13.12.14

ENERGIA E ÉTICA

Sei isto: a minha energia está canalizada 
Para a palavra fazer, gosto da ideia de construção 
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sítio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas que gosto, nunca às que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que na vida se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam 
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes 
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela):
- e é talvez uma moral – 
mover-me apenas em direcção ao que gosto. 
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar abaixo: 
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço de onde possa receber aquilo que
quero. Se chegar lá de noite, montarei acampamento.


Gonçalo M. Tavares

10.12.14

A esposa

Às vezes, nessas noites frias e enevoadas
Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos
Essa estranha visão de mulher calma
Surgindo do vazio dos meus olhos parados
Vem espiar minha imobilidade.


E ela fica horas longas, horas silenciosas
Somente movendo os olhos serenos no meu rosto
Atenta, à espera do sono que virá e me levará com ele.
Nada diz, nada pensa, apenas olha — e o seu olhar é como a luz
De uma estrela velada pela bruma.
Nada diz. Olha apenas as minhas pálpebras que descem
Mas que não vencem o olhar perdido longe.
Nada pensa. 
Virá e agasalhará minhas mãos frias
Se sentir frias suas mãos.

Quando a porta ranger e a cabecinha de criança
Aparecer curiosa e a voz clara chamá-la num reclamo
Ela apontará para mim pondo o dedo nos lábios
Sorrindo de um sorriso misterioso
E se irá num passo leve
Após o beijo leve e roçagante...

Eu só verei a porta que se vai fechando brandamente...
Ela terá ido, a esposa amiga, a esposa que eu nunca terei.

6.12.14

Mar de Creta


A poesia é oferecida

(...)

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

(...)

Sophia de Mello Breyner in Retrato de Mónica

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

30.11.14

Qual o Próximo Pretexto para o Holocausto ?


Vi o fim do fascismo. Foi bom. Vejo o fim do comunismo. É bom. E vi durante toda a vida como um e outro foram úteis para o ódio se cumprir. Mas finda a utilidade desses pretextos, que outro pretexto vai ser? Curamos os efeitos da doença, guardamos a doença para outra vez. É a reserva maior do homem, essa, a do mal, Há o que lhe é inevitável, mas não lhe basta. Cataclismos, traições do irmão corpo. Não chega. E a própria morte, que é a sua fatalidade, ele não a desperdiça e aproveita-a para ir matando mais cedo. Como a um animal do seu sustento. O homem. Que enormidade. 

Vergílio Ferreira, in 'Pensar' , 1992  (Citador)

o inigualável Mark Rothko


25.11.14

A Obrigação da Verdade

Quando olhamos um espelho, pensamos que a imagem à nossa frente é exacta. Mas basta movermo-nos um milímetro para a imagem se alterar. Aquilo que estamos realmente a ver é uma gama infindável de reflexos. Mas às vezes o escritor tem de quebrar o espelho — porque é do outro lado do espelho que a verdade nos encara. 
Estou convencido de que, apesar dos enormes obstáculos existentes, há uma obrigação crucial que recai sobre todos nós enquanto cidadãos: de com uma determinação intelectual inflexível, inabalável e feroz definir a verdade autêntica das nossas vidas e das nossas sociedades. É de facto uma obrigação imperativa. 
Se essa determinação não se incorporar na nossa visão política, não tenhamos esperança de restaurar aquilo que já quase se perdeu para nós — a dignidade do homem. 

Harold Pinter, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

23.11.14

Sagres, foi aqui que tudo isto começou

Precisamos de Claridade e Silêncio.
Voltar ao círculo do Sol na Terra.



Photo: Jo Tyrrell

22.11.14

Já?


já tentaste praticar o bem 
fazendo mal? 
já tentaste praticar o mal 
fazendo bem? 
já tentaste praticar o bem 
fazendo bem? 
já tentaste praticar o mal 
fazendo mal? 
já tentaste praticar o bem 
não fazendo nada? 
já tentaste praticar o mal 
fazendo tudo? 
já tentaste praticar tudo 
não fazendo nada? 
e o contrário, já tentaste? 
já? 
seja qual for a tua resposta, 
não sei que te diga. 

