24.9.13

o Poeta é Luz


Quem ama a liberdade conhece que é idêntica


Quem ama a liberdade conhece que é idêntica
a verdade e a não-verdade o ser e o vazio
e por isso na sua celebração a metáfora expande-se
na liberdade de ser a ténue sabedoria
desse momento e só desse momento em que o arco cresce
Há então que procurar a chuva dessa nuvem
ou desdizê-Ia não para o nosso olhar
mas para um outro rosto de areia que cresce no vazio
e poderá ser de pedra ou de ouro ou só de uma penugem
O poema é o encontro destas duas faces
de nenhuma substância quando no vazio do céu
os anjos se diluem com as mãos despojadas



António Ramos Rosa, in As espirais do Silêncio


22.9.13

Da Realidade



Que renda fez a tarde no jardim, 
Que há cedros que parecem de enxoval? 
Como é difícil ver o natural.
Quando a hora não quer! 
Ah! não digas que não ao que os teus olhos 
Colham nos dias de irrealidade. 
Tudo então é verdade, 
Toda a rama parece 
Um tecido que tece 
A eternidade. 

Miguel Torga in 'Nihil Sibi'

21.9.13

Os Dias Bons

1961: Louis Armstrong at the Pyramids 7 @retronaut

20.9.13

Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios…
Rainer Maria Rilke

Os Dias Bons

Marcel Proust playing air guitar on a tennis racket, 1892, @ retronaut

As flores de hoje

"A realidade apenas se forma na memória; as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores."

Marcel Proust

Os dias bons com lágrimas

8th May 1945,  Rainbow Corner, Piccadilly, London (@ retronaut)

19.9.13

uma espécie de ar


"Caracol é uma solidão que anda na parede."


"Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos."


"A gente é rascunho de pássaro."


"Uso a palavra para compor meus silêncios."


"Tudo que não invento é falso."



frases de  Manoel de Barros

No descomeço

No descomeço era o verbo. 
Só depois é que veio o delírio do verbo. 
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a 
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona 
para cor, mas para som. 
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira. 
E pois. 
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer 
nascimentos – 
O verbo tem que pegar delírio. 

Manoel de Barros

16.9.13

Os Dias Bons

Jorge Amado

Experiência

"A experiência localiza-se nos dedos e na cabeça. 
O coração não tem experiência."

Henry David Thoreau

Simplificar, simplificar

"Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Digo: ocupai-vos de dois ou três afazeres, e não de cem ou mil; contai meia dúzia em vez de um milhão e tomai nota das receitas e despesas na ponta do polegar. A meio do agitado mar da vida civilizada, tantas são as nuvens, as tempestades, as areias movediças, tantos são os mil e um imprevistos a ser levados em conta, que para não se afundar, para não ir a pique antes de chegar ao porto, um homem tem de ser um grande calculista para lograr êxito. 

Simplificar, simplificar, simplificar. Em vez de três refeições por dia, se preciso for, comer apenas uma; em vez de cem pratos, cinco; e reduzir proporcionalmente as outras coisas. A nossa vida é como uma Confederação Germânica, composta de insignificantes Estados e com as fronteiras sempre a flutuar, de modo que nem uma alemão sabe, em dado momento, dizer quais são. "

Henry David Thoreau in 'Walden'

15.9.13

a manhã levanta-se da luz

de Arkhip Ivanovich Kuindzhi, Dnepr in the morning 1881

9.9.13

CANÇÃO

Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas
Umas vivem em palácios, outras em mansardas;
contudo não há lugar para nós, minha querida, não há lugar para nós.

Uma vez tivemos uma pátria e julgávamos que era bela.
Olha para o mapa e lá a encontrarás;
mas não poderemos regressar tão cedo, minha querida, não podere-
             mos regressar tão cedo.

O cônsul deu um murro na mesa e disse:
se não têm passaportes estão oficialmente mortos;
mas nós ainda estamos vivos, minha querida, ainda estamos vivos.

Lá em baixo no adro um velho teixo
todas as primaveras floresce de novo:
e os velhos passaportes não florescem, minha querida, os velhos
            passaportes não florescem.

Fui a um comissariado e ofereceram-me uma cadeira.
disseram polidamente para voltar no ano seguinte:
mas onde iremos agora, minha querida, onde iremos agora?

Fui a um comício público; o orador levantou-se e disse:
se os deixarmos cá dentro, roubar-nos-ão o pão de cada dia;
estava a falar de mim e de ti, minha querida, a falar de mim e de ti.

Ouves um ruído como um trovão roncando no céu?
É Hitler sobre a Europa dizendo: «Eles têm de morrer!»
Nós estávamos no Seu pensamento, minha querida, estávamos no
            Seu pensamento.

Vi um cão de luxo de jaqueta apertada com um alfinete
vi uma porta aberta e um gato entrando;
mas não eram judeus alemães, minha querida, não ale-
              mães.

