15.7.13

De Quem é o Olhar

De quem é o olhar 
Que espreita por meus olhos? 
Quando penso que vejo, 
Quem continua vendo 
Enquanto estou pensando? 
Por que caminhos seguem, 
Não os meus tristes passos, 
Mas a realidade 
De eu ter passos comigo ? 

Às vezes, na penumbra 
Do meu quarto, quando eu 
Por mim próprio mesmo 
Em alma mal existo, 

Toma um outro sentido 
Em mim o Universo — 
É uma nódoa esbatida 
De eu ser consciente sobre 
Minha idéia das coisas. 

Se acenderem as velas 
E não houver apenas 
A vaga luz de fora — 
Não sei que candeeiro 
Aceso onde na rua — 
Terei foscos desejos 
De nunca haver mais nada 
No Universo e na Vida 
De que o obscuro momento 
Que é minha vida agora! 

Um momento afluente 
Dum rio sempre a ir 
Esquecer-se de ser, 
Espaço misterioso 
Entre espaços desertos 
Cujo sentido é nulo 
E sem ser nada a nada. 
E assim a hora passa 
Metafisicamente. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

11.7.13

Os dias bons


Leo Tolstoy telling a story to his grandchildren, 1909

Hábito

"O céu deu-nos o hábito,  bom substituto da felicidade."Alexander Puschkine

 

DIAS DO LIXO


O Homem e a Máquina


À técnica seria absurdo que a recusássemos, lhe recusássemos a espantosa facilitação da vida, por mais que a essa vida ela perturbe - como aos seus doutrinadores. Uma máquina é pura, desde a inocência com que se nos revela, ou seja precisamente a exterioridade em que se nos dá. Mas uma inocência é uma abertura à realização do que o não é. O destino de uma máquina tem o destino que lhe dermos, e um dos piores é o finalizá-la nela própria. Assim e para lá da criação do seu próprio espaço, por uma máquina, da alteração que a sua própria existência em nós promove, todo o problema se decide no lugar-comum desta alternativa: remeter a máquina ao homem ou degradar o homem à máquina. 


Vergílio Ferreira in Invocação ao Meu Corpo

4.7.13

A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

A única alegria neste mundo é a de começar. É belo viver, porque viver é começar, sempre, a cada instante. Quando esta sensação desapaece - prisão, doença, hábito, estupidez - deseja-se morrer. 
É por isso que quando uma situação dolorosa se reproduz de modo idêntico - parece idêntica - nada apaga o horror que tal coisa nos provoca. 
O princípio acima enunciado não é, portanto, próprio de umviveur. Porque há mais hábito na experiência a todo o custo (cfr, o antipático «viajar a todo o custo») do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e inteligência. Estou convencido de que há mais hábito nas aventuras de do que num bom casamento. 
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura. A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo. É melhor sofrer por ter ousado agir a sério do que to shrink (ou to shirk? (recuar) ). Como no caso dos filhos: é de resto a Natureza que o quer, e recuar é cobardia. No fim - já se tem visto -, paga-se mais caro. 


Cesare Pavese in O Ofício de Viver

27.6.13

Vimos do Tempo da Falta Mínima

Vimos do tempo da falta mínima 
da casa construindo as folhas de quadrícula 
(quando um traço mais que expressivo preenche 
o vazio de uma folha) 
nem beleza nem fim 
nem número ordenador como fantasma. 

Todas as memórias partilhámos 
a ruína compreende tudo. 
Compreender quer dizer abraçar 
(linhas e cruzamentos na procura da folha) 
o mundo inteiro nos é dado. 

Mais tarde (mais além 
dois furos a passagem para o útil) 
as dunas darão lugar a campos cultivados? 
Quero dizer 
não rejeito do movimento toda a impaciência 
toda a dissolução. 
(pouco a pouco) Até onde podemos ir? 

