimento de um pelo outro, 
e hão-de ramificar-se ao infinito 
a começar daí 
até que essa lição venha a ser de todos, 
e um e todos nos possam deleitar 
e nós a eles. 


Walt Whitman in Leaves of Grass

o Bem

"Os homens nunca usaram totalmente os poderes que possuem para promover o bem, porque esperam que algum poder externo faça o trabalho pelo qual são responsáveis." John Dewey

17.3.13

O Escritor

Retrato do escritor Fyodor Dostoyevsky 
por Vasily Perov (1833-1882) / Tretyakov Gallery, Moscow.






O Escritor


É um escritor ou então a mulher partiu com outro,
e o corpo não recuperou a vontade
de se preocupar com a roupa.
Espontâneo, vê-se; tudo o que traz vestido
apareceu-lhe à frente como numa colisão.
No entanto é discreto.
Tem a idade em que já não se desejam os olhares dos outros.
Branco, o cabelo transmite paz e
uma pequena desistência.
Tem cachimbo, óculos,
na mesa revistas francesas sobre a alma e os laboratórios que a
estudam;
pega numa folha e começa a escrever.
Tem ar sóbrio, o corpo não dança,
vê-se que há muito venceu o medo de não ser igual aos outros.
Escreve; passa a mão sobre a orelha.
É um escritor, em definitivo.
A luta não é com a solidão, vê-se que sabe usá-la,
percebe a sua natureza.



Gonçalo M. Tavares

O Mapa


Sempre senti a matemática como uma presença
Física; em relação a ela vejo-me
Como alguém que não consegue
Esquecer o pulso porque vestiu uma camisa demasiado
Apertada nas mangas.
Perdoem-me a imagem: como
Num bar de putas onde se vai beber uma cerveja
E provocar com a nossa indiferença o desejo
Interesseiro das mulheres, a matemática é isto: um
Mundo onde entro para me sentir excluído;
Para perceber, no fundo, que a linguagem, em relação
Aos números e aos seus cálculos, é um sistema,
Ao mesmo tempo, milionário e pedinte. Escrever
Não é mais inteligente que resolver uma equação;
Porque optei por escrever? Não sei. Ou talvez saiba:
Entre a possibilidade de acertar muito, existente
Na matemática, e a possibilidade de errar muito,
Que existe na escrita (errar de errância, de caminhar
Mais ou menos sem meta) optei instintivamente
Pela segunda. Escrevo porque perdi o mapa.

Gonçalo M. Tavares


Poemas extraídos da revista POESIA SEMPRE, Num. 26, Ano 14, 2007. Edição da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
retirado daqui: http://www.antoniomiranda.com.br/index.html

8.3.13

As armas e os barões assinalados


As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Luís Vaz de Camões(1524-1580), in Lusíadas

6.3.13

Coração português

de Joana Vasconcelos

O Super-Detergente

Nós vivemos no tempo do record, do máximo, do prestígio do campeão. Todo o vocabulário está cheio dos hiper ou dos superda propaganda comercial. Dizer que tal livro é o melhor de há 30 anos equivale a dizer que este é que é de facto um superdetergente. De resto, os agentes publicitários do material literário não pretenderão talvez enganar-nos. Eles sabem que sabemos que estamos no domínio do reclame. É uma actividade inocente como proclamarmos a excelência de um sabão. E é exactamente por isso que eles usam sempre números redondos. Nunca dizem, por exemplo, que este é o melhor livro de há 47 anos ou de há 23 anos e meio. Na realidade, eles não têm um ponto de referência para marcarem as datas. Falar em 30 ou 50 anos é como usar uma «numeração indeterminada», como se diz em retórica. Garção, ao dizer da Dido moribunda que «três vezes tenta erguer-se», não pretende convencer-nos de que estiveram lá a contá-las. Em todo o caso e de qualquer modo, dizer que este é o melhor livro de há 50 anos afecta as pessoas impressionáveis. Mas por isso mesmo é que existem as agências de publicidade. E ninguém vai pedir-lhes satisfações por reclamar um produto contra a calvície que nos deixou talvez ainda mais depilados. 

Vergílio Ferreira in Um Escritor Apresenta-se

Trafaria-Praia

http://www.vasconcelostrafariapraia.com/



2.3.13

Os Revolucionários

Os revolucionários existirão sempre, porque a esperança do homem é infinita ou o seu sonho infinito. Mas toda a realização, porque é realização, é obviamente finita. Conceber portanto o fim da história é absurdo. Curiosamente, a revolução do homem começou com a revolução religiosa, ou seja, com o combate à religião. Devia vir no fim. Antes de haver cidades houve cemitérios — e foi do cemitério que se partiu para a ideação da cidade. O reino dos céus devia ser prometido depois do reino da terra. E se calhar viria a sê-lo de novo, quando a terra fosse do homem. O ciclo que se fecha. (Mas a terra nunca será do homem. E muito menos de «quem a trabalha», porque é só dos que dizem que é.) 
Vergílio Ferreira in Conta-Corrente 1

1.3.13

fotografia de Zhu Ming

28.2.13

Perante quem é que somos homens?


