24.7.14

Os dias bons ...

Live Aids, Julho 1985

23.7.14

As imagens bastam a si próprias

As imagens bastam a si próprias. Elas são a sua própria resposta. Porque é impossível recusar certas imagens. Estão demasiado saturadas na sua ingenuidade para não revelarem muito daquilo que calam: a bandeira das riscas e das estrelas a ondular na ilha de Iwo Jima; a pegada monstruosa de Neil Armstrong na superfície da Lua; os martelos caseiros com cabos de madeira a desfazer em pedaços o Muro de Berlim. Na sua surpreendente profundidade, seria necessário poder decifrar ao mesmo tempo a situação concreta que escondem, os valores que oferecem como verdadeiros e nos transmitiram, e só em última instância, sob camadas e camadas de significação, como o seio veio mais íntimo e mais secreto, como uma nascente subterrânea, a operação real que se procurou e acerca da qual as imagens não oferecem mais do que uma tradução simbólica: a Vitória, o Orgulho, a Liberdade. De modo que consigo intuir que o holocausto desta manhã, no outro lado do oceano, implicará uma nova dimensão do alfabeto icónico:a Morte no Paraíso sempre foi um tema predilecto para os profetas.
A nossa doença, Alphone, a herdada  do século mais terrível da hermenêutica. Nada provoca tanto desconsolo como uma palavra supérflua. O meu anseio de pintor, que foi sempre mostrar o mundo na sua feroz intensidade, entrou e continua a entrar em conflito com o nosso tempo, que se construiu como uma tempo de comerciantes de palavras. Hoje sei que tenho razão. Mas, por isso, paguei uma pesada portagem.
O lugar de onde provenho é um lugar órfão de palavras, um lugar que adquire pleno sentido no gesto do desenho, no matiz da cor, na profundidade da matéria. E o resto, como disse o grande bardo, deveria ser silêncio.
Claro que o silêncio nos esmaga. Detectamos no silêncio uma incomodidade natural que nos obriga a arrastar-nos por um bosque de palavras. Lembras-te do que escreveu o velho Goethe no fim da sua vida? " Tudo está aí e eu não sou nada". Essa é a minha religião (...)

Ricardo Menéndez Salmón, in A luz é mais antiga que o amor, Uma carta (1) 

21.7.14

o Mundo ...

fotografia de Simon Proctor

... com anjos a cair

O amor afirma, o ódio nega

"O amor afirma, o ódio nega. Mas por cada afirmação há milhentas de negação. Assim o amor é pequeno em face do que se odeia. Vê se consegues que isso seja mentira. E terás chegado à verdade."

Vergílio Ferreira in Escrever 

Os dias bons


Esse que humano foi como um deus grego

Esse que humano foi como um deus grego
Que harmonia do cosmos manifesta
Não só em sua mão e sua testa
Mas em seu pensamento e seu apego
Àquele amor inteiro e nunca cego
Que emergia da praia e da floresta
Na secreta nostalgia de uma festa
Trespassada de espanto e de segredo
Agora jaz sem fonte e sem projecto
Quebrou-se o templo actual antigo e puro
De que ele foi medida e arquitecto
Python venceu Apolo num frontão obscuro
Quebrada foi desde seu eixo recto
A construção possível do futuro


Sophia de Mello Breyner Andersen in Dual, 1972

15.7.14

a Ilha Misteriosa

Os dias bons...

coração


"É o coração que honra o homem e não a opinião."

F. Schiller

Vieirinha

 os dias bons....

6.7.14

O Labirinto da Saudade


“Que o português médio conhece mal a sua terra – inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio – é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la.”

“Citar um autor nacional, um contemporâneo, um amigo ou inimigo, porque nele se aprendeu ou nos revimos com entusiasmo, é, entre nós, uma raridade ou uma excentricidade como usar capote alentejano. A referência nobre é a estrangeira por mais banal que seja, e quem se poderá considerar isento de um reflexo que é, por assim dizer, nacional?”

“Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo.”

“Mas seja qual for a interpretação ideológica de Camões, não é possível, para ninguém, separar o seu canto épico da apologia histórica de um povo enquanto vanguarda de uma fé ameaçada na Europa do tempo e de um império igualmente guarda-avançada da expressão comercial e guerreira do Ocidente. É essa a «matéria» textual e moral do Poema.”