João Miguel Fernandes Jorge in Vinte e Nove Poemas

Roses

25.6.13

Verso Vão

Onda de sol, verso de ouro, 
perífrase vã. Extasiar-me, 
antes, por esta fusão, 
mistura de brilhos. Ou, ainda 
mais íntima, a consciência 
extensa como o céu, o corpo de tudo, 
semelhança absoluta. Respirar 
na quebra da onda. Na água, 
uma braçada lenta 
até ao limite de mim. 

Fiama Hasse Pais Brandão in Três Rostos - Ecos

18.6.13

Desfazer o normal


Sobre o Caminho

Nada 

nem o branco fogo do trigo 
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros 
te dirão a palavra 

Não interrogues não perguntes 
entre a razão e a turbulência da neve 
não há diferença 

Não colecciones dejectos o teu destino és tu 

Despe-te 
não há outro caminho 

Eugénio de Andrade in Véspera da Água

16.6.13

Penhascos de giz

pintura de Caspar David Friedrich ( 1774-1840)
Chalk Cliffs on Rügen, 1818

,

15.6.13

Teorema

El-rei D. Pedro, o cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do marquês Sá da Bandeira.  Gosto deste rei louco, inocente e brutal.  Puseram-me de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto a cabeça, torno o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico do meu pobre Senhor.  Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste ao tempo.  D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pelos seus soldados.  Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens.  O rei olha para mim com simpatia.  Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita, D. Inês.  Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota.  Que desejava salvar o Reino da influência espanhola.  Tolice.  Não me interessa o Reino.  Matei-a para salvar o amor do rei.  D. Pedro sabe-o.  Olho de novo para a janela onde se debruça.  Ele diz um gracejo.  Toda a gente ri.
       — Preparem-me esse coelho, que tenho fome.
       O rei brinca com o meu nome.  O meu apelido é Coelho.
       O que este homem trabalhou na nossa obra!  Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas da gente do povo, entre tochas e cantos fúnebres.  Foi um terrível espetáculo, que cidades e lugarejos apreciaram.
       Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor.  Levanto-me e fico bem defronte do edifício.  Vejo no rés-do-chão o letreiro da Barbearia Vidigal e o barbeiro de bigode louro que veio à porta assistir ao meu suplício.  Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos dois prédios ao lado.
       — Senhor — digo eu —, agradeço-te a minha morte.  E ofereço-te a morte de D. Inês.  Isto era preciso, para que o teu amor se salvasse.
       — Muito bem — respondeu o rei.  Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-mo.
       De novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro.  Distingo as vozes do povo, a sua ingénua excitação.  Escolhem-me um sítio das costas para enterrar o punhal.  Estremeço de frio.  Foi o punhal que entrou na carne e cortou algumas costelas.  Uma pancada de alto a baixo do meu corpo, e verifico que o coração está nas mãos de um dos carrascos.  Um moço do rei espera com a bandeja de prata batida estendida sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado.  A multidão grita e aplaude, e só o rosto de D. Pedro está triste, embora, ao mesmo tempo, se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo.  Percebo como tudo isto está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem.  Ah, não tenho medo.  Sei que vou para o inferno, visto que sou um assassino e o meu país é católico.  Matei por amor do amor — e isso é do espírito demoníaco.  O rei e a amante também são criaturas infernais.  Só a mulher do rei, D. Constança, é do céu.  Pudera, com a sua insignificância, a estupidez, o perdão a todas as ofensas.  Detesto a rainha.
       O moço sobe a escada com a bandeja onde o meu coração é um molusco quente e sangrento.  Vê-se D. Pedro voltar-se, a bandeja aparecer perto do parapeito da janela.  O rei sorri delicadamente para o meu coração e levanta-o na mão direita.  Mostra-o ao povo, e o sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo.  Ouvem-se aplausos.  Somos um povo bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade estar à frente de um povo assim.  Felizmente o nosso rei encontra-se à altura do seu cargo, entende a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra.  Somos também um povo cheio de fé.  Temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade.  Somos todos loucos.
       Tombei com a face direita sobre a calçada e, movendo os olhos, posso aperceber-me de um pedaço muito azul de céu, acima dos telhados.  Vejo uma pomba passar em frente da janela manuelina.  O claxon de um carro expande-se lìricamente no ar.  Estamos nos começos de junho.  Ainda é primavera.  A terra está cheia de seiva.  A terra é eterna.  À minha volta dizem obscenidades.  Alguém sugere que me cortem o pénis.  Um moço vai perguntar ao rei se o podem fazer, mas este recusa.
       — Só o coração — diz.  E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o ferozmente.  A multidão delira, aclama-o, chama-me assassino, cão, e encomenda a alma ao Diabo.  Eu gostaria de poder agradecer a este povo bárbaro e puro as suas boas palavras violentas.
       Um filete de sangue escorre pelo queixo de D. Pedro, e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente.  O rei come o meu coração.  O barbeiro saiu do estabelecimento e está a meio da praça com a sua bata branca, o seu bigode louro, vendo D. Pedro a comer o meu coração cheio de inteligência do amor e do sentimento da eternidade.  O marquês Sá da Bandeira é que ignora tudo, verde e colonialista no alto do seu plinto de granito.  As pombas voam à volta, pousam-lhe na cabeça e nos ombros, e cagam-lhe em cima.  D. Pedro retira-se, depois de dizer à multidão algumas palavras sobre crime e justiça.  Aclama-o o povo mais uma vez, e dispersa.  Os soldados também partem, e eu fico só para enfrentar a noite que se aproxima.  Esta noite foi feita para nós, para o rei e para mim.  Meditaremos.  Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do comum amor à eternidade.  O rei estará insone no seu quarto, sabendo que amará para sempre a minha vítima.  Talvez não termine aí a sua inspiração, e ele se torne cada vez mais cruel e mais inspirado.  O seu corpo ir-se-á reduzindo à força de fogo interior, e a sua paixão será sempre mais vasta e pura.  E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu o meu coração.  D. Inês tomou conta das nossas almas.  Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda.  Entra devagar nos poemas e nas cidades.  Nada é tão incorruptível como a sua morte.  No crisol do inferno manter-nos-emos todos três perenemente límpidos.  O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para geração.  Que ninguém tenha piedade.  E Deus não é chamado para aqui.

