9.2.16

todos os tempos




Todos os tempos dentro deste tempo

e as pessoas serão sempre um pormenor florido
a desordem de um eco, uma arma a passar




Maria José Botelho

o retirar da máscara

Eyes Wide Shut,1999

7.2.16

uma reflexão para os que escrevem ...


"O que é, aliás, um poema, senão aquela operação linguística que consiste em tornar a língua inoperativa, em desativar as suas funções comunicativas e informativas, para abrir a um novo possível uso? Ou seja, a poesia é, nos termos de Espinosa, uma contemplação da língua que traz de volta para o seu poder de dizer. Assim, a poesia de Mandelstam é uma contemplação da língua russa, os Cantos de Leopardi são uma contemplação da língua italiana, as Iluminações de Rimbaud, uma contemplação da língua francesa, os hinos de Hölderlin, e os poemas de Ingeborg Bachmann, uma contemplação da língua alemã, etc. Mas em todo caso trata-se de uma operação que ocorre na língua, que atua sobre o poder de dizer. E o sujeito poético não é o indivíduo que escreveu os poemas, mas o sujeito que se produz na altura em que a língua foi tornada inoperativa, e passou a ser, nele e para ele, puramente dizível."

Giorgio Agamben, 2007

30.1.16

PERPLEXIDADE

A criança estava perplexa. Tinha os olhos maiores e mais brilhantes do que nos outros dias, e um risquinho novo, vertical, entre as sobrancelhas breves. «Não percebo», disse.
Em frente da televisão, os pais. Olhar para o pequeno écran era a maneira de olharem um para o outro. Mas nessa noite, nem isso. Ela fazia tricô, ele tinha o jornal aberto. Mas tricô e jornal eram alibis. Nessa noite recusavam mesmo o écran onde os seus olhares se confundiam. A menina, porém, ainda não tinha idade para fingimentos tão adultos e subtis, e, sentada no chão, olhava de frente, com toda a sua alma. E então o olhar grande a rugazinha e aquilo de não perceber. «Não percebo», repetiu.
«O que é que não percebes?» disse a mãe por dizer, no fim da carreira, aproveitando a deixa para rasgar o silêncio ruidoso em que alguém espancava alguém com requintes de malvadez.
«Isto, por exemplo.»
«Isto o quê»
«Sei lá. A vida», disse a criança com seriedade.
O pai dobrou o jornal, quis saber qual era o problema que preocupava tanto a filha de oito anos, tão subitamente.
Como de costume preparava-se para lhe explicar todos os problemas, os de aritmética e os outros.
«Tudo o que nos dizem para não fazermos é mentira.»
«Não percebo.»
«Ora, tanta coisa. Tudo. Tenho pensado muito e...Dizem-nos para não matar, para não bater. Até não beber álcool, porque faz mal. E depois a televisão...Nos filmes, nos anúncios...Como é a vida, afinal?»
A mão largou o tricô e engoliu em seco. O pai respirou fundo como quem se prepara para uma corrida difícil.
«Ora vejamos,» disse ele olhando para o tecto em busca de inspiração. «A vida...»
Mas não era tão fácil como isso falar do desrespeito, do desamor, do absurdo que ele aceitara como normal e que a filha, aos oito anos, recusava.
«A vida...», repetiu.
As agulhas do tricô tinham recomeçado a esvoaçar como pássaros de asas cortadas.
Maria Judite de Carvalho in «O Jornal», 2-10-81

27.1.16

Auschwitz - Then and Now

FCC From Kaiser to Fuhrer: Auschwitz - Then and Now: BBC News article about the publication of a book by the Auschwitz-Birkenau State Museum in Poland. The book shows photographs taken in ...

25.1.16

O Homem dos Sonhos

Que nome dar ao poeta
esse ser dos espantos medonhos?
um só encontro próprio e justo:
o de José o homem dos sonhos

Eu canto os pássaros e as árvores
Mas uns e outros nos versos ponho-os
Quem é que canta sem condição?
É José o homem dos sonhos

Deus põe  e o homem dispõe
E aquele que ao longo da vereda vem
homem sem pai e sem mãe
homem a quem a própria dor não dói
bíblico no nome e a comer medronhos
só pode ser José o homem dos sonhos

Ruy Belo

23.1.16

Il Sogno di una Testa -- Testimonianze per Alberto Giacometti (1901-1966...

Arte e Sensibilidade

1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade. 