“Em princípio, todo o português que sabe ler e escrever se acha apto para tudo, e o que é mais espantoso é que ninguém se espante com isso.”

Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Gradiva, 2005.

2.7.14

o Mar luminoso das palavras


O Rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado

Sophia de Mello Breyner Andresen
O Nome das Coisas (1977)

1.7.14

Winslow Homer, The Trapper

Luto por uma Novidade de Espírito

Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tão extraordinária essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra maiúscula nada pode me dar porque vou confessar que também eu devo ter entrado por um beco sem saída como os outros. Porque noto em mim, não um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. É uma questão de sobrevivência assim como a de comer carne humana quando não há alimento. Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de espírito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de espírito. 
Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforma num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trémula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água. Sou um palidíssimo reflexo de erudição. Minha receptividade se afina registrando sem parar as concepções de outros, refletindo no meu espelho os matizes sutis das distinções entre as coisas da vida. Eu que sou um resultado do verdadeiro milagre dos instintos. Eu sou um terreno pantanoso. Em mim nasce musgo molhado cobrindo pedras escorregadias. Pântano com seus sufocantes miasmas intoleravelmente doces. Pântano borbulhante. 

Clarice Lispector, in 'Um Sopro de Vida' 

22.6.14

The Pale Blue Dot - Cosmos: A Space Time Odyssey


“Look again at that dot. That's here. That's home. That's us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies, and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every "superstar," every "supreme leader," every saint and sinner in the history of our species lived there-on a mote of dust suspended in a sunbeam.

The Earth is a very small stage in a vast cosmic arena. Think of the endless cruelties visited by the inhabitants of one corner of this pixel on the scarcely distinguishable inhabitants of some other corner, how frequent their misunderstandings, how eager they are to kill one another, how fervent their hatreds. Think of the rivers of blood spilled by all those generals and emperors so that, in glory and triumph, they could become the momentary masters of a fraction of a dot.

Our posturings, our imagined self-importance, the delusion that we have some privileged position in the Universe, are challenged by this point of pale light. Our planet is a lonely speck in the great enveloping cosmic dark. In our obscurity, in all this vastness, there is no hint that help will come from elsewhere to save us from ourselves.

The Earth is the only world known so far to harbor life. There is nowhere else, at least in the near future, to which our species could migrate. Visit, yes. Settle, not yet. Like it or not, for the moment the Earth is where we make our stand.

It has been said that astronomy is a humbling and character-building experience. There is perhaps no better demonstration of the folly of human conceits than this distant image of our tiny world. To me, it underscores our responsibility to deal more kindly with one another, and to preserve and cherish the pale blue dot, the only home we've ever known.” 

