7.8.17

Parabéns Caetano Veloso nos teus 75 anos



Eu sou a chuva que lança a areia do Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança
A destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega
Você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não e nem disse que não
Eu sou um preto norte-americano forte
Com um brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música
A mais velha
A mais nova espada e seu corte
Sou o cheiro dos livros desesperados
Sou Gitá Gogóia
Seu olho me olha mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo

26.7.17

Gentrificação

1. Sabes, Lisboa? Já não há anjos debruçados nos telhados das vielas.
2. Vozes. Passaram mais ou menos quinze anos, desde que o boom do turismo começou, em meados dos anos 2010. OJE hIJE HHoje, depois de uma semana de hesitação, desci à cidade baixa, aquilo a que antigamente chamávamos, simplesmente, baixa. Não a reconheci.
3. Não me entendam mal, a zona está quente – “hot” para usar a linguagem dos locais –, cheia de sítios da moda, frequentados quase exclusivamente por turistas, limpa, com grande animação de rua; por todo o lado, em cada esquina, aos molhes, às dezenas, cruzei-me com grupos de britânicos, franceses, russos, cheguei mesmo a ver, julgo (de relance) um casal de portugueses, pelo menos falavam português sem sotaque.
4. Todos se entendem em inglês, até os espanhóis são obrigados a arranhar a língua de Shakespeare, e quando digo arranhar não é só no sentido figurado. No espaço balizado entre o rio e o marquês a que este, há quase 300 anos, deu um rosto rectilíneo, com um traçado geometricamente pouco português, acotovelavam-se milhares de turistas, novos residentes, gente de algo vinda de algures.
5. As casas da zona que ainda são de portugueses, estão quase todas dedicadas ao chamado turismo local. E há “duplexes” luxuosos com vista para o rio, ou pátios ajardinados nas traseiras, propriedade de milionários árabes, brasileiros ou americanos. Todas as semanas, e a coisa dura há mais de 15 anos, os jornais on-line, únicos que há, anunciam que uma nova vedeta, do espectáculo, do desporto, ou da moda, comprou uma casa em Portugal.
6. Mas só os mais ricos, eu diria mesmo os escandalosamente ricos, podem comprar nesta zona. a gentrificação ultrapassou as barreiras da cidade, conquistou novas regiões, toda a linha de Cascais foi tomada por estrangeiros, a esmagadora maioria chineses, fala-se em cem mil, ainda que não se saiba bem; alguns comentadores dizem que é um exagero, que é impossível serem tantos, eu faço-lhes notar que, afinal, cem mil cidadãos não são mais do que 0,005% da população chinesa.
7. Para fugir à confusão do centro, subi as colinas, mas foi pior a emenda que o soneto: em cada rua, a caminho do castelo, nas vielas do bairro alto, porta sim porta a seguir, um bar com petiscos anuncia “port wine” e “fish and chips” (o mau gosto gastronómico acompanha as marés). Além disso, o risco de atropelamento por um tuktuk é grande.
8. Um amigo perguntou-me há dias “o que é que os turistas que vêm a Lisboa não vêem?”. Cocei a cabeça, hesitei, acenei. “Portugueses!”, e o meu interlocutor riu-se a tempo de me impedir de o fazer. Seria verdade, pensei, insciente do olhar desiludido do meu amigo, que julgara ter graça e só tivera razão. E recordei uma frase antiga a propósito de Veneza, ou talvez de alguma cidade turística, como Lisboa ou o Porto: “ninguém gosta de fazer turismo para ver turistas”. Talvez fosse dantes, mas agora é tudo assim, e os locais verdadeiramente dignos de se ver banalizaram-se. No mau sentido. Gentrificaram.