"Perante quem é que somos homens? É uma pergunta simples. Mas ela revoluciona toda a história da humanidade. Experimenta fazê-la. Experimenta pensá-la."

Vergílio Ferreira

O nosso tempo


"O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas."

Vergílio Ferreira

Viver e escrever

"Vive a vida o mais intensamente que puderes. Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes. E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê."

Vergílio Ferreira

27.2.13

Uma espécie de perda


Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.



Ingeborg Bachmann in O tempo aprazado

Os Dias Bons


Paul Celan e Ingeborg Bachmann

Os dias Bons


24.2.13

Os Excluídos


Quem comete um erro é excluído; é fechado dentro de uma caixa. Quem está fora vê apenas a caixa. Mas quem está fechado, excluído, consegue ver cá para fora. Vê tudo, vê-nos a todos. 
Em cada compartimento há dezenas de caixas. Milhares de caixas por todo o lado. A maior parte delas vazia. Outras têm lá dentro pessoas excluídas. Ninguém sabe quais as caixas que têm pessoas. 
As caixas são tantas que ninguém lhes dá importância. Pode estar lá uma pessoa, até a que amas, mas nem olhas. Já não produzem efeito. Passas por elas centenas de vezes. 

Gonçalo M. Tavares in Jerusálem

Proserpina

O Rapto de Proserpina (detalhe),  escultura de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680)

As Vozes do Silêncio




As estátuas de Olímpia, que tanto contribuem para nos ligar à Grécia, alimentam contudo também, no estado em que chegaram até nós - esbranquiçadas, quebradas, isoladas da obra integral -, um mito fraudulento da Grécia, não sabem resisitir ao tempo como um manuscrito, mesmo incompleto, rasgado, quase ilegível. O texto de Heráclito lança-nos clarões como nenhuma estátua em pedaços pode fazer, porque o significado é nele deposto de maneira diferente, é concentrado de forma diferente do que está concentrado nelas, e porque nada iguala a ductilidade da palavra. Enfim, a linguagem diz, e as vozes da pintura são as vozes do silêncio. 


Maurice Merleau-Ponty in Signos

21.2.13

Sobre o Mundo



O telescópio não alcança sequer a tua alma;
Imprecisão exacta de um instrumento instintivo.
Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas
Espontâneas.
Dois terços do amor estão na mulher, qualquer
que seja o casal. As evidências abrem falência
Em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam
Ciências viris. Indispensáveis, de facto:
ciências meigas já existem em número
Excessivo. Monumentos que ocupam
Quilômetros quadrados são explicados por uma equação de
Dois centímetros. Repara: a engenharia é a invenção que engordou
As equações matemáticas. Atirou-as para o Mundo.
Vê as águas, a sabedoria discreta: ninguém
Constrói uma torre de observação no centro
Do mar. As águas não se bebem
Por inteiro, e nem toda a água é doméstica. o mar não tem
diminutivos. Uma onda não o é.
Nem o peixe.
Ciências que estudem seriamente o riso
Não existem; os cientistas
Colocam fórmulas em tabelas: têm gráficos complexos
que explicam a simplicidade
Do Mundo. Felizmente, fomos salvos
Pelo coração.
Certos órgãos ficaram reféns dos profetas
Antigos, e as noites passam-se melhor assim.
Indecisões desconcertantes permitem reinventar a
Monotonia: Trago-te uma monotonia surpreendente, alguém diz.
Animais mitológicos bebem água no nada,
E mesmo assim crescem; tem células resistentes.
Outros animais mais longos e espessos, mamíferos
De grande porte por exemplo, evaporam a 36°, reaparecendo
Não carnívora. O mundo muda,
Não pense que não. Nem os mamíferos são eternos.
No aeródromo, por exemplo, o poema atravanca o caminho
De descolagem
do avião de um
País pouco habituado a máquinas que subam mais
Alto que um banco de cozinha. O mundo
Não é injusto, mas também não é teu mordomo;
Avança e é só.

Poemas extraídos da revista POESIA SEMPRE, Num. 26, Ano 14, 2007. Edição da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

16.2.13

forces

fotografia de Sonja Braas

forces

fotografia de Sonja Braas

Ecce Homo


Sim, sei de onde venho! 
Insatisfeito com a labareda 
Ardo para me consumir. 
Aquilo em que toco torna-se luz, 
Carvão aquilo que abandono: 
Sou certamente labareda. 

Friedrich Nietzsche in A Gaia Ciência

14.2.13

psychiatric appointment

Assim o Amor

Assim o amor 
Espantado meu olhar com teus cabelos 
Espantado meu olhar com teus cavalos 
E grandes praias fluidas avenidas 
Tardes que oscilam demoradas 
E um confuso rumor de obscuras vidas 
E o tempo sentado no limiar dos campos 
Com seu fuso sua faca e seus novelos 

Em vão busquei eterna luz precisa 

Sophia de Mello Breyner Andresen