26.10.16

beira-mar sonhada

fotografia de Steffen Egly


que mínima gente vem por aí à volta e aperta aperta

que mínima gente vem por aí à volta e aperta aperta
que nem se pode respirar,
gente que não precisa de oxigénio nem pensamento,
nem de uma só palavra que brilhe
e vá ao fundo da luva como a mão presta,
grande parte do povo não usa nenhuma
nem guarda nada de cabeça.
?que coisa é esta que nem se move,
que não é um planeta,
que buraco é este por onde tudo se some?
- e eu pedi ao balcão: dê-me um poema,
e o empregado olhou para mim estupefacto:
- isto aqui é o mundo, monsieur, aqui não se servem bebidas alcoólicas
- mas - ia eu para dizer, mas calei-me de repente
e pensei muito longe:
quero voltar depressa aos modos do mundo dos assombros
(ó mundo, pesa inteiro sobre ti mesmo!)

Herberto Helder in Letra Aberta

20.10.16

a verdade


Nós já esquecemos completamente o axioma de que que a verdade é a coisa mais poética no mundo, especialmente no seu estado puro. Mais do que isso: é ainda mais fantástica que aquilo que a mente humana é capaz de fabricar ou conceber... de facto, os homens conseguiram finalmente ser bem sucedidos em converter tudo o que a mente humana é capaz de mentir e acreditar em algo mais compreensível que a verdade, e é isso que prevalece por todo o mundo. Durante séculos a verdade irá continuar à frente do nariz das pessoas mas estas não a tomarão: irão persegui-la através da fabricação, precisamente porque procuram algo fantástico e utópico. 

Fiodor Dostoievski

8.10.16

"Mar de Sines" || Trailer

Construção Vazia


escultura de Jorge Oteiza, San Sebastian

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR


Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.

Matilde Campilho in Jóquei, 2014

5.10.16

Transiberiano fez ontem 100 anos


Há cem anos, os números que envolvem a maior ferrovia do mundo impressionam como a paisagem que risca a janela do lado de fora do trem. Conhecida como Transiberiana a ferrovia entre Moscovo e Vladivostok possui 9.288 km de extensão, cruza 7 fusos horários e sua travessia pode ser feita em até 8 dias de viagem.
Concluída em 1916, a construção da Linha Transiberiana começou a ser realizada em 1891, mas o processo de electrificação só ficaria pronto quase 90 anos depois, em 2002. A ideia de uma ferrovia na região surgiu no século XIX como alternativa para driblar as longas distâncias daquele território de dimensões continentais.
Um dos destaques da rota é a passagem pelo Lago Baikal,  considerado o maior lago de água doce da Ásia – o maior e mais profundo em todo o mundo com até 1.680 metros de profundidade.
O ramal principal de Moscovo à distante Vladivostok, próximo às fronteiras da China e da Coréia do Norte, dá acesso a linhas regionais por onde passam trens com destinos a Mongólia, Pequim e Pyongyang, capital da Coreia do Norte.
Fonte: http://viagemempauta.com.br/

4.9.16

Da Leveza

"A revolução da leveza continua a avançar, mas não conseguimos encontrar harmonia nas nossas vidas: não nos torna felizes (…). Nunca tivemos tantas possibilidades de viver levemente, mas, no final, a alegria de viver não aumenta” (Da Leveza, p.332)

28.8.16

Belas Artes

"O que nós entrevemos na natureza é força que devora força, nada há que mantenha a sua presença, tudo está de passagem, milhares de sementes são pisadas, a cada momento nascem outras milhares, todas elas grandes e significativas, multiplicando-se até ao infinito; belo e feio, bom e mau, tudo existe lado a lado com igual direito. E a arte é precisamente a contrapartida, ela nasce dos esforços do indivíduo para se manter contra a força destruidora do todo."

Goethe

25.8.16

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.


Herberto Helder

2.8.16

É urgente o amor












É urgente o amor
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade 

17.7.16

Que estupidez o sangue nas calçadas!

Que estupidez o sangue nas calçadas!

O sangue fez-se para ter dois olhos,
um lépido pé, um braço agente,
uma industriosa mão tocante.

Que estupidez o sangue entre as palavras!

O sangue fez-se para outras flores
menos fáceis de dizer que estas
agora derramadas.


