24.2.17

Metro, New York, 1946

Fotografias do Metro em New York em 1946 
tiradas por Standley Kubrick quando tinha apenas 17 anos. 

Vale a pena ver todas:

23.2.17

A terra poeteia, de campo a campo

A terra poeteia, de campo a campo,
com árvores interlineares, e deixa
que teçamos nossos próprios caminhos ao redor
da terra arada, para o mundo.
Flores rejubilam-se ao vento,
a grama estende-se macia para acolhê-las.
O céu se torna azul e saúda suavemente
as macias cadeias que o sol teceu.
As pessoas passam, ninguém está perdido —
terra, céu, luz e florestas —
brincam na brincadeira do Todo-Poderoso.
Hannah Arendt , in Revista Bula

20.2.17

an approach ...

"an approach to Jorge 2" de Luísa Correia Pereira

19.2.17

A luz ...

"A luz é cada vez mais clara 
e a treva cada vez mais negra."

Teixeira de Pascoaes

11.2.17

Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti - No Teu Poema



No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E aberta, uma varanda para o mundo

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço do corpo que adormece em cama fria
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva, a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe a noite
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar
O cais da nova nau das descobertas
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco, ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera... Do futuro

José Luís Tinoco

Digo: "Lisboa"

Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver
Sophia de Mello Breyner Andresen (1977), in Obra Poética, 2011

1.2.17

Donald Trump é patético e perigoso, mas temos que combatê-lo nas raízes senão torna-se incontrolável

Donald Trump é patético, fazendo-se filmar a cada Decreto que assina, para se inscrever no tempo e na realidade, para se legitimar junto dos seus eleitores. Para ele e para aqueles que o dirigem as instituições são dispensáveis, pois a sua acção dirige-se directamente "ao povo".
Donald Trump tem a preparação de uma criança para governar, parece-nos um palhaço do mundo de hoje, mas infelizmente ele quer mesmo levar-se a sério, sem qualquer preocupação face às consequências das acções que não param.
Tem uma ignorância gritante e uma arrogância ainda maior. Mas a verdade é que é suportado por milhões de americanos e por muita gente no mundo inteiro, mesmo na Europa, que simpatizam com a sua ideologia e com a sua atitude prática de desmontagem dos valores civilizacionais. E é a essas pessoas que é preciso chegar, é a essas pessoas que os políticos democratas, lúcidos e moderados dos dias de hoje têm que saber chegar. A simples indignação contra esta nova administração não chega, é preciso uma atitude firme de esclarecimento e proximidade junto das pessoas, desses milhares que vivem no medo, na desconfiança, na intransigência, que vivem arredados e que em silêncio se deliciam com as notícias das novas leis de Trump que dia após dia sentem como se fossem suas.

29.1.17

A democracia, a ditadura e o divino

Após cinquenta anos de desenvolvimento, de protecção social, de paz e de liberdade, o mundo ocidental entrou em crise. Economias e sistemas políticos não acertam. As populações não acreditam. As forças centrífugas fazem sentir o seu efeito. Em quase todos os países democráticos surgem perturbações e ameaças difíceis de conter. Na maior parte desses países, é fácil encontrar o preconceito como resposta ao preconceito. Ou o nacionalismo como reacção contra a liberdade e o cosmopolitismo. Meio século de esplendoroso progresso parece ameaçado
Estamos a viver tempos difíceis. As democracias estão a falhar. São como aqueles motores de automóvel que, aos soluços, dão sinais de que alguma coisa, gasolina, velas ou carburador, está a falhar. As democracias têm tido enormes dificuldades em lidar com a fúria capitalista e a ganância financeira. Têm revelado fraqueza em tratar com as esquerdas revolucionárias. São débeis na reacção ao nacionalismo. Têm mostrado pusilanimidade em combater os grandes grupos económicos multinacionais. Não conseguem sobrepor-se à ditadura das sondagens, da publicidade e da propaganda. Têm tendência para deixar crescer as desigualdades sociais. Perdem o sentido de Estado e rendem-se facilmente ao mercado. São frágeis perante a demagogia das esquerdas e o populismo de toda a gente. Têm medo dos estrangeiros, dos refugiados e dos imigrantes. Têm receio de parecer racistas. Quase conseguem conviver com o terrorismo, sobretudo o reclamado pelas minorias. Encontram razões sociais, origens familiares e causas políticas para explicar, justificar e desculpar o crime, o terrorismo, a violência doméstica, o insucesso escolar e a falta de disciplina. Têm medo de parecer autoritários. As democracias deixam-se deslizar e não conseguem evitar a deriva da demagogia e do preconceito.
Democratas começam a pensar que, se a democracia não é capaz de combater esses novos inimigos, talvez seja de imaginar soluções mais duras, nacionalistas de esquerda ou de direita, capazes de contrariar os estrangeiros, liquidar o mercado e eliminar a iniciativa privada. Uns procuram recorrer à religião e ao divino, sejam os cultos estabelecidos sejam as novas seitas. Outros, pelo contrário, culpam o divino e procuram contrariar todo e qualquer contributo das religiões para a vida colectiva.
Dentro e fora da democracia, os esforços para casar governo e igreja, para ligar política e religião, sucedem e aumentam. Donald Trump não gosta de Darwin e já fez declarações arrepiantes sobre os fundamentos religiosos da família. Putin vai buscar os chefes da Igreja Ortodoxa cada vez que se vê atrapalhado. Enquanto o Papa Francisco irrompe pelos territórios tradicionais da esquerda, as direitas europeias afastam-se da religião ou sonham com uma restauração tridentina. Na China, os poderes procuram de novo em Confúcio uma ajuda para o comunismo do dia. Noutros países asiáticos, tenta-se encontrar em Buda colaboração para combater os temores. Em Israel, em Gaza, em Teerão, em Riade, em Bagdad, em Manila e em Jacarta os Estados tentam conviver com a religião e convencer os fiéis. Na Turquia, Erdogan revê as relações do Estado com a religião. Noutros casos, a religião apodera-se das alavancas dos poderes políticos e militares.
Há ditadores que encontram fácil ligação com os deuses e as igrejas. Outros que se lhes opõem ferozmente. Há igrejas que combinam bem com o poder político ditatorial. Outras que calam e consentem. Outras ainda que não consentem e são caladas.
Apesar da escravatura, mau grado a Inquisição, não obstante a contra-reforma e outras formas de cumplicidade das igrejas com o pior das políticas, os cristãos têm a seu crédito a fundamental separação entre Deus e César, entre a Igreja e o Estado e entre a Bíblia e a Constituição. Não é pouca coisa.


