4.9.13
27.8.13
A Terra é um palácio
“A Terra é um palácio que olha para cima.
O Céu é um palácio que olha para baixo.”
Herberto Helder
25.8.13
Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.
Sophia de Mello Breyner in Mar Novo (1958)
O Passado e o Futuro
A nós
ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo
livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na
balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no
fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é
o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e
assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo
andamos. Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto
nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por
distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o
perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do
tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos
perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos
tratam de acordo com isso.
Franz Kafka, in 'Diário (1910)'
Franz Kafka, in 'Diário (1910)'
22.8.13
Os Meus Livros
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"
17.8.13
Um dia de sol
À medida que o tempo passa, as dúvidas aumentam e até o nosso nome no passado
nos é estranho.
Vamo-nos tornando parcos nas crenças, nos juízos, nas afirmações
e generosos com as pequenas alegrias de um dia de sol, sonhamos que um dia não
tenhamos medo e só isso nos baste.
16.8.13
destino
"A independência foi sempre o meu desejo, a dependência foi sempre o meu destino."
Paul Verlain
14.8.13
7.8.13
Sabedoria
A
sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco
propriedades?
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas difíceis ligados à conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso não era prioritário para ninguém, iam achá-lo desalmado e pôr-lhe toda a espécie de obstáculos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avaliação das situações, por tudo e nada reanima a atenção dos outros com os seus conselhos. Depressa é tratada como importuna e terá que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria é moderada e vê as coisas em profundidade. É, portanto, inimiga do juízo fácil e das paixões que são requestadas para dar emoção às existências fúteis e cinzentas.
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas difíceis ligados à conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso não era prioritário para ninguém, iam achá-lo desalmado e pôr-lhe toda a espécie de obstáculos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avaliação das situações, por tudo e nada reanima a atenção dos outros com os seus conselhos. Depressa é tratada como importuna e terá que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria é moderada e vê as coisas em profundidade. É, portanto, inimiga do juízo fácil e das paixões que são requestadas para dar emoção às existências fúteis e cinzentas.
Quarto,
a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso,
mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como
a guerra, o amor e as máquinas.
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza, porque a sabedoria, nesse campo, não lhe serviria de nada.
Agustina Bessa-Luís in Antes do Degelo
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza, porque a sabedoria, nesse campo, não lhe serviria de nada.
Agustina Bessa-Luís in Antes do Degelo
3.8.13
Beleza
"A beleza não tem causa. É. Quando a perseguimos apaga-se. Quando paramos - permanece."
Emily Dickinson
Emily Dickinson
1.8.13
Razão
"Entendo por razão, não a faculdade de raciocinar, que pode ser bem ou mal utilizada, mas o encadeamento das verdades que só pode produzir verdades, e uma verdade não pode ser contrária a outra."
Wilhelm Leibniz
Tempo é Mudança
O tempo é a dimensão da mudança. Sem percepção da mudança, não há e não pode haver percepção do tempo. E as diferentes atitudes para com o tempo são corolários de diferentes atitudes para com a mudança. (...) Vive-se bem a vida em camaradagem com o tempo, vendo-o como ele é, respeitando as suas obras, inclusive a decadência e a morte, com o passado e com a história. A restauração é uma autodecepção e frequentemente um crime. (...) O tempo é frequentemente destrutivo - como o são os escultores quando trabalham um bloco de pedra. Mas velhos rostos podem ser mais expressivos que rostos jovens, velhas paredes e esculturas mais ricas que as novas. Walter Kaufmann in O Tempo é um Artista
25.7.13
A um Homem do Passado
Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.
Manuel António Pina in "Nenhum Sítio"
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.
Manuel António Pina in "Nenhum Sítio"
24.7.13
23.7.13
Liberdade
"Há dois labirintos do espírito humano: um respeita à composição do contínuo,
o outro à natureza da liberdade; e ambos têm origem no mesmo infinito. "
W. Leibniz
Os Amigos Infelizes
Andamos nus, apenas revestidos
Da música inocente dos sentidos.
Como nuvens ou pássaros passamos
Entre o arvoredo, sem tocar nos ramos.
No entanto, em nós, o canto é quase mudo.
Nada pedimos. Recusamos tudo.
Nunca para vingar as próprias dores
Tiramos sangue ao mundo ou vida às flores.
E a noite chega! Ao longe, morre o dia...
A Pátria é o Céu. E o Céu, a Poesia...
E há mãos que vêm poisar em nossos ombros
E somos o silêncio dos escombros.
Ó meus irmãos! em todos os países,
Rezai pelos amigos infelizes!