Desci ao porto e parei no cais
vi os peixes a nadar. Como são livres!
a dez pés de distância, minha querida, só a dez pés distância

Passeei pelo bosque; há pássaros nas árvores,
não têm políticos e cantam livremente.
Não são da raça humana, minha querida, não são da raça humana

Sonhei que vira um edifício com mil andares
mil janelas e mil portas;
nenhuma delas era nossa, minha querida, nenhuma

Corri à estação para apanhar o expresso,
pedi dois bilhetes para a Felicidade;
mas todas as carruagens estavam cheias, minha querida, todas as
              carruagens estavam cheias.

Fui parar a uma grande planície, no meio da neve a cair
dez mil soldados marchavam de um lado para o outro
olhando para mim e para ti, minha querida, olhando para mim e
               para ti. 


W. H. Auden 1907-1973)
in Rosa Do Mundo, 2001 POEMAS PARA O FUTURO
Assírio & Alvim /TRAD.: Jorge Emílio

4.9.13

Contemplar a beleza


                                  a nós resta-nos contemplar a extrema beleza do mundo

A vida

" A vida é o meio de o Universo contemplar-se a si mesmo"

Carl Sagan

27.8.13

A Terra é um palácio


“A Terra é um palácio que olha para cima.
O Céu é um palácio que olha para baixo.”

Herberto Helder

Home

25.8.13

Este é o tempo

Este é o tempo
Da selva mais obscura 

Até o ar azul se tornou grades 
E a luz do sol se tornou impura 

Esta é a noite 
Densa de chacais 
Pesada de amargura 

Este é o tempo em que os homens renunciam. 

Sophia de Mello Breyner in Mar Novo (1958)

O Passado e o Futuro


A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos. Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso. 

Franz Kafka, in 'Diário (1910)'

22.8.13

Os Dias Bons

fotografia de João Cutileiro, anos 60, Lagos, Portugal

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo) 
São uma parte de mim, como este rosto 
De têmporas e olhos já cinzentos 
Que em vão vou procurando nos espelhos 
E que percorro com a minha mão côncava. 
Não sem alguma lógica amargura 
Entendo que as palavras essenciais, 
As que me exprimem, estarão nessas folhas 
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo. 
Mais vale assim. As vozes desses mortos 
Dir-me-ão para sempre. 

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

17.8.13

Um dia de sol


À medida que o tempo passa, as dúvidas aumentam e até o nosso nome no passado nos é estranho. 
Vamo-nos tornando parcos nas crenças, nos juízos, nas afirmações e generosos com as pequenas alegrias de um dia de sol, sonhamos que um dia não tenhamos medo e só isso nos baste.

16.8.13

dunas

destino

"A independência foi sempre o meu desejo, a dependência foi sempre o meu destino." Paul Verlain

14.8.13

Bosque


"Há quem passe pelo bosque e apenas veja lenha para a fogueira"


Lev Tolstoi (1828-1910)

7.8.13

Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades? 
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas difíceis ligados à conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso não era prioritário para ninguém, iam achá-lo desalmado e pôr-lhe toda a espécie de obstáculos pela frente. 
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avaliação das situações, por tudo e nada reanima a atenção dos outros com os seus conselhos. Depressa é tratada como importuna e terá que recuar ao abrigo da frivolidade. 
Terceiro, a sabedoria é moderada e vê as coisas em profundidade. É, portanto, inimiga do juízo fácil e das paixões que são requestadas para dar emoção às existências fúteis e cinzentas.
Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas. 
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios. 
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza, porque a sabedoria, nesse campo, não lhe serviria de nada. 

Agustina Bessa-Luís in Antes do Degelo


3.8.13

Beleza

"A beleza não tem causa. É. Quando a perseguimos apaga-se. Quando paramos - permanece." 

 Emily Dickinson

1.8.13

Adeus ... Departure of the “Amerigo Vespucci”, Egypt, 1963 - @Retronaut

Razão

"Entendo por razão, não a faculdade de raciocinar, que pode ser bem ou mal utilizada, mas o encadeamento das verdades que só pode produzir verdades, e uma verdade não pode ser contrária a outra." Wilhelm Leibniz

Tempo é Mudança

O tempo é a dimensão da mudança. Sem percepção da mudança, não há e não pode haver percepção do tempo. E as diferentes atitudes para com o tempo são corolários de diferentes atitudes para com a mudança. (...) Vive-se bem a vida em camaradagem com o tempo, vendo-o como ele é, respeitando as suas obras, inclusive a decadência e a morte, com o passado e com a história. A restauração é uma autodecepção e frequentemente um crime. (...) O tempo é frequentemente destrutivo - como o são os escultores quando trabalham um bloco de pedra. Mas velhos rostos podem ser mais expressivos que rostos jovens, velhas paredes e esculturas mais ricas que as novas. Walter Kaufmann in O Tempo é um Artista

25.7.13

A um Homem do Passado

Estes são os tempos futuros que temia 
o teu coração que mirrou sob pedras, 
que podes recear agora tão fundo, 
onde não chegam as aflições nem as palavras duras? 