Herberto Helder in Passos em Volta, 7ª edição, 1997


13.6.13

SERVIDÕES




Aos 82 anos Herberto Helder publica um livro de inéditos. 
O escritor não tem habilidade para as coisas mundanas. Está noutro lugar a tecer a luz e a escuridão. Tornou-se numa espécie de mito sem nunca ter pensado nisso; tão somente porque é alguém raro, porque, ao contrário de outros, nunca aparece. E assim a sua poesia esgota. Muitos compram o seu livro como um valor, por ter sido escrito por um poeta raro, mas nunca dele lerão um só poema.
Vivemos, porém, um tempo que nos convoca a todos e mesmo o que querem estar à margem como ele,  terão que vir ao centro e contribuir com um punhado de verdade e luz .

*

«como se atira o dardo com o corpo todo,
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível»

"O belo é o esplendor da ordem"

The cherry blossom (sakura) in Japan

(citação de Aristóteles)

Com a lança eu alcanço

Com a lança eu alcanço
meu pão de cevada;
com a lança eu consigo
o meu vinho ismárico;
na lança apoiado
eu bebo esse vinho.

Arquíloco de Paros, poeta Grego (século VII a.C.)
(tradução de Péricles da Silva Ramos)

12.6.13

"No Signal"




Grécia: "No Signall" do canal público de tv e rádio...