2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível. 
3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros. 
4) Este trabalho intelectual tem dois tempos: a) a intelectualização directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmissível (é isto que vulgarmente se chama "inspiração", quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensação à frase intelectual (prim. versão: tirem da sensação o que não pode ser sensível aos outros e ao mesmo tempo, para compensar, reforçam o que lhes pode ser sensível); b) a reflexão crítica sobre essa intelectualização, que sujeita o produto artístico elaborado pela "inspiração" a um processo inteiramente objectivo — construção, ou ordem lógica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente. 
5) Não há arte intelectual, a não ser, é claro, a arte de raciocinar. Simplesmente, do trabalho de intelectualização, em cuja operação consiste a obra de arte como coisa, não só pensada, mas feita, resultam dois tipos de artista: a) o inspirado ou espontâneo, em quem o reflexo crítico é fraco ou nulo, o que não quer dizer nada quanto ao valor da obra; b) o reflexivo e crítico, que elabora, por necessidade orgânica, o já elaborado. 
Dir-lhe-ei, e estou certo que concordará comigo, que nada há mais raro neste mundo que um artista espontâneo — isto é, um homem que intelectualiza a sua sensibilidade só o bastante para ela ser aceitável pela sensibilidade alheia; que não critica o que faz, que não submete o que faz a um conceito exterior de escola ou de moda, ou de "maneira", não de ser, mas de "dever ser". 

Fernando Pessoa, in 'Carta a Miguel Torga, 1930' 
in Citador

19.1.16

Young Syrians dream of home

 A drawing of home by Hale Selim, 13, a Syrian  drawing of home by Hale Selim, 13, a Syrian refugee girl who lives in Yayladagi refugee camp in Hatay province near the Turkish-Syrian border, Turkey, January 12, 2016. Syria's conflict has left hundreds of thousands dead, pushed millions more into exile, and had a profound effect on children who lost their homes or got caught up in the bloodletting. The drawings of young refugees living in Turkey show their memories of home and hopes for its future. The pictures also point to the mental scars borne by 2.3 million Syrian refugees living in Turkey, more than half of them children. REUTERS/Umit Bektas

https://pictures.reuters.com/

17.1.16

À espera dos Bárbaros


Porque esperamos, reunidos na praça?
Hoje devem chegar os bárbaros.


Porque reina a indolência no Senado?
Que fazem os senadores, sentados sem legislar?


É porque hoje vão chegar os bárbaros.
Que hão-de fazer os senadores?
Quando chegarem, os bárbaros farão as leis.


Porque se levantou o Imperador tão de madrugada
e que faz sentado à porta da cidade,
no seu trono, solene, levando a coroa?


É porque hoje vão chegar os bárbaros.
E o imperador prepara-se para receber o chefe.
Preparou até um pergaminho para lhe oferecer, onde pôs
muitos títulos e nomes honoríficos.


Porque é que os nossos cônsules, e também os pretores,
hoje saem com togas vermelhas bordadas?
Porquê essas pulseiras com tantos ametistas
e esses anéis com esmeraldas resplandecentes?
Porque empunham hoje bastões tão preciosos
tão trabalhados a prata e ouro?


Hoje vão chegar os bárbaros,
e estas coisas deslumbram os bárbaros.


Porque não vêm, como sempre, os ilustres oradores
a fazer-nos seus discursos, dizendo o que têm para nos dizer?


Hoje vão chegar os bárbaros;
e, a eles, aborrece-os os discursos e a retórica.


E que vem a ser esta repentina inquietação, esta desordem?
(Que caras tão sérias tem hoje o povo.)
Porque é que as ruas e as praças vão ficando vazias
e regressam todos, tão pensativos, a suas casas?


É porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
E da fronteira chegou gente
dizendo que os bárbaros já não vêm.


E agora que será de nós sem bárbaros?
De certo modo, essa gente era uma solução.



Konstandinos Kavafis ( Alexandria 1863 - 1933)

11.1.16

Com David Bowie


Com David Bowie morre um tempo particular, 
um tempo em que a juventude não morria.

Há uma geração de luto, vamos ficando cada vez mais sós, 
mais sós nas coisas que nos lembramos

David Bowie - Space Oddity




Ground Control to Major Tom


Ground Control to Major Tom

Take your protein pills and put your helmet on

Ground Control to Major Tom (Ten, Nine, Eight, Seven, Six)

Commencing countdown, engines on (Five, Four, Three)

Check ignition and may God's love be with you (Two, One,
Liftoff)



This is Ground Control to Major Tom

You've really made the grade

And the papers want to know whose shirts you wear

Now it's time to leave the capsule if you dare

"This is Major Tom to Ground Control

I'm stepping through the door

And I'm floating in the most peculiar way

And the stars look very different today

For here am I sitting in my tin can

Far above the world

Planet Earth is blue

And there's nothing I can do



Though I'm past one hundred thousand miles

I'm feeling very still

And I think my spaceship knows which way to go

Tell my wife I love her very much, she knows

Ground Control to Major Tom

Your circuit's dead, there's something wrong

Can you hear me, Major Tom?

