23.4.17

A Europa cercada

O presidente americano Donald Trump é, deliberada, implícita ou involuntariamente, um dos maiores inimigos da União, assim como da NATO. Quer mandar sozinho. Não deseja ficar condicionado pelos aliados, nem pelos adversários, muito menos pelos outros. Há, todavia, uma eventual vantagem nessa atitude: pode ser que agora, finalmente, os europeus aceitem que têm de fazer um esforço para a sua defesa e para a segurança dos cidadãos e contra o terrorismo e outros perigos!
O presidente russo Vladimir Putin é, consciente, distraída ou acidentalmente, um grande perigo para a Europa. Deseja partilhar o mundo com os americanos, não quer ter confronos com a península ocidental europeia. Nessa atitude, há também um eventual benefício: pode ser que os europeus se convençam de que a Europa tem de ser defendida por ela própria, que a liberdade e o Estado social têm de ser protegidos e que à Europa não basta ser um parque temático de paz, cultura e turismo.
O presidente chinês Xi Jinping é, assumida, dissimulada ou inconscientemente, um perigoso inimigo da Europa. Quer países separados, não quer blocos. Quer parceiros comerciais dispersos, não quer uniões. Perante esta ameaça, há pelo menos um proveito: pode ser que os europeus se decidam a não ficar dependentes, a preparar a sua própria defesa, a competir economicamente e a impedir todas as formas de dumping social que têm ferido o Ocidente.
O presidente turco Erdogan é, decidida, desatenta ou fingidamente, uma ameaça perigosa para a Europa. Faz exigências, não paga o preço da democracia e joga com a arma dos refugiados. Nesse perigo, há pelo menos um possível ganho: o de obrigar a Europa a defender-se, a não ajoelhar perante ultimatos, a perder sentimentos de culpa e a resistir à chantagem étnica e religiosa, esta insidiosa maneira de explorar os preconceitos dos outros.
Também a partir do exterior, mas já com ramificações ou prolongamentos no interior da Europa, o terrorismo islâmico contribui para este cerco ameaçador. Apoiado por Estados de capitalismo predador e ajudado pela emoção dos candidatos a refugiado. A tendência irresistível da direita é de reclamar repressão. A propensão inevitável da esquerda é de protestar contra a segurança.
Cercada pelo exterior, a Europa e a União conhecem também os seus perigos interiores. Autoridades estabelecidas defendem a forma compacta, a coesão jurídica e a hierarquia de poderio económico e financeiro. Abominam a diversidade e a flexibilidade. Jubilam com a saída da Grã-Bretanha. Preparam-se para deixar sair quem não se conformar. Encaram a flexibilidade institucional e política como um castigo dos devedores, dos mais atrasados e dos menos poderosos.
De modo convergente, apesar de origens diferentes, os nacionalistas de direita, os populistas de todos os bordos, os soberanistas de esquerda e outros grupos políticos mais ou menos extravagantes, mas determinados, aproveitam a incerteza reinante e avançam nos seus projectos de destruição da União e do euro.
Hoje mesmo, em França, começa a jogar-se importante batalha, a completar dentro de duas semanas, na segunda volta, e a refazer dentro de dois meses, nas legislativas. Tal como, dentro de dois meses, na Grã-Bretanha. Ou ainda na Itália, não se sabe bem quando. Ou na Alemanha, lá mais para o Outono. Quatro das seis grandes nações europeias vão decidir por nós. Sendo que a Alemanha vai decidir mais. Nada conseguirá travar o caminho para a hegemonia alemã, a não ser uma mudança de rumo e de estrutura da União.
Até ao fim deste ano, serão tomadas decisões que vão marcar o destino. Não é o povo europeu que vai tomar essas decisões: esse povo não existe. São os povos nacionais que votam e decidem. Cada um por si. Não são os cidadãos europeus que vão exercer os seus direitos e os seus poderes: esses cidadãos não existem. São os cidadãos de cada país, uns mais do que outros, que vão decidir por todos nós.

