25.11.14

A Obrigação da Verdade

Quando olhamos um espelho, pensamos que a imagem à nossa frente é exacta. Mas basta movermo-nos um milímetro para a imagem se alterar. Aquilo que estamos realmente a ver é uma gama infindável de reflexos. Mas às vezes o escritor tem de quebrar o espelho — porque é do outro lado do espelho que a verdade nos encara. 
Estou convencido de que, apesar dos enormes obstáculos existentes, há uma obrigação crucial que recai sobre todos nós enquanto cidadãos: de com uma determinação intelectual inflexível, inabalável e feroz definir a verdade autêntica das nossas vidas e das nossas sociedades. É de facto uma obrigação imperativa. 
Se essa determinação não se incorporar na nossa visão política, não tenhamos esperança de restaurar aquilo que já quase se perdeu para nós — a dignidade do homem. 

Harold Pinter, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

23.11.14

Sagres, foi aqui que tudo isto começou

Precisamos de Claridade e Silêncio.
Voltar ao círculo do Sol na Terra.



Photo: Jo Tyrrell

22.11.14

Já?


já tentaste praticar o bem 
fazendo mal? 
já tentaste praticar o mal 
fazendo bem? 
já tentaste praticar o bem 
fazendo bem? 
já tentaste praticar o mal 
fazendo mal? 
já tentaste praticar o bem 
não fazendo nada? 
já tentaste praticar o mal 
fazendo tudo? 
já tentaste praticar tudo 
não fazendo nada? 
e o contrário, já tentaste? 
já? 
seja qual for a tua resposta, 
não sei que te diga. 

Alberto Pimenta, in 'Prodigioso Acanto'

19.11.14

VISTA




 fotografia chinesa contemporânea

4.11.14

Milagres


Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial? 
Por mim, de nada sei que não sejam milagres: 
ou ande eu pelas ruas de Manhattan, 
ou erga a vista sobre os telhados 
na direcção do céu, 
ou pise com os pés descalços 
bem na franja das águas pela praia, 
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo, 
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem amo, 
ou à mesa tome assento para jantar com os outros, 
ou olhe os desconhecidos na carruagem 
de frente para mim, 
ou siga as abelhas atarefadas 
junto à colmeia antes do meio-dia de verão 
ou animais pastando na campina 
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar, 
ou a maravilha de um pôr-de-sol 
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes, 
ou o estranho contorno delicado e leve 
da lua nova na primavera, 
essas e outras coisas, uma e todas 
— para mim são milagres, 
umas ligadas às outras 
ainda que cada uma bem distinta 
e no seu próprio lugar. 

Cada momento de luz ou de treva 
é para mim um milagre, 
milagre cada polegada cúbica de espaço, 
cada metro quadrado da superfície da terra 
por milagre se estende, cada pé 
do interior está apinhado de milagres. 

O mar é para mim um milagre sem fim: 
os peixes nadando, as pedras, 
o movimento das ondas, 
os navios que vão com homens dentro 
— existirão milagres mais estranhos? 


Walt Whitman in "Leaves of Grass"

2.11.14

waterfalls

by Hiroshi Senju

30.10.14

Bilhete de Identidade

Escreve
sou árabe
o  número do meu bilhete de identidade é o
                  cinquenta mil
tenho oito filhos
e o nono chegará… depois do Verão
Ficarás irritado?

Escreve
sou árabe
trabalho com os meus companheiros de infortúnio
numa pedreira
tenho oito filhos
para eles extraio da rocha
a carcaça do pão
a roupa e os cadernos
E não venho mendigar à tua porta
não me curvo
no átrio da tua casa
Ficarás irritado?

Escreve
sou árabe
Tenho um nome vulgar
sofro num país
que ferve de raiva
As minhas raízes…
fixadas antes do nascimento do tempo
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e das oliveiras
antes da erva
O meu pai…
da família do arado
e não dos senhores de Nujub
O meu avô, um camponês
sem árvore genealógica
Ensinou-me os movimentos do sol
antes da leitura
A minha casa
uma cabana de guarda
feita de canos e ramos
Estás contente com a minha condição?
tenho um nome vulgar

Escreve
sou árabe
cabelos… pretos
olhos… castanhos
sinais particulares
na cabeça um ‘keffyah’ seguro por um cordel
A palma da minha mão, rugosa como a rocha
arranha a mão que aperta
o meu endereço: sou duma aldeia perdida, sem defesa
e todos os seus homens estão no campo e na
                              pedreira…
Ficarás irritado?