9. Vozes. Um barulho infindável sai das bocas contentes que se passeiam à beira tejo. Sentei-me na esplanada da ribeira das naus, e recordei um dia, há muito tempo, em que uma personalidade portuguesa muito conhecida, daquelas que não passava despercebida em lado algum, ali se sentou, sozinho, sem segurança, apenas para ter alguns (inesperados) momentos de tranquilidade. Ninguém o reconheceu em português.
10. O que sucedeu? A gentrificação, definida, em termos simples, como a transformação dos bairros de baixo em alto valor. Causou uma revolução demográfica: a chegada de novos proprietários, de gente de posses, a bairros ou zonas mais pobres, mas com atrativos dantes desvalorizados – tornando-se ademais um fenómeno de moda, “trendy” -, aumentou o valor da propriedade, aumentou as rendas, expulsando os residentes mais pobres. As tascas desapareceram, substituídas por cadeias de comida rápida, lojas caras, escritórios. Toca fado gravado, comem-se especiarias portuguesas que os portugueses desconhecem. E se o fenómeno de moda é persistente, aos mais pobres seguem-se os remediados, depois a classe média, finalmente os abastados (mas não muito): todos são expulsos, para maior ou menor distância, conforme a conta bancária e os rendimentos.
11. Vão do bairro alto para campo de ourique, de campo de ourique para o restelo, do restelo para a amadora, da amadora para longe, para muito longe… bairro a bairro, cidade a cidade, a permanência dos locais tornou-se impossível. Parece impossível?
12. Dizem-me que os proprietários não sofrem da mesma forma os efeitos deste processo; mas a verdade é que eles, em cada fenómeno de bolha que precedeu (e seguiu) a gentrificação, não resistiram a vender. Ou, claro, a colocar os seus imóveis no mercado do arrendamento de curta duração. A saída dos nacionais, inevitável, acelerou.
13. Que fazer? A tuktukificação das cidades portuguesas começou há cerca de duas décadas, e alguns (apelidados de) alarmistas chamaram a atenção para o perigo daquilo a que se chamou gentrificação (de “gentry”, alta burguesia), usando a designação inventada pela britânica Ruth Glass na introdução a um livro de 1964 (London: aspects of change).
14. Apontaram-se soluções, recorrendo a exemplos de outros países e cidades (sim, a gentrificação é um fenómeno global): incrementar o arrendamento abordável por classes sociais de menores rendimentos, através da regulação de rendas; subsidiar a habitação (para rendas ou aquisição a preços aceitáveis), como em Paris; apoiar grupos locais, associações de moradores e outros para a criação de negócios sustentáveis; limitar o arrendamento temporário, devolvendo casas ao arrendamento tradicional (em São Francisco, em 2015, quase 2000 fogos estavam vazios, destinados ao arrendamento local); e outras soluções que privilegiem a vida local, os habitantes de sempre, o país que somos.
15. Não era fácil? Não foi. No meu sonho de daqui a 15 anos, a polémica das soluções (eu sei que o são), a incapacidade de sentir a cidade, as cidades portuguesas, como coisas vivas com gente dentro, transformou-nos a todos em borboletas extintas, gratas recordações de um tempo de antanho que acabou.
16. De dentro do vidro, em exposição, conservada em formol, Lisboa deixa-se contemplar por hordas de turistas míopes. E se eles não logram ver a alma da minha cidade bem-amada, é porque ela se mudou para os subúrbios.
PS. Que grande exagero! Quem pensou em fazer um comentário assim – ou mandar-me tomar um banho de mar para refrescar as ideias –, pode abster-se de o fazer. Eu sei que é um exagero. Será? Daqui a 15 anos falamos (a não ser que o governo, e as pessoas, e as instituições, e os intelectuais, e nós todos… sigamos o conselho referido acima).
, in Observador 25.07.2017