Antonio Barreto, 8-1-2016 no Diário de Notícias

27.1.17

VITA ACTIVA: THE SPIRIT OF HANNAH ARENDT official US trailer

VITA ACTIVA: THE SPIRIT OF HANNAH ARENDT official US trailer



Vejam este documentário! A História repete-se e é indispensável pensar e conhecer a raiz das coisas para que possamos fazer as escolhas acertadas e pensar pela nossa mente!

19.1.17

15.1.17

Nós Estamos Aqui: O Pálido Ponto Azul



O mundo mudou decisivamente nas últimas décadas. Vão naturalmente desaparecendo aqueles que ajudaram a traçar o melhor do nosso mundo e não encontramos nos actuais lideres alguém que possa acompanhar a grandeza e a presença de espírito dos que partem. Apesar do mundo em geral estar hoje melhor, especialmente para os milhões que têm saído da miséria extrema, há um outro movimento que ameaça escurecer a luz que conquistámos. Pelo menos na Europa, há uma mudança em movimento, quase um retrocesso, que ameaça os valores que conquistámos em tantas guerras e lutas; uma ameaça que vem da ignorância, da arrogância, do medo; uma sombra de descrença nas soluções políticas; um processo complexo de descrença que também passa pelo pior que a União Europeia tem: uma tecnocracia errática que afasta as instituições dos cidadãos porque esquece a dimensão cultural e histórica das populações tando foco ao acessório em detrimento do essencial. É bom rever este pequeno video que nos lembra que procurar a paz e a tolerância é essencial, porque só a partir dai podemos desenhar um futuro melhor para todos.

O pálido ponto azul 2 - Carl Sagan

14.1.17

O Amor e o Tempo

Pela montanha alcantilada 
Todos quatro em alegre companhia, 
O Amor, o Tempo, a minha Amada 
E eu subíamos um dia. 

Da minha Amada no gentil semblante 
Já se viam indícios de cansaço; 
O Amor passava-nos adiante 
E o Tempo acelerava o passo. 

— «Amor! Amor! mais devagar! 
Não corras tanto assim, que tão ligeira 
Não pode com certeza caminhar 
A minha doce companheira!» 

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados, 
Abrem as asas trémulas ao vento... 
— «Porque voais assim tão apressados? 
Onde vos dirigis?» — Nesse momento, 

Volta-se o Amor e diz com azedume: 
— «Tende paciência, amigos meus! 
Eu sempre tive este costume 
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus! 