Can you hear me, Major Tom?

Can you hear me, Major Tom?

Can you hear And I'm floating around my tin can

Far above the Moon

Planet Earth is blue

And there's nothing I can do."

10.1.16

o pintor Júlio Pomar faz hoje 90 anos


Um artista com mais de 80 anos tem sempre uma presença, uma densidade muito especial, são rochedos, magnetizam tudo à sua volta.

7.1.16

por um triz é o futuro

Nunca a vida foi tão actual como hoje: por um triz é o futuro. Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua polpa. O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a idéia de imobilidade eterna. Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje. O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia. 

Clarice Lispector in 'Um Sopro de Vida' 

Citador

2.1.16

Bełżec


Há uma história da pureza e do horror
Perseguia-se um mal como quem persegue um bem

Sei de lugares que mesmo ao raiar do sol
permanecem obscuros, nem os pássaros por ali voam
e as árvores crescem a medo por dentro da densidade
do erro irreparável

Trazem-se flores, grupos de crianças
músicos para dedilharem suas arpas, violoncelos
crê-se que se pode lentamente desfazer a espessura da dor 



Maria José Botelho


Luka Sulic - Rachmaninov Vocalise

30.12.15

Tratado geral das grandezas do ínfimo


A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros (1916 - 2014)  

16.12.15

Ouvia-se milhões de pessoas a criar o futuro

Sei que tudo está ligado
a uma gravidade, a um eco
que se propaga para fora do tempo
Tudo está ligado às coisas incompreensíveis
à matéria negra, ao que está lá e não tem nome
nem presença, apenas pressentimento

As imagens vêm de dentro das pessoas
e outras são produzidas
durante dia e noite
O mundo dos homens fabrica-as aos milhões
segundo a segundo
para que tudo permaneça e nada morra
mas tudo desaparece e nada fica

Ela pensava que se amasse muito o mundo
ele devolvia-lhe a sua verdade
Ela dizia que pensar no futuro era criar o futuro
e pensava na harmonia da vida das pessoas
com a das árvores e a de todos os elementos

Segundo a segundo
milhões de pessoas criavam o futuro
ouvia-se um eco do futuro a ser criado
que se propagava pelo espaço

Também se ouvia música e o som do mar
Ela acreditava que todas as pessoas podiam
criar um futuro modelo
e viverem a realidade numa ilusão construída



Maria José Botelho

15.12.15

CORVO, Açores


"É NA TERRA NÃO É NA LUA" - documentário de Gonçalo Tocha

  para relembrar um documentário maravilhoso

Nós os humanos


Abram os olhos. Somos umas bestas. No mau sentido. Somos primitivos. Somos primários. Por nossa causa corre um oceano de sangue todos os dias. Não é auscultando todos os nossos instintos ou encorajando a nossa natureza biológica a manifestar-se que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condição. É lendo Platão. E construindo pontes suspensas. É tendo insónias. É desenvolvendo paranóias, conceitos filosóficos, poemas, desequilíbrios neuro químicos insanáveis, frisos de portas, birras de amor, grafismos, sistemas políticos, receitas de bacalhau, pormenores. 

É engraçado como cada época se foi considerando «de charneira» ao longo da história. A pretensão de se ser definitivo, a arrogância de ser «o último», a vaidade de se ser futuro é, há milénios, a mesmíssima cantiga. 
Temos de ser mais humanos. Reconhecer que somos as bestas que somos e arrependermo-nos disso. Temos de nos reduzir à nossa miserável insensibilidade, à pobreza dos nossos meios de entendimento e explicação, à brutalidade imperdoável dos nossos actos. O nosso pé foge-nos para o chinelo porque ainda não se acostumou a prender-se aos troncos das árvores, quanto mais habituar-se a usar sapato. 