― Carl SaganPale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space

Symphony of the Unknown

NUNO CERA, 2013

21.6.14

Chico Buarque - Construção



Amou daquela vez como se
fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

O VALOR DAS CRIANÇAS



Em Portugal, as preocupações com a diminuição e até com a sobrevivência, a médio prazo, do corpo populacional começam a ocupar um espaço razoável — conquistado ao corpo social, já que a sociedade perde aqui a primazia — tanto na esfera pública civil como nos cálculos do poder político. Os mecanismos de alarme e de prevenção postos em acção pelas tecnologias de poder a que — na esteira de Foucault — damos o nome de biopolítica baseiam-se em previsões e visam estabelecer o que, do ponto de vista biopolítico, é um equilíbrio, uma espécie de homeostase. Devemos sublinhar: o desequilíbrio em causa só existe num plano e num horizonte estritamente biopolíticos, já que a espécie, os seres humanos vivos que povoam a terra, a vida dos seres humanos não capturada pela racionalidade biopolítica, não estão a diminuir, antes pelo contrário. O que significa dizer que daqui a 200 anos já não haverá portugueses? Que o território nacional está despovoado (hipótese absurda, apenas verificável se as fronteiras fossem fechadas por uma polícia fanática e suicida) ou que o “sangue” que por aqui corre pertencerá a outras “linhagens”, que queremos excluir da pertença a uma cidadania portuguesa? Mas, afinal, a linhagem actual tem algo de “próprio” que está ameaçado de degeneração? Pondo estas questões, vemos claramente aonde nos leva o bio-poder: a um direito visto como natural, baseado no sangue e no solo. A biopolítica natalista é o exemplo mais eloquente desta importante transformação analisada por Foucault: ao poder da soberania que consistia em mandar matar e deixar viver, sucede esta tecnologia do biopoder que consiste em fazer viver e deixar morrer. Em termos muito pragmáticos, isto significa que, cada vez mais, as crianças pertencem ao Estado. Ainda na semana passada ficámos a saber que a um casal português, em Inglaterra, foram retirados os seus cinco filhos por “risco futuro de dano emocional”. É certo que não conhecemos a situação para avaliar convenientemente. Mas o argumento baseado no “risco futuro” para separar coercivamente cinco crianças e instalá-las em internatos e famílias de acolhimento mostra até que ponto o Estado já não se limita a intervir sobre o “como” da vida, sobre a maneira de viver, mas vai mais longe: apodera-se de toda a vida. Não é que os filhos não devam ser protegidos das sevícias que os pais sobre eles eventualmente exerçam. Mas, uma vez caídos nas garras do Estado, eles ficam submetidos, sem protecção, à pior das sevícias. Os esquemas biopolíticos de intervenção sobre a vida e a realidade populacional não estão, porém, desligados de um fenómeno de abstractização generalizada que tanto se aplica à monetarização e financeirização da economia como ao nascimento de crianças. Ambos são hoje fenómenos partenogenéticos de criação de valor. Em grego antigo, parthenos significa virgem. Jesus Cristo foi criado por partenogénese, sem que houvesse qualquer intervenção da relação sexual. A abstractização das crianças e da realidade populacional pelo biopoder elide tudo o que não seja “calculável”. Mas o que é mais preocupante é que tal abstractização, tendo começado nas sociedades ocidentais, instala-se — como é hoje possível perceber — em todas as sociedades que atingem um certo nível de desenvolvimento. As regressões dos nascimentos são como as regressões da poesia: dão-se quando se extingue um território de crenças e de sentimentos. É a este território que devemos atribuir a razão pela qual, nas sociedades ocidentais, a natalidade entrou em regressão, e não a critérios exclusivamente materiais. 




17.6.14

Veneza

que música serias
se não fosses água?

Eugénio de Andrade

15.6.14

MULHER MORENA

Mulher morena, 
morena,
manjar delicado, sorriso
da água,
teu peito não sabe
de mágoas,
teus olhos não sabem
de lágrimas.

Porque és a mulher mais morena,
a mais bela,
a minha rainha,
deixo a água do amor
arrastar-me na corrente,
deixo a paixão, a tormenta,
levaram-me até ao manto
que te cinge os ombros
e a saia revôlta
que abraça os teus músculos.

Quando é dia, já não pode
chegar outra noite;
abandona-me o sono
e a aurora não chega.

Tu, minha rainha,
ó senhora minha,
já não quererás
pensar em mim quando
o leão e o lobo
venham devorar-me
no cárcere fundo
cá onde me encontro,
nem quando saibas
que estou condenado

a não ver mais mundo,
ó senhora minha,
tu, minha rainha?

in «Poemas Ameríndios», Poemas Mudados
para Português por Herberto Helder
Lisboa: Assírio & Alvim, 1997

Os dias bons


Obama honors fallen on D-Day's 70th anniversary

9.6.14

lembrar-te, mas também lembrar os soldados, lembrar os que falam da sombra


Sete rosas mais tarde

Reunido está o que vimos,
para despedida de ti e de mim:
o mar, que nos lançava noites para a terra,
a areia, que as atravessou connosco,
a urze vermelho-ferrugem além
onde o mundo nos aconteceu.



*

Orvalho 

E eu deitado contigo, tu, no lixo,
uma lua lamacenta
atirou-nos com a resposta,

nós separámo-nos aos bocados
e voltámos a esmigalhar-nos juntos:

O Senhor partiu o pão,
o pão partiu o Senhor.


dois poemas de Paul Celan  (1920-1970)

2.6.14

Os dias bons


 Russian writer Leo Tolstoy (left) playing chess with the son of his friend and publisher Vladimir Chertkov who took this picture in Yasnaya Polyana in 1907.
Photo courtesy of Topfoto.

