23.4.17

A Europa cercada

O presidente americano Donald Trump é, deliberada, implícita ou involuntariamente, um dos maiores inimigos da União, assim como da NATO. Quer mandar sozinho. Não deseja ficar condicionado pelos aliados, nem pelos adversários, muito menos pelos outros. Há, todavia, uma eventual vantagem nessa atitude: pode ser que agora, finalmente, os europeus aceitem que têm de fazer um esforço para a sua defesa e para a segurança dos cidadãos e contra o terrorismo e outros perigos!
O presidente russo Vladimir Putin é, consciente, distraída ou acidentalmente, um grande perigo para a Europa. Deseja partilhar o mundo com os americanos, não quer ter confronos com a península ocidental europeia. Nessa atitude, há também um eventual benefício: pode ser que os europeus se convençam de que a Europa tem de ser defendida por ela própria, que a liberdade e o Estado social têm de ser protegidos e que à Europa não basta ser um parque temático de paz, cultura e turismo.
O presidente chinês Xi Jinping é, assumida, dissimulada ou inconscientemente, um perigoso inimigo da Europa. Quer países separados, não quer blocos. Quer parceiros comerciais dispersos, não quer uniões. Perante esta ameaça, há pelo menos um proveito: pode ser que os europeus se decidam a não ficar dependentes, a preparar a sua própria defesa, a competir economicamente e a impedir todas as formas de dumping social que têm ferido o Ocidente.
O presidente turco Erdogan é, decidida, desatenta ou fingidamente, uma ameaça perigosa para a Europa. Faz exigências, não paga o preço da democracia e joga com a arma dos refugiados. Nesse perigo, há pelo menos um possível ganho: o de obrigar a Europa a defender-se, a não ajoelhar perante ultimatos, a perder sentimentos de culpa e a resistir à chantagem étnica e religiosa, esta insidiosa maneira de explorar os preconceitos dos outros.
Também a partir do exterior, mas já com ramificações ou prolongamentos no interior da Europa, o terrorismo islâmico contribui para este cerco ameaçador. Apoiado por Estados de capitalismo predador e ajudado pela emoção dos candidatos a refugiado. A tendência irresistível da direita é de reclamar repressão. A propensão inevitável da esquerda é de protestar contra a segurança.
Cercada pelo exterior, a Europa e a União conhecem também os seus perigos interiores. Autoridades estabelecidas defendem a forma compacta, a coesão jurídica e a hierarquia de poderio económico e financeiro. Abominam a diversidade e a flexibilidade. Jubilam com a saída da Grã-Bretanha. Preparam-se para deixar sair quem não se conformar. Encaram a flexibilidade institucional e política como um castigo dos devedores, dos mais atrasados e dos menos poderosos.
De modo convergente, apesar de origens diferentes, os nacionalistas de direita, os populistas de todos os bordos, os soberanistas de esquerda e outros grupos políticos mais ou menos extravagantes, mas determinados, aproveitam a incerteza reinante e avançam nos seus projectos de destruição da União e do euro.
Hoje mesmo, em França, começa a jogar-se importante batalha, a completar dentro de duas semanas, na segunda volta, e a refazer dentro de dois meses, nas legislativas. Tal como, dentro de dois meses, na Grã-Bretanha. Ou ainda na Itália, não se sabe bem quando. Ou na Alemanha, lá mais para o Outono. Quatro das seis grandes nações europeias vão decidir por nós. Sendo que a Alemanha vai decidir mais. Nada conseguirá travar o caminho para a hegemonia alemã, a não ser uma mudança de rumo e de estrutura da União.
Até ao fim deste ano, serão tomadas decisões que vão marcar o destino. Não é o povo europeu que vai tomar essas decisões: esse povo não existe. São os povos nacionais que votam e decidem. Cada um por si. Não são os cidadãos europeus que vão exercer os seus direitos e os seus poderes: esses cidadãos não existem. São os cidadãos de cada país, uns mais do que outros, que vão decidir por todos nós.

Antonio Barreto, 23.04.2017 in Diário de Notícias

22.4.17

in " Aquele Grande Rio Eufrates"


Somos a grande ilha do silêncio de deus 
Chovam as estações soprem os ventos 
jamais hão-de passar das margens 

Caia mesmo uma bota cardada 
no grande reduto de deus e não conseguirá 
desvanecer a primitiva pegada 
É esta a grande humildade a pequena 
e pobre grandeza do homem


"
"GRANDEZA DO HOMEM" poema de Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

19.4.17

Aube


Rien ne bougeait encore au front des palais. L'eau était morte. Les camps d'ombres ne quittaient pas la route
du bois. J'ai marché, réveillant les haleines vives et tièdes, et les pierreries regardèrent, et les ailes
se levèrent sans bruit.

La première entreprise fut, dans le sentier déjà empli de frais et blêmes éclats, une fleur qui me dit son nom.

Je ris au wasserfall blond qui s'échevela à travers les sapins : à la cime argentée je reconnus la déesse.

Alors je levai un à un les voiles. Dans l'allée, en agitant les bras. Par la plaine, où je l'ai dénoncée au coq.
A la grand'ville elle fuyait parmi les clochers et les dômes, et courant comme un mendiant sur les quais de marbre,
je la chassais.

En haut de la route, près d'un bois de lauriers, je l'ai entourée avec ses voiles amassés, et j'ai senti un peu
son immense corps. L'aube et l'enfant tombèrent au bas du bois.

Au réveil il était midi.

Arthur Rimbaud -(1854-1891)

17.4.17

Nacionalismo


"O nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade."

frase atribuída a Albert Einstein

EUFRATES


9.4.17

Acordar na Rua do Mundo

madrugada, passos soltos de gente que saiu 
com destino certo e sem destino aos tombos 
no meu quarto cai o som depois 
a luz. ninguém sabe o que vai 
por esse mundo. que dia é hoje? 
soa o sino sólido as horas. os pombos 
alisam as penas, no meu quarto cai o pó. 

um cano rebentou junto ao passeio. 
um pombo morto foi na enxurrada 
junto com as folhas dum jornal já lido. 
impera o declive 
um carro foi-se abaixo 
portas duplas fecham 
no ovo do sono a nossa gema. 

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite 
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme 
da joalharia, os lençóis na corda 
abanam os prédios, pombos debicam 

o azul dos azulejos, assoma à janela 
quem acordou. o alarme não pára o sangue 
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo 
não gravou 

e duma varanda um pingo cai 
de um vaso salpicando o fato do bancário 

Luiza Neto Jorge in 'A Lume' 

in Citador

4.4.17

Um dia sonhei em ter um piano-bar onde se ouvisse música assim ...



Chick Corea, Herbie Hancock, Keith Jarrett, McCoy Tyner

3.4.17

GRAND FINALE - O BELO E A CONSOLAÇÃO (DEBATE)



o debate final de uma série de programas todos disponíveis no Youtube


de Aristóteles

"O belo é o esplendor da ordem."


(in citador)