A única atitude verdadeiramente civilizada é a fraqueza, a curiosidade, o desespero, a experiência, o amor desinteressado, a ansiedade artística, a sensação de vazio, a fé em Deus, o sentimento de impotência, o sentirmo-nos pequeninos, a confissão da ignorância, o susto da solidão, a esperança nos outros, o respeito pelo tempo e a bênção que é uma pessoa sentir-se perdida e poder andar às aranhas, à procura daquela ideia, daquela casa, daquela pessoa que já sabe de antemão que nunca há-de encontrar. 
O progresso é uma parvoíce. Pelo menos enquanto continuarmos a ser os animais que somos. 


Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português' 

13.12.15

Infinito


Ryoji-Ikeda.

11.12.15

Há em toda a beleza uma amargura


Há em toda a beleza uma amargura 
secreta e confundida que é latente 
ambígua indecifrável duplamente 
oculta a si e a quem a olhar obscura 

Não fica igual aos vivos no que dura 
e a não pode entender qualquer vivente 
qual no cabelo orvalho ou brisa rente 
quanto mais perto mais se desfigura 

Ficando como Helena à luz do ocaso 
a língua dos dois reinos não lhe é azo 
senão de apartar tranças ofuscante 

Mas à tua beleza não foi dado 
qual morte a abrir teu juvenil estado 
crescer e nomear-se em cada instante? 

Walter Benjamin, in "Sonetos" 
(Tradução de Vasco Graça Moura)

8.12.15

Uma espécie de doutrina

Ter suficiente domínio sobre si mesmo para julgar os outros em comparação consigo e agir em relação a eles como nós quereríamos que eles agissem para connosco é o que se pode chamar a doutrina da humanidade; nada há mais para além disso. 
Se não se tem um coração misericordioso e compassivo, não se é um homem; se não se têm os sentimentos da vergonha e da aversão, não se é um homem; se não se têm os sentimentos da abnegação e da cortesia, não se é um homem; se não se tem o sentimento da verdade e do falso ou do justo e do injusto, não se é um homem. Um coração misericordioso e compassivo é o princípio da humanidade; o sentimento da vergonha e da aversão é o princípio da equidade e da justiça; o sentimento da abnegação e da cortesia é o princípio do convívio social; o sentimento do verdadeiro e do falso ou do justo e injusto é o princípio da sabedoria. Os homens têm estes quatro princípios, do mesmo modo que têm quatro membros. 

Confúcio (
 551 a.C. – 479 a.C )

6.12.15

os dias bons


Olhar esta imagem de Indira Gandi e Madre Teresa sentimos o quanto este tempo pertence a um passado longínquo. Apesar de não se terem passado assim tantos anos estas são figuras de um outro mundo, de um outro tempo, um tempo de esperança em que parecia que um futuro sorridente para todos ainda estava ao nosso alcance.

4.12.15

Foram ver o mar



Foram ver o mar e as dunas ainda intactas
e ele disse: o mais difícil é admitir que tudo o que existe
é indiferente à nossa inteligência




Maria José Botelho

Costa Vicentina e o vento sobre o mar


2.12.15

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço — 

Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada — 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser... 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço... 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
(Heterónimo de Fernando Pessoa )

29.11.15

Nestes tempos de cólera temos que lembrar a Terra como um paraíso

                  Portugal

a última bilha de gás


a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás, 
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!


Herberto Helder in A Morte sem Mestre, 2014

24.11.15

Sei que tudo está ligado


Sei que tudo está ligado à terra, a rodar em si mesmo
está tudo no mesmo e em  lugar nenhum

Vistas de perto as pessoas estão próximas da matéria
são parentes das árvores, das pedras, do mar
e têm sempre uma história que comove
que lembra e muda a nossa história

Vistas de perto as pessoas têm também uma sombra
quase imperceptível, mas está ali: a sombra-luz
que denuncia a sua inteligência
a possibilidade de se transcenderem
ou de enlouquecerem

Vistas de longe as pessoas parecem ainda mais sós
saí delas o peso da condição
levam consigo o mundo que viram e
quando olham para muito longe param
não sei se para fixar ou se para lembrar


Maria José Botelho
09-2015

Faroe


22.11.15

A escolha e o ser-se capaz


A falência própria não tem que ver por força com o «não se ser capaz». Tem que ver com o não se ser capaz de se escolher aquilo de que também se é capaz; não tem que ver com o não se poder, mas com o não se aceitar o que se pode; não é forçosamente um problema de capacidades mas a escolha daquela que deve ser. Mas escolher a que deve ser, já exige em nós a capacidade disso. De modo que se não é capaz de se ser capaz. 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente IV' / Citador

é preciso resistir

(Rock Dan Bristy)