Antonio Barreto, 23.04.2017 in Diário de Notícias

22.4.17

in " Aquele Grande Rio Eufrates"


Somos a grande ilha do silêncio de deus 
Chovam as estações soprem os ventos 
jamais hão-de passar das margens 

Caia mesmo uma bota cardada 
no grande reduto de deus e não conseguirá 
desvanecer a primitiva pegada 
É esta a grande humildade a pequena 
e pobre grandeza do homem


"
"GRANDEZA DO HOMEM" poema de Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

19.4.17

Aube


Rien ne bougeait encore au front des palais. L'eau était morte. Les camps d'ombres ne quittaient pas la route
du bois. J'ai marché, réveillant les haleines vives et tièdes, et les pierreries regardèrent, et les ailes
se levèrent sans bruit.

La première entreprise fut, dans le sentier déjà empli de frais et blêmes éclats, une fleur qui me dit son nom.

Je ris au wasserfall blond qui s'échevela à travers les sapins : à la cime argentée je reconnus la déesse.

Alors je levai un à un les voiles. Dans l'allée, en agitant les bras. Par la plaine, où je l'ai dénoncée au coq.
A la grand'ville elle fuyait parmi les clochers et les dômes, et courant comme un mendiant sur les quais de marbre,
je la chassais.

En haut de la route, près d'un bois de lauriers, je l'ai entourée avec ses voiles amassés, et j'ai senti un peu
son immense corps. L'aube et l'enfant tombèrent au bas du bois.

Au réveil il était midi.

Arthur Rimbaud -(1854-1891)

17.4.17

Nacionalismo


"O nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade."

frase atribuída a Albert Einstein

EUFRATES


9.4.17

Acordar na Rua do Mundo

madrugada, passos soltos de gente que saiu 
com destino certo e sem destino aos tombos 
no meu quarto cai o som depois 
a luz. ninguém sabe o que vai 
por esse mundo. que dia é hoje? 
soa o sino sólido as horas. os pombos 
alisam as penas, no meu quarto cai o pó. 

um cano rebentou junto ao passeio. 
um pombo morto foi na enxurrada 
junto com as folhas dum jornal já lido. 
impera o declive 
um carro foi-se abaixo 
portas duplas fecham 
no ovo do sono a nossa gema. 

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite 
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme 
da joalharia, os lençóis na corda 
abanam os prédios, pombos debicam 

o azul dos azulejos, assoma à janela 
quem acordou. o alarme não pára o sangue 
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo 
não gravou 

e duma varanda um pingo cai 
de um vaso salpicando o fato do bancário 

Luiza Neto Jorge in 'A Lume' 

in Citador

4.4.17

Um dia sonhei em ter um piano-bar onde se ouvisse música assim ...



Chick Corea, Herbie Hancock, Keith Jarrett, McCoy Tyner

3.4.17

GRAND FINALE - O BELO E A CONSOLAÇÃO (DEBATE)



o debate final de uma série de programas todos disponíveis no Youtube


de Aristóteles

"O belo é o esplendor da ordem."


(in citador)

20.3.17

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair 
sobre os vários solos 
desde perder o chão repentino sob os pés 
como se perde os sentidos numa 
queda de amor, ao encontro 
do cabo onde a terra abate e 
a fecunda ausência excede 

até à queda vinda 
da lenta volúpia de cair, 
quando a face atinge o solo 
numa curva delgada subtil 
uma vénia a ninguém de especial 
ou especialmente a nós uma homenagem 
póstuma. 

Luiza Neto Jorge, in 'O Seu a Seu Tempo' 

15.3.17

Durei horas incógnitas

(...) Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta — tudo isso, no meu passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção!
Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amámos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso nocturno do meu passeio à beira-mar...
(...)
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. 1930

12.3.17

"computer-generated-poetry" ... sujestão de assuntos a explorar


https://www.ibm.com/blogs/research/2017/03/road-not-taken-computer-generated-poetry/


http://research.ibm.com/ibm-q/




Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!

Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...

Álvaro de Campos ( heterónimo de Fernando Pessoa)

25.2.17

Hollywood, 2017 by Annie Leibovitz


Photograph by Annie Leibovitz. Styled by Jessica Diehl, VANITY FAIR

as imagens de Leibovitz nunca são superficiais, mesmo quando nos mostra a superficialidade

Aqui o seu mais recente trabalho para a Vanity Fair:



24.2.17

Metro, New York, 1946 by Standley Kubrick

Fotografias do Metro em New York em 1946 
tiradas por Standley Kubrick quando tinha apenas 17 anos. 