António Feijó , (1859 -1917) , in 'Sol de Inverno' 

10.1.17

Mario Soares, o europeu

Patriota, sim, mas europeu. Ou um europeu patriota, como devíamos ser todos.
Talvez a morte de Mário Soares, desfecho previsível há algum tempo, permita finalmente esclarecer um equívoco, usado por tanta gente contra o ideal europeu, particularmente nos últimos anos e nomeadamente no rescaldo das várias crises europeias – das dívidas soberanas, do euro, dos refugiados, da democracia liberal:
Esse equívoco consiste na ideia de que não podemos ser a um tempo profundamente patriotas e convictamente europeus, adeptos da integração dos povos europeus num projecto como o da União Europeia e em simultâneo apaixonados pelo nosso país, as nossas gentes, a nossa identidade (no caso da portuguesa) milenar, periférica, humana, aventureira, universalista.
Mário Soares disse-o várias vezes, em entrevistas a órgãos de comunicação, em momentos distintos da sua vida pública: acreditava na Europa, acreditava na União Europeia, e era um português de lei, que amava o seu país acima de tudo o resto. Como eu, aliás, como tantas daqueles que acreditamos nesta visão de um continente em paz, protegido pelo cimento de interesses comuns da guerra, da devastação, da miséria, que sempre o assolou, no que foi, ao longo dos séculos, o traço distintivo principal da Europa, esse continente turbulento, como lhe chamou, creio, Churchill.
Há uma história sobre Mário Soares repetidas vezes evocada, contada por muita gente, mas que não resisto a repetir: em 1976, recém primeiro-ministro da jovem democracia portuguesa, reuniu no Hotel Palace, no Estoril, os economistas portugueses mais reputados de então sobre a hipótese de um pedido de adesão às Comunidades Europeia. Praticamente todos sugeriram que Portugal assinasse um qualquer tratado de associação, mas descartaram a hipótese de adesão, para a qual o país não estaria preparado. No final da reunião, Soares decidiu: e o pedido foi feito pouco tempo depois.
Portugal aderiu em 1986 à então Comunidade Europeia graças em grande parte à sua acção. A verdade é que, depois de um arranque auspicioso das negociações, o processo de adesão sofreu atrasos, arrastou-se, pareceu quase, a certa altura, condenado a não se concretizar. A vontade política da Europa dos dez – que incluía já a Grécia – em concluir a adesão portuguesa atingiu um mínimo preocupante em 1983.
Mário Soares, primeiro-ministro do recém-formado governo do Bloco Central, afirmou então publicamente que Portugal não estava disposto a esperar indefinidamente pela adesão. Que a CEE tinha de tomar uma decisão. Soares escolhera para chefe das negociações um europeísta convicto, e teimoso: Ernâni Rodrigues Lopes, seu ministro das finanças. Num país em crise económica aguda (provavelmente a maior até à crise de 2009/11), a adesão à CEE torna-se no país a questão política principal.
Mas o processo continua a arrastar-se. Soares impacienta-se e ameaça olhar para outras paragens, em alternativa à CEE. A França coloca obstáculos, adia uma decisão até às eleições de 1984 para o Parlamento Europeu. No Conselho Europeu de Fontainebleau, em Junho desse ano, os líderes europeus chegam a acordo sobre o delicado dossiê da chamada compensação britânica, um dos principais obstáculos à conclusão do processo de adesão de Portugal (e também de Espanha). No rescaldo de Fontainebleau, Miterrand promete a “son ami” Soares que o dossiê português estará fechado até 30 de Setembro.
Mas a adesão portuguesa continua a marcar passo. E Soares irrita-se: chama os embaixadores europeus em Portugal, dá-lhes conta da sua insatisfação. E exige que seja afirmada inequivocamente a irreversibilidade da adesão portuguesa. No dia 24 de Outubro, as instituições europeias assinam em Dublin um “constat d’accord”, documento exclusivamente político, que sela o processo e onde, sem tibiezas, Comissão e Conselho estabelecem uma data para a adesão.
Portugal será europeu a 1 de Janeiro de 1986, depois de uma cerimónia nos Jerónimos, no dia 12 de Junho de 1985, em que Mário Soares é figura de proa; as imagens desse momento passam vezes sem conta, ano após ano, nas televisões portuguesa. E Soares conseguiu, feito simbólico por excelência, que a assinatura portuguesa precedesse a espanhola – a qual terá lugar nessa mesma tarde -, uma espécie de “cavalo de batalha” do então primeiro-ministro e futuro Presidente de Portugal.
Nos últimos anos, Mário Soares mostrou-se desencantado com a evolução da Europa. Mas entenda-se bem que nunca pôs em causa o ideal europeu e a ideia antiga, grandiosa e bela, de uma integração profunda dos povos do continente. Teria aliás, na sua vida, mais alguns encontros com a Europa da União, sendo por exemplo deputado europeu – e um dos mais respeitados que pisou o hemiciclo de Estrasburgo, apesar do “faux pas” da candidatura à Presidência do Parlamento Europeu, que podia ter facilmente conquistado se tivesse tido a paciência de esperar meia legislatura (2 anos e meio); mas ele era assim, impaciente, político até à medula, apressado, mesmo na velhice, sobretudo na velhice, sempre e ainda com projectos, a olhar para o futuro.
Soares amava a paz, a democracia e a liberdade e sabia que só a integração, baseada nos valores europeus da solidariedade e da comunhão de interesses entre os seus países, as garantia.
Mário Soares era um patriota e um europeu. Pode ser que a sua morte, inevitável como todas, marque também, pelo menos em Portugal, o princípio do fim do maior dos equívocos: o de que a União Europeia é inconciliável com as soberanias nacionais.
Ela, sabia-o ele, é o garante da soberania dos Estados europeus, porque é ela que lhes assegura a paz e a estabilidade de que a Europa tanto carece.
Também esse legado nos deixa Mário Soares.
- Paulo de Almeida Sande in Obervador
http://observador.pt/opiniao/mario-soares-o-europeu/http://observador.pt/opiniao/mario-soares-o-europeu/