Desceste em andamento; afinal era 
tudo tão inevitável como o resto. 
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se 
da tua vista os bons e os maus momentos. 

Tu ainda tinhas essa porta à mão. 
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.) 
Agora já não é possível morrer ou, 
pelo menos, já não chega fechar os olhos. 

Manuel António Pina in "Nenhum Sítio"

24.7.13

Os Dias Bons

                                                        
                                            Picasso e Françoise Gilot, em 1948 / Fotografia de Robert Capa

23.7.13

Liberdade


"Há dois labirintos do espírito humano: um respeita à composição do contínuo, 
o outro à natureza da liberdade; e ambos têm origem no mesmo infinito. "

W. Leibniz

Os Amigos Infelizes

Andamos nus, apenas revestidos 
Da música inocente dos sentidos. 

Como nuvens ou pássaros passamos 
Entre o arvoredo, sem tocar nos ramos. 

No entanto, em nós, o canto é quase mudo. 
Nada pedimos. Recusamos tudo. 

Nunca para vingar as próprias dores 
Tiramos sangue ao mundo ou vida às flores. 

E a noite chega! Ao longe, morre o dia... 
A Pátria é o Céu. E o Céu, a Poesia... 

E há mãos que vêm poisar em nossos ombros 
E somos o silêncio dos escombros. 

Ó meus irmãos! em todos os países, 
Rezai pelos amigos infelizes! 

Pedro Homem de Mello in "Os Amigos Infelizes"

17.7.13

Os dias bons

David Bowie on holiday in Kenya with Masai Warriors, March 1978  in http://www.retronaut.com

Actividade

As pessoas necessitam de actividade exterior porque não têm actividade interior. Quando, pelo contrário, esta última existe, é provável que a primeira seja um aborrecimento muito incómodo, mesmo execrável, e um impedimento. Este facto também explica a inquietação daqueles que nada têm para fazer, e as suas viagens sem objectivo. O que os impele de país em país é o mesmo tédio que no seu país os congrega em tão grandes grupos que chegam a tornar-se divertidos. Recebi certa vez uma excelente confirmação desta verdade através de um cavalheiro de cinquenta anos que não conhecia, e que me falou de uma viagem de recreio de dois anos que havia feito a terras distantes e a estranhas regiões da Terra. Quando observei que por certo tivera de enfrentar muitas dificuldades e perigos, respondeu-me muito ingenuamente, sem hesitação nem preâmbulo, mas como se enunciasse simplesmente a conclusão de um silogismo: «Não tive um instante de aborrecimento». 
Arthur Schopenhauer in 'Aforismos' 

15.7.13

Philosopher in Meditation, 1632

de Rembrandt Harmenszoon van Rijn (Leida15 de julho de 1606 — Amsterdam4 de outubro de 1669

De Quem é o Olhar

De quem é o olhar 
Que espreita por meus olhos? 
Quando penso que vejo, 
Quem continua vendo 
Enquanto estou pensando? 
Por que caminhos seguem, 
Não os meus tristes passos, 
Mas a realidade 
De eu ter passos comigo ? 

Às vezes, na penumbra 
Do meu quarto, quando eu 
Por mim próprio mesmo 
Em alma mal existo, 

Toma um outro sentido 
Em mim o Universo — 
É uma nódoa esbatida 
De eu ser consciente sobre 
Minha idéia das coisas. 

Se acenderem as velas 
E não houver apenas 
A vaga luz de fora — 
Não sei que candeeiro 
Aceso onde na rua — 
Terei foscos desejos 
De nunca haver mais nada 
No Universo e na Vida 
De que o obscuro momento 
Que é minha vida agora! 

Um momento afluente 
Dum rio sempre a ir 
Esquecer-se de ser, 
Espaço misterioso 
Entre espaços desertos 
Cujo sentido é nulo 
E sem ser nada a nada. 
E assim a hora passa 
Metafisicamente. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

11.7.13

Os dias bons


Leo Tolstoy telling a story to his grandchildren, 1909

Hábito

"O céu deu-nos o hábito,  bom substituto da felicidade."Alexander Puschkine

 

DIAS DO LIXO


O Homem e a Máquina


À técnica seria absurdo que a recusássemos, lhe recusássemos a espantosa facilitação da vida, por mais que a essa vida ela perturbe - como aos seus doutrinadores. Uma máquina é pura, desde a inocência com que se nos revela, ou seja precisamente a exterioridade em que se nos dá. Mas uma inocência é uma abertura à realização do que o não é. O destino de uma máquina tem o destino que lhe dermos, e um dos piores é o finalizá-la nela própria. Assim e para lá da criação do seu próprio espaço, por uma máquina, da alteração que a sua própria existência em nós promove, todo o problema se decide no lugar-comum desta alternativa: remeter a máquina ao homem ou degradar o homem à máquina. 


Vergílio Ferreira in Invocação ao Meu Corpo