Vale a pena ver todas:

23.2.17

A terra poeteia, de campo a campo

A terra poeteia, de campo a campo,
com árvores interlineares, e deixa
que teçamos nossos próprios caminhos ao redor
da terra arada, para o mundo.
Flores rejubilam-se ao vento,
a grama estende-se macia para acolhê-las.
O céu se torna azul e saúda suavemente
as macias cadeias que o sol teceu.
As pessoas passam, ninguém está perdido —
terra, céu, luz e florestas —
brincam na brincadeira do Todo-Poderoso.
Hannah Arendt , in Revista Bula

20.2.17

an approach ...

"an approach to Jorge 2" de Luísa Correia Pereira

19.2.17

A luz ...

"A luz é cada vez mais clara 
e a treva cada vez mais negra."

Teixeira de Pascoaes

11.2.17

Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti - No Teu Poema



No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E aberta, uma varanda para o mundo

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço do corpo que adormece em cama fria
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva, a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe a noite
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar
O cais da nova nau das descobertas
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco, ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera... Do futuro

José Luís Tinoco

Digo: "Lisboa"

Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver
Sophia de Mello Breyner Andresen (1977), in Obra Poética, 2011

1.2.17

Donald Trump é patético e perigoso, mas temos que combatê-lo nas raízes senão torna-se incontrolável

Donald Trump é patético, fazendo-se filmar a cada Decreto que assina, para se inscrever no tempo e na realidade, para se legitimar junto dos seus eleitores. Para ele e para aqueles que o dirigem as instituições são dispensáveis, pois a sua acção dirige-se directamente "ao povo".
Donald Trump tem a preparação de uma criança para governar, parece-nos um palhaço do mundo de hoje, mas infelizmente ele quer mesmo levar-se a sério, sem qualquer preocupação face às consequências das acções que não param.
Tem uma ignorância gritante e uma arrogância ainda maior. Mas a verdade é que é suportado por milhões de americanos e por muita gente no mundo inteiro, mesmo na Europa, que simpatizam com a sua ideologia e com a sua atitude prática de desmontagem dos valores civilizacionais. E é a essas pessoas que é preciso chegar, é a essas pessoas que os políticos democratas, lúcidos e moderados dos dias de hoje têm que saber chegar. A simples indignação contra esta nova administração não chega, é preciso uma atitude firme de esclarecimento e proximidade junto das pessoas, desses milhares que vivem no medo, na desconfiança, na intransigência, que vivem arredados e que em silêncio se deliciam com as notícias das novas leis de Trump que dia após dia sentem como se fossem suas.