2.1.17

FELIZ ANO NOVO PARA TODOS OS DESTINOS !


A ascensão da nova ignorância

Entre os temas tabu dos nossos dias está a ignorância. Parece que falar da ignorância coloca logo quem o faz numa situação de arrogância intelectual, o que inibe muita gente de a nomear. Mas não há muita razão para se enfiar essa carapuça, tanto mais que o problema é enorme e está agravar-se e a assumir novas formas, socialmente agressivas. Acompanha outro tipo de fenómenos como o populismo, a chamada “pós-verdade”, a circulação indiferenciada de notícias falsas, e, o que é mais grave, a indiferença sobre a sua verificação. Não explica, nem é a causa de nenhum destes fenómenos, mas é sua parente próxima e faz parte da mesma família. É, repetindo uma fórmula que já usei, como se de repente se deixasse de ir ao médico, e se passasse a ir ao curandeiro.
Uso aqui uma noção utilitária de ignorância que pode ser simplista, mas que serve. Ser ignorante é não ter os instrumentos para se mover no mundo que nos rodeia, ser sujeito mais do que ser actor, não conseguir atingir o empowerment que é suposto se poder ter para se actuar conforme as circunstâncias, de modo a crescer, ser capaz, viver uma vida qualificada e tirar dela uma experiência enriquecedora, controlando-se a si próprio tanto quanto é possível, e não menosprezando as condições para se ser feliz, “habitualmente” feliz. Isto é muito Dale Carnegie, mas serve, não é preciso complicar à partida.
Percebe-se, usando esta definição, que a ignorância pode ser descrita como a pobreza, cujos efeitos e condições de superação são exactamente do mesmo tipo. A ignorância é uma forma de pobreza e o seu crescimento acentua a pobreza em geral e, mais do que a pobreza, a exclusão e a diferenciação social. É até um dos mecanismos mais eficazes para aumentar a distância entre pobres e ricos, e para estabilizar um status quo nos pobres, que, como a droga, tem efeitos de satisfação instantânea, de paraíso artificial, ou, se se quiser de “ópio do povo”.
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Faço uma distinção entre aquilo a que chamo “a antiga ignorância” e “a nova”. A antiga tem muito que ver com a baixa qualificação profissional, com a insuficiente escolaridade, com a má qualidade de muitas escolas, sem meios, sem professores preparados, com o analfabetismo funcional. É um factor do nosso atraso e ajuda a potenciar os efeitos perversos da nova ignorância, mas não a explica por si só.
Contentamo-nos muito com a diminuição estatística da antiga ignorância e isso em Portugal é mais do que compreensível. O sucesso da escola, e da escolarização, o ensino para adultos, as melhorias verificadas em disciplinas como Português e Matemática são instrumentos fundamentais, entre outras coisas, para a mobilidade social, mas, mesmo que tenhamos, como agora se diz, as gerações mais qualificadas, estamos cegos quanto ao crescimento da nova ignorância, não só em aliança e em tandem com a antiga, mas assumindo novas formas e efeitos. O facto de haver um modismo tecnológico e se confundir a utilização de gadgets, aliás bastante rudimentar, com um novo saber, que implica novas competências, esconde essa regra básica de que as literacias para os usar vêm do sistema escolar a montante e a possibilidade de os usar para uma melhoria social só existe a jusante se acompanhar uma evolução social que não se está a verificar. Mais do que uma evolução, há uma involução.
A antiga ignorância assentava numa carência, numa falta, a nova assenta numa ilusão. É por isso que a antiga ignorância era vista como um problema da sociedade e a nova é vista como um “progresso”, ou como uma tendência contra a qual é inútil lutar. Isso tem muito que ver com uma ideologia corrente face às novas tecnologias, em particular aquelas que têm imediatos efeitos sociais como os telemóveis, as redes sociais, e certos modos de usar os videojogos, a realidade virtual e mesmo o computador e a televisão.
O primeiro efeito nefasto dessa ideologia é a crença de que são as novas tecnologias que estão a mudar a sociedade. É o contrário. É a mudança da sociedade que potencia o uso de determinadas tecnologias, que depois acentuam os efeitos de partida. Muitas tecnologias de “contacto” — como programas de “presentificação”, que fazem as pessoas olharem para os seus telemóveis centenas de vezes por dia, e os adolescentes, na vanguarda desta nova ignorância juntamente com os seus jovens pais adultos, passarem o dia a enviarem mensagens sem qualquer conteúdo — só têm sucesso porque se deu uma deterioração acentuada das formas de sociabilidade interpessoais, substituídas por um Ersatz de presença e companhia tão efémero que tem de estar sempre a ser repetido. Sociedades sem relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interacções de grupo, sem movimentos colectivos de interesse comum dependem de formas artificiais e, insisto, pobres, de relacionamento que se tornam adictivas como a droga. Não há maior punição para um adolescente do que se lhe tirar o telemóvel, e alguns dos conflitos mais graves que ocorrem hoje nas escolas estão ligados ao telemóvel que funciona como uma linha de vida.
Nada é mais significativo e deprimente do que ver numa entrada de uma escola, ou num restaurante popular, ou na rua, pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, vendo a sua página de Facebook, centenas de vezes por dia. Que vida pode sobrar?