22.7.17

O ouro

" Em 1519, Hernan Cortés e os seus companheiros invadiram o México, até então um mundo isolado. Os Astecas, como se autodenominavam as pessoas que aí viviam, rapidamente perceberam que os forasteiros mostravam um extraordinário interesse por certo metal amarelo. De facto, pareciam nunca parar de falar nisso. O ouro não era conhecido dos nativos - era bonito e fácil de trabalhar, pelo que usavam-no para fazer jóias e estátuas e, ocasionalmente, usavam pó de ouro como meio de troca. No entanto, quando um asteca queria comprar alguma coisa, pagava, por norma, em bagos de cacau ou rolos de tecido. Como tal, a obsessão espanhola pelo ouro parecia inexplicável. O que tinha de tão importante aquele metal que não podia ser comido, bebido ou tecido, e que era demasiado macio para ser usado em ferramentas e armas? Quando os nativos questionaram Cortés quanto ao motivo de os espanhóis terem tal paixão pelo ouro, o conquistador respondeu: " Porque eu e os meus companheiros sofremos de uma doença do coração que só pode ser curada com ouro"."

in Sapiens, de Animais a Deuses de Yuval Noah Harari

17.7.17

As ditaduras do "policamente correcto" ...

(...) É um erro fatal acreditar que basta ignorar esta gente para não se ser afectado pelo seu zelo inquisitorial: o que comemos, bebemos, vestimos, as palavras que ensinamos aos nossos filhos e os brinquedos que damos aos nossos netos, tudo é pretexto para que imponham as suas teses e executem a sua engenharia social. Mais, são eles quem decide o que se pode ou não discutir. Durante anos trataram depreciativamente como dramas de faca e alguidar o que depois fizeram uma causa sua: a violência doméstica. Agora determinam que não se pode falar de questões de segurança: é populismo, dizem. Um dia farão dos assaltos às casas uma bandeira e logo toda a sociedade terá de ir a reboque do que de mais destrambelhado lhe ocorrer propor. No caso da família e do sexo foi precisamente isso que aconteceu: de início a luta pela igualdade entre homens e mulheres foi vista como um desperdício burguês porque a igualdade que contava e da qual decorriam todas as outras era a igualdade entre classes. Abstenho-me de escrever aqui o que os defensores da igualdade de classes então diziam sobre os homossexuais. Anos depois já nem de sexo se fala, vivemos numa espécie de ditadura andrógina ao serviço de uma entidade chamada género. Um dia esquecerão o género e outro tema os inebriará. Com igual espírito inquisitorial. (...)

excerto de um artigo de Helena Matos, 16/7/2017
http://observador.pt/opiniao/o-que-sera-feito-da-deputada-cigana/

Sines, anos 60, antes da construção do Porto


16.7.17

Lembrar antigas formas de comunicar



Quipo (do quíchua cusquenho Quipo ou KhipuIPA[ˈkʰipu], "") era um instrumento utilizado para comunicação, mas também como registro contábil e como registros mnemotécnicos entre os incas. Eram feitos da união de cordões que podem ser coloridos ou não, e poderia ter enfeites, como por exemplo ossos e penas, onde cada nó que se dava em cada cordão significava uma mensagem distinta. Cada cordão poderia ter um ou mais nós, ou nenhum nó, ou um nó na ponta, um nó na base, enfim, tudo era comunicado e transportado rapidamente ao imperador Inca no centro do império, Cuzco

20.6.17

sem palavras

fotografia de JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

15.6.17

Um poema

Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher 
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os 
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e 
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade. 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los 
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem. 

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, ed. Quetzal 

5.6.17

Inventário da nossa civilização

Fazer o inventário ou uma análise da nossa civilização, quer dizer o quê? Procurar esclarecer, de uma maneira rigorosa, a armadilha que fez do homem escravo das suas próprias criações. Por onde se infiltrou a inconsciência entre a acção e o pensamento metódicos? Na vida selvagem, a evasão constitui uma solução preguiçosa. É preciso reencontrar, na própria civilização em que vivemos, o pacto original entre o espírito e o mundo. De resto, trata-se de uma tarefa impossível de concretizar, por causa da brevidade da vida e da impossibilidade da colaboração e da sucessão. O que não é razão para não a empreender. Estamos todos em situação análoga à de Sócrates, o qual, enquanto esperava a morte na prisão, aprendeu a tocar lira... pelo menos, teremos vivido... 

Simone Weil, in 'A Gravidade e a Graça' 
(Citador)

8.5.17

ARMISTICE

Paris, les alliés au sommet de l'Arc de Triomphe le 8 Mai 1945

26.4.17

Pontes



A todos os que sonham a desagregação:
Lembrem-se, é urgente construir pontes,
porque será sempre inevitável!

25.4.17

25 de Abril


"Os rapazes dos tanques" abriram a janela para um Dia Novo que todos temos a responsabilidade de cuidar, em democracia, tendo em vista o bem comum, a liberdade de pensamento e a construção de um futuro melhor para todos. Viva a Liberdade e abaixo a arrogância do pensamento único!