Alexandre O' Neill, In Feira Cabisbaixa, 1965

8.7.16

Portugal no Mundo


Portugal é provavelmente dos paises europeus o pode dizer que as suas ex-colonias festejam com alegria a vitória do ex-colonizador. Em Timor, em Cabo Verde, na Guiné ... festeja-se com grande entusiamo os bons resultados da selecção como se a vitória também fosse deles. E é!

4.7.16

Lugares especiais

                 Ilha do Pessegueiro, Litoral Alentejano, Portugal

27.6.16

Tecendo a Manhã


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

20.6.16

Pesar o coração


No Antigo Egipto o julgamento dos mortos no tribunal subterrâneo (muitas vezes chamado Salão das Duas Verdades) o coração do morto era pesado contra uma pena ou um algodão (representando simbolicamente Maat). O coração que pesasse mais do que a pena era considerado indigno. Os indivíduos de coração bom e puro eram enviados para Aaru[21] .
A pesagem do coração era normalmente retratada no papiro no Livro dos Mortos ou em cenas de tumbas. Mostra Anúbis supervisionando a pesagem e a Ammit sentada, aguardando os resultados para que pudesse consumir aqueles que falharam. A imagem seria o coração do morto em um dos lados da balança e pena de Maat no lado oposto[22] . 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Maat

A relação do ser e do horizonte é circular


A relação do ser e do horizonte é circular. É talvez o aberto que cria o horizonte, é talvez a respiração que abre o mundo. Mas o alento não poderia romper sem a linha pura do horizonte e na lâmpada da respiração não se acenderia se o mundo não fosse já o extenso mundo do aberto. Por isso a escuta é a espera vazia aberta ao tempo e à possibilidade de uma palavra livre mas fiel à simplicidade nova de um começo.

António Ramos Rosa in Relâmpago de Nada

18.6.16

Do not go gentle into that good night

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas1914 - 1953

12.6.16

frases de Jorge Luís Borges para lembrar a sua lucidez

"Qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, vale apenas por um único momento: aquele em que o homem compreende de uma vez por todas quem é."


"Há derrotas que têm mais dignidade do que a própria vitória."

"A velhice pode ser o nosso tempo de ventura. O animal está morto, ou quase morto. Restam o homem e a alma."

6.6.16

The Revenant



The Revenant -  Ryuichi Sakamoto, Alva Noto

4.6.16

Ali Underwater

"Ali Underwater", Miami, 1961, fotografia de Flip Schulke  @ Retronaut

(reposição)

O Menino de Sua Mãe

No plano abandonado 
Que a morna brisa aquece, 
De balas trespassado 
— Duas, de lado a lado —, 
Jaz morto e arrefece. 

Raia-lhe a farda o sangue. 
De braços estendidos, 
Alvo, louro, exangue, 
Fita com olhar langue 
E cego os céus perdidos. 

Tão jovem! que jovem era! 
(Agora que idade tem?) 
Filho único, a mãe lhe dera 
Um nome e o mantivera: 
«O menino da sua mãe». 

Caiu-lhe da algibeira 
A cigarreira breve. 
Dera-lha a mãe. Está inteira 
E boa a cigarreira. 
Ele é que já não serve. 

De outra algibeira, alada 
Ponta a roçar o solo, 
A brancura embainhada 
De um lenço... Deu-lho a criada 
Velha que o trouxe ao colo. 

Lá longe, em casa, há a prece: 
«Que volte cedo, e bem!» 
(Malhas que o império tece!) 
Jaz morto, e apodrece, 
O menino da sua mãe. 

Fernando Pessoa, in 'Antologia Poética' 
Citador


28.5.16

Hiroshima , 71 anos depois


A História e o futuro também se fazem nos actos simbólicos.

27.5.16

A ROSA DE HIROXIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexactas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioactiva
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atomica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vinicius de Morais, 1954

23.5.16

Se falássemos de amor falávamos de outra maneira.

Se falássemos de amor falávamos de outra maneira. 

A imagem de qualquer pedra servia bem a desordem 
que vai sobre esta mesa 
o copo de cerveja 
admiráveis modos de viver 

o mais mortal amigo é sempre qualquer coisa. 

Assim explicava os grandes reinados rituais 
o produto da terra 
a arte da guerra 
a ilusão vindo de muito longe 
a única árvore o único poço por fortuna. Hábil 
guerreiro e de palavra. 
Contra ele os que foram foram inutilmente. 


João Miguel Fernandes Jorge, in "Meridional" 

A Europa real


"A Europa real é uma colecção de identidades que já não têm a capacidade de se viver plenamente como nações, nem a força de querer e de imaginar a futura Europa como uma nova espécie de nação."