Mais um facto para anotar na cronologia do que aconteceu e 
do que mudou na velha Europa nos últimos anos

10.6.13

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa, A Mensagem

Mensagem

Mensagem, 1ª Edição, 1934

Padrão

O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possivel oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Sé encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

Fernando Pessoa, A Mensagem, 1908

19.5.13

became silent

Nikolay Dubovskoy

Amor

o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

José Luís Peixoto in A Casa, A Escuridão

14.5.13

Casa

Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na Primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.

Manoel de Barros














Severin Kroyer

TABACARIA


          
            Não sou nada. 
            Nunca serei nada. 
            Não posso querer ser nada. 
            À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


            Janelas do meu quarto, 
            Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
            (E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
            Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
            Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
            Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
            Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
            Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
            Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


            Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
            Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
            E não tivesse mais irmandade com as coisas 
            Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
            A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
            De dentro da minha cabeça, 
            E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


            Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. 
            Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
            À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
            E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


            Falhei em tudo. 
            Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
            A aprendizagem que me deram, 
            Desci dela pela janela das traseiras da casa. 
            Fui até ao campo com grandes propósitos. 
            Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
            E quando havia gente era igual à outra. 
            Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


            Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
            Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! 
            E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
            Gênio? Neste momento 
            Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, 
            E a história não marcará, quem sabe?, nem um, 
            Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. 
            Não, não creio em mim. 
            Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! 
            Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
            Não, nem em mim... 
            Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 
            Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando? 
            Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas — 
            Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —, 
            E quem sabe se realizáveis, 
            Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 
            O mundo é para quem nasce para o conquistar 
            E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. 
            Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
            Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
            Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
            Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
            Ainda que não more nela; 
            Serei sempre o que não nasceu para isso; 
            Serei sempre só o que tinha qualidades; 
            Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma sem 
            Porta 
            E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
            E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
            Crer em mim? Não, nem em nada. 
            Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
            O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
            E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
            Escravos cardíacos das estrelas, 
            Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
            Mas acordamos e ele é opaco, 
            Levantamo-nos e ele é alheio, 
            Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
            Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


            (Come chocolates, pequena; 
            Come chocolates! 
            Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
            Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
            Come, pequena suja, come! 
            Pudesse eu comer chocolates coma mesma verdade com que comes! 
            Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, 
            Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


            Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
            A caligrafia rápida destes versos, 
            Pórtico partido para o Impossível. 
            Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
            Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
            A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas, 
            E fico em casa sem camisa.


            (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas, 
            Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
            Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
            Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
            Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
            Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
            Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê — 
            Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
            Meu coração é um balde despejado. 
            Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
            A mim mesmo e não encontro nada. 
            Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
            Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
            Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
            Vejo os cães que também existem, 
            E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
            E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


            Vivi, estudei, amei e até cri, 
            E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
            Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
            E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
            (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
            Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
            E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


            Fiz de mim o que não soube 
            E o que podia fazer de mim não o fiz. 
            O dominó que vesti era errado. 
            Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
            Quando quis tirar a máscara, 
            Estava pegada à cara. 
            Quando a tirei e me vi ao espelho, 
            Já tinha envelhecido. 
            Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
            Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
            Como um cão tolerado pela gerência 
            Por ser inofensivo 
            E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


            Essência musical dos meus versos inúteis, 
            Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse, 
            E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
            Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
            Como um tapete em que um bêbado tropeça 
            Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


            Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
            Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
            E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
            Ele morrerá e eu morrerei. 
            Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. 
            A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. 
            Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
            E a língua em que foram escritos os versos. 
            Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
            Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
            Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como 
                Tabuletas 
            Sempre uma coisa defronte da outra, 
            Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
            Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
            Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
            Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


            Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) 
            E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
            Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
            E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


            Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
            E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
            Sigo o fumo como uma rota própria, 
            E gozo, num momento sensitivo e competente, 
            A libertação de todas as especulações 
            E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.


            Depois deito-me para trás na cadeira 
            E continuo fumando. 
            Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


            (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
            Talvez fosse feliz.) 
            Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 
            O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
            Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. 
            (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) 
            Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
            Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
            Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu. 
 

            Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa)

6.5.13

Fui criado no mato

      "Fui criado no mato e aprendi a gostar das 
       coisinhas do chão – 
       Antes que das coisas celestiais."

      Manoel de Barros

Árvore


Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus
seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul
E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.

Manoel de Barros, in Ensaios Fotográficos

4.5.13

Lembrar sempre Anne, a menina ave

Anne Frank (Frankfurt 12 de Junho de 1929 / Bergen-Belsen, Março de 1945)

Nota para não Escrever



Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode escrever-se ainda por ilusão criminal: às vezes imagina-se que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, se embebeda o espírito, libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se sempre para estar só. A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita, como a religiosidade suspeita da religião e o demonismo da demonologia. A escrita - inferior na ordem dos actos simbólicos - concilia-se mal com a metamorfose interior - finalidade e símbolo, ela mesma, da energia espiritual. O espírito tende a transformar o espírito, e transforma-o. O resultado é misterioso. O resultado da escrita, não.


Herberto Helder in Photomaton & Vox

1.5.13

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão, In Movimento Perpétuo, 1956

30.4.13

Beleza

wild horses  © 2013 Great Bend Post

Em Dias de Luz Perfeita e Exacta



Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta, 
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter, 
Pergunto a mim próprio devagar 
Por que sequer atribuo eu 
Beleza às cousas. 
Uma flor acaso tem beleza? 
Tem beleza acaso um fruto? 
Não: têm cor e forma 
E existência apenas. 
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe 
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão. 
Não significa nada. 
Então por que digo eu das cousas: são belas? 
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver, 
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens 
Perante as cousas, 
Perante as cousas que simplesmente existem. 
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível! 

Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos - Poema XXVI
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

27.4.13

A Monstruosa Amálgama da Identidade Europeia



O mal do totalitarismo é ser uniformizador e impositivo. Há sempre um modelo de perfeição, que os povos mais atrasados terão de seguir e com o qual terão de se comparar. Há sempre uma identidade superior, uma ideologia acima da realidade, um futuro comum aos mais diversos interesses. O totalitarismo é o grande inimigo da diferença e a própria democracia liberal, ao impor e exigir certas igualdades menos naturais, tem aspectos totalitários. 
É com horror que assisto à construção da chamada «identidade» europeia, uma monstruosa amálgama beneluxiana que reduz todos os ingredientes nacionais a uma pasta amorfa de argamassa processada. Quando temo pela resistência da nossa diferença à uniformização europeia, não temo a nossa dominação de todas as nacionalidades — temo é a dominação de todas as nacionalidades por um euro-híbrido que não seja escolhido ou amado por nenhuma delas. A verdade é que a Itália está menos italiana, a Alemanha está menos alemã, a Inglaterra está menos inglesa e Portugal está menos português. E nem por isso estão mais parecidos com outra nacionalidade qualquer. O que perderam em carácter não ganharam em mais nada. As nações europeias estão cada vez mais iguais, mais incaracterísticas, mais chatas. Qualquer dia deixa de ter piada viajar. 


Miguel Esteves Cardoso in Último Volume, 1991

25.4.13

Liberdade

— Liberdade, que estais no céu... 
Rezava o padre-nosso que sabia, 
A pedir-te, humildemente, 
O pio de cada dia. 
Mas a tua bondade omnipotente 
Nem me ouvia. 

— Liberdade, que estais na terra... 
E a minha voz crescia 
De emoção. 
Mas um silêncio triste sepultava 
A fé que ressumava 
Da oração. 

Até que um dia, corajosamente, 
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, 
Saborear, enfim, 
O pão da minha fome. 
— Liberdade, que estais em mim, 
Santificado seja o vosso nome. 
   


Miguel Torga 
in 'Diário XII'

Cravos, sempre cravos, de tantas cores