Então
escreve
ao alto da primeira página
Eu não odeio os meus semelhantes
e não ataco ninguém
Mas… se um dia me obrigarem a passar fome
comerei a carne do meu espoliador
Fica atento… fica atento
à minha fome
e à minha cólera


 Mahmoud Darwish (1941 – 2008) 

29.10.14

há saudade no vento


Symi (Thrown Drapery), 1979 | David Ligare

28.10.14

A vida verdadeira é como a água

A vida verdadeira é como a água:
Em silêncio se adapta ao nível inferior
Que os homens desprezam.
Não se opõe a nada,
Serve a tudo.
Não exige nada,
Porque sua origem é da fonte imortal.
O homem realizado não tem desejos de dentro,
Nem tem exigências de fora.
Ele é prestativo em se dar
E sincero em falar,
Suave no conduzir,
Poderoso no agir.
Age com serenidade.
Por isto é incontaminável.


Lao - Tsé

27.10.14

The Souls of Millions of Light Years Away

         Yayoi Kusama "Infinity Mirrored Room - The Souls of Millions of Light Years Away" 2013. Photo: Maris Hutchinson

Se perguntarem: das artes do mundo?


Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder

17.10.14

A Invisibilidade de Deus


dizem que em sua boca se realiza a flor 
outros afirmam: 
                   a sua invisibilidade é aparente 
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe 
onde podemos compreender todos os oceanos 
nunca tive a visão de sua bondosa mão 

o certo 
é que por vezes morremos magros até ao osso 
sem amparo e sem deus 
apenas um rosto muito belo surge etéreo 
na vasta insónia que nos isolou do mundo 
e sorri 
dizendo que nos amou algumas vezes 
mas não é o rosto de deus 
nem o teu nem aquele outro 
que durante anos permaneceu ausente 
e o tempo revelou não ser o meu 

Al Berto, in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro'

15.10.14

Alexander Gutsche, Monarchie und Alltag (Monarchy and Everyday Life), 2012

O Poder

O único factor material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Estes só retêm poder quando vivem tão próximos uns dos outros que as potencialidades da acção estão sempre presentes; e, portanto, a fundação de cidades que, como as cidades-estado, se converteram em paradigmas para toda a organização política ocidental, foi na verdade a condição prévia material mais importante do poder. 

O que mantém unidas as pessoas depois de ter passado o momento fugaz da acção (aquilo que hoje chamamos «organização») e o que elas, por sua vez, mantêm vivo ao permanecerem unidas é o poder. Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência renuncia ao poder e torna-se impotente, por maior que seja a sua força e por mais válidas que sejam as suas razões. 

Hannah Arendt in A Condição Humana

12.10.14

A Loucura é uma Destilação Decisiva

Nestes séculos, o escritor tem mantido uma conversa com a loucura. Podemos quase dizer que o escritor do século vinte aspira à loucura. Alguns conseguiram-no, evidentemente, e ocupam lugares especiais na nossa consideração. Para um escritor, a loucura é uma destilação decisiva do eu, uma edição decisiva. É o submergir das vozes enganadoras. 

Don DeLillo in Os Nomes

La butaca

 ANTONI TÀPIES. La butaca, 1987

Ah! Desgraçados!


Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: "a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando".
Mas que cidade?
Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguem se levante.
Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça.


Bertolt Brecht (1898–1956)

4.10.14

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho... ) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, 
Pondo grelado nas paredes... 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa, 
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ... 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... 

Pára, meu coração! 
Não penses! Deixa o pensar na cabeça! 
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! 
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

3.10.14

La Grande Bellezza

Rosa do Mundo

Rosa. Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.

Primeiro orvalho sobre o rosto.
que foi pétala
a pétala lenço de soluços.

Obscena rosa. Repartida
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.

Quase nada.


Eugénio de Andrade

20.9.14

NÃO QUEREMOS SER INIMIGOS


O site de notícias “Ynet” deu conta, no início deste mês, da mensagem simples que centenas de israelitas  e palestinianos usaram para protestar contra o conflito israelo-palestiniano. O slogan utilizado está já a tornar-se num ícone: “Judeus e Árabes recusam-se a ser inimigos”. 


Este slogan tem vindo a ser aproveitado como mote para uma campanha de mobilização global contra a morte de civis no conflito que opõe Israel à Palestina. 