23.4.17

A Europa cercada

O presidente americano Donald Trump é, deliberada, implícita ou involuntariamente, um dos maiores inimigos da União, assim como da NATO. Quer mandar sozinho. Não deseja ficar condicionado pelos aliados, nem pelos adversários, muito menos pelos outros. Há, todavia, uma eventual vantagem nessa atitude: pode ser que agora, finalmente, os europeus aceitem que têm de fazer um esforço para a sua defesa e para a segurança dos cidadãos e contra o terrorismo e outros perigos!
O presidente russo Vladimir Putin é, consciente, distraída ou acidentalmente, um grande perigo para a Europa. Deseja partilhar o mundo com os americanos, não quer ter confronos com a península ocidental europeia. Nessa atitude, há também um eventual benefício: pode ser que os europeus se convençam de que a Europa tem de ser defendida por ela própria, que a liberdade e o Estado social têm de ser protegidos e que à Europa não basta ser um parque temático de paz, cultura e turismo.
O presidente chinês Xi Jinping é, assumida, dissimulada ou inconscientemente, um perigoso inimigo da Europa. Quer países separados, não quer blocos. Quer parceiros comerciais dispersos, não quer uniões. Perante esta ameaça, há pelo menos um proveito: pode ser que os europeus se decidam a não ficar dependentes, a preparar a sua própria defesa, a competir economicamente e a impedir todas as formas de dumping social que têm ferido o Ocidente.
O presidente turco Erdogan é, decidida, desatenta ou fingidamente, uma ameaça perigosa para a Europa. Faz exigências, não paga o preço da democracia e joga com a arma dos refugiados. Nesse perigo, há pelo menos um possível ganho: o de obrigar a Europa a defender-se, a não ajoelhar perante ultimatos, a perder sentimentos de culpa e a resistir à chantagem étnica e religiosa, esta insidiosa maneira de explorar os preconceitos dos outros.
Também a partir do exterior, mas já com ramificações ou prolongamentos no interior da Europa, o terrorismo islâmico contribui para este cerco ameaçador. Apoiado por Estados de capitalismo predador e ajudado pela emoção dos candidatos a refugiado. A tendência irresistível da direita é de reclamar repressão. A propensão inevitável da esquerda é de protestar contra a segurança.
Cercada pelo exterior, a Europa e a União conhecem também os seus perigos interiores. Autoridades estabelecidas defendem a forma compacta, a coesão jurídica e a hierarquia de poderio económico e financeiro. Abominam a diversidade e a flexibilidade. Jubilam com a saída da Grã-Bretanha. Preparam-se para deixar sair quem não se conformar. Encaram a flexibilidade institucional e política como um castigo dos devedores, dos mais atrasados e dos menos poderosos.
De modo convergente, apesar de origens diferentes, os nacionalistas de direita, os populistas de todos os bordos, os soberanistas de esquerda e outros grupos políticos mais ou menos extravagantes, mas determinados, aproveitam a incerteza reinante e avançam nos seus projectos de destruição da União e do euro.
Hoje mesmo, em França, começa a jogar-se importante batalha, a completar dentro de duas semanas, na segunda volta, e a refazer dentro de dois meses, nas legislativas. Tal como, dentro de dois meses, na Grã-Bretanha. Ou ainda na Itália, não se sabe bem quando. Ou na Alemanha, lá mais para o Outono. Quatro das seis grandes nações europeias vão decidir por nós. Sendo que a Alemanha vai decidir mais. Nada conseguirá travar o caminho para a hegemonia alemã, a não ser uma mudança de rumo e de estrutura da União.
Até ao fim deste ano, serão tomadas decisões que vão marcar o destino. Não é o povo europeu que vai tomar essas decisões: esse povo não existe. São os povos nacionais que votam e decidem. Cada um por si. Não são os cidadãos europeus que vão exercer os seus direitos e os seus poderes: esses cidadãos não existem. São os cidadãos de cada país, uns mais do que outros, que vão decidir por todos nós.

Antonio Barreto, 23.04.2017 in Diário de Notícias

22.4.17

in " Aquele Grande Rio Eufrates"


Somos a grande ilha do silêncio de deus 
Chovam as estações soprem os ventos 
jamais hão-de passar das margens 

Caia mesmo uma bota cardada 
no grande reduto de deus e não conseguirá 
desvanecer a primitiva pegada 
É esta a grande humildade a pequena 
e pobre grandeza do homem


"
"GRANDEZA DO HOMEM" poema de Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

19.4.17

Aube


Rien ne bougeait encore au front des palais. L'eau était morte. Les camps d'ombres ne quittaient pas la route
du bois. J'ai marché, réveillant les haleines vives et tièdes, et les pierreries regardèrent, et les ailes
se levèrent sans bruit.

La première entreprise fut, dans le sentier déjà empli de frais et blêmes éclats, une fleur qui me dit son nom.

Je ris au wasserfall blond qui s'échevela à travers les sapins : à la cime argentée je reconnus la déesse.

Alors je levai un à un les voiles. Dans l'allée, en agitant les bras. Par la plaine, où je l'ai dénoncée au coq.
A la grand'ville elle fuyait parmi les clochers et les dômes, et courant comme un mendiant sur les quais de marbre,
je la chassais.