21.11.15

Escritor

É um escritor ou então a mulher partiu com outro,
e o corpo não recuperou a vontade
de se preocupar com a roupa.
Espontâneo, vê-se; tudo o que traz vestido
apareceu-lhe à frente como numa colisão.
No entanto é discreto.
Tem a idade em que já não se desejam os olhares dos outros.
Branco, o cabelo transmite paz e
uma pequena desistência.
Tem cachimbo, óculos,
na mesa revistas francesas sobre a alma e os laboratórios que a
estudam;
pega numa folha e começa a escrever.
Tem ar sóbrio, o corpo não dança,
vê-se que há muito venceu o medo de não ser igual aos outros.
Escreve; passa a mão sobre a orelha.
É um escritor, em definitivo.
A luta não é com a solidão, vê-se que sabe usá-la,
percebe a sua natureza.

Gonçalo M. Tavares

18.11.15

Anne


O mundo está a ruir

e só Anne continua a escrever
secretamente, no mesmo lugar
sem respirar, sem existir, a escrever

O mundo está a arder dentro das cidades
dentro da cabeça dos homens
Há lixo de ódio e de horror por todo o lado

e Anne escreve, secretamente
nem as árvores teriam tanto silêncio

No mundo vai haver sempre uma nova manhã
e tudo se transforma lentamente

Se Anne se salvar acordará para a claridade
para o clamor da escuridão 
a desfazer-se lentamente na luz do dia


Maria José Botelho

15.11.15

Ferro

Alberto Burri

O medo e o resto

"Comecemos por falar daquilo com que poderíamos concluir: o medo. A Europa percebeu que se torna mais vulnerável à medida que se intensifica a guerra de múltiplas frentes na Síria. A carnificina de Paris não é apenas uma declaração de guerra do Estado Islâmico (EI) à França — visa também a Europa, em plena crise dos refugiados. A sua mais sinistra ameaça resume-se num dito de Bin Laden: “Nós temos jovens que amam a morte mais do que vós amais a vida.”
O terror do EI tem um desígnio estratégico com muitos vectores: demonstrar a força dos jihadistas e galvanizar os adeptos, provocar a partir do medo recíprocas reacções de ódio para romper as críticas pontes entre a Europa e as suas comunidades islâmicas e, enfim, fazer inflectir a política dos Estados europeus que intervêm na Síria, no Iraque ou na África, e também dissuadir os outros de o perseguirem.
O medo é uma das mais poderosas paixões. Dele escreveu Georges Bernanos a partir da sua experiência na Guerra Civil de Espanha: “O medo, o medo verdadeiro, é um delírio furioso. De todas as loucuras de que somos capazes, o medo é a mais cruel. Nada iguala o seu vigor, nada pode suster o seu choque. A cólera, que se lhe assemelha, não passa de um sentimento passageiro, uma brusca dissipação das forças da alma. Para mais é cega. O medo, ao contrário, desde que se ultrapasse a primeira angústia, forma com o ódio um dos mais estáveis compostos psicológicos que há.”
O veterano politólogo francês Pierre Hassner, para quem a “desordem” substituiu a “ordem internacional”, fala de medos contraditórios. “Estamos entre dois medos: temos razão de ter medo do terrorismo, mas também de ter medo das medidas que se tomam contra o terrorismo. Os meios de protecção que temos tornaram-se eles próprios ameaçadores, (...) seja pelas ameaças ligadas às exigências da defesa ou pelas ameaças às liberdades individuais que constituem as medidas de segurança adoptadas pelos governos.” Previne contra o modelo da reacção de George W. Bush e dos neoconservadores após o 11 de Setembro.
Escrevia ontem o analista francês François Heisbourg: “É a partir de agora que se joga a derrota necessária — ou a possível vitória dos jihadistas. E em primeiro lugar no plano interno. Será forte a tentação de preparar uma legislação de excepção, rápida e mal feita: um Patriot Act à francesa.”
A derrota do terrorismo será determinada pela reacção da sociedade. E também da escala e do timing da próxima atrocidade, previne a The Economist. Se os cidadãos se convencerem de que os serviços de segurança se tornaram incapazes de lhes assegurar um mínimo de protecção, muito pode mudar, suscitando o agravamento da tensão com as comunidades muçulmanas. “O Estado Islâmico procura desencadear a guerra civil em França”, escrevia ontem no Monde Gilles Kepel, um especialista do islão."
(...)
JORNAL  público  -      -   14/11/2015 - 20:31

in Ignoto

Pedro Valdez Cardoso, 2015, CAS, Sines