1.6.14

aparas gregas de mármore em redor da cabeça


aparas gregas de mármore em redor da cabeça
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias peso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilação, abalo,
que Deus funciona na tua glória electrónica

Herberto Helder, in a Faca não corta o Fogo

‘A Room with a View’

Shanghai

‘A Room with a View’
NUNO CERA
2008 -2009

Bem sem Luz


A partir do momento em que praticamos o mal, este surge como uma espécie de dever. A maior parte das pessoas tem o sentimento do dever para com certas coisas más e outras boas. Um mesmo homem sente como um dever vender tão caro quanto pode e não roubar, etc. O bem entre esses está ao nível do mal, um bem sem luz. 

Simone Weil, in 'A Gravidade e a Graça'

27.5.14

o passado

Sines, Portugal, anos 60

26.5.14

Profano, prático, público, político, presto, profundo, precário,

Profano, prático, público, político, presto, profundo, precário, 
improvável poema,
contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar 
a terra
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos o silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com
cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
e paus amarelos,
paus virgens com linho e algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha 
em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Omar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro do mesmo mundo era o centro de Alexandria,
olhos fechados víamos através das pálpebras a nossa vida ardente 
                               e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!

Herberto Helder, in Servidões, 2013

Portugal, uma praia ao Sul


25.5.14

O mapa



Sempre senti a matemática como uma presença
Física; em relação a ela vejo-me
Como alguém que não consegue
Esquecer o pulso porque vestiu uma camisa demasiado
Apertada nas mangas.
Perdoem-me a imagem: como
Num bar de putas onde se vai beber uma cerveja
E provocar com a nossa indiferença o desejo
Interesseiro das mulheres, a matemática é isto: um
Mundo onde entro para me sentir excluído;
Para perceber, no fundo, que a linguagem, em relação
Aos números e aos seus cálculos, é um sistema,
Ao mesmo tempo, milionário e pedinte. Escrever
Não é mais inteligente que resolver uma equação;
Porque optei por escrever?Não sei. Ou talvez saiba:
Entre a possibilidade de acertar muito, existente
Na matemática, e a possibilidade de errar muito,
Que existe na escrita (errar de errância, de caminhar
Mais ou menos sem meta) optei instintivamente
Pela segunda. Escrevo porque perdi o mapa.

poema de Gonçalo M. Tavares

um dos rostos do Mal

c. 1940s: Adolf Hitler with a bird on his shoulder | Retronaut

Eu não quero mudar o mundo


Eu não quero mudar o mundo. 
Não tenho tempo para isso. 
Quem quer mudar o lugar do mundo actua como quem muda o lugar de um móvel: 
empurra primeiro para um lado, 
foi força demais, 
empurra então para o outro lado, 
agora com força de menos, 
depois mais um pequeno toque para lá 
e um ainda mais pequeno toque para lá, 
e agora sim: 
o móvel está no lugar. 
Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam 
lá dentro se encontram todos partidos. Estão a ver? 

Os copos todos partidos. Que aborrecimento. 
Não nos lembrámos da fragilidade do vidro. 

Gonçalo M. Tavares, in “O homem ou é tonto ou é mulher” 

Cantoria


Fala a voz dos anjos cantores em Florença.
Eles sustêm na última nota da voz o vazio,
enquanto nos frescos do alto voam serafins
e ante nós cresce como um símbolo a acha
de armas, a procissão breve dos anos.
Antecipam o juízo na cauda dos cometas,
rumores de batalhas, cavalos domando
os chãos de silêncio onde nos deitamos,
ovelhas de alma dispersa e faces aquietadas
ante o discurso longo do sono.
Cantam as pazes da alma indestrutível
iluminando a noite de archotes com a graça
das palavras, a sua e nossa compaixão.
Esses campos de solidão medieval
que se demoram, reflectindo o transepto
das catedrais, na bênção da primeira neve.
Sobre eles desce, a perfeição dos plainos da Flandres,
a vaidade de um último olhar. Que o chão
nos sobreviva, górgonas, e a funda voz do heraldo
desenhando cúmulos com os dedos no horizonte.