Alberto Pimenta, in 'Prodigioso Acanto'

19.11.14

VISTA




 fotografia chinesa contemporânea

4.11.14

Milagres


Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial? 
Por mim, de nada sei que não sejam milagres: 
ou ande eu pelas ruas de Manhattan, 
ou erga a vista sobre os telhados 
na direcção do céu, 
ou pise com os pés descalços 
bem na franja das águas pela praia, 
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo, 
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem amo, 
ou à mesa tome assento para jantar com os outros, 
ou olhe os desconhecidos na carruagem 
de frente para mim, 
ou siga as abelhas atarefadas 
junto à colmeia antes do meio-dia de verão 
ou animais pastando na campina 
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar, 
ou a maravilha de um pôr-de-sol 
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes, 
ou o estranho contorno delicado e leve 
da lua nova na primavera, 
essas e outras coisas, uma e todas 
— para mim são milagres, 
umas ligadas às outras 
ainda que cada uma bem distinta 
e no seu próprio lugar. 

Cada momento de luz ou de treva 
é para mim um milagre, 
milagre cada polegada cúbica de espaço, 
cada metro quadrado da superfície da terra 
por milagre se estende, cada pé 
do interior está apinhado de milagres. 

O mar é para mim um milagre sem fim: 
os peixes nadando, as pedras, 
o movimento das ondas, 
os navios que vão com homens dentro 
— existirão milagres mais estranhos? 


Walt Whitman in "Leaves of Grass"

2.11.14

waterfalls

by Hiroshi Senju

30.10.14

Bilhete de Identidade

Escreve
sou árabe
o  número do meu bilhete de identidade é o
                  cinquenta mil
tenho oito filhos
e o nono chegará… depois do Verão
Ficarás irritado?

Escreve
sou árabe
trabalho com os meus companheiros de infortúnio
numa pedreira
tenho oito filhos
para eles extraio da rocha
a carcaça do pão
a roupa e os cadernos
E não venho mendigar à tua porta
não me curvo
no átrio da tua casa
Ficarás irritado?

Escreve
sou árabe
Tenho um nome vulgar
sofro num país
que ferve de raiva
As minhas raízes…
fixadas antes do nascimento do tempo
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e das oliveiras
antes da erva
O meu pai…
da família do arado
e não dos senhores de Nujub
O meu avô, um camponês
sem árvore genealógica
Ensinou-me os movimentos do sol
antes da leitura
A minha casa
uma cabana de guarda
feita de canos e ramos
Estás contente com a minha condição?
tenho um nome vulgar

Escreve
sou árabe
cabelos… pretos
olhos… castanhos
sinais particulares
na cabeça um ‘keffyah’ seguro por um cordel
A palma da minha mão, rugosa como a rocha
arranha a mão que aperta
o meu endereço: sou duma aldeia perdida, sem defesa
e todos os seus homens estão no campo e na
                              pedreira…
Ficarás irritado?

Então
escreve
ao alto da primeira página
Eu não odeio os meus semelhantes
e não ataco ninguém
Mas… se um dia me obrigarem a passar fome
comerei a carne do meu espoliador
Fica atento… fica atento
à minha fome
e à minha cólera


 Mahmoud Darwish (1941 – 2008) 

29.10.14

há saudade no vento


Symi (Thrown Drapery), 1979 | David Ligare

28.10.14

A vida verdadeira é como a água

A vida verdadeira é como a água:
Em silêncio se adapta ao nível inferior
Que os homens desprezam.
Não se opõe a nada,
Serve a tudo.
Não exige nada,
Porque sua origem é da fonte imortal.
O homem realizado não tem desejos de dentro,
Nem tem exigências de fora.
Ele é prestativo em se dar
E sincero em falar,
Suave no conduzir,
Poderoso no agir.
Age com serenidade.
Por isto é incontaminável.


Lao - Tsé

27.10.14

The Souls of Millions of Light Years Away

         Yayoi Kusama "Infinity Mirrored Room - The Souls of Millions of Light Years Away" 2013. Photo: Maris Hutchinson

Se perguntarem: das artes do mundo?


Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder

17.10.14

A Invisibilidade de Deus


dizem que em sua boca se realiza a flor 
outros afirmam: 
                   a sua invisibilidade é aparente 
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe 
onde podemos compreender todos os oceanos 
nunca tive a visão de sua bondosa mão 

o certo 
é que por vezes morremos magros até ao osso 
sem amparo e sem deus 
apenas um rosto muito belo surge etéreo 
na vasta insónia que nos isolou do mundo 
e sorri 
dizendo que nos amou algumas vezes 
mas não é o rosto de deus 
nem o teu nem aquele outro 
que durante anos permaneceu ausente 
e o tempo revelou não ser o meu 

Al Berto, in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro'

15.10.14

Alexander Gutsche, Monarchie und Alltag (Monarchy and Everyday Life), 2012

O Poder

O único factor material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Estes só retêm poder quando vivem tão próximos uns dos outros que as potencialidades da acção estão sempre presentes; e, portanto, a fundação de cidades que, como as cidades-estado, se converteram em paradigmas para toda a organização política ocidental, foi na verdade a condição prévia material mais importante do poder. 

O que mantém unidas as pessoas depois de ter passado o momento fugaz da acção (aquilo que hoje chamamos «organização») e o que elas, por sua vez, mantêm vivo ao permanecerem unidas é o poder. Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência renuncia ao poder e torna-se impotente, por maior que seja a sua força e por mais válidas que sejam as suas razões. 

Hannah Arendt in A Condição Humana

12.10.14

A Loucura é uma Destilação Decisiva

Nestes séculos, o escritor tem mantido uma conversa com a loucura. Podemos quase dizer que o escritor do século vinte aspira à loucura. Alguns conseguiram-no, evidentemente, e ocupam lugares especiais na nossa consideração. Para um escritor, a loucura é uma destilação decisiva do eu, uma edição decisiva. É o submergir das vozes enganadoras. 

Don DeLillo in Os Nomes

La butaca

 ANTONI TÀPIES. La butaca, 1987

Ah! Desgraçados!


Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: "a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando".
Mas que cidade?
Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguem se levante.
Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça.


Bertolt Brecht (1898–1956)

4.10.14

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho... ) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, 
Pondo grelado nas paredes... 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa, 
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ... 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... 

Pára, meu coração! 
Não penses! Deixa o pensar na cabeça! 
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! 
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

3.10.14

La Grande Bellezza

Rosa do Mundo

Rosa. Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.

Primeiro orvalho sobre o rosto.
que foi pétala
a pétala lenço de soluços.

Obscena rosa. Repartida
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.

Quase nada.


Eugénio de Andrade

20.9.14

NÃO QUEREMOS SER INIMIGOS


O site de notícias “Ynet” deu conta, no início deste mês, da mensagem simples que centenas de israelitas  e palestinianos usaram para protestar contra o conflito israelo-palestiniano. O slogan utilizado está já a tornar-se num ícone: “Judeus e Árabes recusam-se a ser inimigos”. 


Este slogan tem vindo a ser aproveitado como mote para uma campanha de mobilização global contra a morte de civis no conflito que opõe Israel à Palestina. 


Pessoas por todo o mundo estão a partilhar fotos delas próprias com mensagens escritas a favor do fim da violência e pelo apoio a toda a população civil que sofre com estes ataques. 


Usam o hashtag #JewsAndArabsRefuseToBeEnemies no Twitter, ou a página de facebook Jews and Arabs Refuse To Be Friends. Esta página de facebook foi fundada por um israelita, Abraham Gutman e uma síria, Dania Darwish. 


Numa entrevista ao The Huffington Post, Gutman afirmou: “No último mês foi difícil abrir estas contas nas redes sociais, porque os nossos posts estavam cheios de comentários de ódio. Queríamos criar uma comunidade de pessoas que se opõe a este tipo de discurso. Afinal de contas, somos todos apenas pessoas.” 



na CHIADO MAGAZINE

4.9.14

CLARIDADE

pintura de W. Turner


"Quem acende uma luz é o primeiro a beneficiar-se da claridade."


 Gilbert  Chesterton 

3.9.14

A Rye Field


A Rye Field, pintura de Ivan Shishkin 

Vida


"A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida."

Fernando Pessoa

29.8.14

Os dias bons

William Faulkner

Dias de Verão

Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

Como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo


Sophia de Mello Breyner