Pedro Homem de Mello in "Os Amigos Infelizes"
Da música inocente dos sentidos.
Como nuvens ou pássaros passamos
Entre o arvoredo, sem tocar nos ramos.
No entanto, em nós, o canto é quase mudo.
Nada pedimos. Recusamos tudo.
Nunca para vingar as próprias dores
Tiramos sangue ao mundo ou vida às flores.
E a noite chega! Ao longe, morre o dia...
A Pátria é o Céu. E o Céu, a Poesia...
E há mãos que vêm poisar em nossos ombros
E somos o silêncio dos escombros.
Ó meus irmãos! em todos os países,
Rezai pelos amigos infelizes!
Pedro Homem de Mello in "Os Amigos Infelizes"
17.7.13
Actividade
As pessoas necessitam de actividade exterior porque não têm actividade interior. Quando, pelo contrário, esta última existe, é provável que a primeira seja um aborrecimento muito incómodo, mesmo execrável, e um impedimento. Este facto também explica a inquietação daqueles que nada têm para fazer, e as suas viagens sem objectivo. O que os impele de país em país é o mesmo tédio que no seu país os congrega em tão grandes grupos que chegam a tornar-se divertidos. Recebi certa vez uma excelente confirmação desta verdade através de um cavalheiro de cinquenta anos que não conhecia, e que me falou de uma viagem de recreio de dois anos que havia feito a terras distantes e a estranhas regiões da Terra. Quando observei que por certo tivera de enfrentar muitas dificuldades e perigos, respondeu-me muito ingenuamente, sem hesitação nem preâmbulo, mas como se enunciasse simplesmente a conclusão de um silogismo: «Não tive um instante de aborrecimento».
Arthur Schopenhauer in 'Aforismos'
Arthur Schopenhauer in 'Aforismos'
15.7.13
De Quem é o Olhar
De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?
Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.
Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora —
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua —
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!
Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?
Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.
Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora —
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua —
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!
Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
11.7.13
O Homem e a Máquina
À técnica seria absurdo que a recusássemos, lhe
recusássemos a espantosa facilitação da vida, por mais que a essa vida ela
perturbe - como aos seus doutrinadores. Uma máquina é pura, desde a inocência
com que se nos revela, ou seja precisamente a exterioridade em que se nos dá.
Mas uma inocência é uma abertura à realização do que o não é. O destino de uma
máquina tem o destino que lhe dermos, e um dos piores é o finalizá-la nela
própria. Assim e para lá da criação do seu próprio espaço, por uma máquina, da alteração
que a sua própria existência em nós promove, todo o problema se decide no
lugar-comum desta alternativa: remeter a máquina ao homem ou degradar o homem à
máquina.
Vergílio Ferreira in Invocação ao Meu Corpo
5.7.13
4.7.13
A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar
A única alegria neste mundo é a de começar. É belo viver, porque viver é começar, sempre, a cada instante. Quando esta sensação desapaece - prisão, doença, hábito, estupidez - deseja-se morrer.
É por isso que quando uma situação dolorosa se reproduz de modo idêntico - parece idêntica - nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.
O princípio acima enunciado não é, portanto, próprio de umviveur. Porque há mais hábito na experiência a todo o custo (cfr, o antipático «viajar a todo o custo») do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e inteligência. Estou convencido de que há mais hábito nas aventuras de do que num bom casamento.
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura. A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo. É melhor sofrer por ter ousado agir a sério do que to shrink (ou to shirk? (recuar) ). Como no caso dos filhos: é de resto a Natureza que o quer, e recuar é cobardia. No fim - já se tem visto -, paga-se mais caro.
Cesare Pavese in O Ofício de Viver
É por isso que quando uma situação dolorosa se reproduz de modo idêntico - parece idêntica - nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.
O princípio acima enunciado não é, portanto, próprio de umviveur. Porque há mais hábito na experiência a todo o custo (cfr, o antipático «viajar a todo o custo») do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e inteligência. Estou convencido de que há mais hábito nas aventuras de do que num bom casamento.
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura. A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo. É melhor sofrer por ter ousado agir a sério do que to shrink (ou to shirk? (recuar) ). Como no caso dos filhos: é de resto a Natureza que o quer, e recuar é cobardia. No fim - já se tem visto -, paga-se mais caro.
Cesare Pavese in O Ofício de Viver
27.6.13
Vimos do Tempo da Falta Mínima
Vimos do tempo da falta mínima
da casa construindo as folhas de quadrícula
(quando um traço mais que expressivo preenche
o vazio de uma folha)
nem beleza nem fim
nem número ordenador como fantasma.