Ainda há-de alguém convencer-me que este comportamento lá por usar tecnologias modernas representa uma vantagem e não uma patologia. Faz parte de sociedades em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar, curiosidade de olhar para fora, gosto por actividades lentas como ler, ou ver com olhos de ver. E se olharmos para os produtos de tanta página de Facebook, de tanta mensagem, de tanto comentário não editado, de tanta “opinião” sobre tudo e todos, escritas num português macarrónico e cheio de erros, encontramos fenómenos de acantonamento, de tribalização, de radicalização, de cobardia anónima, de ajustes de contas, de bullying num mundo que tem de ser sempre excitado, assertivo e taxativo. Um dos maiores riscos para o mundo é ter um presidente dos EUA que governa pelo Twitter como um adolescente, com mensagens curtas, sem argumentação, que, para terem efeito, têm de ser excessivas e taxativas.

José Pacheco Pereira, 31.12.2016 Público

26.12.16

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.


Manoel de Barros

14.12.16

Os que ficaram para trás...


http://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/14/internacional/1481696489_212282.html

Para que servem as instituições, os observatórios, a diplomacia? Aqui tudo parece falhar. Aqui, parece que tudo tem que falhar. O que será da Síria e dos que ficaram para trás quando um dia já nada restar? Como actuará o terrorismo quando aqui tudo se silenciar?