Paulo Teixeira, in o futuro em anos-luz

24.5.14

Os dias bons







GRACE KELLY     @ http://www.pinterest.com/pin/

Duas Vezes Nada



É assim, amiga. Encontramo-nos
quando calha nos bares de antigamente,
deixando que sobre o tampo azul
das mesas volte a pousar
um baço cemitério de garrafas.

Constatamos o pior, os seus aspectos.
Corpos e livros que foram ficando
por ler na voracidade da noite de Lisboa.
De facto, crescemos em alcoolémia,
acordamos tarde, em pânico,
e perdemos os dias e os dentes
com uma espécie de resignação.
Não temos, ao que parece, serventia.

Sorrimos um pouco, ao terceiro
gin, como quem renasce para a morte,
seus gestos de ternura ou de exuberância.
Talvez tenhamos calculado mal
o ângulo da queda, esta vitória
sem nobreza dos venenos todos.

Mas agora é tarde. Tudo fechou
para nós, para sempre. O amor,
o desejo, até o onanismo da destruição.
Antes de procurares a esmola
do último táxi, fica esta imagem
parada, a desvanecer-se
no frio mais frio da memória:

não dois corpos sentados a trocarem
medo, cigarros e palavras póstumas,
mas duas vezes nada, ninguém,
o silêncio da noite destronando
as cadeiras onde por razão nenhuma
nos sentámos. Os anos, amiga, passaram.



Manuel de Freitas

um Livro


18.5.14

Os Dias Bons


As Uvas

Que me não fujam as rosas
murchando co'a Primavera:
gosto das uvas em cachos
maduros ao sol da encosta
 —glória deste meu val',
pendendo em brilho de pérolas,
prazer do Outono dourado:
oblongas e transparentes
como dedos de donzela.

Alexander  Pushkin 1799-1837

some of the Russians


Members of the Moscow literary group Sreda: Top row from left: Stepan Skitalets, Fyodor Chaliapin, Yevgeny Chirikov; bottom row from left: Maxim Gorky, Leonid Andreyev, Ivan Bunin, Nikolay Teleshov- 1902

Há dias

Há dias em que julgamos

que todo o lixo do mundo

nos cai em cima

depois


ao chegarmos à varanda avistamos

as crianças correndo no molhe

enquanto cantam

não lhes sei o nome

uma ou outra parece-me comigo

quero eu dizer :

com o que fui

quando cheguei a ser luminosa

presença da graça

ou da alegria

um sorriso abre-se então

num verão antigo

e dura

dura ainda.



Eugénio de Andrade

17.5.14

Vivemos "como se"....

(...) 
Nietzsche escreveu que o homem precisa de viver "como se" para aceitar o mundo que o rodeia. Com efeito, sabemos que humanidade, tal como hoje a conhecemos, desaparecerá um dia, e possuímos uma imagem coperniciana e mesmo einsteiniana do universo que nos acolhe, mas vivemos "como se" o Sol nunca se fosse apagar, "como se" desconhecêssemos o significado da palavra glaciação, "como se" estivéssemos ainda na época de Ptolomeu. Os cientistas que, por definição, costumam ser bruscos nas suas conclusões, talvez porque o seu trabalho não consiste em consolar ou entreter, mas em informar e compreender, garantem além disso que o nosso sistema é regido pela entropia, o que significa que este mundo, como tudo o que nele habita, se encaminha para o caos, para a desordem, para a decomposição. 
E no entanto, enquanto escrevo coloco a minha lupa sobre todas as histórias que me rodeiam - algumas reais, outras fictícias, todas possíveis - sinto que estou a empenhar a linguagem na construção de um arremedo de ordem, de uma organização superior, de uma estrutura resistente a qualquer tentação de ser dissolvida, absorvida pela desordem. Ao escrever, ao fim ao cabo, não estou a tentar evitar a entropia, a desorganizaçao, a morte da forma?" (...)

Ricardo Menéndez Salmón in A Luz é mais antiga do que o Amor

Picasso with dove

Picasso with dove, Paris, 1945 - by James Lord @ retronaut