29.1.17

A democracia, a ditadura e o divino

Após cinquenta anos de desenvolvimento, de protecção social, de paz e de liberdade, o mundo ocidental entrou em crise. Economias e sistemas políticos não acertam. As populações não acreditam. As forças centrífugas fazem sentir o seu efeito. Em quase todos os países democráticos surgem perturbações e ameaças difíceis de conter. Na maior parte desses países, é fácil encontrar o preconceito como resposta ao preconceito. Ou o nacionalismo como reacção contra a liberdade e o cosmopolitismo. Meio século de esplendoroso progresso parece ameaçado
Estamos a viver tempos difíceis. As democracias estão a falhar. São como aqueles motores de automóvel que, aos soluços, dão sinais de que alguma coisa, gasolina, velas ou carburador, está a falhar. As democracias têm tido enormes dificuldades em lidar com a fúria capitalista e a ganância financeira. Têm revelado fraqueza em tratar com as esquerdas revolucionárias. São débeis na reacção ao nacionalismo. Têm mostrado pusilanimidade em combater os grandes grupos económicos multinacionais. Não conseguem sobrepor-se à ditadura das sondagens, da publicidade e da propaganda. Têm tendência para deixar crescer as desigualdades sociais. Perdem o sentido de Estado e rendem-se facilmente ao mercado. São frágeis perante a demagogia das esquerdas e o populismo de toda a gente. Têm medo dos estrangeiros, dos refugiados e dos imigrantes. Têm receio de parecer racistas. Quase conseguem conviver com o terrorismo, sobretudo o reclamado pelas minorias. Encontram razões sociais, origens familiares e causas políticas para explicar, justificar e desculpar o crime, o terrorismo, a violência doméstica, o insucesso escolar e a falta de disciplina. Têm medo de parecer autoritários. As democracias deixam-se deslizar e não conseguem evitar a deriva da demagogia e do preconceito.
Democratas começam a pensar que, se a democracia não é capaz de combater esses novos inimigos, talvez seja de imaginar soluções mais duras, nacionalistas de esquerda ou de direita, capazes de contrariar os estrangeiros, liquidar o mercado e eliminar a iniciativa privada. Uns procuram recorrer à religião e ao divino, sejam os cultos estabelecidos sejam as novas seitas. Outros, pelo contrário, culpam o divino e procuram contrariar todo e qualquer contributo das religiões para a vida colectiva.
Dentro e fora da democracia, os esforços para casar governo e igreja, para ligar política e religião, sucedem e aumentam. Donald Trump não gosta de Darwin e já fez declarações arrepiantes sobre os fundamentos religiosos da família. Putin vai buscar os chefes da Igreja Ortodoxa cada vez que se vê atrapalhado. Enquanto o Papa Francisco irrompe pelos territórios tradicionais da esquerda, as direitas europeias afastam-se da religião ou sonham com uma restauração tridentina. Na China, os poderes procuram de novo em Confúcio uma ajuda para o comunismo do dia. Noutros países asiáticos, tenta-se encontrar em Buda colaboração para combater os temores. Em Israel, em Gaza, em Teerão, em Riade, em Bagdad, em Manila e em Jacarta os Estados tentam conviver com a religião e convencer os fiéis. Na Turquia, Erdogan revê as relações do Estado com a religião. Noutros casos, a religião apodera-se das alavancas dos poderes políticos e militares.
Há ditadores que encontram fácil ligação com os deuses e as igrejas. Outros que se lhes opõem ferozmente. Há igrejas que combinam bem com o poder político ditatorial. Outras que calam e consentem. Outras ainda que não consentem e são caladas.
Apesar da escravatura, mau grado a Inquisição, não obstante a contra-reforma e outras formas de cumplicidade das igrejas com o pior das políticas, os cristãos têm a seu crédito a fundamental separação entre Deus e César, entre a Igreja e o Estado e entre a Bíblia e a Constituição. Não é pouca coisa.


Antonio Barreto, 8-1-2016 no Diário de Notícias

27.1.17

VITA ACTIVA: THE SPIRIT OF HANNAH ARENDT official US trailer

VITA ACTIVA: THE SPIRIT OF HANNAH ARENDT official US trailer



Vejam este documentário! A História repete-se e é indispensável pensar e conhecer a raiz das coisas para que possamos fazer as escolhas acertadas e pensar pela nossa mente!

19.1.17

15.1.17

Nós Estamos Aqui: O Pálido Ponto Azul



O mundo mudou decisivamente nas últimas décadas. Vão naturalmente desaparecendo aqueles que ajudaram a traçar o melhor do nosso mundo e não encontramos nos actuais lideres alguém que possa acompanhar a grandeza e a presença de espírito dos que partem. Apesar do mundo em geral estar hoje melhor, especialmente para os milhões que têm saído da miséria extrema, há um outro movimento que ameaça escurecer a luz que conquistámos. Pelo menos na Europa, há uma mudança em movimento, quase um retrocesso, que ameaça os valores que conquistámos em tantas guerras e lutas; uma ameaça que vem da ignorância, da arrogância, do medo; uma sombra de descrença nas soluções políticas; um processo complexo de descrença que também passa pelo pior que a União Europeia tem: uma tecnocracia errática que afasta as instituições dos cidadãos porque esquece a dimensão cultural e histórica das populações tando foco ao acessório em detrimento do essencial. É bom rever este pequeno video que nos lembra que procurar a paz e a tolerância é essencial, porque só a partir dai podemos desenhar um futuro melhor para todos.

O pálido ponto azul 2 - Carl Sagan

14.1.17

O Amor e o Tempo

Pela montanha alcantilada 
Todos quatro em alegre companhia, 
O Amor, o Tempo, a minha Amada 
E eu subíamos um dia. 

Da minha Amada no gentil semblante 
Já se viam indícios de cansaço; 
O Amor passava-nos adiante 
E o Tempo acelerava o passo. 