Pessoas por todo o mundo estão a partilhar fotos delas próprias com mensagens escritas a favor do fim da violência e pelo apoio a toda a população civil que sofre com estes ataques. 


Usam o hashtag #JewsAndArabsRefuseToBeEnemies no Twitter, ou a página de facebook Jews and Arabs Refuse To Be Friends. Esta página de facebook foi fundada por um israelita, Abraham Gutman e uma síria, Dania Darwish. 


Numa entrevista ao The Huffington Post, Gutman afirmou: “No último mês foi difícil abrir estas contas nas redes sociais, porque os nossos posts estavam cheios de comentários de ódio. Queríamos criar uma comunidade de pessoas que se opõe a este tipo de discurso. Afinal de contas, somos todos apenas pessoas.” 



na CHIADO MAGAZINE

4.9.14

CLARIDADE

pintura de W. Turner


"Quem acende uma luz é o primeiro a beneficiar-se da claridade."


 Gilbert  Chesterton 

3.9.14

A Rye Field


A Rye Field, pintura de Ivan Shishkin 

Vida


"A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida."

Fernando Pessoa

29.8.14

Os dias bons

William Faulkner

Dias de Verão

Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

Como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo


Sophia de Mello Breyner

21.8.14

Vida


Todos nós passamos a vida ao lado da pessoa que poderíamos ter sido 

Quanto ódio

quanto ódio 
                   diz 
quanto ódio 
                   não sabes 
                            tens 
                            dentro de ti 

o deferente tapete da palavra 
a rede bélica 
os rasgos secundários 

                            TUDO 

engendra 
                        articula 
                                        atavia 
             a sala da tua fala 

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

14.8.14

Juventude

Sim, eu conheço, eu amo ainda 
esse rumor abrindo, luz molhada, 
rosa branca. Não, não é solidão, 
nem frio, nem boca aprisionada. 
Não é pedra nem espessura. 
É juventude. Juventude ou claridade. 
É um azul puríssimo, propagado, 
isento de peso e crueldade. 

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

3.8.14

following angles

                              fotografia de Simon Proctor

28.7.14

FUGUE DE MORT

Lait noir du petit jour nous le buvons le soir
nous le buvons midi et matin nous le buvons la nuit
nous buvons et buvons
nous creusons une tombe dans les airs on y couche à son aise
Un homme habite la maison qui joue avec les serpents qui écrit
qui écrit quand il fait sombre sur l’Allemagne tes cheveux d’or Margarete
il écrit cela et va à sa porte et les étoiles fulminent il siffle pour appeler ses chiens
il siffle pour rappeler ses Juifs et fait creuser une tombe dans la terre
il nous ordonne jouez maintenant qu’on y danse
Lait noir du petit jour nous te buvons la nuit
nous te buvons midi et matin nous te buvons le soir
nous buvons et buvons
Un homme habite la maison qui joue avec les serpents qui écrit
qui écrit quand il fait sombre sur l’Allemagne tes cheveux d’or Margarete
Tes cheveux de cendre Sulamith nous creusons une tombe dans les airs on y couche à son aise
Il crie creusez plus profond la terre vous les uns et les autres chantez et jouez
il saisit le fer à sa ceinture il le brandit ses yeux sont bleus
creusez plus profond les bêches vous les uns et les autres jouez encore qu’on y danse
Lait noir du petit jour nous te buvons la nuit
nous te buvons midi et matin nous te buvons le soir
nous buvons et buvons
un homme habite la maison tes cheveux d’or Margarete
tes cheveux de cendre Sulamith il joue avec les serpents
Il crie jouez la mort plus doucement la mort est un maître d’Allemagne
il crie plus sombre les accents des violons et vous montez comme fumée dans les airs
et vous avez une tombe dans les nuages on y couche à son aise
Lait noir du petit jour nous te buvons la nuit
nous te buvons midi la mort est un maître d’Allemagne
nous te buvons soir et matin nous buvons et buvons
la mort est un maître d’Allemagne ses yeux sont bleus
il te touche avec une balle de plomb il te touche avec précision
un homme habite la maison tes cheveux d’or Margarete
il lâche ses chiens sur nous et nous offre une tombe dans les airs
il joue avec les serpents il rêve la mort est un maître d’Allemagne
tes cheveux d’or Margarete
tes cheveux de cendre Sulamith
Bucarest, 1945.