11.12.16

O embaraço da arte contemporânea

A arte contemporânea tornou-se um embaraço. São sintomas as múltiplas declarações de artistas contemporâneos estabelecidos, que circulam internacionalmente, que amiudadas vezes afirmam ver cada vez menos exposições de arte contemporânea, preferindo, em Veneza, entrar nas igrejas para contemplar Tintorettos e, em Madrid, visitar o Prado para aí admirar Goya ou Velázquez, em vez de ir à Feira do Arco.
À parte o snobismo latente, este tipo de afirmações é também comum entre cineastas, poetas compositores de música erudita, bem como entre muitos produtores dos dispositivos artísticos que transportam algum sentido de permanência e simultaneamente de imprevisibilidade. Não se trata de comentários nostálgicos das artes do passado, mas da sensação de que “estas artes” são fugazes e a “energia” que as artes da modernidade europeia continham terá desaparecido no meio da autofagia da globalização tecno-financeira. E, contudo, a arte contemporânea é inevitável que aconteça, mas o atributo “contemporâneo” como qualificativo desta arte é cada vez mais gerador de desalentos e equívocos, cuja grande responsabilidade está ligada ao facto de a sua matriz ser euro-atlântica, mas o seu mercado financeiro ser global e determinante no estabelecimento dos modos maioritários de produzir e consumir arte. E neste aspecto a imediatez e a quantidade, como os atributos desta arte assim (mal) classificada como contemporânea, aparecem sem essa energia e tempo e enigma dos Tintorettos, Dreyers, Kantors, etc.
Acrescente-se então que os sintomas acima referidos se transformaram em provas; provas de recepção artística quando existe um sentimento muito presente de clausura, fechamento, fim de festa, de que outrora a arte contemporânea se legitimava e assim justificava um novo tempo descontínuo em relação à história que a precedia.
Ao reivindicar ser exclusivamente contemporânea enquanto género, época, técnica, processo e linguagem, rompendo com o passado, muitas vezes em guerra contra o moderno em particular (a dança contemporânea, a Documenta de Kassel), a arte contemporânea não promete nada. Ao contrário das vanguardas, que rompiam mas prometiam outro futuro, outra medida, a arte contemporânea, por absoluta necessidade de afirmação, enreda-se em si própria ou, para ser mais preciso, e convocando a reflexão que António Guerreiro tem trazido a este debate, “o sistema de arte contemporânea e as suas figuras e instituições (as galerias, os museus, os centros de arte, as bienais)”. Foi esta eleição a uma categoria estética e a um género artístico onde qualquer acto desde que realizado no campo artístico é artístico — comer, assistir a vernissages, frequentar as festas das bienais e das feiras de arte — que transformou a arte contemporânea num campo onde tudo é semelhante, toda a actividade é homogénea, que nega a existência de um campo exterior seja ele a crítica ou a estética e funciona em pleno para o grande mercado. E aqui é fulcral referir Nicolas Borriaud, o grande defensor desta arte contemporânea auto-referencial que se mesmizou e que depende apenas de uma estética relacional e globalizante.
Este debate, que alguns reclamam, não é uma réplica das querelas antigos-modernos, porque não supõe um bloco ou uma estratégia de combate entre terrenos opostos, nem tão-pouco promove a defesa dos Antigos para que sejam citados na pintura actual ou para que se vista com a roupagem da actualidade uma peça de Sófocles. O debate visa compreender se é possível outra abordagem à arte que distinga o contemporâneo como categoria totalitária e açambarcadora, do contemporâneo como identificador de uma pertença (é-se contemporâneo de alguma coisa ou de alguém) e ainda da contemporaneidade como um conceito de vida sensitiva e intemporal. Para tanto é necessário começar por admitir que o salto dado da modernidade para a arte contemporânea não tem de ser pensado como um traçado em linha recta e, mais ainda, que a modernidade europeia é tão-só uma das modernidades que existiram a par de outras: asiáticas, indianas, americanas, africanas, cujo conhecimento começamos a ter. E, a admitirmos isto, aceitamos essa abordagem tão convincente quanto poética de Giorgio Agamben — como já antes Pasolini falara dos pirilampos — ao afirmar que a contemporaneidade não é uma evidência, nem algo que se torna visível na actualidade.
“Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”, escreve o filósofo em “O que é ser contemporâneo” (2005)
No entanto, esta mesma capacidade, não só de entender a contemporaneidade, mas de a viver, é possível apenas quando recusamos a modernidade como uma exclusividade europeia, com a sua epistemologia que nega outros saberes, os ditos “não-saberes”, designação que abrange as formas e transmissão de conhecimento de tradições não europeias ou europeias sem narrativas lineares da história de arte. Neste sentido, assim como diz Eduardo Viveiros de Castro, as emoções podem surgir do confronto com imagens do início da produção cultural dos homens, como as das grutas de Lascaux ou do poema de Safo “... abrasas-me …” que podem ser arrebatadoras na sua contemporaneidade.
Se há, pois, um sistema da arte contemporânea autofágica, haverá ainda a possibilidade de uma contemporaneidade tão pragmática quanto vivencial?


António Pinto Ribeiro,  in O Público, 19.10.2016

5.12.16

Castelos do ar


Mudança de Idade

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.