En haut de la route, près d'un bois de lauriers, je l'ai entourée avec ses voiles amassés, et j'ai senti un peu
son immense corps. L'aube et l'enfant tombèrent au bas du bois.

Au réveil il était midi.

Arthur Rimbaud -(1854-1891)

17.4.17

Nacionalismo


"O nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade."

frase atribuída a Albert Einstein

EUFRATES


9.4.17

Acordar na Rua do Mundo

madrugada, passos soltos de gente que saiu 
com destino certo e sem destino aos tombos 
no meu quarto cai o som depois 
a luz. ninguém sabe o que vai 
por esse mundo. que dia é hoje? 
soa o sino sólido as horas. os pombos 
alisam as penas, no meu quarto cai o pó. 

um cano rebentou junto ao passeio. 
um pombo morto foi na enxurrada 
junto com as folhas dum jornal já lido. 
impera o declive 
um carro foi-se abaixo 
portas duplas fecham 
no ovo do sono a nossa gema. 

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite 
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme 
da joalharia, os lençóis na corda 
abanam os prédios, pombos debicam 

o azul dos azulejos, assoma à janela 
quem acordou. o alarme não pára o sangue 
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo 
não gravou 

e duma varanda um pingo cai 
de um vaso salpicando o fato do bancário 

Luiza Neto Jorge in 'A Lume' 

in Citador

4.4.17

Um dia sonhei em ter um piano-bar onde se ouvisse música assim ...



Chick Corea, Herbie Hancock, Keith Jarrett, McCoy Tyner

3.4.17

GRAND FINALE - O BELO E A CONSOLAÇÃO (DEBATE)



o debate final de uma série de programas todos disponíveis no Youtube


de Aristóteles

"O belo é o esplendor da ordem."


(in citador)

20.3.17

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair 
sobre os vários solos 
desde perder o chão repentino sob os pés 
como se perde os sentidos numa 
queda de amor, ao encontro 
do cabo onde a terra abate e 
a fecunda ausência excede 

até à queda vinda 
da lenta volúpia de cair, 
quando a face atinge o solo 
numa curva delgada subtil 
uma vénia a ninguém de especial 
ou especialmente a nós uma homenagem 
póstuma. 

Luiza Neto Jorge, in 'O Seu a Seu Tempo' 

15.3.17

Durei horas incógnitas

(...) Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta — tudo isso, no meu passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção!
Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amámos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso nocturno do meu passeio à beira-mar...
(...)
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. 1930

12.3.17

"computer-generated-poetry" ... sujestão de assuntos a explorar


https://www.ibm.com/blogs/research/2017/03/road-not-taken-computer-generated-poetry/


http://research.ibm.com/ibm-q/




Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!

Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...

Álvaro de Campos ( heterónimo de Fernando Pessoa)

25.2.17

Hollywood, 2017 by Annie Leibovitz


Photograph by Annie Leibovitz. Styled by Jessica Diehl, VANITY FAIR

as imagens de Leibovitz nunca são superficiais, mesmo quando nos mostra a superficialidade

Aqui o seu mais recente trabalho para a Vanity Fair:



24.2.17

Metro, New York, 1946 by Standley Kubrick

Fotografias do Metro em New York em 1946 
tiradas por Standley Kubrick quando tinha apenas 17 anos. 

Vale a pena ver todas:

23.2.17

A terra poeteia, de campo a campo

A terra poeteia, de campo a campo,
com árvores interlineares, e deixa
que teçamos nossos próprios caminhos ao redor
da terra arada, para o mundo.
Flores rejubilam-se ao vento,
a grama estende-se macia para acolhê-las.
O céu se torna azul e saúda suavemente
as macias cadeias que o sol teceu.
As pessoas passam, ninguém está perdido —
terra, céu, luz e florestas —
brincam na brincadeira do Todo-Poderoso.
Hannah Arendt , in Revista Bula

20.2.17

an approach ...

"an approach to Jorge 2" de Luísa Correia Pereira

19.2.17

A luz ...

"A luz é cada vez mais clara 
e a treva cada vez mais negra."

Teixeira de Pascoaes

11.2.17

Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti - No Teu Poema



No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E aberta, uma varanda para o mundo

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço do corpo que adormece em cama fria
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva, a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe a noite
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar
O cais da nova nau das descobertas
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco, ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera... Do futuro

José Luís Tinoco

Digo: "Lisboa"

Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver
Sophia de Mello Breyner Andresen (1977), in Obra Poética, 2011