— «Amor! Amor! mais devagar! 
Não corras tanto assim, que tão ligeira 
Não pode com certeza caminhar 
A minha doce companheira!» 

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados, 
Abrem as asas trémulas ao vento... 
— «Porque voais assim tão apressados? 
Onde vos dirigis?» — Nesse momento, 

Volta-se o Amor e diz com azedume: 
— «Tende paciência, amigos meus! 
Eu sempre tive este costume 
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus! 


António Feijó , (1859 -1917) , in 'Sol de Inverno' 

10.1.17

Mario Soares, o europeu

Patriota, sim, mas europeu. Ou um europeu patriota, como devíamos ser todos.
Talvez a morte de Mário Soares, desfecho previsível há algum tempo, permita finalmente esclarecer um equívoco, usado por tanta gente contra o ideal europeu, particularmente nos últimos anos e nomeadamente no rescaldo das várias crises europeias – das dívidas soberanas, do euro, dos refugiados, da democracia liberal:
Esse equívoco consiste na ideia de que não podemos ser a um tempo profundamente patriotas e convictamente europeus, adeptos da integração dos povos europeus num projecto como o da União Europeia e em simultâneo apaixonados pelo nosso país, as nossas gentes, a nossa identidade (no caso da portuguesa) milenar, periférica, humana, aventureira, universalista.
Mário Soares disse-o várias vezes, em entrevistas a órgãos de comunicação, em momentos distintos da sua vida pública: acreditava na Europa, acreditava na União Europeia, e era um português de lei, que amava o seu país acima de tudo o resto. Como eu, aliás, como tantas daqueles que acreditamos nesta visão de um continente em paz, protegido pelo cimento de interesses comuns da guerra, da devastação, da miséria, que sempre o assolou, no que foi, ao longo dos séculos, o traço distintivo principal da Europa, esse continente turbulento, como lhe chamou, creio, Churchill.
Há uma história sobre Mário Soares repetidas vezes evocada, contada por muita gente, mas que não resisto a repetir: em 1976, recém primeiro-ministro da jovem democracia portuguesa, reuniu no Hotel Palace, no Estoril, os economistas portugueses mais reputados de então sobre a hipótese de um pedido de adesão às Comunidades Europeia. Praticamente todos sugeriram que Portugal assinasse um qualquer tratado de associação, mas descartaram a hipótese de adesão, para a qual o país não estaria preparado. No final da reunião, Soares decidiu: e o pedido foi feito pouco tempo depois.
Portugal aderiu em 1986 à então Comunidade Europeia graças em grande parte à sua acção. A verdade é que, depois de um arranque auspicioso das negociações, o processo de adesão sofreu atrasos, arrastou-se, pareceu quase, a certa altura, condenado a não se concretizar. A vontade política da Europa dos dez – que incluía já a Grécia – em concluir a adesão portuguesa atingiu um mínimo preocupante em 1983.
Mário Soares, primeiro-ministro do recém-formado governo do Bloco Central, afirmou então publicamente que Portugal não estava disposto a esperar indefinidamente pela adesão. Que a CEE tinha de tomar uma decisão. Soares escolhera para chefe das negociações um europeísta convicto, e teimoso: Ernâni Rodrigues Lopes, seu ministro das finanças. Num país em crise económica aguda (provavelmente a maior até à crise de 2009/11), a adesão à CEE torna-se no país a questão política principal.