Mia Couto in Tradutor de Chuvas, 2011

2.12.16

Os Poderosos


Somos poderosos, porque de súbito invadimos o espaço público da opinião, da informação, da discussão, através da Internet, das redes sociais, dos computadores, dos portáteis, dos tabletes e dos telefones inteligentes.
É nosso esse espaço, pertence-nos, nele somos todos iguais, ou seremos, quando o número de seguidores que temos – que tenho – igualar o de, sei lá, um Cristiano Ronaldo, ou de um Justin Bieber, ou de qualquer outro ser humano a quem chamamos “famoso”. Por enquanto contentamo-nos com mil amigos (ou 654 ou 300 ou qualquer coisa assim), mas sabemos que neste maravilhoso mundo novo podemos vir a ter dezenas, que digo, centenas de milhares. Milhões de amigos?
Somos poderosos, porque a nossa página no Facebook é só nossa e dos nossos amigos – os 654 ou 300 ou assim –, que estão sempre de acordo connosco, nos dão força sem que sequer interesse o que escrevemos, interessa é que ninguém nos contraria, e ninguém nos contraria porque somos poderosos. Aliás, quem se atreva a contrariar-nos, a contrariar-me, já sabe, será “desamigado”, porque no meu espaço mando eu, e o meu espaço é meu, é privado, ninguém tem nada a ver com ele, e com as coisas (quiçá) boçais que por lá escreva, que lá escrevamos, só a mim dizem respeito, a mim e aos meus amigos, aqueles que eu não “desamiguei”, nem “desamigarei”.
O mundo mudou. Ninguém hoje ignora a força da nossa opinião e os políticos sabem que agora quem manda somos nós, sou eu, e a minha vontade anda por aí à solta, expressa-se em petições on-line sobre todos os assuntos a propósito dos quais tenho opinião própria; e eu tenho opinião própria sobre quase tudo. Publico-a em blogs patrocinados, coloco posts no meu perfil, assino comentários verrinosos, por vezes com um nome diferente, um alias qualquer, para que não me reconheçam; mas a opinião que emito fica registada e nunca mais desaparecerá.
Somos poderosos porque, como disse há dias em Portugal António Damásio, recusamos qualquer intermediação, temos acesso a toda a informação necessária e não precisamos de ninguém para isso, recusamos os peritos e os “expertos”, rejeitamos o saber dos doutores que sabem menos do que nós porque nós sabemos tudo, está tudo na net, na wikipédia. Somos poderosos “empoderados” da informação, que é poder, e temos o poder de dizer o que quisermos e todos terão de nos ouvir, porque nós, eu, somos, sou, a voz do homem comum, a voz da mulher comum e comigo falam todos os antigamente desapossados (da informação) do mundo.
Esta não é já a era do aquário, esta é a era em que as elites descem do seu pedestal e se misturam connosco, elas andam no meio de nós, já não são altivas, já não valem nada, só têm o nome, a posição, o dinheiro, a patine, a gravitas, e contudo são menos do que nós, os comuns, elas andam no meio de nós de cerviz curvada, envergonhada, e já não mandam nada.
Somos poderosos e temos poder, um pequeno vídeo viral e o governo cai, e os banqueiros vacilam, e os diplomatas somem-se, e os empresários vão presos, um soundbite bem esgalhado e os políticos assustam-se (e convocam uma comissão de inquérito), um funcionário é demitido, um agiota constituído arguido e uma reputação espoja-se na lama do diz que disse. Sabem como é fácil pôr a circular um boato? Façam as contas a mil amigos vezes 10 (partilhas) vezes 20, vezes 30 e ao quarto nível de partilha já mais de 6 milhões repetem a história.
Quem resiste ao nosso poder? Um senhor respeitável, das elites, publica um texto respeitável, e nós destruímo-lo nas caixas de comentários, fazemos chiste com ele em posts no Face ou rápidas alfinetadas no twitter, que dão a volta ao mundo e regressam com o senhor respeitável devidamente desrespeitado – fazemo-lo só porque podemos e ele pertence à classe dos que lêem e investigam e pensam e opinam.
Somos tão poderosos que nos damos ao luxo de escrever ou falar com erros, quem quer saber da correcção gramatical ou da harmonia sintática, vícios dos cultos e letrados a erradicar a todo o custo? No meu mundo, que é todo o mundo, eu estou de mau humor sempre que quiser, não sei onde vive essa gente armada em fina (e esperta) que despreza o espaço público em que nós vivemos, nós os poderosos de agora, que mais depressa os enterramos do que as luzes enterraram o antigo regime; no meu mundo, estou sempre de mal humor para com os velhos decadentes digital-analfabetos.
Ninguém nos faz frente, porque nós temos a força do número, viajamos à velocidade da luz e pensamos com a simplicidade da vida. Ninguém nos confronta porque é perigoso fazer-nos frente: somos o futuro, eles são o passado; somos muitos, não precisamos deles, e eles precisam de nós; somos imunes à crítica, porque (no fundo) não a percebemos, mas eles percebem muito bem o risco que correm, e o mal que a nossa crítica mal escrita – e pejada de insultos, mais ou menos escatológicos – lhes pode fazer. E por isso, eles, os pensadores, os escritores, os cultos, os plumitivos, os publicistas, os competentes, os consultores, eles, os antigos donos do mundo, vivem com medo do que possam ler nas redes, do que possa viajar à velocidade da luz até aos antípodas e volta.
Eles sabem que neste maravilhoso mundo novo que é o nosso, nada se perde, tudo se recorda. Os mais ínfimos dos seus pecadilhos transformam-se aqui em gelatina gordurosa que se pega para sempre aos seus cvs, que emporcalha em definitivo os seus perfis. Têm medo. E fazem-se politicamente correctos, seja para dar razão à maior bacorada que nós digamos, que eu escreva, que alguém poste como comentário no seu face ou no seu twitter, seja para se auto-denunciar, denegrindo-se, na esperança quase vã de conquistar mais um instante de sossego. Não que lhes sirva de muito, a sua espécie está moribunda.
Sou poderoso. Rejeito a cultura e o saber dos outros, porque tenho na ponta dos dedos a chave de todo o conhecimento do mundo. Sou o bite, o megabite, o gigabite que domina a civilização terrena no século XXI.
Mas não sou o mais poderoso; esse é o que me controla, à distância e em silêncio.