Todas as memórias partilhámos
a ruína compreende tudo.
Compreender quer dizer abraçar
(linhas e cruzamentos na procura da folha)
o mundo inteiro nos é dado.
Mais tarde (mais além
dois furos a passagem para o útil)
as dunas darão lugar a campos cultivados?
Quero dizer
não rejeito do movimento toda a impaciência
toda a dissolução.
(pouco a pouco) Até onde podemos ir?
João Miguel Fernandes Jorge in Vinte e Nove Poemas
da casa construindo as folhas de quadrícula
(quando um traço mais que expressivo preenche
o vazio de uma folha)
nem beleza nem fim
nem número ordenador como fantasma.
Todas as memórias partilhámos
a ruína compreende tudo.
Compreender quer dizer abraçar
(linhas e cruzamentos na procura da folha)
o mundo inteiro nos é dado.
Mais tarde (mais além
dois furos a passagem para o útil)
as dunas darão lugar a campos cultivados?
Quero dizer
não rejeito do movimento toda a impaciência
toda a dissolução.
(pouco a pouco) Até onde podemos ir?
João Miguel Fernandes Jorge in Vinte e Nove Poemas
25.6.13
Verso Vão
Onda de sol, verso de ouro,
perífrase vã. Extasiar-me,
antes, por esta fusão,
mistura de brilhos. Ou, ainda
mais íntima, a consciência
extensa como o céu, o corpo de tudo,
semelhança absoluta. Respirar
na quebra da onda. Na água,
uma braçada lenta
até ao limite de mim.
Fiama Hasse Pais Brandão in Três Rostos - Ecos
perífrase vã. Extasiar-me,
antes, por esta fusão,
mistura de brilhos. Ou, ainda
mais íntima, a consciência
extensa como o céu, o corpo de tudo,
semelhança absoluta. Respirar
na quebra da onda. Na água,
uma braçada lenta
até ao limite de mim.
Fiama Hasse Pais Brandão in Três Rostos - Ecos
18.6.13
Sobre o Caminho
Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra
Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença
Não colecciones dejectos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho
Eugénio de Andrade in Véspera da Água
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra
Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença
Não colecciones dejectos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho
Eugénio de Andrade in Véspera da Água
16.6.13
15.6.13
Teorema
El-rei D. Pedro, o cruel, está na janela
sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do marquês Sá da
Bandeira. Gosto deste rei louco, inocente e brutal. Puseram-me de
joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto a cabeça, torno o
pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico do meu
pobre Senhor. Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em
estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste ao
tempo. D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pelos seus
soldados. Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e
nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em
baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens. O rei olha para mim com
simpatia. Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita,
D. Inês. Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota.
Que desejava salvar o Reino da influência espanhola. Tolice. Não me
interessa o Reino. Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro
sabe-o. Olho de novo para a janela onde se debruça. Ele diz um
gracejo. Toda a gente ri.
— Preparem-me esse coelho, que tenho
fome.
O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho.
O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho.
O
que este homem trabalhou na nossa obra! Levou o cadáver da amante de uma
ponta a outra do país, às costas da gente do povo, entre tochas e cantos
fúnebres. Foi um terrível espetáculo, que cidades e lugarejos apreciaram.
Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor. Levanto-me e fico
bem defronte do edifício. Vejo no rés-do-chão o letreiro da Barbearia
Vidigal e o barbeiro de bigode louro que veio à porta assistir ao meu
suplício. Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos
dois prédios ao lado.
—
Senhor — digo eu —, agradeço-te a minha morte. E ofereço-te a morte de D.
Inês. Isto era preciso, para que o teu amor se salvasse.
— Muito bem — respondeu o rei.
Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-mo.
De
novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro.
Distingo as vozes do povo, a sua ingénua excitação. Escolhem-me um sítio
das costas para enterrar o punhal. Estremeço de frio. Foi o punhal
que entrou na carne e cortou algumas costelas. Uma pancada de alto a
baixo do meu corpo, e verifico que o coração está nas mãos de um dos
carrascos. Um moço do rei espera com a bandeja de prata batida estendida
sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado. A multidão
grita e aplaude, e só o rosto de D. Pedro está triste, embora, ao mesmo tempo,
se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo. Percebo como tudo
isto está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem. Ah,
não tenho medo. Sei que vou para o inferno, visto que sou um assassino e
o meu país é católico. Matei por amor do amor — e isso é do espírito
demoníaco. O rei e a amante também são criaturas infernais. Só a
mulher do rei, D. Constança, é do céu. Pudera, com a sua insignificância,
a estupidez, o perdão a todas as ofensas. Detesto a rainha.