Mas o processo continua a arrastar-se. Soares impacienta-se e ameaça olhar para outras paragens, em alternativa à CEE. A França coloca obstáculos, adia uma decisão até às eleições de 1984 para o Parlamento Europeu. No Conselho Europeu de Fontainebleau, em Junho desse ano, os líderes europeus chegam a acordo sobre o delicado dossiê da chamada compensação britânica, um dos principais obstáculos à conclusão do processo de adesão de Portugal (e também de Espanha). No rescaldo de Fontainebleau, Miterrand promete a “son ami” Soares que o dossiê português estará fechado até 30 de Setembro.
Mas a adesão portuguesa continua a marcar passo. E Soares irrita-se: chama os embaixadores europeus em Portugal, dá-lhes conta da sua insatisfação. E exige que seja afirmada inequivocamente a irreversibilidade da adesão portuguesa. No dia 24 de Outubro, as instituições europeias assinam em Dublin um “constat d’accord”, documento exclusivamente político, que sela o processo e onde, sem tibiezas, Comissão e Conselho estabelecem uma data para a adesão.
Portugal será europeu a 1 de Janeiro de 1986, depois de uma cerimónia nos Jerónimos, no dia 12 de Junho de 1985, em que Mário Soares é figura de proa; as imagens desse momento passam vezes sem conta, ano após ano, nas televisões portuguesa. E Soares conseguiu, feito simbólico por excelência, que a assinatura portuguesa precedesse a espanhola – a qual terá lugar nessa mesma tarde -, uma espécie de “cavalo de batalha” do então primeiro-ministro e futuro Presidente de Portugal.
Nos últimos anos, Mário Soares mostrou-se desencantado com a evolução da Europa. Mas entenda-se bem que nunca pôs em causa o ideal europeu e a ideia antiga, grandiosa e bela, de uma integração profunda dos povos do continente. Teria aliás, na sua vida, mais alguns encontros com a Europa da União, sendo por exemplo deputado europeu – e um dos mais respeitados que pisou o hemiciclo de Estrasburgo, apesar do “faux pas” da candidatura à Presidência do Parlamento Europeu, que podia ter facilmente conquistado se tivesse tido a paciência de esperar meia legislatura (2 anos e meio); mas ele era assim, impaciente, político até à medula, apressado, mesmo na velhice, sobretudo na velhice, sempre e ainda com projectos, a olhar para o futuro.
Soares amava a paz, a democracia e a liberdade e sabia que só a integração, baseada nos valores europeus da solidariedade e da comunhão de interesses entre os seus países, as garantia.
Mário Soares era um patriota e um europeu. Pode ser que a sua morte, inevitável como todas, marque também, pelo menos em Portugal, o princípio do fim do maior dos equívocos: o de que a União Europeia é inconciliável com as soberanias nacionais.
Ela, sabia-o ele, é o garante da soberania dos Estados europeus, porque é ela que lhes assegura a paz e a estabilidade de que a Europa tanto carece.
Também esse legado nos deixa Mário Soares.
- Paulo de Almeida Sande in Obervador
http://observador.pt/opiniao/mario-soares-o-europeu/http://observador.pt/opiniao/mario-soares-o-europeu/