Eduardo Lourenço

numa entrevista ao jornal Público, 2004, Citador

15.5.16

I love you with all my heart



Jung LeeKorean, b. 1972

https://www.artsy.net/artist/jung-lee

12.5.16

Descrição de uma cidade

Não há lado esquerdo na metafísica,
O que não é uma limitação.
A produção industrial de problemas
Solta para o ar nuvens espessas
Que interferem no aeródromo.
Aviões cobertos de graffiti não conseguem levantar voo
Porque, entre os vários desenhos, os miúdos
Desenharam pedras de granito. A Ideia de granito
Pesa mais que a existência concreta de um
Balão, o mundo das ideias é estado transitório entre
O Nada e a montanha. Entretanto, a
Natação tornou-se importante para a cidade
Depois do dilúvio ocorrido há três mil anos. O governo
Oferece inscrições gratuitas e ainda casais de animais
Bruscos, mas mansos. Os homens andam felizes, e também
As mulheres, porque todos aprendem a nadar antes dos
Sessenta. Hoje, neste século, morre-se afogado mais tarde.
O mundo é perfeito de todos os lados,
Menos do lado onde estamos: como um sólido geométrico
Belo que cai em cheio na cabeça desprevenida.
O mundo é fantástico visto de cima, de helicóptero. A linguagem
Sobe e interfere em camadas específicas da atmosfera.
As palavras que usas não são inertes. O inglês, por exemplo,
É Língua que entra excessivamente nas nuvens. O inglês
Para a Astronomia é deselegante, e prejudica ligeiramente
As aves baixas.
No outro lado do mundo, entretanto, alguém, de grandes dimensões,
Enfia o aeródromo num saco de plástico. As pulsações
Da alma medem-se pelos pressentimentos, não por
Aparelhos medicinais. E não se ilumina a escuridão,
Ilumina-se algo que já não é escuridão; precisamente porque
A escuridão é escura, escuríssima segundo dizem.

Gonçalo M. Tavares

10.5.16

VERMEER


Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração, 
dia após dia, não verter o leite 
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece 
o fim do mundo. 


Wislawa Szymborka



(copiado do blog http://poesiailimitada.blogspot.pt/)

8.5.16

A luz do "rainbow church" e a neve cristalizada em rosas ...



de Tokujin Yoshioka

para mais pesquisa: http://www.tokujin.com/ 

a noite feita, ela toda, em segredo


a noite feita, ela toda, em segredo
passando da mão direita para a mão esquerda
e ficar acordado enquanto se adormece
e acordando se se vê que está escrito
de cabeça para baixo
que o mundo de tão lento não se encurva
que tudo está no ovo
e o ovo não aquece nem arrefenta
e que nada está onde é suposto
e o lenço é ar apenas na mão do mágico
e nada se encontra agora onde se encontra
nem a cabeça
nem a caneta
nem a palavra certa para ser escrita
há duzentos ou trezentos anos
quando eu era criança algures noutro alfabeto
e escrevia alto numa espécie de caderno
sem páginas de um lado e de outro
e sem palavra nenhuma
sobretudo

Herberto Helder in Letra Aberta, 2016

4.5.16

MARE NOSTRUM

                   de Carlos Nó, 2015

1.5.16

LISBOA

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas 
Subidas. 
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos. 
Eles acenavam através das grades. 
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados! 

"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho como um afectado 
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada 
e em cima, a uma janela, um homem, 
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando 
para além do mar. 

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes. 
As moscas liam cartas microscópicas. 
Seis anos depois, peguntei a uma dama de Lisboa: 
Isto é real, ou fui eu que sonhei ? 

Tomas Tranströmer 
(Tradução por Luís Costa)
  

Citador

30.4.16

O silêncio está povoado

.
O silêncio está povoado de tantas vozes, tantos detalhes, tanta interpretação, tantas perguntas. O mesmo será dizer que o silêncio está povoado de tanta solidão, de tanta vida desperdiçada, de tanta espera.

19-12.2011

(Reposição)
.

25.4.16

Galgos

Amadeo de Souza-Cardoso

Cavalo

   Amadeo de Souza-Cardoso (14 de novembro de 1887 – 25 de outubro de1918

  Amadeo_de_Souza-Cardoso

25 de Abril de 1974 em Portugal



a canção que se ouviu à meia noite ...

E Depois do Adeus de Paulo de Carvalho