O
moço sobe a escada com a bandeja onde o meu coração é um molusco quente e
sangrento. Vê-se D. Pedro voltar-se, a bandeja aparecer perto do
parapeito da janela. O rei sorri delicadamente para o meu coração e
levanta-o na mão direita. Mostra-o ao povo, e o sangue escorre-lhe entre
os dedos e pelo pulso abaixo. Ouvem-se aplausos. Somos um povo
bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade estar à frente de um povo
assim. Felizmente o nosso rei encontra-se à altura do seu cargo, entende
a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra. Somos também um
povo cheio de fé. Temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor,
na eternidade. Somos todos loucos.
Tombei com a face direita sobre a calçada e, movendo os olhos, posso
aperceber-me de um pedaço muito azul de céu, acima dos telhados. Vejo uma
pomba passar em frente da janela manuelina. O claxon de um carro
expande-se lìricamente no ar. Estamos nos começos de junho. Ainda é
primavera. A terra está cheia de seiva. A terra é eterna. À
minha volta dizem obscenidades. Alguém sugere que me cortem o
pénis. Um moço vai perguntar ao rei se o podem fazer, mas este recusa.
—
Só o coração — diz. E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o
ferozmente. A multidão delira, aclama-o, chama-me assassino, cão, e
encomenda a alma ao Diabo. Eu gostaria de poder agradecer a este povo
bárbaro e puro as suas boas palavras violentas.
Um filete de sangue escorre pelo
queixo de D. Pedro, e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente. O
rei come o meu coração. O barbeiro saiu do estabelecimento e está a meio
da praça com a sua bata branca, o seu bigode louro, vendo D. Pedro a comer o
meu coração cheio de inteligência do amor e do sentimento da eternidade.
O marquês Sá da Bandeira é que ignora tudo, verde e colonialista no alto do seu
plinto de granito. As pombas voam à volta, pousam-lhe na cabeça e nos
ombros, e cagam-lhe em cima. D. Pedro retira-se, depois de dizer à
multidão algumas palavras sobre crime e justiça. Aclama-o o povo mais uma
vez, e dispersa. Os soldados também partem, e eu fico só para enfrentar a
noite que se aproxima. Esta noite foi feita para nós, para o rei e para
mim. Meditaremos. Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do
comum amor à eternidade. O rei estará insone no seu quarto, sabendo que
amará para sempre a minha vítima. Talvez não termine aí a sua inspiração,
e ele se torne cada vez mais cruel e mais inspirado. O seu corpo ir-se-á
reduzindo à força de fogo interior, e a sua paixão será sempre mais vasta e
pura. E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do
rei que comeu o meu coração. D. Inês tomou conta das nossas almas.
Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda. Entra devagar
nos poemas e nas cidades. Nada é tão incorruptível como a sua
morte. No crisol do inferno manter-nos-emos todos três perenemente
límpidos. O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para
geração. Que ninguém tenha piedade. E Deus não é chamado para aqui.
Herberto Helder in Passos em Volta,
7ª edição, 1997
13.6.13
SERVIDÕES
Aos 82 anos Herberto Helder publica um livro de inéditos.
O escritor não tem habilidade para as coisas mundanas. Está noutro lugar a tecer a luz e a escuridão. Tornou-se numa espécie de mito sem nunca ter pensado nisso; tão somente porque é alguém raro, porque, ao contrário de outros, nunca aparece. E assim a sua poesia esgota. Muitos compram o seu livro como um valor, por ter sido escrito por um poeta raro, mas nunca dele lerão um só poema.
Vivemos, porém, um tempo que nos convoca a todos e mesmo o que querem estar à margem como ele, terão que vir ao centro e contribuir com um punhado de verdade e luz .
*
«como se atira o dardo com o corpo todo,
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível»
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível»
Com a lança eu alcanço
Com a lança eu alcanço
meu pão de cevada;
com a lança eu consigo
o meu vinho ismárico;
na lança apoiado
eu bebo esse vinho.
Arquíloco de Paros, poeta Grego (século VII a.C.)
(tradução de Péricles da Silva Ramos)
12.6.13
"No Signal"
Grécia: "No Signall" do canal público de tv e rádio...
Mais um facto para anotar na cronologia do que aconteceu e
do que mudou na velha Europa nos últimos anos
do que mudou na velha Europa nos últimos anos
10.6.13
Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa, A Mensagem
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa, A Mensagem
Padrão
O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possivel oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Sé encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
Fernando Pessoa, A Mensagem, 1908
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possivel oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Sé encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
Fernando Pessoa, A Mensagem, 1908
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