2.1.17

FELIZ ANO NOVO PARA TODOS OS DESTINOS !


A ascensão da nova ignorância

Entre os temas tabu dos nossos dias está a ignorância. Parece que falar da ignorância coloca logo quem o faz numa situação de arrogância intelectual, o que inibe muita gente de a nomear. Mas não há muita razão para se enfiar essa carapuça, tanto mais que o problema é enorme e está agravar-se e a assumir novas formas, socialmente agressivas. Acompanha outro tipo de fenómenos como o populismo, a chamada “pós-verdade”, a circulação indiferenciada de notícias falsas, e, o que é mais grave, a indiferença sobre a sua verificação. Não explica, nem é a causa de nenhum destes fenómenos, mas é sua parente próxima e faz parte da mesma família. É, repetindo uma fórmula que já usei, como se de repente se deixasse de ir ao médico, e se passasse a ir ao curandeiro.
Uso aqui uma noção utilitária de ignorância que pode ser simplista, mas que serve. Ser ignorante é não ter os instrumentos para se mover no mundo que nos rodeia, ser sujeito mais do que ser actor, não conseguir atingir o empowerment que é suposto se poder ter para se actuar conforme as circunstâncias, de modo a crescer, ser capaz, viver uma vida qualificada e tirar dela uma experiência enriquecedora, controlando-se a si próprio tanto quanto é possível, e não menosprezando as condições para se ser feliz, “habitualmente” feliz. Isto é muito Dale Carnegie, mas serve, não é preciso complicar à partida.
Percebe-se, usando esta definição, que a ignorância pode ser descrita como a pobreza, cujos efeitos e condições de superação são exactamente do mesmo tipo. A ignorância é uma forma de pobreza e o seu crescimento acentua a pobreza em geral e, mais do que a pobreza, a exclusão e a diferenciação social. É até um dos mecanismos mais eficazes para aumentar a distância entre pobres e ricos, e para estabilizar um status quo nos pobres, que, como a droga, tem efeitos de satisfação instantânea, de paraíso artificial, ou, se se quiser de “ópio do povo”.
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Faço uma distinção entre aquilo a que chamo “a antiga ignorância” e “a nova”. A antiga tem muito que ver com a baixa qualificação profissional, com a insuficiente escolaridade, com a má qualidade de muitas escolas, sem meios, sem professores preparados, com o analfabetismo funcional. É um factor do nosso atraso e ajuda a potenciar os efeitos perversos da nova ignorância, mas não a explica por si só.
Contentamo-nos muito com a diminuição estatística da antiga ignorância e isso em Portugal é mais do que compreensível. O sucesso da escola, e da escolarização, o ensino para adultos, as melhorias verificadas em disciplinas como Português e Matemática são instrumentos fundamentais, entre outras coisas, para a mobilidade social, mas, mesmo que tenhamos, como agora se diz, as gerações mais qualificadas, estamos cegos quanto ao crescimento da nova ignorância, não só em aliança e em tandem com a antiga, mas assumindo novas formas e efeitos. O facto de haver um modismo tecnológico e se confundir a utilização de gadgets, aliás bastante rudimentar, com um novo saber, que implica novas competências, esconde essa regra básica de que as literacias para os usar vêm do sistema escolar a montante e a possibilidade de os usar para uma melhoria social só existe a jusante se acompanhar uma evolução social que não se está a verificar. Mais do que uma evolução, há uma involução.
A antiga ignorância assentava numa carência, numa falta, a nova assenta numa ilusão. É por isso que a antiga ignorância era vista como um problema da sociedade e a nova é vista como um “progresso”, ou como uma tendência contra a qual é inútil lutar. Isso tem muito que ver com uma ideologia corrente face às novas tecnologias, em particular aquelas que têm imediatos efeitos sociais como os telemóveis, as redes sociais, e certos modos de usar os videojogos, a realidade virtual e mesmo o computador e a televisão.
O primeiro efeito nefasto dessa ideologia é a crença de que são as novas tecnologias que estão a mudar a sociedade. É o contrário. É a mudança da sociedade que potencia o uso de determinadas tecnologias, que depois acentuam os efeitos de partida. Muitas tecnologias de “contacto” — como programas de “presentificação”, que fazem as pessoas olharem para os seus telemóveis centenas de vezes por dia, e os adolescentes, na vanguarda desta nova ignorância juntamente com os seus jovens pais adultos, passarem o dia a enviarem mensagens sem qualquer conteúdo — só têm sucesso porque se deu uma deterioração acentuada das formas de sociabilidade interpessoais, substituídas por um Ersatz de presença e companhia tão efémero que tem de estar sempre a ser repetido. Sociedades sem relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interacções de grupo, sem movimentos colectivos de interesse comum dependem de formas artificiais e, insisto, pobres, de relacionamento que se tornam adictivas como a droga. Não há maior punição para um adolescente do que se lhe tirar o telemóvel, e alguns dos conflitos mais graves que ocorrem hoje nas escolas estão ligados ao telemóvel que funciona como uma linha de vida.
Nada é mais significativo e deprimente do que ver numa entrada de uma escola, ou num restaurante popular, ou na rua, pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, vendo a sua página de Facebook, centenas de vezes por dia. Que vida pode sobrar?

Ainda há-de alguém convencer-me que este comportamento lá por usar tecnologias modernas representa uma vantagem e não uma patologia. Faz parte de sociedades em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar, curiosidade de olhar para fora, gosto por actividades lentas como ler, ou ver com olhos de ver. E se olharmos para os produtos de tanta página de Facebook, de tanta mensagem, de tanto comentário não editado, de tanta “opinião” sobre tudo e todos, escritas num português macarrónico e cheio de erros, encontramos fenómenos de acantonamento, de tribalização, de radicalização, de cobardia anónima, de ajustes de contas, de bullying num mundo que tem de ser sempre excitado, assertivo e taxativo. Um dos maiores riscos para o mundo é ter um presidente dos EUA que governa pelo Twitter como um adolescente, com mensagens curtas, sem argumentação, que, para terem efeito, têm de ser excessivas e taxativas.

José Pacheco Pereira, 31.12.2016 Público