PS. Está a acontecer. E a ordem antiga, feita de eleições, encontros físicos, amizades reais e calor humano, cede perante a onda avassaladora, tsunâmica, solitária, do maravilhoso mundo virtual. Em breve seremos todos avatares uns dos outros.
, in Observador

1.12.16

Até as ruínas podemos amar neste lugar

Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.
Matilde Campilho in Jóquei, 2014

Luz e sombra


Zilinskas Art Gallery in Kaunas City, Lithuania

Vulok Vulovak, Unedited photograph

24.11.16

Árvore



“Sê atrevido – e levanta, nem que seja só em imaginação, a tua própria árvore, nos sítios mais inesperados.

E principalmente que ela atravanque tudo, suspenda a lufa-lufa dos negócios, se oponha, escandalosa, aos frenéticos automobilistas e os obrigue a fazer grandes desvios, para não baterem nela e nela acabarem por apodrecer encaixotados, como pobres mortais que são.”

(1974, Dia Mundial da Árvore)

Alexandre O´Neill (1924 – 1986)

20.11.16

Um artigo para pensar: "LIÇÕES DA AMERICA" no DN

Há uma espécie de concurso entre as elites europeias e americanas de esquerda: quem insulta mais Donald Trump? Quem consegue escolher os epítetos mais violentos? Racista, boçal, cretino, sexista, corrupto, inculto e xenófobo estão entre os mais utilizados. Isto para além das classificações brandas de fascista e populista.
No entanto, o problema não é o de qualificar Trump nem de sublinhar a sua incultura e a sua falta de sofisticação. O problema consiste em saber por que razão foi eleito. Contra a opinião sondada e publicada, este senhor foi escolhido por 60 milhões de americanos que, creio, não são todos racistas, machistas, bandidos, milionários, fascistas e corruptos. E, se fossem, a questão era ainda mais difícil: como é possível que houvesse tantos assim?
O problema não é o de classificar os defeitos de Trump e seus apoiantes nem de mostrar como são violentos, intolerantes, xenófobos e déspotas. O problema é o de saber por que razões perderam os virtuosos, os democratas, os liberais, os intelectuais, os jornalistas e os artistas. O problema é o de saber por que razão os pobres, os desempregados e os marginalizados não votaram em quem deveriam votar, isto é, em quem pensa que a solidariedade, a segurança social, o emprego e a igualdade são exclusivos dos democratas e das esquerdas.
As esquerdas em geral, incluindo artistas, intelectuais, jornalistas, liberais americanos e progressistas europeus, não suportam não ter percebido nem ter previsto o que aconteceu. Como não admitem que são, tantas vezes, responsáveis pelas derivas políticas dos seus países.
Já correm pelo mundo explicações fabulosas sobre estas eleições. As mais hilariantes são duas. Uma diz que, além dos machistas e dos racistas, votaram em Trump os analfabetos, os desesperados, os marginalizados pelo progresso, os desempregados e os supersticiosos. A outra diz que o fiasco das sondagens, dos estudos de opinião e dos jornalistas se deve ao facto de os reaccionários terem vergonha de dizer em quem votariam! Por outras palavras: quem não presta votou em Trump; e quem votou em Trump enganou-nos!
Tal como os democratas em geral, as esquerdas atribuem sempre as culpas das suas derrotas aos defeitos dos outros, da extrema-direita, dos ricos, dos padres, dos fascistas, dos proprietários, dos patrões, dos corruptos e agora dos populistas. Não pensam que os culpados são ou também são eles, os democratas, ou elas próprias, as esquerdas. Raramente se dão conta de uma verdade velha, com dezenas de anos, mas sempre esquecida: as democracias não caem por serem atacadas, não são derrubadas pelos seus inimigos, caem por sua própria responsabilidade, porque enfraquecem, porque se dividem, porque perdem tempo e energias com quezílias idiotas e porque deixam que o sistema político perca de vista as populações. Também, finalmente, porque acreditam nas suas virtudes, porque confiam na sua racionalidade e porque consideram que têm o exclusivo da bondade e da compaixão.
As esquerdas (nas suas versões americana e europeia) apresentam-se cada vez mais como uma soma de sindicatos e de clientelas: mulheres, negros, operários da indústria, desempregados, pensionistas, homossexuais, artistas, intelectuais, imigrantes, latinos ou muçulmanos. Todas as minorias imagináveis, incluindo as mulheres que o não são. Às vezes, resulta. Mas acaba sempre por não resultar. As esquerdas abandonaram as ideias e os direitos universais dos cidadãos e valorizam as suas circunstâncias étnicas, sociais ou sexuais. Como também abandonaram a capacidade de pensar a identidade nacional, entidade ainda hoje vigorosa e reduto de referências pessoais e culturais.
Acima de tudo, a arrogância e a superioridade moral, cultural e política das esquerdas têm destes resultados: afastam-nas do povo e favorecem os inimigos da democracia.

António Barreto 13-11-2016 no Diário de Notícias